terça-feira, 17 de setembro de 2013

Passado/ presente no pensamento selvagem

O pensamento selvagem, no que se refere a mitos e rituais, estabelece uma relação peculiar entre passado e presente: “A história mìtica tem o paradoxo de ser ao mesmo tempo disjuntiva e conjuntiva, em relação ao presente... Graças ao ritual, o passado “disjunto” do mito articula-se, por um lado, com a periodicidade biológica e sazonal, e por outro, com o passado “conjunto” que, ao longo das gerações, une os mortos e os vivos”.

A propósito de algumas tribos australianas distinguem-se os ritos histórico-comemorativos que refletem, como num espelho, os protagonistas e os seus altos feitos e que transferem o passado para o presente” e os ritos de luto, que correspondem “a um procedimento inverso: em lugar de confiarem a homens vivos o
encargo de personificarem longínquos antepassados, estes ritos asseguram a reconversão em antepassados de homens que acabaram de morrer”.

Nos Nuer, o tempo é medido por classes de idade; um primeiro tipo de passado refere-se aos pequenos grupos e dilui-se rapidamente “em remotos tempos num outrora longìnquo”; um segundo tipo de passado constitui o “tempo histórico sequência de acontecimentos significantes para uma tribo” (inundações, epidemias, fomes, guerras) mas que se limita, sem dúvida, a uma cinquentena de anos vem depois um “plano das tradições e além “estende-se o horizonte do mito puro”, onde se confundem “o mundo, os povos, as civilizações que existiram todas ao mesmo tempo no mesmo passado imemoriável. Para os Nuer, a história válida termina um século atrás e as tradições conduzem-nos até dez ou doze gerações na estrutura da linhagem.

Nos Azande “presente e futuro sobrepõem-se de tal modo que o presente participa, por assim dizer, do futuro”. Os seus oráculos, muito praticados, contêm já o futuro. Lévi-Strauss julga poder identificá-lo nos Aranda da Austrália Central, através dos churinga, “objetos em pedra ou madeira, de forma aproximadamente oval, com extremidades pontiagudas ou arredondadas, frequentemente semeadas de signos simbólicos...”. Os churinga são os testemunhos palpáveis do período mítico.

Em certos povos da Costa do Marfim a consciência de uma passado histórico já se encontra desenvolvida lado a lado com uma multiplicidade de tempos diversos. OS Guéré têm cinco categorias temporais: 1) o tempo mítico, do antepassado mítico; 2) o tempo histórico, espécie de canção de gesta do clã; 3) o tempo genealógico, que pode abranger mais de dez gerações; 4) o tempo vivido, que se subdivide em tempo antigo, tempo da colonização e tempo da independência; 5) o tempo projetado da imaginação do futuro.
Eric Hobsbawm levando o problema da “função social do passado”, entendendo por passado o período anterior aos acontecimentos de que um indivíduo se lembra diretamente.
A maior parte das sociedades considera o passado como modelo do presente. Nesta devoção pelo passado há fendas das quais se insinuam a inovação e a mudança.
Se a ligação ao passado pode admitir novidades e transformações, na maior parte dos casos o sentido da evolução é apercebido como decadência ou declínio.
Muitos movimentos revolucionários tiveram como palavra de ordem e objetivo o regresso ao passado, por exemplo, a tentativa de Zapata de restaurar, no México, a sociedade camponesa de Morelos, no estado em que se encontrava quarenta anos antes, riscando a época de Porfírio Díaz. Não podemos deixar de referir as restaurações simbólicas, como a reconstrução da velha cidade de Varsóvia, tal como
se encontrava antes das destruições da Segunda Guerra Mundial: o nome 'Gana' transfere a história de uma parte da África para outra, geograficamente afastada e historicamente diferente. O movimento sionista não deu origem à restauração da antiga Palestina judaica, mas a um estado completamente novo: Israel. O passado só é rejeitado quando a inovação é considerada inevitável e socialmente desejável. Quando e como as palavras 'novo' e 'revolucionário' se tornaram sinônimos de 'melhor' e 'mais desejável'? Dois problemas específicos são os que se referem ao passado, como genealogia e cronologia. Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. Os costumes e o gosto artístico do passado são muitas vezes adotados pelos revolucionários. A cronologia mantém-se essencial para o sentido moderno, histórico, do passado pois que a história é uma mudança orientada. Nadamos no passado como peixes na água e não podemos escapar-lhe. François Châtelet, ao estudar o nascimento da história na Grécia antiga, definiu previamente os traços caracterìsticos do “espìrito histórico” como categorias idênticas e simultaneamente diferenciadas:

a) “O espìrito histórico acredita na realidade do passado e considera que o passado, tal como é, e até certo ponto, no seu conteúdo, não é, por natureza, diferente do presente.

b) O passado e o presente são não só diferenciados, como por vezes se opõem: “Se o passado e o presente pertencem à esfera do mesmo, estão também na esfera da altericidade.

 A ideia de que já nada de novo sob o sol ou mesmo de que há lições do passado, só tem sentido para uma mentalidade não-histórica”.

c) Finalmente, a história, ciência do passado, deve recorrer a métodos científicos de estudo do passado.

“É indispensável que o passado, considerando como real e decisivo, seja estudado seriamente: na medida em que os tempos passados são considerados dignos de atenção e lhes é atribuída uma estrutura, em que lhes são dados traços atuais.

“A preocupação de precisão, no estudo do que outrora aconteceu, só no princìpio do século passado aparece claramente” com “o impulso decisivo dado por L. Von Ranke”, professor da Universidade de Berlim entre 1825 e 1871.

PASSADO/ PRESENTE

 A distinção entre passado e presente é um elemento essencial da concepção do tempo. Ela é reveladora, para os Franceses, do lugar desempenhado pela Revolução Francesa na consciência nacional, pois na França a História Contemporânea começa oficialmente em 1789.

Reencontramos cortes ideológicos deste tipo na maior parte dos povos e das nações. A Itália, por exemplo, conheceu dois pontos de partida do presente que constituem um elemento importante da consciência histórica dos italianos de hoje: o Renascimento e a queda do fascismo. Mas esta definição do presente defronta-se com o peso de um passado muito mais complexo. Gramsci escreveu: “Na Itália, a tradição da universalidade das forças nacionais (burguesas), para além do domínio puramente econômico-municipal, isto é, as “forças” nacionais só se tornam uma “força” nacional depois da Revolução Francesa e da nova posição que o papado ocupa na Europa”. A observação de Gramsci permite avaliar em que medida

a relação com o passado, a que Hegel chamava o “fardo da história” mais pesado para uns povos, que para outros. Mas a ausência de um passado conhecido e reconhecido pode ser fonte de grandes problemas de mentalidade ou identidade coletivas: é o caso das jovens nações, por vezes opostos, dos vários tipos de população pré-americana a exaltação dos acontecimentos relativamente recentes estão sempre presentes enquanto mitos.

Os hábitos de periodização histórica levam, assim, a privilegiar as revoluções, as guerras, as mudanças de regime político, isto é, a história dos acontecimentos.
A realidade da percepção e divisão do tempo em função de um antes e um depois não se limita à oposição presente/ passado: devemos acrescentar-lhe uma terceira dimensão, o futuro. Santo Agostinho exprimiu o sistema das três visões temporais: “o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras” [Confessions, XI, 20-26].

1. A oposição passado/ presente em psicologia

Seria errado transpor os dados da psicologia individual para o campo da psicologia coletiva e, mais ainda, comparar aquisição do domínio do tempo pela criança com a evolução dos conceitos de tempo através da história.

Para a criança, “compreender o tempo é essencialmente dar provas de reversibilidade” pressupõe a educação. A grande diferença é que a criança forma em grande parte a sua memória pessoal, enquanto que a memória social histórica recebe os seus dados da tradição e do ensino, aproximando-se porém do passado coletivo.
A polarização no presente, típica da criança muito pequena do débil mental, do maníaco, do ex-deportado, encontra-se em geral nos velhos e nos indivíduos que sofrem da mania de perseguição e temem o futuro. O exemplo mais clássico é o de Rousseau, ao recordar nas Confessions que a sua imaginação exaltada, que só lhe fazia prever cruéis futuros, o levava a refugiar-se no presente.

Em outros doentes, a angústia face ao tempo assume a forma de uma fuga para o futuro, ou de um refúgio no passado. O caso de Marcel Proust é exemplar na literatura.

2. Passado/ presente à luz da lingüística

O estudo das línguas oferece-nos outro testemunho cujo valor reside nelas desempenhar um papel importante e está estritamente ligada à tomada de consciência da identidade nacional no passado. Segundo Michelet, a história da França “começa com a lìngua francesa”.
A distinção passado/ presente (futuro), embora pareça natural, não é, é estranho a certas línguas: o hebreu nem sequer conhece o que existe entre passado, presente e futuro. O protogermânico não têm forma própria para o futuro. As línguas eslavas distinguem regularmente dois aspectos do verbo: o perfeito e o imperfeito.
Joseph Vendryès faz notar que “é tendência geral da linguagem empregar o presente com a função de futuro. O passado pode também ser expresso pelo presente. Inversamente, o passado pode servir para exprimir o presente. Em francês, o condicional passado pode ser usado com sentido de futuro. A distinção passado/ presente (futuro) é maleável e está sujeita a múltiplas manipulações.

O tempo da narração constitui um local de observação interessante. Harald Weinrich utilizando um estudo sobre textos da Idade Média. O passado não é só passado, é também portador de valores religiosos, morais, civis, etc. É o passado fabuloso do conto “Era uma vez...” ou “Naquele tempo...”.

André Miguel ao estudar a expressão do tempo num conto de As mil e uma noites, verifica que um tempo árabe, o mundi, tempo da concomitância do hábito, que exprime o presente ou o imperfeito.
Este conto tem como função contar aos árabes desapossados uma história de árabes triunfantes, e apresentar-lhes um passado como garantia de eternidade.

A gramática histórica pode também evidenciar a evolução do emprego dos tempos do verbo e das expressões lingüísticas temporais. Paul Imbs sublinha a linguagem, ao longo da Idade Média, torna-se cada vez mais clara a relação passado/ presente, variáveis com as classes sociais; o tempo dos filósofos, teólogos, o tempo do cavaleiro, o do camponês e o tempo dos burgueses.

Émile Benveniste estabeleceu uma importante distinção entre: a) tempo físico, “contìnuo, uniforme, infinito, linear; b) tempo cronológico ou “tempo do calendário”; c) tempo lingüístico que “tem o próprio centro no presente da instância da palavra;



A História de Hoje

Uma das suas mais antigas manifestações foi o desenvolvimento da história econômica e social e o do grande historiador belga Henri Pirenne, teórico da origem econômica das cidades na Europa Medieval.
Ruggiero Romano da Storiografia italiana oggi [1978], indicou um grupo de países em que a participação da história e dos historiadores na vida social e política, e não na vida cultural, é muito viva: a Itália, a França, a Espanha, os países sul-americanos, a Polônia, não se verificando este fenômeno nos países anglo-saxônicos, russos e germânicos.

O trabalho histórico e a reflexão sobre a historia desenvolvem-se hoje num clima de crítica e desencanto perante a ideologia do progresso e, mais recentemente, de repúdio pelo marxismo, pelo menos do marxismo vulgarizado. Toda uma produção sem valor científico perdeu completamente o crédito.

Com o marxismo, se excetuarmos Max Weber, foi o único pensamento coerente no século XX, é importante ver o que se produziu à luz da desafeição pela teoria marxista e a renovação das práticas históricas no Ocidente, não contra o marxismo mas fora dele, embora se concorde com Michel Foucault que alguns problemas capitais para o historiador ainda não podem ser postos, senão a partir do marxismo.

Uma interessante série de textos publicados há alguns anos por alguns historiadores marxistas italianos [Cecchi, 1974], mostrou a vitalidade e a evolução desta procura. Uma obra como Lê féodalisme, um horizon théorique de Alain Guerreau [1980] manifesta a existência de um pensamento marxista, forte e novo.


Já considerei alguns historiadores do passado como antepassados da história nova, pelo seu gosto pela investigação das causas, a sua curiosidade pelas civilizações, o seu interesse pelo material, o cotidiano, a psicologia. De La Popelinière, no fim do século XVI, a Michelet, passando por Fénelon, Montesquieu, Voltaire, Chateaubriand e Guizot encontra-se uma impressionante linhagem de diversidade. Huizinga (morto em 1945) cuja obra-prima O Outono da Idade Média [1919] fez entrar na história a sensibilidade e a psicologia coletiva.

Considera-se a fundação da revista “Annales” (“Annales d‟histoire économique et sociale” em 1929, “Annales. Économies, Sociétés, Civilisations” em 1945), obra de Marc Bloch e Lucien Febvre, como o ato que fez nascer a nova história. As ideias da revista inspiraram a fundação, em 1947, por Lucien Febvre de uma instituição de investigação e de ensino de investigação em ciências humanas e sociais. Em 1975, transformado na École dês Hautes em Sciences Sociales, este estabelecimento, em que a história tinha um lugar importante, ao lado da economia, sociologia, antropologia, psicologia, lingüística e semiologia, assegurou a difusão, na França e no estrangeiro, das ideias que tinham estado na origem dos “Annales”.

Fernand Braudel (n. 1902), autor de uma tese revolucionária sobre La Méditerranée et lê monde méditerranéen à l‟époque de Philippe II [1966], publicou nos “Annales” o artigo sobre a “longa duração” [1958], que viria a inspirar uma parte importante da investigação histórica subsequente.

Um pouco por toda a parte, nos anos 70, colóquios e obras, na sua maioria coletivas, fizeram o balanço das novas orientações da história. Um trabalho conjunto [Le Goff e Nora, 1974] apresentou, com o título Faire de l‟histoire, os “novos problemas”, as “novas abordagens” e os “novos objetivos” da história.

 Entre os primeiros, o quantitativo em história, a história conceitualizante, a história antes da escrita, a história dos povos sem história, a aculturação, a história ideológica, a história marxista, a nova história événementielle.

Os segundos referem-se à economia, demografia, antropologia religiosa, os novos métodos da história da literatura, da arte, da ciência e da política. A escolha de novos objetos tinha-se fixado no clima, o inconsciente, o mito, a mentalidade, a língua, o livro, os jovens, o corpo, a cozinha, a opinião pública, o filme, a festa.

Quatro anos mais tarde, em 1978, um dicionário da La nouvelle histoire [Lê Goff, Chartier e Revel, 1978], destacando também alguns temas: antropologia histórica, cultura material, imaginário, história imediata, longa duração, marginais, mentalidades, estruturas.

O diálogo da história com as outras ciências prosseguia, aprofundava-se, concentrava-se e alargava-se simultaneamente: história e economia, história e sociologia, entre a história e a antropologia. Um historiador como Carr escreve [1961]: “Quanto mais a história se torna sociológica e a sociologia, histórica, melhor será para ambas”; e um antropólogo como Marc Auté afirma: “O objeto da antropologia não é reconstituir sociedades desaparecidas, mas pôr em evidência lógicas sociais e históricas” [1979, p.170].

Neste encontro entre história e antropologia, o historiador privilegiou alguns domínios e problemas. Por exemplo, o do homem selvagem e do homem cotidiano, as relações entre cultura erudita e cultura popular e a história oral. O livrinho de Jean-Claude Bouvier e uma equipe de antropólogos, historiadores e linguistas: valoriza as relações entre oralidade e discurso sobre o passado, define os etnotextos, assim como um método para os recolher e utilizar; e as relações de Dominique Aron-Schnapper e Daniele Hanet sobre a constituição de arquivos orais na história da segurança social.

Destas experiências, destes contatos, destas conquistas, alguns historiadores – em cujo número me incluo – desejavam que se constituísse uma nova disciplina histórica, estritamente ligada à antropologia: a antropologia histórica.