terça-feira, 27 de agosto de 2013

Síria apresenta provas sobre uso de armas químicos por mercenários



Damasco- O governo da Síria continua apresentando provas sobre o uso de armamento químico por grupos da chamada oposição armada, enquanto busca desmantelar a campanha mediática em seu contrário que pretende inclusive desatar uma invasão militar.
Ao aplanar ontem um depósito pertencente a mercenários em Jobar, localidade da periferia de Damasco, o Exército Árabe Sírio achou vários barris de agentes tóxicos com a inscrição Feito na Arábia Saudita, além de máscaras antigases e pastilhas para neutralizar os efeitos pela exposição aos ditos químicos, segundo mostrou a televisão nacional.

Durante o operativo, soldados sírios sofreram problemas respiratórios, ardor e coceira na garganta e os olhos, além de apresentar pupilas dilatadas, pulso débil, contrações musculares, pois os extremistas aspergiram vários gases para evitar que ocupassem o lugar, assinalou a rede de televisão.

De acordo com fontes médicas tais sintomas aparecem quando se inalam substâncias químicas ou gás sarim.

Um servidor público do Ministério de Defesa confirmou a Prensa Latina, sob condição de anonimato, que o ataque com as substâncias letais custou a vida de um coronel enquanto 50 soldados permanecem ingressados, alguns em estado grave.

Um comandante na localidade de Jobar detalhou que como parte da intensa ofensiva que ali tem lugar se encontrou um refúgio com artefatos explosivos de até 300 quilos bem como matérias primas para bombas, além de granadas, projéteis de RPG e de morteiro e comandos para detonar os explosivos a distância.

O chefe militar explicou que o uso de substâncias químicas por parte dos terroristas reflete seu desespero ante os sustentados avanços das Forças Armadas, ao mesmo tempo em que assegurou que nos próximos dias Jobar será declarada livre de opositores armados.

O estamento castrense também avança para conseguir o controle de Ghouta Oriental, localidade da província Damasco onde a 21 de agosto foi lançado um suposto ataque químico do qual as forças opositoras culparam ao governo.

Damasco desmentiu as acusações e pelo contrário, responsabilizou os grupos opositores armados de executar o eventual fato para aplanar o caminho para uma eventual invasão contra o país. Tal incidente é qualificado por Rússia, Irã e vários especialistas militares como uma montagem para desviar a atenção da comissão da ONU que, convidada pelas autoridades, se encontra no país para pesquisar várias denúncias sobre o emprego de gases tóxicos.

Neste sábado chegou à capital síria Angela Kane, representante da ONU para Assuntos de Desarmamento que, enviada pelo secretário geral do organismo Ban Ki-moon, busca a autorização do governo para efetuar pesquisas sobre o mais recente incidente.

O governo sírio mostrou-se favorável à investigação; no entanto, a forte presença de irregulares no lugar desaconselha por ora a chegada da equipe, o que poderia significar um risco para suas vidas, explicam servidores públicos.

Meios de imprensa nacionais mostraram na sexta-feira e sábado em diferentes espaços vários depoimentos de mercenários e radicais islâmicos sobre a obtenção e uso de armamento químico em diferentes parte do país.

Não obstante, capitais ocidentais e do Oriente Médio insistem em culpar à administração do presidente Bashar al-Assad do alegado uso de armas químicas e chamam em alguns casos como represália, a iniciar bombardeios contra o país ou uma invasão com forças militares.

Fonte: prensa Latina

Ruanda e o Mito de Abel e Caim


Ruanda
A nordeste da curva do rio Congo estabeleceu-se um conjunto complexo de pequenos reinos interlacustres entre os quais Ruanda. Esse conjunto pode ser definido como tendo elementos históricos comuns, praticamente sem fronteiras políticas rígidas e sem fortes barreiras lingüísticas. Nesse complexo, mais especificamente em Ruanda.

A primeira obra clássica que exemplifica essas considerações é de Philip Gourevitch, Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias. A segunda é o brilhante A enxada e a lança: a África antes dos portugueses, de Alberto da Costa e Silva.

O mito de criação permaneceu recontado por sucessivas gerações apresentando a sociedade de Ruanda como natural quanto à forma como foi constituída. Em Ruanda contava-se que os tútsis tinham origem celeste, assim como o soberano e a monarquia eram sagrados, fazendo parte de tradições oficiais de conformidade com um código secreto do ritual real, cuja sacralidade seria voltada para o benefício do país. Dessa forma, os tútsis eram identificados como pertencentes a uma civilização superior. Já aos hutus e aos tuas cabia aceitar “espontânea e passivamente” sua condição servil, caso contrário, seriam vítimas de sanções divinas.

A literatura sobre Ruanda apresenta várias versões desse mito de origem, embora todas elas coincidam em que os tútsis eram descendentes de Caim e Abel.

No que se refere às relações entre as instâncias de governo e a maioria da população desses reinos, podem ser qualificadas como de dependência pessoa, envolvendo os grupos dominantes integrados pelos tútsis, a grande maioria da população constituída pelos hutus (cerca de três quartos) e um pequeno número de tuas. Estavam organizados nos moldes de sociedade de castas, nas quais a população de trabalhadores agrícolas ficava a serviço dos chefes políticos ou de clãs que tinham controle do gado. As diferenças eram traduzidas em desigualdades pelas quais os clãs eram hierarquizados e o soberano considerado uma divindade infalível e absoluta.

Quando em 1890 os alemães tornaram-se colonizadores de Ruanda, mantiveram todas as justificações míticas, sobretudo a que hierarquizava as três castas.

O período de colonização dos alemães, que durou até a Primeira Guerra Mundial, ficou marcado pela organização da força pública. As desigualdades não só foram mantidas como reforçadas, tanto é que a administração pública continuou a ter seus cargos preenchidos pelos tútsis. Ruanda foi até 1959, o reino interlacustre com maior grau de estratificação etnopolítica: os tútsis, pastores, somavam 14% da população e constituíam a elite dominante; os hutus, trabalhadores agrícolas, eram 85% e os tuas chegavam apenas a 1%.
Entre 1930 e 1932 foi posta em prática uma política de estabilização da mão-de-obra para combater a elevada porcentagem da população que havia migrado para Catanga, no Congo, uma vez que a densidade populacional de Ruanda era baixa, de apenas 6,8 habitantes por km2. A política de repatriação, porém, acabou acarretando uma série de tumultos, pelas más condições de trabalho e pelos baixos salários que dificultavam o pagamento dos imposto de capitação.

A estratificação social era mantida por um sistema monárquico absolutista com certa complexidade social própria da passagem de uma sociedade rural para uma sociedade urbana. Para isso contribuiu a criação de escolas seminaristas, em particular católicas, sendo redigido em março de 1957, por nove seminaristas o Manifeste des Bahutu, representando a primeira manifestação política dos hutus de Ruanda.

Depois de um ano, os tútsis reagiram com um manifesto dos “doze grandes feudais da Corte”. Escreveram os tútsis: “Podemos perguntar como podem os Bahutu reclamar o seu direito à partilha do patrimônio comum... As relações entre nós (Batutsi) e eles (Bahutu) foram em todos os tempos baseadas sobre a servidão; não há portanto entre eles e nós qualquer fundamento de fraternidade”.

A crise chegou a seu ponto máximo com a notícia da morte súbita do mwami Mutara III, o que só fez aumentar o sentimento antibelga dos tútsis reforçada pelos recentes acontecimentos pró-independência do Congo Belga. Os próprios tútsis designaram como sucessor Kigeri V, a 28 de julho, ainda durante o desenrolar da cerimônia fúnebre, excluíram a autoridade belga.

 Nessa conjuntura marcada por uma evidente crise política fundou-se o partido tútsi, o Union Nationale Rwandaise (Unar), a 15 de agosto de 1958. Foi fundado também o conhecido Parmehutu, isto é, o partido hutu, Parti du Mouvement de l´Émancipation Hutu, a 19 de outubro de 1959.

Desde os primeiros dias de novembro de 1959, a característica principal no centro de Ruanda foi a violência política entre os seguidores de ambos os partidos. Foi uma revolta espontânea dos hutus, bastante violenta e com o uso da força em situações públicas.

A 10 de novembro de 1959 Bruxelas resolveu anunciar a decisão de conceder a Ruanda a autonomia interna que tivesse inìcio por “eleições comunais”. Por um
decreto interino de 25 de dezembro de 1959 foram constituìdas “comunas provisórias”. Como consequência, os tútsis fugiram do norte de Ruanda e os Conselhos Interinos foram constituídos majoritariamente por hutus. A pequena elite cultural hutu não hesitou em apoiar a violência política. Assim, em junho, tútsis e hutus recomeçaram as escaramuças.

Na resolução da Assembleia Geral de 20 de dezembro de 1960 foi recomendado que as eleições legislativas fossem transferidas para o verão de 1961 e efetuadas sob seu controle. A partir daì haveria “ uma anistia geral e incondicional”.

As ações terroristas foram reiniciadas, dando ensejo a assassinatos em série, além de incêndios de casas, prisões e expulsão de várias famílias. Instaurou-se um clima de terror que condenou milhares de tútsis à fuga. Significa dizer que passou a haver “[...] a utilização recorrente e ritualizada da força física na definição das identidades pessoais e coletivas [...]”.

Em plena situação de caos social foram realizadas as eleições e, por significativa maioria de votos, adotada a República. Com a revolução precedendo a independência, em 21 de dezembro de 1961, a Bélgica concedeu autonomia interna a Ruanda e, em 28 de junho de 1962, a Assembleia Geral da ONU fixou para 1º de julho a supressão da tutela e a concessão da independência à República Democrática de Ruanda.

É sabido, no entanto, que os acontecimentos posteriores acabaram culminando com um dos mais violentos genocídios do século XX, estimando-se em 1.074.017 mortos, ou seja, um sétimo da população de Ruanda, sendo 93,7% de tútsis.

Esse apartheid etnoistórico, por vezes também considerado racial, condicionou as discriminações raciais, econômicas, sociais e políticas. Foi reforçado o processo de reinvenção das identidades por meio da mudança de critérios de exclusão pelas próprias autoridades belgas, com o apoio da Igreja Católica local e dos franceses, que passaram a apoiar os hutus contra os tútsis.

A NOVA ORDEM POLÍTICA E A QUESTÃO COLONIAL NA ÁFRICA


O período entre - guerras: algumas questões econômico-sociais
Não bastam as condições degradantes de vida para que se constitua um movimento social contestatório do colonialismo. É preciso identificá-las:
– a primeira é predominantemente cultural, voltada para a afirmação de identidades nacionalista como o pan-africanismo;
– a segunda é sobretudo política, contando com a criação de associações e partidos que articulam interesses e organizaram solidariedades no plano das relações internacionais, convergindo para a consecução da independência e da autodeterminação.
Os referidos movimentos resultaram de uma grande experiência histórica compartilhada por colonizadores e colonizados. É possível dizer que as duas guerras mundiais, sobretudo a segunda, acentuaram demandas opostas por parte dos europeus e dos africanos. Criou-se o paradoxo de equalizar colonos e africanos, ao mesmo tempo que para estes se adensou o sentimento das desigualdades, da violência e da exclusão vividas cotidianamente.
Examinando a história da África desde 1914 é difícil dizer o que chama mais a atenção, se as questões econômico-sociais ou as questões políticas. Alguns fatos históricos ajuda a explicitar:
– em parte, a Primeira Guerra Mundial ocorreu na África;
– as operações militares desenrolaram-se em varias partes do solo africano;
– os aliados invadiram o Togo, a Costa do Ouro, Camarões, a África equatorial francesa e o norte do Egito;
– contaram ainda com forças da África do Sul para invadir o Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia) e depois a África Oriental Alemã (atual Tanzânia).

A guerra acarretou um êxodo de europeus com funções administrativas e comerciais, obrigados a somar esforços na frente ocidental ou incorporar-se às unidades que estavam na África. Nas colônias francesas, todos os europeus foram convocados; na África Oriental Inglesa foram todos recenseados ficando à disposição dos esforços de guerra, o que levou à participação de africanos nos quadros das organizações administrativo-jurídicas.
Houve uma forte queda dos preços dos produtos básicos e um aumento, de cerca de 50%, dos preços dos produtos importados. O resultado foi, a organização de empresas especulativas em grande escala que passaram a exercer maior controle quanto ao cultivo dos produtos de exportação considerados estratégicos como a madeira, o algodão e o marfim.
Consequências:
– o agravamento da situação de pobreza para a massa de pequenos trabalhadores do campo que acabaram hipotecando suas terras e tornado-se rendeiros;
– o surgimento de pequenos proprietários de terras e empresários comerciais que aumentaram o ganho graças à miséria e ao endividamento da maioria.
Os países europeus intervieram na vida econômica dos territórios africanos de múltiplas formas, utilizando-se do exercício da autoridade e da subordinação.

A economia de plantations desenvolveu-se contando com dois terços dos investimentos europeus em áreas dominadas pela mineração como na Tanganica, no Quênia, na Rodésia e na totalidade da África ao sul do Congo Belga. O sucesso da exploração mineral trouxe consigo o aparecimento de uma “comunidade industrial e urbana” na África do Sul.

Na depressão dos anos 1929-33 se constata que mesmo aqueles que antes tiveram proveito do colonialismo e da dependência tiveram de enfrentar os baixos preços dos produtos do Terceiro Mundo. Colonialismo e dependência acabaram sendo refutados mesmo por aqueles que se beneficiavam com eles.
O descontentamento fez-se presente base dando base de massa para a mobilização política anticolonial
.
Com a queda dos preços dos produtos agrícolas o governo colonial aumentou os impostos sobre todos os bens manufaturados que acabou sendo incentivo para que as empresas ocidentais começarem a estabelecer algumas instalações para a produção no próprio continente africano que integrou o mundo colonial na “economia do mundo”.

Com todas as dificuldades, a economia apresentava significativas mudanças. Foram feitas as primeiras reformas que iriam dar ensejo à constituição dos primeiros sindicatos e partidos políticos que, em particular nas Áfricas central e setentrional, provocaram as primeiras greves trabalhistas de massa após 1935, começando no cinturão do cobre centro-africano. De 1935 a 1940 foram inúmeras as greves em todo o continente africano, ainda que poucas vezes de sentido anticolonial.