domingo, 18 de agosto de 2013

independência Tanzânia

Tanzânia
Para compreender as lutas de independência da Tanganica tem de ser considerado um conjunto de características:
– a primeira: diz respeito a um espaço geopolítico caracterizado pela plurietnicidade, contando com cerca de 120 grupos lingüísticos, ao lado de minorias indianas e europeias que possuíam por volta de 90% da propriedade urbana;
– a segunda: Tanganica ter sido, desde a Conferência de Berlim até 1914, colônia alemã quando passou para a tutela britânica. Essa mudança encerrava também um projeto britânico de formação de um espaço organizado composto por três unidades: Tanganica, Quênia e Uganda;
– a terceira: abrangia alterações administrativo-jurídicas internas ao território, incidindo mais nas áreas rurais do que nas cidades onde predominavam indianos e europeus.

 Nos campos, onde as populações africanas eram mais sensíveis às mudanças, suas indignações transformaram-se em “siasa”, isto é, em oposição, em reivindicação e em protestos sociais de forte cariz religioso de elites políticas que em geral lideraram manifestações contestatórias e foram imprescindíveis para mobilizar e organizar as massas, tornando-as a base social de apoio do movimento de independência.

Os descontentamentos manifestavam-se em movimentos de acentuada religiosidade das lutas por liberdades na Tanganica desde a época de dominação alemã.

 O exemplo clássico foi a Revolta Maji Maji que, em 1905, foi capaz de unir grupos étnicos historicamente diversos.

É da maior importância destacar que os movimentos proféticos participaram de um duplo processo de construção de identidades. Referido aos valores e às tradições religiosas e ligado às motivações para mudanças sociais.

Foram manifestações de protesto como atestam os movimentos dos akambas e abagussis contra a utilização da força física no confisco de terras; na cobrança de impostos, sobretudo o da “palhota”, no recrutamento de mão-de-obra para formas de trabalho compulsório; e na indignação acarretada pela troca dos chefes proféticos tradicionais por outros. Os movimentos sucederam-se uns aos outros.

 Foi o caso do mumboísmo com o apogeu no século XIX e transformado em movimento político de resistência ao homem branco, na segunda metade do século XX, articulando com nitidez religião tradicional e contestação política.

Foram registrados movimentos milenaristas que se formaram entre 1910 e 1922, com o culto kathambi, desenvolvido entre os machakos.

No que se refere às práticas políticas, já 1956, os canais de participação para os povos africanos ainda se restringiam às relações tradicionais de poder. O Conselho Legislativo da Tanganica não contava com nenhum membro eleito e no Conselho Executivo inexistiam africanos. Ao mesmo tempo que a crise se expandia. Com resposta, em 1957, foi instituído o sufrágio universal acompanhado por uma lei que previa uma representação igualitária entre os europeus, os africanos e os hindus.
 No ano seguinte, realizaram-se eleições, dando ensejo a que a personalidade de Julius Neyerere ganhasse um significativo relevo.

De forma gradual, no decorrer de 1960, foi tomando forma o governo independente, contando com a ocupação de africanos na maioria dos lugares do Conselho Legislativo eleito. Os africanos ocuparam 71 lugares, dos 70 eram do Tanu, os asiáticos 11 e os europeus 10. Quanto a Neyerere, passou a ocupar o cargo de ministro-chefe do governo com maioria africana. Poucos anos depois, em 1964, a ilha de Zanzibar, pondo fim a uma longa dominação árabe, uniu-se à Tanganica que passou a chamar-se Tanzânia, tendo Julius Nyerere como presidente.

A Independência da Somália e o sentimento de Um Povo

A Somália foi uma das poucas exceções do continente africano, o que significa dizer que contou com um claro sentimento de “nacionalidade” acentuado por uma cultura nacional quase uniforme, com o reforço de uma fortíssima adesão ao Islã. Entre as duas grandes guerras esse sentimento de identidade nacional foi básico na luta contra os imperialismos britânico, italiano e francês.

Não é difícil avaliar o impacto do sistema colonial, por exemplo, a imposição de chefes designados, ao akils, no protetorado britânico. Esses elementos, mais o fato de os estrangeiros serem cristãos, de “raça branca”, levaram os somalis a buscar romper com a realidade instituída.

Os protestos não tardaram a eclodir, em particular entre 1919 e 1935. Em 1958, foi organizada uma comissão que discutiu a falta de efetividade dos textos constitucionais relativos aos Conselhos Legislativos e Executivos no que se referem à participação dos somalis.

A Liga Nacional Somali (LNS) denunciou a desigualdade que impregnava a proposta política da Grã-Bretanha. Composto por maioria de europeus.
Para bloquear uma provável escalada de manifestações violentas o governo britânico tenha proposto outro texto que previa um Conselho Legislativo de 33 eleitos e 3 designados. Esse fato deu ensejo para que a LNS se aliasse ao Partido Somali Unificado formando uma frente que participou das eleições de 1960, conquistando vinte lugares, sendo doze do Partido Somali Unificado e oito da LNS.

Em 1º de julho de 1960 a Somália britânica alcançou, por fim suas independências. Essa independência ocorreu cinco dias antes da independência da Somália italiana que foi conduzida a partir de um “plano de descolonização” que visava ao preparo de elites políticas e quadros administrativos para um autogoverno.
A Somália francesa, ou Djibuti, cujo líder Mahmud Harbi, por ter optado pela recusa de integrar a comunidade no referendo de 1958, foi significativamente derrotado, tendo de se refugiar no Cairo. As eleições que se seguiram fossem favoráveis à administração francesa, que se pronunciou, em 1967, por conservar Djibuti com o estatuto de território do ultramar.

Não havia como ignorar que Djibuti ao longo dos séculos tinha se tornado um território árido, calcinado pelo sol. Os subsídios franceses, como investimentos, empregos, melhores salários e maiores oportunidades de consumo, eram considerados imprescindíveis para a sobrevivência do território. Não é possível desconhecer os interesses da França por este território como base estratégica militar e econômica, muito mais valorizada depois da reabertura do Canal de Suez.

Reunindo as três partes da Somália, implementou um “socialismo cientìfico” apresentado como idêntico ao ideal islâmico baseada nas nacionalizações; na constituição de comunidades de trabalho em base autogestionária ; na luta contra o “tribalismo” e as estruturas “feudais” e em novos Códigos de Trabalho e Civil. Em 1975, foi proclamada a igualdade de direitos para as mulheres e posto em prática um amplo projeto de alfabetização de massa. Entretanto, a Somália francesa continuou a lutar pela independência, o que ocorreu em 27 de junho de 1977. O país passou a se chamar Djibuti.

Serra Leoa Descolonizada

Fica na região do delta do rio Níger e era rica fornecedora de azeite de dendê. Ao chegarem, em 1787, atendendo aos interesses da Sierra Leona Company, os ingleses trataram de obter dos chefes locais algumas milhas ao longo da península de Serra Leoa durante a primeira metade do XIX. Eles ficavam em assentamentos especiais instalados pelos britânicos, ao longo de uma pequena faixa litorânea e formação de uma “burguesia” de caracterìsticas ocidentais.

Formou-se uma população que dependia dos hortelãos, carregadores, comerciantes intermediários e banqueiros que criou laços de fidelidade com os estrangeiros em detrimento de sua ligação com as autoridades tradicionais.

Passado algum tempo, grupos de recapturados foram se deslocando para o interior em busca de suas comunidades lingüísticas e culturais de origem. O exemplo mais conhecido é o dos iorubas que acabaram por se fixar em Lagos Também havia o dos hauçãs, fugidos dos emirados fulanis, que formaram um grupo de reserva de recrutamento, tanto para a polícia como para as tropas das guarnições das colônias britânicas ao longo da costa entre Cerra Leoa e Camarões.

Em 1807, a Sierra Leona Co. acabou dando origem à colônia britânica de Freetown, na bordadura do Atlântico, com cerca de 120 mil crioulos mestiços que, por serem instruídos, segundo os parâmetros escolares ocidentais, formavam os “quadros” de Serra Leoa.

 O interior do território era ocupado pelos temnes e pelos mendes, povos naturais dessa região que somavam quinze vezes a população da colônia.
Colônia e protetorado tinham uma característica comum, a prevalência da pobreza da grande maioria do conjunto da população. Essa situação não se alterou, mesmo a partir de 1930, quando se iniciou a exploração de ferro diamantes por grandes companhias, pois os africanos participaram apenas como mão-de-obra barata.

Nessas características relacionadas, há dois aspectos politicamente fundamentais:
– 1º- o caráter de ligação entre a colônia e o protetorado por antagonismo que geraram problemas de integração nacional;
– 2º- um processo de instabilidade política decorrente de rivalidades internas, em particular entre as elites da colônia e as massas rurais do protetorado.

O governo britânico procurou entender aos chamados políticos à unificação de forma pacífica e, em 1943, o governo inglês decidiu associar as populações da colônia e do protetorado, o que implicava corrigir alguns abusos e injustiças internas. Foi quando pôs em curso a “africanização” dos postos de direção, aumentando o número dos naturais de Serra Leoa no Conselho Executivo.

O governo britânico acentuou os mecanismos políticos necessários e, em 1947, o governo Sir Stevenson preparou uma Constituição liberal na qual reconhecia o Conselho Africano composto por maioria de africanos, com representação proporcional, ou seja, com catorze representantes do protetorado e sete da colônia, aumentando as divisões entre os representantes das duas regiões, uma vez que os crioulos da colônia discordaram desse critério de proporcionalidade. Representados pelo Partido Conselho Nacional de Serra Leoa, dirigido por Bancolé Bright, promoveram um boicote à Constituição.

O protetorado organizou uma contra-ofensiva.Liderados por Milton Margai, alguns crioulos nacionalistas fundaram, em 1950, o Partido do Povo de Serra Leoa (SLPP). Vencedores das eleições seguintes, em 1951, integrando todos os postos do Conselho Executivo. Em 1953, esses quadros tornaram-se ministros titulares de departamentos e, em 1954, Margai tornou-se “Ministro Principal”.

Consequência importante desse processo foi a abolição do protetorado. Seguiram-se eleições por sufrágio direto e com elas a ascensão de Milton Margai a primeiro-ministro em 1958. Em 1960, recebeu os poderes que o governo britânico ainda detinha.

Em 27 de abril de 1961, a independência de Serra Leoa foi confirmada segundo o “melhor processo para ficar”, tão a gosto da Grã-Bretanha.

Gâmbia no Processo da Descolonização

Os problemas na Gâmbia decorreram de outras linhas de condicionamento histórico-estrutural. Subsistia uma tensão contida entre a colônia e o protetorado:
– A colônia ocupava uma pequena faixa litorânea onde se concentrava uma coligação entre as elites proprietárias e comerciais ao lado de funcionários públicos e de uma pequena massa popular urbana. Era uma cidade cuja vida se desenvolvia em torno de Bathurst.

– O protetorado ficava mais no interior do continente, sendo a maior parte da população formada pelas massas de trabalhadores rurais.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial o protetorado, pouco a pouco, contando com a participação especial dos chefes tradicionais, assegurou uma representação superior à da colônia, nos Conselhos Legislativos.

A força do protetorado provinha do apoio substancial dos chefes tradicionais a David Jawara, permitindo-lhe fundar o Partido dos Povos do Protetorado e ser nomeado ministro principal, em 1960. À frente das principais forças políticas para negociar a independência com a Grã-Bretanha, teve uma participação decisiva e, em julho de 1961, foi fixada a data da independência para fevereiro de 1965. Sir Jawara, depois da proclamação da República, em abril de 1970, tornou-se chefe de Estado da Gâmbia, abrindo um caminho ligado aos interesses das elites, mas com medidas por meio das quais obtinha aprovação das massas urbanas e rurais. Dessa forma, na Gâmbia, o processo de independência foi obtido por meio de uma solução pacífica.

A Nigéria e a Guerra de Biafra

 É impornte e saber que a Nigéria foi e é ainda um mosaico de diversidades etnoistóricas, culturais que configura um território multinacional.

A Nigéria apresentava graves problemas da natureza etnoistórica, constituídos por elementos culturais e regionais, que facilmente se transformara em conflitos como o que culminou na guerra separatista de Biafra, em 1967.

Podemos observar  que certos tipos de sociedades agrárias na África dividem-se, como no caso da Nigéria, em regiões semi-autônomas:
– Ao norte, ficava o sultanato da Nigéria, estrutura pré-colonial de domínio dos hauçás, na sua maioria muçulmanos, integrantes de grande parte da elite militar.

– A sudoeste ficavam os ibos, predominantemente cristianizados, o que não implicava o abandono da região dos iorubas, povo com influências islâmicas que contava com uma coesão secular e inumeráveis realizações históricas. Nessa perspectiva, o colonizador atuou para abafar as diversidades que surgiram com grande força no fim do sistema colonial e foram reforçadas no pós-independência, o colonizador atuou para abafar as diversidades que ressurgiram com grande força no fim do sistema colonial e foram reforçadas no pós-independência.

Esse quadro não significa ignorar um nacionalismo unificador desencadeado pelos sindicatos que integram a federação sindical Trade Union Congress, além de sindicatos autônomos como o Nigerian Union of Teachers; pelos partidos políticos, como o National Council of Nigéria and Cameroons; e pela imprensa. Esta foi em grande parte constituída por uma cadeia de jornais lançada desde 1934 por Nnamdi Azikiwe, líder de uma luta incansável contra injustiças, em particular a discriminação e o racismo. Esses jornais destacou-se o Nigerian Youth Movement (NYM), de grande influência entre os jovens “destribalizados” nos grandes centros urbanos como Lagos, defendendo um ponto de vista “pan-africano e supratribal”, propondo um “caminho comunista” da modernização.

O significado político da franqueza dos elos regionais, derivada das diferenças, faz parte das páginas do livro The parth to Nigerian freedom, de Egbe Omo Oduduwa, publicado em Londres. Afirmava o lìder ioguba: “A Nigéria não é uma nação. É apenas uma expressão geográfica. Não há „nigerianos‟ é apenas uma designação que distingue os que vivem no interior das fronteiras da Nigéria dos que vivem no exterior”.Mas, em um Estado multinacional, multiétnico e multilinguístico, a fraqueza geral do elo entre os povos estava razoavelmente bem estabelecida, dificultando a aproximação entre os hauçás-fulanis, do Norte, e os ibos, do Sul. O significativo crescimento econômico do Norte tornou-se necessária a presença de agentes de comércio e de administração que conhecessem a língua inglesa. Os ibos preenchiam essa função mas foram afastados como invasores.

A unificação da Nigéria teve importantes fatores adversos. Nasceram partidos políticos de diferentes matrizes ideológicos que compartilhavam elementos históricos comuns. Os confrontos ressurgiram com grande força e acabaram resultando na guerra de Biafra, em 1967, provocada por um movimento separatista composto por membros das etnias ibo e ibibio, que se consideravam periféricas e subjugadas e de alguns países de dentro e de fora do continente africano interessados em promover o desmembramento da Nigéria. Biafra contou com o apoio da Costa do Marfim, do Gabão, da Tanzânia, da Zâmbia, da África do Sul, de Portugal e da França. Só conseguiu unificar o seu antigo território graças ao apoio da Inglaterra e da URSS.

A Conferencia de Bandung



Bandung se transformou em um marco na luta pela independência dos países africanos e asiáticos, em um mundo bipolarizado entre dois blocos antagônicos. A ela se seguiram sete outras reuniões: Belgrado (1961), Cairo (1964), Lusaka (1970), Argel (1973), Sri Lanka (1976), Havana (1979) e Nova Déli (1983).

Uma das razões de aproximação entre as elites estava no fato de que esses encontros constituíram-se verdadeiros lócus de identificação de problemas comuns derivados do colonialismo: agravamento da crise econômica, o crescente endividamento externo e as sérias consequências da repressão.

 A união se impunha, a despeito da diversidade de matizes ideológicos e políticos dos movimentos nacionalista dos diferentes países.

Mas foi em Belgrado (1961), na I Conferência dos Países Não Alinhados, que se registraram clara influência da Bandung, formando-se em torno da bandeira de luta da autodeterminação a mais poderosa coalizão dos Estados do então chamado “Terceiro Mundo”, unindo paìses dependentes, capitalistas ou socialistas da África, Ásia, América Latina e Europa e promovendo a cooperação nos fóruns mundiais, em especial nas Nações Unidas. Sobre as resoluções:


1) decide-se fazer oposição sistemática ao imperialismo e ao colonialismo;
2) participar em conjunto dos assuntos econômicos e da política internacional;
3) buscar construir um mundo com justiça e paz;
4) reforça-se o não-alinhamento como sinônimo do princípio de coexistência e cooperação entre Estados com sistemas sociopolíticos diferentes. Também foram definidos como princípios fundamentais da Conferência: a paz e o desarmamento com o objetivo de diminuir as tensões entre as grandes potências.

Na discussão do não-alinhamento se insinuava o tema do papel das “lutas de libertação” (com a ideia de guerra de guerrilhas) que passou a ser central nos anos 1960, em várias conferências realizadas na África.
Em 1966, essas ideias foram retomadas e desenvolvidas no âmbito de Fundação da Organização de Solidariedade dos Países da Ásia, África e América Latina em Havana, mais conhecida como a Tricontinental de Havana, liderada por Fidel Castro, representando a busca de “aliados revolucionários” entre países do Terceiro Mundo.

 Seu empenho em unificar laços de solidariedade ajuda a entender um aspecto decisivo na nova fase política de aliança, qual seja, a ajuda militar como apoio aos países em processo de “luta de libertação”, isto é, de guerra de guerrilha.

Na Tricontinental, a tendência geral foi a de afirmar que a opção pela guerra de guerrilhas ficava na dependência das condições histórico-culturais de cada país.

Esse conjunto de encontros estava longe de ser a principal ofensiva revolucionária capaz, por si só, de garantir o caminho para as independências. Daí o esforço no sentido de estabelecer alternativas entre as quais a fundação de coordenadores de lutas nacionais, coube aos centros criar o maior grau possível de república ao colonialismo, elemento de apoio na própria conjuntura de fins dos anos 1950 e, em particular, em 1960, “ano da libertação da África”, quando cerca de um terço dos países do continente tornou-se independente.

O pan-africanismo como questão política



Questão política.
As preocupações referem-se a dois desafios. O primeiro, o de constituir uma identidade de destino de um conjunto de povos sobre os quais se abateram as violências institucionais e simbólica em diferentes graus de intensidade. Segundo um exercício intelectual e político necessário para futuras ações eficazes na busca da emancipação política.

A essas características somam-se três particularidades: a primeira refere-se ao fato de que, no caso da África de colonização francesa, as ideias pan-africanas foram gestadas entre as duas guerras mundiais.
A segunda particularidade, por sua vez, diz respeito ao fato de que essas ideias são expressas de forma muito mais incisiva em Paris do que nas Áfricas Ocidental e Equatorial Francesas.

Quanto à terceira particularidade, é que esse pan-africanismo restringiu-se a um pequeno número de africanos das colônias francesas radicados em Paris, que encontraram compreensão e acolhida nos meios intelectuais, artísticos e políticos, ao contrário dos africanos das colônias inglesas, em Londres.
Esse conjunto de elementos permite enfatizar que foi um movimento desenvolvido na diáspora e limitado espacial e numericamente.

Por sua vez, quanto à questão das ideias, não há melhor ponto de entrada que o ano de 1921, quando foi atribuído o Gouncourt, o maior prêmio literário da França, ao guianês René Maran (1887-1960) pelo seu romance Batouala, embora até hoje pouco estudado.

A importância desse romance acarreta, de imediato, dois desdobramentos.
O primeiro é que o prêmio recebido por René Maran deu publicidade às condições miseráveis de vida dos africanos sob a colonização francesa, sensibilizando André Gide, então no auge de sua glória literária, a empreender uma viagem à África Equatorial Francesa, mais precisamente para Camarões. O resultado foi a publicação, em 1925, de Retour du Tchad e, em 1927, do famoso Voyage au Congo (Viagem ao Congo), dois livros de grande impacto na opinião pública da época, colocando na ordem do dia a exploração e a violência sofridas pelos africanos;
o segundo desdobramento refere-se ao fato de que, após a publicação de Batouala e a polêmica que o acompanhou, René Maran abandonou a administração colonial em favor da literatura, além de manifestar à opinião opinião pública seu interesse pela “causa negra” em geral e já não apenas pela sorte dos negros do Ubangui-Chari.

 Não é outra a importância do seu papel na qualidade de colaboradores, desde 1922, do jornal Lê Pátria, órgão da União Intercolonail fundada por Ngwye Aiquoc (o futuro Ho Chi Minh), muito difundido no Daomé (atual Benin) Maran passou a fazer parte, desde 1924, do recém-fundado comitê de direção da Ligue Universelle pour la Défense de la Race Noir, encarregada de lutar sem tréguas contra o colonialismo, e do seu mensário, Lês Continents, ao lado do príncipe do Daomé, Tovaloir Honenou (1877-1936). Este, indignando-se com o aviltamento dos negros africanos, passou a pregar a revolução como forma de desorganizar o sistema colonial. A tradução de suas ideias na prática resultou na sua prisão e deportação para Dacar.

A luta foi continuada por Lamine Senghor, senegalês que participou na Primeira Guerra Mundial, entre 1915 e 1918. Estudante da Sorbonne, em 1922, aderiu ao Partido Comunista e, em 1924, à Ligue Universelle pour la Défense de la Race Noir e ao mensário Lês Continents, lutando sem tréguas contra o colonialismo.
Senghor salientava que o negro vivia uma tripla opressão: como negro, como colonizado e como trabalhador, tendências independentista e assimilacionista. Colonialismo, independência e consciência negra eram entendidos como um conjunto de temas convergentes negadores do imperialismo.

 Romper com o imperialismo era condição necessária para os africanos conquistarem a sua liberdade. Assim é que, no I Congresso Anticolonialista, em fevereiro de 1927, Senghor, revelando a influência do ideário marxista-leninista da revolução de 1917, abordou como temas a civilização, o trabalho forçado e o recrutamento militar.

Com sua morte prematura ainda em 1927, Senghor foi sucedido pelo sudanês do Mali, Timeko Kouyaté, que havia participado do II Congresso Pan-Africano, em 1921, em Bruxelas.

Várias publicações abordaram o tema negritude, o mensário Lês Continents, La Voix des Négres, o “Diário de retorno ao paìs natal”, do antilhano da Martinica Aime Césaire. Em 1955 foi publicado o livro de Cheickh Anta Diop Nações negras e culturas, a revista Tropiques editada entre 1941 e 1945 e a revista Présence Africaine entre 1956 e 1959.

Fonte - Livro  Africa em sala de aula