quinta-feira, 6 de junho de 2013

Revolução Industrial medieval.

Revolução Industrial
medieval. Seu ponto de partida foi o crescimento demográfico e comercial,
fomentador do desenvolvimento urbano. Estimuladas pela chegada de
camponeses que conseguiam romper os laços servis, as cidades localizadas
próximas a rios ou estradas freqüentadas por comerciantes logo começaram
a crescer. Noutros pontos, sem uma célula urbana a desenvolver, surgiram
cidades praticamente do nada: entre 1100 e 1300 apareceram cerca de 140
novas cidades no Ocidente. Algumas eram de iniciativa senhorial (para
poder taxá-las), outras nasciam de um entreposto comercial ou de um
mercado rural.

Todas elas, qualquer que fosse sua origem, precisavam oferecer ao
campo alguns bens em troca de alimentos e de matérias-primas. Dessa
maneira o artesanato urbano logo conheceu seu primeiro impulso,
prolongado pelas crescentes necessidades de uma população (rural e
urbana) em expansão e mais exigente em função do progresso econômico.
A partir dessa pressão do mercado consumidor e aproveitando o avanço
cultural que ocorria paralelamente, a Cristandade* ocidental criou ou
aperfeiçoou dezenas de técnicas. Foi considerando isso que aquele
historiador afirmou que “na Europa, em todos os domínios, a Idade Média
desenvolveu mais do que qualquer outra civilização o uso de máquinas”
(57: 9).

Com presença mais ou menos generalizada, sem dúvida as duas
maiores indústrias medievais foram a da construção e a têxtil. A primeira
delas beneficiou-se não só do crescimento populacional, mas também da
prática social ostentatória que levava o clero e a aristocracia laica a
construir cada vez mais e maiores igrejas, mosteiros, castelos. Buscando
superar sua origem humilde, também a burguesia freqüentemente erguia
construções imponentes: San Gimignano, próxima a Florença, ficou
conhecida como a “cidade das mil torres”, pois cada residência de certa
importância ergueu uma torre forte que não expressava preocupação
defensiva, e sim orgulho social. As comunas*, rivalizando entre si, também
financiavam majestosos prédios públicos. O mercado da construção era
ainda crescentemente alargado pelas monarquias, cuja consolidação
dependia não apenas de edifícios para fins militares, mas também
residenciais (palácios) e religiosos (igrejas e mosteiros).

A indústria têxtil era ainda mais importante, especialmente a de
panos de lã. Ainda que praticamente toda cidade de certo porte tivesse suas
oficinas têxteis, os maiores centros estavam localizados em Flandres, na
Itália e na Inglaterra. A indústria flamenga conheceu seu apogeu entre
fins do século XII e XIII, destacando-se principalmente as cidades de
Ypres, Gand e Bruges. A lã utilizada era em grande parte importada da
Inglaterra, vindo também do exterior os corantes. Essa dependência em
relação ao estrangeiro fragilizava aquela indústria, daí ela ter sido muito
sensível às flutuações comerciais e às mudanças conjunturais. Assim,
apesar de pioneira no ramo têxtil, Flandres não suportou a concorrência
de outros centros, e em fins da Idade Média mudou sua produção para
tecidos leves, de qualidade inferior e mais baratos.

O segundo grande centro era a Itália, cuja indústria lanifícia ganhou
importância a partir de fins do século XIII, com o declínio flamengo. A lã
manufaturada nas cidades italianas da Toscana (especialmente Florença) e
da Lombardia (sobretudo Milão) era importada da Espanha e da
Inglaterra, de onde famílias de banqueiros como os Bardi e os Peruzzi
compravam toda a produção dos mosteiros cistercienses com um ou dois
anos de antecedência, superando dessa forma os flamengos, que não
tinham capital para tanto. A maior produtora era Florença, que na
primeira metade do século XIV empregava 30.000 pessoas nas suas oficinas
têxteis. Em fins da Idade Média, a produção de tecidos de seda chegou a
ultrapassar a de lã em Florença, Milão, Siena e Luca.

A terceira grande área era a Inglaterra, até meados do século XIII
mera fornecedora de matéria-prima, depois produtora de destaque graças
às dificuldades econômicas de Flandres e sociais de Florença (revolta dos
artesãos florentinos na segunda metade do século XIV). Interessada
naquela expansão industrial, a monarquia inglesa passou a taxar mais
pesadamente as exportações de lã (33%) do que as de tecidos (apenas 2%).
Tendo assim lã abundante e de boa qualidade, a produção têxtil inglesa
tornou-se forte concorrente da italiana, que precisava importar sua
matéria-prima.

A produção industrial nas cidades estava organizada em associações
profissionais que chamamos de corporações de ofício, conhecidas na Idade
Média apenas por “ofícios” (métiers na França, ghilds na Inglaterra,
Innungen na Alemanha, arti na Itália). Suas origens são controvertidas,
mas as razões para o agrupamento são claras: religiosa, daí muitas vezes
ter derivado de confrarias, isto é, de associações que desde o século X
existiam para cultuar o santo patrono de uma determinada categoria
profissional e para praticar caridade recíproca entre seus membros;
econômica, procurando garantir para eles o monopólio de determinada
atividade; político-social, com a plebe de artesãos tentando se organizar
diante do patriciado mercador que detinha o poder na cidade.