quarta-feira, 5 de junho de 2013

Estrutura Econômica da Idade Media

As estruturas econômicas

O prestígio ímpar que a História Econômica desfrutou por longo
tempo deixou profundas marcas na produção medievalística. Sobretudo
porque a impossibilidade de realizar estudos quantitativos como os que
eram feitos para períodos históricos mais recentes, levou ao
desenvolvimento de metodologias próprias.

Dessa forma, o que na origem
era uma deficiência — documentação fragmentária, sem dados numéricos
suficientes e confiáveis — acabou por se tornar um fator positivo.

Entendeu-se que a limitação das fontes econômicas medievais não
era mero incidente, mas fato que traduzia o espírito da época, mais preso a
imagens, palavras e gestos do que a números.

A historiografia especializada
desenvolveu então trabalhos baseados no qualitativo (indícios, tendências,
características), que elucidam melhor a economia medieval do ponto de
vista da própria época. Isso não impede, é claro, que diversos assuntos
ainda permaneçam polêmicos e outros insuficientemente esclarecidos.
Retração e estagnação até o século X

No essencial, do ângulo econômico, os séculos IV-X podem ser
considerados em bloco. Caracterizou-os aquilo que Renée Doehaerd
chamou de “escassez endêmica” (42: 57). Ou seja, uma pequena
produtividade agrícola e artesanal, conseqüentemente uma baixa
disponibilidade de bens de consumo e a correspondente retração do
comércio e portanto da economia monetária.

 Aquela historiadora
demonstrou que o fator explicativo de tal situação não foi um recuo das
técnicas, como se poderia pensar à primeira vista. O ponto de partida do
fenômeno foi o retrocesso demográfico: numa economia muito pouco
mecanizada, o peso da mão-de-obra na produção é decisivo. Ora, a
contração da força de trabalho gerava uma contração dos rendimentos e
esta reforçava a pobreza demográfica.

O setor primário, o mais importante de então, exemplifica bem
aquela situação. Por muito tempo se acreditou que o único tipo de
propriedade agrícola da época fosse aquilo que se chama de domínio,
herdeiro da villa romana. Sabe-se hoje, no entanto, que as grandes
propriedades foram típicas de apenas uma parte da Europa ocidental, a
região entre os rios Reno e Loire. Paralelamente, existiam pequenas e
médias propriedades, ainda que aos poucos elas fossem absorvidas pelas
villae.

De qualquer forma, estas são mais bem conhecidas e
predominavam naquele território que era o centro de gravidade de então,
daí porque seja justificável falar em economia agrária dominial.
Geralmente bastante extenso, o domínio não era contudo
caracterizado por seu tamanho, muito variável no tempo e no espaço, mas
por sua estrutura de funcionamento. Esta girava em torno da divisão da
área em duas partes.

A primeira, chamada na época de terra indominicata
(ou de reserva senhorial pelos historiadores), era explorada diretamente pelo
senhor. Ali estavam sua casa, celeiros, estábulos, moinhos, oficinas
artesanais, pastos, bosques e terra cultivável.

Na villa da época merovíngia (séculos V-VIII) a reserva era maior do
que no período carolíngio (séculos VIII-IX), quando ela representava de
20% a 40% da área total do domínio.

Este fato provavelmente se deve à
relativa recuperação demográfica carolíngia, que gerou a necessidade de o
senhor criar novos lotes camponeses.

As pastagens e áreas florestais
existentes na reserva senhorial eram, por direito costumeiro, de uso de toda
a comunidade. Assim, o solo arável da reserva variava de 25% a 50% do
conjunto das terras cultivadas do domínio.

A segunda parte era a terra mansionaria, ou seja, o conjunto de
pequenas explorações camponesas, cada uma delas designada pelos textos a
partir do século VII por mansus.

 Cada manso era a menor unidade produtiva
e fiscal do domínio. Dele uma família camponesa tirava sua subsistência, e
por ter recebido tal concessão devia certas prestações ao senhor. Os mansi
serviles, ocupados por escravos, deviam encargos mais pesados que os mansi
ingenuiles, possuídos por camponeses livres.
A extensão dos mansos também era diferente conforme o estatuto
jurídico de

A Dança Macábra


Até por volta de 1350 raramente a morte era retratada, e quando o era tratava-se de uma mensageira do
mundo divino. A partir de então, a morte tornou-se um tema recorrente na arte e na literatura, representada como uma força impessoal, com iniciativa própria, que atinge a todos, poderosos e humildes, clérigos e leigos, jovens e velhos, virtuosos e pecadores.

 O significado da morte alterou-se, e com ele toda uma sensibilidade: perdendo qualquer
conotação ética, atingindo a todos indistintamente — na presente figura, um bispo e
um homem rico — a morte deixou de ter natureza cristã. Caminhava-se para uma nova
espiritualidade*, questionava-se o poder de intercessão da Igreja, preparava-se terreno
para o Protestantismo. 

A expansão da Idade Média Central

De toda forma, a recuperação demográfica carolíngia, mesmo
pequena, apontava para a expansão que começaria em meados do século X.
Apesar da inexistência de uma documentação quantitativa, é inquestionável
aquele crescimento na Idade Média Central, como se percebe por cinco

claros indícios.
O primeiro deles, um acentuado movimento migratório. Ao
contrário da imagem tradicional, que vê o homem medieval fortemente
ligado à sua região, enraizado, sabe-se hoje que mesmo na Alta Idade

Média ele se deslocava ocasionalmente, conforme as necessidades impostas
pela agricultura ou pela guerra. Jacques Le Goff observou que “a
propriedade era quase desconhecida na Idade Média como realidade
material ou psicológica”, não estabelecendo, seja para o nobre, seja para o
camponês, uma ligação afetiva com a terra habitada e trabalhada, por isso “a
mobilidade dos homens da Idade Média foi extrema e desconcertante”

De fato, podemos constatar para aquela fase a ocorrência de quatro
grandes tipos de migração:

1) migrações habituais, ou seja, deslocamentos de população (por
exemplo para arrotear novas áreas), migrações sazonais (como no
inverno, a busca de pastos ainda verdes), migrações temporárias
(vassalos indo prestar o consilium na corte do seu senhor feudal,
clérigos dirigindo-se a um concilio* ou sínodo), atração dos
centros urbanos (que exerceram forte sedução nos séculos XIIXIII,
ao possibilitar aos camponeses uma nova condição social e
econômica), mobilidade militar (como a conquista da Inglaterra
pelos normandos ou as Cruzadas);

2) migrações coloniais, como as que levaram à formação de
entrepostos comerciais italianos no Oriente, a fixação de
franceses nas áreas reconquistadas aos muçulmanos na
Espanha, de alemães nas regiões arrancadas aos eslavos na
Europa Oriental, de católicos nos territórios tirados aos
islamitas no Oriente Médio (Cruzadas) ou aos hereges cátaros
no sul da França;

3) migrações extraordinárias, como o êxodo de mouros (empurrados
para o sul da Península Ibérica com o avanço da Reconquista
Cristã) e de judeus (perseguidos pelas primeiras Cruzadas e
expulsos da Inglaterra em 1290 e da França em 1306). E também
todo tipo de migrações forçadas, caso dos escravos vendidos por
mercadores italianos nas regiões islâmicas do Oriente;

4) migrações sem instalação, como os movimentos de errantes
(marginais, aventureiros, clérigos sem domicílio fixo como os
célebres goliardos*) e de peregrinos (tanto em direção a centros
regionais de peregrinação* quanto a Jerusalém, Roma e
Compostela).