sábado, 23 de março de 2013

"Cuba Frente e Verso"



Nas estreitas ruas de Vedado, um dos bairros centrais de Havana, é difícil cruzar uma quadra sem ter de desviar de algum cubano que, sentado na soleira da porta de casa, com as pernas dobradas em direção ao peito, lê um jornal, fuma um charuto ou simplesmente observa o movimento de alguns carros antigos ou de senhoras que andam poucos metros para comprar frutas em uma pequena banca privada. Geralmente são aposentados. À tarde os mais jovens estão todos trabalhando, e os ainda mais jovens estão todos na escola.

Na pequena praia de Siboney, há 12 km de Santiago de Cuba, na outra ponta da ilha, é muito difícil encontrar uma mulher na rua. Os homens, sim, estão todos zanzando entre as casas, conversando. Alguns trabalham reconstruindo o patrimônio que o furacão mais recente destruiu. As mulheres estão em casa, cuidando dos afazeres domésticos. No fim da tarde chegam alguns caminhões carregados de trabalhadores, outros de crianças que há pouco se despediram dos professores em alguma cidade próxima.


Em um hotel de grande porte em uma região turística de Havana, diversos atendentes com cara de poucos amigos estão na recepção ou em guichês menores, onde se alugam carros ou se trocam euros ou dólares – mais o primeiro do que o segundo – por CUCs, a moeda cubana exclusiva para turismo e que criou um abismo de desigualdade entre os que trabalham nesse setor e todos os outros. Não é improvável que um funcionário hoteleiro esteja oferecendo a um turista gringo com quem conversa uma caixa de charutos por um preço dez vezes mais barato do que nas lojas oficias. A probabilidade de o charuto não ser da marca que diz ser é grande, mas também é possível que seja verdadeiro e tenha sido “retirado” da fábrica por algum funcionário padrão.

À frente do hotel, atrás do hotel e aos lados do hotel, outdoors lembram os feitos dos revolucionários e trazem como lemas frases de Martí, Fidel, Che, Raúl e Camilo. Outdoors como estes também estão nas estradas que levam a Siboney e em todas as pequenas cidades que se deve deixar para trás para ir de Havana, no extremo ocidente cubano, até Santiago de Cuba, a maior cidade ao Leste.

As quatro pequenas histórias são representativas de uma grande parte do cotidiano do povo cubano. Mas Cuba são muitas. Dizia Marx que apenas no comunismo as individualidades poderiam ser plenamente usufruídas. Na tentativa socialista de igualdade também se destacam as diferenças, seja entre as pessoas, seja entre cidades de grande e de pequeno porte, seja entre as regiões Ocidental e Oriental. Mesmo assim, em medidas variáveis, algumas questões estão sempre presentes para todos os cubanos. Para o bem e para o mal.


Escola e segurança

Durante o dia as ruas cubanas estão vazias de crianças. Nada. Nenhuma. Estão todas na escola, e só podem ser vistas ao meio dia, quando algumas saem para almoçar, ou no fim da tarde, quando voltam para casa – com exceção das menores, quase sempre sozinhas ou com amigos. A violência não é uma preocupação de ninguém. “Em Cuba estás sempre seguro”, parece um mantra combinado entre todos os que respondem sobre qualquer perigo em sair à noite por ruas nem sempre bem iluminadas.

Os Comitês de Defesa da Revolução (CDR`s) estão em todos os quarteirões, e deles participa grande parte dos vizinhos. Ali desenvolvem ações culturais, cuidam para que todos os adultos estejam trabalhando e para que todas as crianças estejam nas escolas, e cuidam para que nada aconteça na região sem que toda a comunidade saiba e se empenhe em resolver um possível problema. Não são espaços armados, é a própria relação de comunidade estabelecida entre os vizinhos que impede qualquer movimento estranho ao bairro e aos interesses da população. Quase não se vê guardas nas ruas, e é ainda mais difícil encontrá-los armados. É a população quem, armada principalmente de coesão e solidariedade, garante a segurança geral.

Enquanto as crianças estão na escola, os pais e mães estão trabalhando. Cada vez menos em serviços estatais. Para combater a crise econômica iniciada com o fim da União Soviética, o governo começou a abrir possibilidades de trabalho na iniciativa privada. Para tentar aumentar os salários, recentemente 400 mil pessoas foram demitidas, e estimuladas a se lançarem em negócios próprios. Saem com aporte financeiro e a possibilidade de voltar ao setor estatal caso não se acertem em suas novas empresas, mas saem. E muitos mais ainda devem sair. A crise econômica é séria. Mantém os salários baixos e faz os preços subirem.

Soluções se transformaram em problemas

O forte estímulo ao turismo a partir dos anos 1990 e a criação de uma segunda moeda, puramente turística – o CUC –, foram soluções imediatas para inserir divisas na economia cubana, mas agora se tornaram problemas que acentuam a desigualdade e levam a parte do povo a ilusão da riqueza fácil e da ideologia capitalista. Quem trabalha com turismo ganha muito mais por conta da moeda supervalorizada em relação ao Peso Cubano e, no contato com os turistas, muitas vezes passa a acreditar que sair do país traria grandes vantagens financeiras.

São exceções, mas não é impossível encontrar cubanos que dizem abertamente querer sair do país. Mas nenhum deles quer ir embora por questões políticas. Todos os que pretendem deixar Cuba reclamam dos baixos salários e dos altos preços e acreditam que em outros países sua situação seria diferente – é o que veem, por exemplo, nas novelas brasileiras que infestam a televisão cubana todas as manhãs, bem cedo, e gruda os cubanos nos dramas burgueses de Por Amor e Insensato Coração. Nem todos têm a informação de que terão que pagar por privilégios que em Cuba são direitos, a começar por Saúde e Educação.


Direitos básicos garantidos

Todo cubano nasce com direito garantido à Saúde e à Educação. De uma simples gripe a um violento câncer, tudo será tratado de graça. Há pequenos postos médicos por todos os lados, inclusive nos museus e hotéis. E nada é pago. O filho de Maria, uma senhora de cerca de 60 anos que aluga quartos para turistas em Havana, teve aos 17 anos uma doença que subitamente o deixou sem os movimentos nas pernas e com outras limitações motoras. Desde lá, 18 anos atrás, três vezes por semana uma ambulância o busca para levá-lo ao hospital, onde segue seu tratamento. Nunca pagou um centavo por nada disso.

O mesmo acontece com a Educação. Faltam canetas em toda Cuba, mas não falta escola para ninguém. E é muito difícil encontrar um cubano com mais de 30 anos que não tenha pelo menos uma formação de Ensino Superior. Taxistas-engenheiros e agricultores-agrônomos são o que mais se encontra. É possível inclusive encontrar agricultores-filósofos. Até antes do fim da União Soviética, quando o país tinha melhores condições econômicas, todo cubano cursava alguma faculdade. Hoje nem todos o fazem, muitos passam da escola para cursos técnicos, buscando trabalhos que os podem pagar melhor – em Cuba são os trabalhos privados que dão mais dinheiro, por conta da dificuldade do Estado em manter um bom nível salarial.

A maior parte dos cubanos que trabalham no setor estatal ganha entre 350 e 500 pesos. Um diretor de escola ou um médico com muita estrada podem chegar a ganhar 600. O problema é que a dupla moeda, com o CUC valendo 24 pesos, e a predominância do turismo fazem com que os preços subam muito. Um pacote de bolacha recheada custa cerca de 2 CUC – o que quer dizer 48 Pesos, mais de um décimo do salário da maioria. Uma televisão nova custa 250 Pesos, mas todos as têm, muitas compradas usadas, outras presenteadas por parentes que trabalham fora do país.

A alimentação básica, em contrapartida, está garantida graças à instituição da libreta, um caderninho que controla o consumo de uma cesta básica altamente subsidiada pelo Estado. Alimentação e higiene básicas recebem esses subsídios até determinado limite de consumo pessoal. Por exemplo, todo cubano tem direito a um pão francês por dia na libreta, a cinco centavos de Peso. Pode comprar mais, fora da libreta, mas aí vai custar um Peso cada. Algo semelhante acontece com o leite: 20 centavos de Peso na libreta, 5 Pesos fora dela.

Os salários são baixos, é verdade, mas além de Saúde e Educação totalmente gratuitas e da cesta básica subsidiada, também o setor cultural é absolutamente acessível. Nos fins de semana se formam filas em frente aos cinemas e teatros, que cobram apenas dois Pesos Cubanos por sessão. A sorveteria Copélia, a maior e mais famosa do país, também recebe filas enormes, que fazem curvas em torno do parque que a cerca. A bola de sorvete custa 1 Peso Cubano, mesmo preço de alguns dos livros expostos na Feira do Livro de Havana – embora a maioria custe um pouco mais, cerca de 20 Pesos –, que acontece em um antiquíssimo castelo em um canto da cidade. Ônibus quase enfileirados saem do centro da capital todos os dias durante a Feira para levar a multidão ao reino dos livros.


Quando a Revolução acompanha a sociedade

O trânsito de veículos está longe de ser um problema em Cuba, mas nenhum dos carros antigos que circulam por qualquer cidade cubana precisa parar para que seu motorista ou seus passageiros observem os grandes outdoors revolucionários que estão por todos os lados. Os painéis trazem imagens de heróis como Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Frank País e José Martí, sempre acompanhadas de frases fortes, marcantes. Os lemas revolucionários, nas vozes deles, de Fidel ou de Raúl são estímulos a seguir a luta ou lembranças sobre como aprimorar ações pessoais. “Sejamos como o Che”, dizem algumas, reproduzindo frase de Fidel.

A Revolução está em todos os lugares de Cuba, seja com os painéis seja com o povo organizado. Uma grande parte da população participa de alguma das organizações de massa – Central dos Trabalhadores Cubanos (CTC), União dos Jovens Comunistas (UJC), Federação das Mulheres Cubanas (FMC), Federação dos Estudantes Universitários (FEU), Associação Nacional dos Pequenos Agricultores Cubanos (ANAP, na sigla em espanhol), FAR (Forças Armadas Revolucionárias). Além dos espaços dessas instituições, presentes também de forma local e setorial, os cubanos estão organizados nos já citados Comitês de Defesa da Revolução, e também lá participam efetivamente, em reuniões deliberativas que chegam a reunir 40 pessoas do mesmo quarteirão em uma noite de domingo. Os CDR`s são como associações de bairro com funções político-cultural-sociais que vão muito além do comum nessas associações no Brasil.

Quando a sociedade acompanha a Revolução

O povo cubano é um povo educado, politizado e solidário – ainda que muitas vezes bastante fechado. Acostumou-se às dificuldades, acostumou-se a participar de toda a vida do país, acostumou-se a pensar e acostumou-se a pensar para além do próprio umbigo. Nenhum cubano é uma ilha. Todos souberam e se solidarizaram profundamente com o incêndio na boate em Santa Maria. Difícil encontrar alguém que, identificando um brasileiro, não engolisse em seco para dar os pêsames e manifestar solidariedade. Não há banalização da morte. Tremem de indignação contra injustiças cometidas em qualquer lugar do mundo, com a exata atitude que, para o Che, definia um revolucionário.

Internacionalistas, a morte de um presidente aliado é a morte de seu próprio líder. Muitos cubanos têm parentes ou amigos trabalhando na Venezuela, nas missões sociais criadas por Hugo Chávez. Mesmo os que não os têm lamentavam profundamente a doença do presidente venezuelano, baixavam a voz e os olhos para falar sobre ela. Os cubanos sentiram toda a doença de Hugo Chávez como a doença de um amigo.

Quando a sociedade não acompanha a Revolução

Mesmo os mais de 50 anos de Revolução não conseguiram ainda criar o “homem novo” sonhado por Che. Expurgados das instituições cubanas, o machismo, o racismo e a homofobia – este aparentemente com menos intensidade do que os outros – ainda persistem com força entre as camadas médias da população.

Em um estádio de beisebol, um ambiente predominantemente masculino, no jogo entre Industrialies – o time de Havana – e Cienfuegos – da cidade de mesmo nome –, alguns casais de homens circulavam tranquilamente nas arquibancadas. Um desses casais, dois homens mirrados, discutiu fortemente durante a partida com um outro homem, talvez o mais musculoso do estádio. Mas a discussão nada tinha a ver com a orientação sexual de ninguém. Era sobre o jogo, e o calor da discussão aos gritos entre desconhecidos em momento algum levou a qualquer ameaça de agressão – mesmo considerando a enorme disparidade entre os “oponentes”. Outras discussões assim aconteceram naquela noite e, mesmo sem separação entre as torcidas, nenhum caso de violência aconteceu.

Ao mesmo tempo, uma senhora que hospeda turistas fica incomodada com uma suíça que, noite atrás de noite, leva um cubano para repartir a cama. O incômodo não é por ser homem, mas por ser negro. “Geralmente esses que não querem trabalhar, que procuram mulheres europeias para tentar ir embora atrás de mais dinheiro, são negros. Não sou racista, mas geralmente são os negros que não querem trabalhar”, diz ela.

Os homens da praia de Siboney, aqueles que estão zanzando pelas ruas enquanto suas esposas cuidam da casa, não só conversam entre eles. A cada mulher que passa os gracejos acontecem, de estalar de lábios simulando beijos até as velhas cantadas grosseiras. Siboney extrapola o nível comum, mas esse tipo de situação é normal em toda a ilha.

Quando a Revolução não acompanha a sociedade

As dificuldades econômicas são uma realidade, e é difícil distinguir o que é resultado do bloqueio estadunidense, do passado colonial e da inserção em uma região historicamente explorada e, como tal, pobre. Fato é que essas dificuldades existem, e o turismo, além de criar desigualdades antes inexistentes, mostra aos cubanos que nos países capitalistas algumas pessoas têm muito. Só esquece de mostrar que muitas outras pessoas não têm nada ou quase nada, já que geralmente não são os pobres os que fazem turismo pelas praias do Caribe. Essa situação cria em alguns cubanos um descontentamento que, em certos, casos, faz com que pensem em sair do país. Em outros casos, mais comuns, o que se procura é melhorar um pouco a condição financeira, poder dar-se alguns luxos a mais, sem precisar sair do país. É aí que entra o “jeitinho cubano”.

Da mesma forma pela qual o turismo virou incremento de renda ao Estado, virou incremento de renda à população. Do charuto retirado da fábrica – ou falsificado – até as corridas de táxi supervalorizadas, as formas de conseguir alguns CUCs a mais – o que faz grande diferença no orçamento, dada a supervalorização em relação ao Peso Cubano – são as mais variadas.

Não existe taxímetro em Cuba. As corridas são negociadas, e o preço é sempre jogado lá em cima para acabar cobrado – se bem negociado – lá embaixo. Mas isso é um problema de turista, os cubanos quase não andam de táxi, a não ser táxis coletivos – carros maiores que vão pegando as pessoas e seguindo o trajeto que melhor se adapte às necessidades de todos. Moedas de Peso Cubano com o rosto de Che Guevara também são vendidas a turistas. Valem três Pesos, ou seja, 12 centavos de CUC – equivalente ao dólar –, mas são vendidas por pelo menos 5 CUCs. Carros alugados parados por policiais rodoviários que subentendem a possibilidade de suborno também não são improváveis. Mas também existem versões legalizadas desse “jeitinho”, como o serviço de guia turístico oferecido a todo instante nas proximidades dos principais museus e praças.

Ao redor de alguns pontos turísticos ou dos hotéis mais caros alguns cubanos pedem aos turistas artigos raros na ilha. A chegada desses artigos a Cuba é dificultada pelo bloqueio, que encarece qualquer importação. Sabonetes e canetas estão entre os mais pedidos. Comida, jamais.


Volta ao capitalismo?

Com participação política e dificuldades econômicas, os cubanos vivem. Sem luxos, com alguma desigualdade recente, mas com os direitos básicos garantidos, eles vivem. Com o bloqueio estadunidense e com parcerias com Venezuela, Rússia e China, a Revolução sobrevive e muda. As possibilidades de volta ao capitalismo abertas pela criação de mais e mais empresas privadas são refutadas pela população. É difícil encontrar alguém que queira desistir do socialismo. A crítica é sempre à economia, mas a manutenção do sistema político parece ser vontade de todos. Um taxista que admite querer o capitalismo de volta usa o modelo chinês como exemplo do que queria para seu país. A discussão sobre as mudanças do modelo, chamadas em Cuba deatualizações, envolve o medo de retorno ao capitalismo, mas o discurso oficial – com o qual a população concorda – é de que não se abrirá mão de nenhuma das conquistas da Revolução.

A dificuldade na renovação de quadros, por outro lado, é uma realidade. Os cubanos mais velhos, que nasceram antes ou junto com a Revolução, mostram preocupação sempre que perguntados sobre a juventude do país. A constante presença de estrangeiros cria nos jovens expectativas e interesses que antes não existiam, quase sempre relacionados ao consumo. Ao mesmo tempo, a União de Jovens Comunistas é uma das organizações mais fortes do país, e o novo nome forte do governo cubano, vice-presidente recém empossado, é Miguel Díaz-Canel, 52 anos, cuja trajetória política está totalmente ligada à UJC.

Em entrevista recente o líder revolucionário Fidel Castro, ao responder pergunta sobre as atualizações do modelo, disse que “a maior mudança foi a Revolução”. Se teremos outra mudança desse tamanho – no caminho inverso –, é impossível prever, mas a sociedade cubana, com todas suas contradições, está convicta de que preservar suas conquistas é essencial. E organizada para isso.

Alexandre Haubrich é jornalista. blog Vermelho

70 Anos sem Trotsky




Liev Davidovich Bronstein nasceu no dia 26 de outubro de 1879 (mesmo dia em que, 38 anos depois, seria vitoriosa a insurreição de Outubro) no vilarejo ucraniano de Yanovka, Império Russo. Judeu, filho de camponeses médios, aderiu ao marxismo aos 19 anos, passando a reunir os operários da região em uma organização político-sindical ligada à social-democracia da época e denominada “União Operária do Sul da Rússia”.

Trotsky (pseudônimo emprestado de seu carcereiro em 1902) passou por três longos exílios fora da Rússia (1902-1905, 1907-1917 e 1927-1940), mas também participou de três revoluções (1905, Fevereiro de 1917 e Outubro de 1917). Foi por duas vezes presidente do Soviete de Petrogrado (1905 e 1917). Trabalhou como correspondente em duas guerras: nos Balcãs em 1910 e durante a 1ª Guerra Mundial em 1914. Membro do Comitê Militar Revolucionário durante a insurreição de Outubro de 1917, dirigiu os operativos que levaram os bolcheviques ao poder. Depois da vitória da insurreição, assumiu o Comissariado do Povo para Assuntos Estrangeiros e esteve à frente das negociações sobre a paz com a Alemanha em Brest-Litovsky em 1918.

Formou e dirigiu o Exército Vermelho, cujo contingente chegou a cinco milhões de homens e mulheres em 1920. Venceu 14 exércitos estrangeiros durante a Guerra Civil. Depois de 1921, se dedicou às questões econômicas do jovem Estado Operário. Inspirou, junto com Lenin, a formação da III Internacional, redigindo seus principais documentos e declarações. Após a morte de Lenin, travou uma batalha sem trincheiras contra a burocratização do Estado Soviético e a degeneração do Partido Bolchevique pelo stalinismo. Expulso da URSS em 1927 por denunciar o curso anti-proletário da burocracia do Kremlin, Trotsky percorreu o mundo durante 10 anos em busca de asilo, até seu pedido ser aceito pelo governo mexicano em 1937. Morreu assassinado por um agente stalinista em agosto de 1940.

Trotsky era um homem de ação, mas não de ação sem verdade. Para ele a atividade prática revolucionária era inseparável do estudo e do trabalho intelectual. Aos 26 anos, em base à experiência da revolução de 1905, formulou a Teoria da Revolução Permanente, onde previa de maneira brilhante que, numa Rússia atrasada e semi-feudal, somente a classe operária seria capaz de cumprir as tarefas que historicamente teriam cabido à burguesia. Doze anos depois seus prognósticos se cumpririam de maneira categórica.

Mas seu trabalho teórico mais importante é, sem a menor sombra de dúvidas, "A Revolução Traída" de 1936. Nele Trotsky analisa o processo de burocratização da URSS e do Partido Bolchevique e sentencia: ou a classe operária soviética, sob a direção de um partido revolucionário, fará uma revolução política, que limpe dos sovietes e do Estado Operário a burocracia parasitária, ou o capitalismo será restaurado na Rússia. Cinquenta anos depois, a restauração do capitalismo em absolutamente todos os países de economia planificada confirmou de maneira dramática a previsão de Trotsky.

Trotsky possui uma vasta obra sobre uma infinidades de temas. Escreveu sobre literatura, psicologia, opressão da mulher, moral e muitos outros temas. Analisou e nos deixou valorosas lições sobre cada um dos processo revolucionários que presenciou: a revolução alemã de 1923, a revolução chinesa de 1927, a revolução espanhola de 1931-1937 e a II Guerra Mundial. Nos deixou ainda duas obras belíssimas de inestimável valor histórico e literário: "A História da Revolução Russa" e "Minha Vida", sua autobiografia.

Esse homem, cujo nome está gravado para sempre na história do século XX, via como seu maior feito não a vitória da Revolução de Outubro, nem a formação do Exército Vermelho ou a construção da III Internacional, mas sim o fato de ter dado a batalha pela continuidade da tradição marxista através da fundação da IV Internacional em 1938. Trotsky costumava dizer que se ele não estivesse presente em outubro de 1917 em Petrogrado, Lenin ainda assim teria garantido a vitória da insurreição. O mesmo teria acontecido com a Guerra Civil e a III Internacional. Mas a construção da IV Internacional era uma tarefa que somente ele poderia cumprir, uma vez que Lenin já havia morrido. Sem a construção de uma nova Internacional, a tradição marxista e proletária se perderia para sempre, fruto da degeneração da III Internacional.

As duras condições em que a IV Internacional se construiu tornavam sua fundação ainda mais necessária. O stalinismo havia triunfado na URSS e o nazismo chegado ao poder na Alemanha. Era preciso formar uma Internacional capaz de continuar, assim que as condições o permitissem, a luta de Marx, Engels, Lenin, Rosa e do próprio Trotsky.

Trotsky era de estatura média, tinha cabelos negros e encaracolados, grandes olhos azuis, voz metálica e fala rápida. Ao discursar, gesticulava rica e elegantemente. Trabalhou com Lenin na equipe de redação do Iskra em Londres em 1902. Depois da cisão entre bolcheviques e mencheviques em 1903 se afastou de Lenin por vários anos. Nunca foi, no entanto, menchevique. Tinha poucos amigos íntimos dentro do Partido, mas com aqueles que eram seus amigos, conservava estreitos laços.

Da maioria dos dirigentes, no entanto, guardava certa distância. Mesmo sua relação com Lenin nunca foi de proximidade pessoal. Teve quatro filhos de dois casamentos. Todos morreram antes dele, dois dos quais pelas mãos diretas do stalinismo. Conheceu a mais absoluta glória e o mais terrível fracasso. Nunca encarou, no entanto, nem um nem outro, desde um ponto de vista pessoal. Para Trotsky, sua sorte era a sorte do proletariado em luta, suas glórias e fracassos eram as glórias e fracassos da classe operária mundial e portanto, de caráter essencialmente político.

Depois de ser atingido na cabeça com um golpe de picareta por Ramon Mercader, agente da GPU, a polícia política stalinista, Trotsky ainda lutou contra a morte por 22 horas e veio a óbito às 19:25 do dia 21 de agosto de 1940. A necrópsia realizada revelou um cérebro e um coração "de dimensões incomuns", segundo o relato do legista. No dia 27 de agosto o corpo de Trotsky foi cremado e as cinzas depositadas em um túmulo especialmente construído no fundo do quintal de sua casa em Coyoacán. "Que o fogo queime tudo o que se decompõe", determinou Trotsky antes de morrer. Sobre o túmulo, foi colocada uma grande pedra branca com a foice e o martelo talhados em baixo-relevo.

No hospital, antes de perder definitivamente a consciência, Trotsky pediu a seu secretário que registrasse sua última mensagem: “Estou próximo da morte pelo golpe de um assassino político. Ele me atingiu em minha sala, lutei com ele... nós entramos... ele me atingiu... por favor, diga a nossos amigos... estou confiante... na vitória... da IV Internacional... adiante!”.

Aos 70 anos de seu assassinato, as idéias de Trotsky permanecem vivas na luta e na organização da classe operária mundial. Trotsky morreu. Viva Trotsky!






1879 - Nascimento
No vilarejo ucraniano de Yanovka, em uma famiíia de camponeses médios, nasce Lev Davidovitch Bronstein.
d
1896 - Estudante 
Ainda estudante, "Leiba" tem seu primeiro contato com o marxismo
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d
1897 - Adesão ao marxismo
Após uma curta experiência no populismo russo, o jovem Bronstein adere ao marxismo e funda a União Operária do Sul da Rússia
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1898 - Primeira prisão
Primeira prisão com dois anos de condenação. Casa-se com Aleksandra Sokolovskaya
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1900 - Exílio na Sibéria
Condenado ao exílio na Sibéria junto com a mulher e duas filhas. Aprofunda seus estudos do marxismo
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1902 - Convite de Lênin
A convite do Lênin e com a ajuda de Aleksandra, foge da Sibéria e se junta à redação do Iskra em Londres. "A pena", como então é chamado, devido a seus dotes literários, assume o pseudônimo de Trotsky
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1903 - Concepção de partido
Rompe com Lênin durante do II Congresso do POSDR em Londres na questão da concepção de partido, que divide bolcheviques e mencheviques. Permanece independente dentro do POSDR
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1905 - Primeira revolução
Com o início da primeira revolução, retorna à Rússia e é eleito presidente do Soviet de São Petersburgo. Em outubro a revolução é derrotada e todos os membros do soviet são presos
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1906 - Revolução permanente
Na cadeia, escreve a famosa brochura "Balanço e Perspectivas", a primeira formulação da Teoria da Revolução Permanente, elaborada em base à experiência da revolução derrotada de 1905
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1907 - Fuga da prisão
Nova condenação ao exílio. Desta vez Trotsky sequer chega ao destino. Foge ainda no caminho para a Síbéria e ruma à Europa
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1910 - Aprendizado
Trabalha como correspondente na Guerra dos Bálcãs. Primeiro contato com a arte militar
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1914 - Primeira Guerra Mundial
Estoura a Primeira Guerra Mundial. Imediatamente, assume uma posição internacionalista, essencialmente igual à de Lênin.

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1917 - A revolução
27 de Fevereiro - Revolução na Rússia. A notícia da queda do Czar o encontra nos EUA, de onde parte imediatamente para a Rússia
04 de Maio - Chega a Petrogrado e se opõe radicalmente ao governo provisório. Defende a continuidade da revolução e a passagem de todo o poder aos soviets. Esta posição o aproxima (ainda mais) de Lenin, que havia convencido os bolcheviques – Teses de Abril - da necessidade da revolução socialista (e dos bolcheviques).
Julho - Com a derrota das jornadas de 3 e 4 de julho, é preso junto com vários líderes bolcheviques, acusado de traição de Estado. Da cadeia, adere aos bolcheviques e é eleito ao seu Comitê Central.
Agosto - Mesmo preso, mantem-se em plena e intensa atividade, dirigindo desde a prisão a resistência à tentativa de golpe de Kornilov.
Setembro - É solto da prisão. Os bolcheviques conquistam a maioria no soviet de Petrogrado e Trotsky é eleito seu novo presidente.
Outubro - Revolução na Rússia leva o proletariado ao poder. Sob a presidência de Trotsky e com a justificativa de defesa da capital contra as tropas alemãs, o Comitê Militar Revolucionário do Soviet de Petrogrado ocupa os principais prédios da capital e derruba o Governo Provisório. O poder é entregue ao II Congresso Pan-Russo dos Soviets.
Novembro e Dezembro - À frente do Comissariado do Povo para Assuntos Estrangeiros, lidera a delegação bolchevique que negociará a paz em separado com a Alemanha. Após um intenso drama e incontáveis perdas econômicas e territoriais, a paz é concluída.

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1918 - Líder do exército vermelho
É nomeado Comissário de Guerra e Presidente do Supremo Conselho de Guerra. Desde então até 1921 dirigirá todo o trabalho político, organizativo e militar que conduzirá os bolcheviques à vitória na guerra civil. Derrotará 14 exércitos estrangeiros e construirá um exército proletário de 5 milhões de homens e mulheres.

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1919 - Derrota da Revolução Alemã
Derrota da primeira revolução alemã. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht são mortos. As revoluções finlandesa e húngara também são derrotadas. Clima de incerteza na Rússia soviética. Apesar das importantes derrotas sofridas pelo proletariado, o ascenso revolucionário se mantém. Funda, junto com Lenin, a III Internacional, ou Internacional Comunista, o partido mundial da revolução proletária.

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1920 - NEP
Vislumbrando já a vitória do Exército Vermelho na guerra civil e preocupado com a reconstrução econômica do país, propõe, em um artigo no Pravda, medidas extraordinárias que um ano mais tarde serão formuladas mais claramente por Lenin e adotadas pelos sovietes sob o nome de NEP (Nova Política Econômica).

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1921 - Vitória na guerra civil
Vitória definitiva na guerra civil. Mantem-se formalmente à frente do Comissariado de Guerra. Rússia passa por um período de crise, com miséria e fome.

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1922 - Stálin, o novo Secretário Geral
Fundada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Apesar dos receios de Lenin, Stálin é eleito Secretário Geral do partido. Primeiros sinais de burocratização. "Questão georgiana": a mando de Stálin, Ordjonikidze agride fisicamente os dirigentes do partido georgiano para "convencê-los" a aderir à União Soviética. Lênin adoece, mas permanece parcialmente ativo e propõe a Trotsky um bloco para luta conjunta dentro do partido contra Stálin e a burocratização. (Em várias questões, Trotsky atua diretamente sob orientação de Lênin, mas recusa o confronto amplo e radical com a camada dirigente.)

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1923 - Burocratização
Ruptura pessoal entre Lênin e Stálin. Lênin deixa a cena política definitivamente. Acelera-se o processo de burocratização do Estado Operário. Trotsky sai à luta e publica "As lições de Outubro", onde faz um duro balanço da atuação de alguns velhos líderes bolcheviques durante a insurreição de 1917. Por sua vez, Stálin publica seu artigo "O socialismo em um só país", cujo nome diz tudo. Segunda revolução alemã. Trotsky propõe ao Politbureau que este o envie secretamente à Alemanha para dirigir a insurreição. O Politbureau recusa. A revolução é derrotada. A desmoralização se abate sobre toda a classe operária russa.

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1924 - Morte de Lênin
Lenin morre. Em seu testamento, alerta o partido contra o perigo de confiar o poder a Stalin. Enganado por Stalin sobre a data do enterro, Trotsky, que estava viajando, não comparece ao funeral. Stalin aparece como "mestre de cerimônias", fala em nome do partido e aumenta seu prestígio. Trotsky é afastado do Comissariado de Guerra. 

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1925 - Triunvirato contra Trotsky
Aproveitando-se do refluxo da revolução mundial, Stálin faz um bloco para defender as posições a favor do “socialismo num só país”. O triunvirato Stálin-Kamenev-Zinoviev derrota as posições de Trotsky em todas as instâncias do partido e o afasta de uma série de cargos de responsabilidade. 

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1926 - Oposição Unificada
Assume tarefas técnicas de menor importância e se abstém de polêmicas políticas públicas. Dedica-se ao estudo da economia. Percebe os perigos econômicos que ameaçam o Estado soviético e passa a defender a industrialização acelerada como única forma de manter a aliança operário-camponesa e, portanto, a estabilidade da ditadura proletária. Ao final do ano, explode novamente a luta fracional, desta vez unindo Trotsky, Zinoviev e Kamenev, a chamada "Oposição Unificada", contra Stálin e Bukharin, que defendiam que os camponeses ricos – os kulaks – e os NEPmen tivessem ampla liberdade de iniciativa empresarial, bandeira que ficou conhecida pela consigna “Enriquecei-vos”.

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1927 - Expulsão do partido
Com o centro nas questões da revolução chinesa e da luta contra o kulak dentro da URSS, a luta fracional assume proporções dramáticas e irreversíveis. A Oposição Unificada decide levar seus próprios slogans para a manifestação de comemoração dos 10 anos da Revolução de Outubro. Como retaliação, são todos expulsos do Politbureau, depois do Comitê Central e por fim do partido. Zinoviev e Kamenev recuam e apelam pela reintegração, no que são atendidos. Trotsky mantem-se firme em suas posições e permanece expulso. Na China, com os operários desarmados, sem soviets e com o partido comunista dissolvido dentro do Kuomintang, por política de Stálin-Bukharin, a revolução é derrotada.

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1928 - Perseguição
Deportação para Alma-Ata, na Ásia Central. Stálin inicia a luta contra Bukharin.

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1929 - Expulsão da Rússia
Expulsão da União Soviética e cassação de sua cidadania. Exílio na Turquia. Stalin, após liquidar qualquer oposição, assume o programa tardiamente as propostas econômicas imediatas de Trotsky: coletiviza as terras e inicia a industrialização acelerada do país, utilizando, no entanto, métodos burocráticos e, por isso, causando imensas e desnecessárias perdas.

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1930 - Hitler
Trotsky prevê o perigo que ameaça a Alemanha e a classe operária do mundo inteiro, caso Hitler chegue ao poder. Passa a defender a política de unidade entre o Partido Socialista e o Partido Comunista para barrar a ascensão do nazismo. O Partido Comunista alemão, sob a orientação de Stálin, recusa unidade com os socialistas, classificando-os de "ala esquerda do fascismo" ou "social-fascistas". 
1931 - Ascenso
Queda da monarquia espanhola e proclamação da república. Abre-se um poderoso ascenso operário e camponês. Na Alemanha o Partido Comunista se alia aos nazistas para derrubar o governo socialista da Prússia, no episódio conhecido como "Plebiscito Vermelho" (o mesmo plebiscito foi chamado pelos nazistas de "Plebiscito Negro").
1933 - Nova Internacional
Exílio na França. Graças à política do PC alemão, Hitler chega ao poder. Trotsky passa a defender a ruptura com a Comintern e a construção de uma nova Internacional.

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1935 - Fuga
Exílio na Noruega. Guinada à direita da Comintern. A direção stalinista utiliza os eventos alemães para defender a construção de governos de coalizão de classes com a burguesia democrática como única forma de derrotar o fascismo. Surgem assim as "Frentes Populares". Trotsky condena a nova política e segue defendendo a Frente Única Operária em oposição às frentes com a burguesia.

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1936 - Processos de Moscou
Começam o processos de Moscou que condenam, por meio de acusações falsas, os mais importantes dirigentes do partido ao exílio e fuzilamento. Na Espanha, o ascenso do movimento de massas desemboca num governo de Frente Popular. A direita reage quase imediatamente e organiza um golpe contra o governo, dando início à Guerra Civil Espanhola. A política do PC espanhol é derrotar o fascismo em união com a burguesia, sem modificar as relações sociais do país. Trotsky, ao contrário, defende que a vitória contra o fascismo só é possível sob a condição de que se exproprie a burguesia urbana e rural e se entregue o poder à classe operária.

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1937 - Ofensiva
Exílio no México. Zinoviev e Kamenev são condenados nos processos de Moscou e fuzilados. Na Espanha, o governo de Frente Popular inicia uma ofensiva para desarmar os operários e devolver as terras expropriadas aos latifundiários, como forma de manter a unidade com a burguesia. Trotskistas e anarquistas são mortos pela Frente Popular. Começa a "guerra civil dentro da guerra civil".

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1938 - Fundação da IV Internacional
Congresso de Fundação da IV Internacional em Paris. Por razões de segurança, Trotsky não participa, mas escreve as bases programáticas da nova organização, o Programa de Transição. Último Processo de Moscou. Bukharin é condenado e fuzilado. O último filho vivo de Trotsky, Leon Sedov, morre em circunstâncias não esclarecidas em Paris.

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1939 - II Guerra Mundial
Vitória definitiva de Franco na Espanha. Pacto Molotov-Ribbentropp de não-agressão entre Alemanha e URSS. O pacto incluía uma cláusula secreta de partilha da Polônia. Em setembro, Hitler e Stálin invadem a Polônia, o primeiro pelo oeste e o segundo pelo leste, e estabelecem uma nova fronteira entre Alemanha e URSS. Tem início a II Guerra Mundial.

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1940 - Assassinato de Trotsky
Janeiro - Trotsky inicia uma intensa luta política contra setores da IV Internacional que abandonavam a caracterização da URSS como Estado Operário, em função de seu regime totalitário, do poder da burocracia e de suas relações com o nazismo. Trotsky afirma que apesar da evidente degeneração, a URSS seguia sendo um Estado Operário, uma vez que permaneciam vivas as relações de propriedade oriundas da Revolução de Outubro.
24 de Maio - Primeiro atentado contra Trotsky: sua casa é metralhada. Ninguém sai ferido.
20 de Agosto - Segundo atentado: Trotsky é golpeado na cabeça com uma picareta por Ramon Mercader, agente stalinista.
21 de Agosto, 19:25 - Aos 60 anos de idade, Trotsky morre em decorrência do ataque sofrido no dia anterior.

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Fonte Blog PSTU 

“Professores: um movimento a se repensar”,





A década de 1980 é nomeada pelos economistas como “a década perdida”. Se  tomarmos o marco dos movimentos sociais e entre eles destacarmos o movimento  sindical, esta afirmação precisa ser revista. O fim da década de 1970 registra várias  greves de diferentes categorias, fenômeno que cresce ainda mais na década de 1980.  Não seria exagero afirmar que quase todos os trabalhadores urbanos, militantes ou não,  participaram de alguma greve nesta década. Com os professores não foi diferente. A categoria esteve presente em várias  manifestações e greves, sobretudo os que se vinculam às redes públicas.
No estado de  São Paulo, há duas grandes greves ainda nos anos 1970, em 1978 e 1979, que  inauguram a participação dos docentes neste novo momento de lutas dos trabalhadores.

A greve de 1978 foi realizada em torno de duas motivações principais: o aumento salarial e a luta por um novo Estatuto do Magistério que incorporasse as reivindicações  dos professores. As lideranças provinham de diferentes grupos de oposição à Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e se  unificaram em torno da luta, criando a chamada “Comissão Aberta”, que se converteu
em “Comando Geral de Greve”. O Movimento durou 24 dias e foi vitorioso, uma vez que um novo Estatuto foi votado e aprovado e houve um salto organizativo, já que  diversos grupos se formaram nas regionais: Graças ao despertar forçado do magistério paulista, frente à acelerada  deterioração das condições de trabalho, dos salários, da situação funcional da grande maioria dos docentes, despertar do qual a greve de 1978 foi a  mais acabada consequência, o ganho da categoria foi real (CAÇÃO,  2001:99)

Esta força adquirida em 1978 e as lutas travadas pelas oposições à diretoria da  Apeoesp levaram a categoria a uma nova greve, no ano seguinte. O novo governo, de  Paulo Maluf, não demonstrava nenhuma tolerância com o movimento. Quando a  oposição ganhou a diretoria da Apeoesp, ele impediu o desconto em folha dos associados da entidade como forma de enfraquecê-la, já que esta não era sindicato.1 O
movimento foi duramente reprimido e isto dificultou novas conquistas: A greve de 1979 foi derrotada pela política adotada durante o governo de  Paulo Salim Maluf. Uma das medidas repressivas desencadeadas pela  administração estadual, através do secretário de educação Luís Ferreira  Martins, foi exigir que os diretores de escolas enviassem à secretaria as  listas dos professores grevistas. Os diretores se recusaram a executar tal  medida. Andando na contramão da decisão do governo estadual, a União  dos Diretores do Ensino Médio Oficial, cujos associados eram efetivados  através de concurso público e não mediante nomeação política, lançou a  seguinte palavra de ordem: “Diretor não é feitor, é educador” (FERREIRA  JR, 200)
A conquista da Apeoesp pela nova direção, ligada ao novo sindicalismo que  então se fazia presente em diferentes categorias profissionais, foi um importante  impulso para as inúmeras greves realizadas na década de 1980, todas relacionadas às  questões salariais. Além deste tema, outras questões estavam presentes, relacionadas à  carreira docente, à defesa da escola pública e mesmo a discussões educacionais.2 Estas lutas evidenciavam, ainda, as precárias condições salariais da categoria,  que já experimentara uma grande perda de poder aquisitivo. De acordo com Luiz  Antonio Cunha, “o professor primário da rede estadual de São Paulo tinha o salário  médio por hora equivalente a 8,7 vezes o salário mínimo, em 1967. Já em 1979, esta  média havia baixado para 5,7 vezes” (CUNHA apud FERREIRA JR, 2009:7). O  governo de Paulo Maluf, além de reprimir os professores, ainda deteriorou mais as  condições salariais, retirando cinco referências da categoria, que foram objeto de luta e  conquista no governo seguinte: Em São Paulo, o achatamento salarial referido dar-se-á mais intensamente a  partir de 1979, no governo Maluf, e, em 1990 os salários dos professores  equivaliam à quarta parte daqueles pagos em 1979. Segundo a Folha de São
Paulo,3 em sete meses o professorado paulista havia passado do 6º para o  16º no ranking de salários do magistério brasileiro (CAÇÃO, 2001:101).
A eleição direta para governadores alçou o oposicionista Franco Montoro  (PMDB) ao executivo paulista, a partir de 1982. Esta nova conjuntura trouxe à tona  antigas reivindicações e a luta por um novo Estatuto do Magistério, que foi conseguido  em 1985. Os dois Estatutos (1978 e 1985) trazem importantes conquistas relativas ao  estabelecimento de uma nova jornada docente, contemplando horas-atividades que são  pagas para a preparação de aulas e correção de avaliações. Transformam, ainda, as horas  de trabalho em horas-aula, o que diminui o tempo trabalhado em sala de aula. Nada  disto, contudo, é capaz de ocultar o fato que os salários diminuem cada vez mais. A  resistência a esta situação é percebida nas inúmeras greves que acontecem: de 1984 a  1995 acontecem quinze greves, o que representa quase dois anos letivos sem aulas
(PALMA FILHO, 1996:319).
 A repressão mais uma vez está presente nestes movimentos. Um dos momentos  marcantes foi a greve de 1987, já no governo de Orestes Quércia, também do PMDB, que proíbe manifestação dos docentes à frente do “Palácio do Governo”. Tal qual um  rei absolutista, o chefe do Executivo lança mão de um grande aparato repressivo para  impedir a chegada dos manifestantes à sede do governo, fato que foi noticiado pela imprensa paulista. No dia 8 de março, o jornal O Estado de São Paulo assim se referiu  ao evento: O que pregava o governador – o mesmo Orestes Quércia que em 1978,  quando senador, defendia a legitimidade do direito de greve e fazia um apelo  ao governo federal “para a realidade dramática dos trabalhadores em
greve”, é o governador que ordenou no último dia 25 de fevereiro a  repressão a 50 mil funcionários grevistas que marchavam em direção ao  Palácio dos Bandeirantes. Tropa de choque, gás lacrimogêneo, helicópteros,  caminhões do Corpo de Bombeiros usados contra os manifestantes que  resultaram em uma professora pisoteada em meio à confusão causada pela  cavalaria da Polícia Militar (CEDI, 1990:199).

O jornal aproveita para lembrar os reclamos do então senador a favor dos  metalúrgicos nas famosas greves do ABC paulista em 1978, contrastando com sua  postura atual. O fato é que as inúmeras greves, e os muitos dias de paralisação delas  decorrentes, mostram a postura inflexível dos governos estaduais que se sucedem e que  se recusam às negociações. A busca pela recomposição salarial é árdua e nem sempre é
vista com bons olhos nem pela população, nem por parte dos professores que se  recusam ao movimento. Ainda em 1991, Angelina Teixeira Peralva, em artigo intitulado  “Professores: um movimento a se repensar”, faz considerações importantes sobre as  greves e seu significado, apontando uma possível solução, que seria promover um maior  encontro dos docentes com as lutas da sociedade, sobretudo as lutas dos menos  favorecidos.



História Sindical no Brasil

• A classe operária no Brasil começa a se desenvolver no final do século 19, resultado das transformações econômicas, sociais e políticas da época. O modelo agrário-exportador, baseado na produção de café, ganhou nova força ao se deslocar do Vale do Paraíba para o Oeste Paulista, criando as condições para a constituição do capital industrial e do trabalho assalariado no Brasil. 

A mão-de-obra escrava foi sendo substituída pela européia, atraída para trabalhar nas fazendas e nas indústrias que se desenvolviam nas cidades. Os primeiros núcleos operários surgiram principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, formados em sua maioria por imigrantes vindos da Itália, Espanha e Portugal. 

As condições de vida e de trabalho eram extremamente difíceis. Os salários eram baixos e a jornadas de trabalho eram de 12 a 15 horas por dia, sem direito ao descanso nos finais de semana e feriados. Sem contratos de trabalho, as demissões aconteciam verbalmente e a qualquer momento. 

Os patrões não se responsabilizavam por doenças ou acidentes de trabalho. Nas fábricas, os operários recebiam ameaças, castigos e multas. Quando alguém ficava doente era socorrido por meio de listas. Os aluguéis eram caros e vivia-se em cortiços sem água, luz e esgoto, geralmente perto das fábricas.

As primeiras organizações e reivindicações

As associações mutualistas e de socorro mútuo tinham por finalidade obras assistenciais e ajuda recíproca nos problemas de saúde, acidentes, etc. Foram as primeiras formas de organização da classe operária, a exemplo da Sociedade de Oficiais e Empregados da Marinha (1833), Sociedade de Auxílio-Mútuo dos Empregados da Alfândega (1838), Sociedade de Bem-Estar dos Cocheiros (1856) e Associação de Auxílio-Mútuo dos Empregados da Tipografia Nacional (1873). 

As ligas operárias começaram a ultrapassar os limites do assistencialismo e do mutualismo. Reunindo quase sempre operários de diversos ofícios e indústrias, tinham como objetivo a defesa dos interesses imediatos e comuns de todas as categorias, como melhoria dos salários, diminuição da jornada de trabalho, etc. Mais tarde apareceram as sociedades de resistência, que eram núcleos mais homogêneos surgidos das primitivas ligas.

Nos primeiros anos do século 20, as associações de resistência evoluíram e deram origem aos sindicatos. As principais lutas dos sindicatos tinham um caráter restrito e reivindicavam melhores condições de trabalho: aumento salarial, jornada de oito horas, repouso semanal, regulamentação do trabalho da mulher e do menor. 

Nessa fase inicial da organização do movimento operário, que se estendeu até o início dos anos 20, suas maiores lideranças eram de formação anarquista e anarco-sindicalista. Ficaram conhecidos nomes como Everardo Dias (1883-1968, operário gráfico e editor do jornal “O Livre Pensador”); Oreste Ristori (jornal “La Bataglia”), Edgard Leuenroth (jornal “A Plebe”), Neno Vasco (jornal “O Amigo do Povo”), entre outros. Eles organizaram os sindicatos livres, as federações de trabalhadores e a primeira Confederação Operária Brasileira (COB).

O I Congresso Operário Brasileiro e a fundação da Confederação Operária Brasileira
Insatisfeitos com a política dos patrões e do governo, os trabalhadores avançaram em sua organização e realizaram entre 15 e 20 de abril de 1906, no Rio de Janeiro, o I Congresso Operário Brasileiro. Participaram 43 delegados, representando 28 sindicatos. 

Com maioria de anarco-sindicalistas, o congresso votou a criação da Confederação Operária Brasileira (COB), optando pela luta direta de caráter econômico, contra a luta política levada pelos partidos, em especial a eleitoral. O assistencialismo, o mutualismo e o cooperativismo também foram negados.

Como métodos de ação, foram aprovados a greve (o principal instrumento), sabotagem, boicote, manifestações públicas e outros. O congresso definiu o 1º de Maio como dia de luta dos trabalhadores e a publicação do jornal “A Voz do Trabalhador”.
Sobre estrutura de funcionamento, foi aprovada a substituição das diretorias por comissões de administração; a relação dos sindicatos com as federações como confederativa e não centralizada; não-remuneração dos funcionários e diretores, salvo exceções. 

Outras iniciativas foram: uma campanha pela jornada de oito horas; posicionamentos contra o militarismo, as multas nas fábricas, pela indenização por acidentes de trabalho, pelo pagamento em dia dos salários, contra o alcoolismo, pela regulamentação do trabalho feminino e proibição do infantil, contra os aumentos dos aluguéis, em defesa dos colonos (contra os maus tratos dos fazendeiros), pelo direito de organização dos sindicatos rurais, pela garantia do direito de reunião e pela criação de escolas laicas para os sindicalizados.

O 1º de Maio após o congresso foi concorrido. Quinze dias depois, os ferroviários entraram em greve. Em 1907 as atividades seguiram aumentando. Entraram em greve os trabalhadores do Moinho Matarazzo. Paralisaram as atividades os metalúrgicos, gráficos, tecelões, costureiras, cigarreiros, encanadores, etc. 

A greve alastrou-se por todo o estado de São Paulo e o governo reagiu reprimindo o movimento. Em meio à mobilização e à repressão, a COB foi fundada somente em 1908, unindo cerca de 50 entidades sindicais. 

O Congresso Amarelo e a Lei Adolfo Gordo

Em resposta à crescente organização dos trabalhadores, o governo realizou, por meio do deputado Mário Hermes da Fonseca (filho do então presidente da República), um outro congresso operário para ganhar uma parte dos dirigentes sindicais. Ele ocorreu em 1912, com 187 delegados e cerca de 70 entidades, com passagens pagas pelo governo.

Suas principais deliberações foram a construção de casas operárias financiadas pelo governo, a criação de auxílio e proteção, a regulamentação do trabalho da mulher e do menor, a jornada de trabalho de oito horas e o incentivo ao mutualismo e ao cooperativismo. Aprovou-se também a criação de um partido operário e da Central dos Trabalhadores Brasileiros (CTB). 

Como parte dessa ofensiva, foi promulgada em janeiro de 1913 a Lei de Expulsão dos Estrangeiros, conhecida como Lei Adolfo Gordo, que provocou a expulsão de mais de uma centena de operários, na sua maioria líderes sindicais. 

O II Congresso Operário Brasileiro

O movimento operário não se intimidou. Na campanha contra a Lei Adolfo Gordo, o jornal “A Voz do Trabalhador” voltou a ser publicado e o II Congresso Operário Brasileiro foi convocado.

Realizado em 1913 no Rio de Janeiro, esse Congresso teve 100 delegados e 60 entidades, ainda com maioria de correntes anarquistas e anarcosindicalistas.

Debateu-se o que seria o socialismo anarquista e a luta contra o assistencialismo. 
O congresso reconheceu novamente a ação direta como método de luta e discutiu questões de organização, o papel da imprensa operária e da ação sindical. Foi aprovada uma campanha pelo salário mínimo nacional e contra a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial.

A greve geral de 1917

A Primeira Guerra afetou profundamente a economia do país e a vida dos trabalhadores. Começaram a faltar produtos industrializados vindos da Europa e alimentos; a jornada e o ritmo de trabalho, para garantir a exportação; os aluguéis subiam. O movimento operário começou a reagir.

No início de julho de 1917, cerca de 400 operários pararam a indústria têxtil Cotonifício Rodolpho Crespi, em São Paulo. Logo outras fábricas entraram em greve, como a Estamparia Ipiranga, Lanifício de Antonio Camilis e a Antarctica. As paralisações chegaram às fábricas de Itaquera, Cotia e Ribeirão Pires.

O governo reprimiu o movimento utilizando a polícia. Os feridos e detidos eram centenas. O sapateiro Antônio Martinez morreu nos conflitos, provocando uma reação imediata do movimento. Na manhã de 11 de julho, seu enterro se tornou uma simbólica manifestação. O cortejo com mais de 10 mil pessoas partiu da rua Caetano Pinto, no Brás, se estendendo por toda a rua Rangel Pestana, até a ladeira do Carmo, no Centro.

Na volta, um assalto a uma carrocinha de pão iniciou uma onda de saques, transformando a greve geral numa revolta popular. O comércio fechou portas e os armazéns dos bairros foram atacados. 

Entre os dias 12 e 15 de julho o número de grevistas reivindicando aumento salarial e melhores condições de trabalho passou de 25 para 45 mil trabalhadores. Sob a direção do Comitê de Defesa Proletária (CDP), fundado em 1915, a cidade de São Paulo ficou nas mãos dos grevistas por dezenas de dias. Assembléias gerais com até 80 mil pessoas eram realizadas na Praça da Sé, nos bairros da Móoca e da Lapa.

O governo não conseguiu vencer o movimento com a repressão. A greve só chegou ao fim com uma negociação entre o CDP e uma comissão de jornalistas representando o governo e os patrões. O governo prometeu um aumento de 20% dos salários, nenhuma perseguição ou punição aos grevistas, cumprimento da jornada de oito horas e proibição do trabalho noturno para as mulheres e menores.

As promessas não foram cumpridas e os patrões demitiram os grevistas. Mas a greve geral transformou-se num exemplo de luta para a classe trabalhadora do país. 

O fracasso da greve geral insurrecional de 1918

O 1º de Maio de 1918 foi diferente ao promover uma grande confraternização e solidariedade com a Revolução Russa. No mesmo ano, inspirados pela idéias anarco-sindicalistas, tentou-se organizar uma nova greve geral. Os ativistas queriam eliminar, pela ação direta e violenta, a exploração capitalista e criar uma sociedade igualitária. 

O centro do plano era a cidade do Rio de Janeiro, mas a tentativa de tomar o poder resultou em fracasso. Enormes manifestações ocorreram no campo de São Cristóvão, na praça da República e em outros pontos da cidade, com o objetivo de organizar a inssureição. No entanto, as forças repressivas cercaram os protestos, prendendo dezenas.

Ficou evidente que, apesar do heroísmo, a classe operária dirigida pelos anarquistas não estava suficientemente organizada. Não tinham um partido centralizado nacionalmente como ocorrera na Rússia.

A superação do anarquismo e a fundação do PCB
Em congresso ocorrido nos dias 25, 26 e 27 de março de 1922, foi fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB). Diferente de outros países, seus dirigentes não surgiram da social-democracia, mas do anarco-sindicalismo e do anarquismo. Com exceção do alfaiate espanhol Manuel Cendón, que tinha alguma noção do marxismo, os demais haviam militado no anarco-sindicalismo: Astrogildo Pereira Duarte da Silva (jornalista), Cristiano Cordeiro (advogado), Joaquim Barbosa (alfaiate), João da Costa Pimenta (tipógrafo), Luís Alves Peres (varredor), Hermógenes da Silva (eletricista e ferroviário), Abílio de Nequete (barbeiro) e José Elias da Silva (construção civil).

A formação do PCB materializava as conclusões a que ex-dirigentes anarquistas haviam chegado quanto aos limites do projeto libertário. Entenderam a necessidade de uma organização, um partido do tipo bolchevique, capaz de centralizar e reunir a ação política da classe operária para destruir o Estado e conquistar o poder político, rompendo a visão “economicista” e “apolítica” da ação direta. 

Mas o recém-fundado PCB teve um período breve de atuação legal. Em julho de 1922 o então presidente Artur Bernardes, em razão das reivindicações operárias e da rebelião dos tenentes do Forte de Copacabana, decretou o estado de sítio. A sede do PCB foi fechada e o partido passou à ilegalidade.

Apesar disso, o PCB começou a lutar pela direção sindical e política da classe operária. Defendendo sua unidade sindical e política, buscou construir a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) e um bloco político, o Bloco Operário e Camponês (BOC). Paralelamente, a Juventude Comunista foi criada em 1925. No mesmo ano é lançado o jornal “A Classe Operária”.

A construção da CGT

Em 1923 ocorre a Conferência Sindical Regional do Rio de Janeiro, convocada pela Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, dirigida pelos anarquistas. Os comunistas presentes na conferência lutaram pela unidade do movimento, defendendo que a federação abrigasse todos os sindicatos, sem distinção de tendências. Os anarco-sindicalistas defendiam a unidade com base nos princípios anarquistas. Ao ficarem em minoria, se retiraram da conferência e fundaram a Federação Operária. 
Em fins do mesmo ano, outra conferência aconteceu, promovida pela Confederação Sindicalista-Cooperativista Brasileira, dirigida pelos pelegos. A intervenção dos delegados comunistas ganhou a maioria. Com isso, o presidente da CSCB pôs fim à conferência.

Em 1925, mais uma conferência é convocada pela Federação Operária do Rio de Janeiro. Chocam-se novamente os pontos de vistas de comunistas e anarquistas.

Enquanto os anarquistas defenderam a unidade orgânica com base nos “puros princípios” anarquistas, os comunistas defenderam a unidade com aqueles que não defendiam tais princípios. Os comunistas obtiveram a maioria e foi constituído um comitê provisório de organização. No entanto, seus trabalhos foram interrompidos pela repressão após o 1º de Maio.

A idéia de construir a CGT surgiu em julho, contraditoriamente proposta pela União dos Empregados do Comércio (UEC), de orientação pelega. Os comunistas apoiaram a idéia e, em seu 2º Congresso realizado naquele ano, aprovaram um plano para a construção da CGT. A idéia era constituir grupos e comitês pró-CGT nos sindicatos, que se uniriam através de federações em nível regional, estadual e nacionalmente, por meio do Comitê Central Nacional provisório, encarregado de levar os trabalhos até o congresso de fundação. Os anarco-sindicalistas e os próprios sindicalistas amarelos (pelegos e reformistas) se uniram contra esse plano, mas logo ele ganharia o apoio da maioria da classe operária.

Em 1929 é finalmente realizado o Congresso Sindical Nacional e é fundada a Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB). Essa política, somada à tática do Bloco Operário e Camponês (BOC) - uma frente que deveria reunir o conjunto das oposições - formado em 1928, levou o PCB a ganhar a hegemonia na classe operária.

FONTE SITE PSTU