sábado, 28 de setembro de 2013

A Incerteza Histórica

A INCERTEZA HISTÓRICA

Quem teria pensado, na primavera de 1914, que um atentado
cometido em Sarajevo desencadearia a guerra mundial que
duraria quatro anos e que faria milhões de vítimas?

Quem teria pensado, em 1916, que o exército russo se desagregaria e que um pequeno partido marxista, marginal, provocaria, contrariamente à própria doutrina, a revolução comunista em outubro de 1917?

Quem teria pensado, em 1918, que o tratado de paz assinado
trazia em si os germes da Segunda Guerra Mundial, que arrebentaria em 1939?

Quem teria pensado, na prosperidade de 1927, que uma
catástrofe econômica, iniciada em 1929, em Wall Street, se abateria sobre o planeta?


Quem teria pensado, em 1930, que Hitler chegaria legalmente ao poder em 1933?

Quem teria pensado, em 1940-41, afora alguns irrealistas, que o formidável domínio nazista sobre a Europa, após os impressionantes progressos da Wehrmacht na URSS até as portas de Leningrado e Moscou, seria acompanhado em 1942 pela reviravolta total da situação?

Quem teria pensado, em 1943, durante a plena aliança entre soviéticos e ocidentais, que a guerra fria se manifestaria três anos mais tarde entre estes mesmos aliados?

Quem teria pensado, em 1980, afora alguns iluminados, que o Império Soviético implodiria em 1989?

Quem teria imaginado, em 1989, a Guerra do Golfo e a guerra que esfacelaria a Iugoslávia?

Quem, em janeiro de 1999, teria sonhado com os ataques aéreos sobre a Sérvia, em março de 1999, e no momento em que estas linhas são escritas, pode medir suas conseqüências?

Ninguém pôde responder a estas questões no momento da escrita destas linhas, que, talvez, ficarão ainda sem resposta durante o século XXI. Como dizia Patocka: “O devenir é doravante
problematizado e o será para sempre”. O futuro chama-se incerteza.

Edgar Morin

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Russia acusa os Estados Unidos de provocar inundações

O líder do Partido Liberal Democrático russo, Vladimir Zhirinovsky, acusou os Estados Unidos de ter provocado as inundações que castigam o Extremo Oriente da Rússia. Segundo ele, os norte-americanos estariam inferindo em fenômenos naturais da Terra com armas climáticas. Em entrevista à rádio Serviço Russo de Notícias, o parlamentar afirmou que, apesar de também possuir armamento do gênero, seu país está sempre em posição de defesa, temerosa em retaliar este tipo de agressão.
Na opinião do deputado, tanto as inundações no Extremo Oriente russo quanto em Sochi são obra dos Estados Unidos. E se no Extremo Oriente o objetivo norte-americano seria meramente de testar a eficácia destas armas e causar altos gastos ao governo russo, em Sochi as inundações teriam por finalidade minar a realização das Olimpíadas de 2014.
Famoso na Rússia por suas polêmicas declarações, Zhirinovsky destacou que seu país dispõe de todos os meios para responder à altura a estas agressões climáticas, podendo mediante uma simples ordem do governo, provocar terremotos e tsunamis.
O deputado acredita que a influência sobre o clima da Rússia vem sendo realizado no âmbito do projeto científico norte-americano HAARP, cujas instalações estão localizadas no Alasca, próximo ao território russo. Segundo Zhirinovsky, apesar de ter por objetivo declarado o estudo da ionosfera e da aurora boreal, na opinião de muitos especialistas o projeto também possui meios de provocar mudanças climáticas.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Passado/ presente no pensamento selvagem

O pensamento selvagem, no que se refere a mitos e rituais, estabelece uma relação peculiar entre passado e presente: “A história mìtica tem o paradoxo de ser ao mesmo tempo disjuntiva e conjuntiva, em relação ao presente... Graças ao ritual, o passado “disjunto” do mito articula-se, por um lado, com a periodicidade biológica e sazonal, e por outro, com o passado “conjunto” que, ao longo das gerações, une os mortos e os vivos”.

A propósito de algumas tribos australianas distinguem-se os ritos histórico-comemorativos que refletem, como num espelho, os protagonistas e os seus altos feitos e que transferem o passado para o presente” e os ritos de luto, que correspondem “a um procedimento inverso: em lugar de confiarem a homens vivos o
encargo de personificarem longínquos antepassados, estes ritos asseguram a reconversão em antepassados de homens que acabaram de morrer”.

Nos Nuer, o tempo é medido por classes de idade; um primeiro tipo de passado refere-se aos pequenos grupos e dilui-se rapidamente “em remotos tempos num outrora longìnquo”; um segundo tipo de passado constitui o “tempo histórico sequência de acontecimentos significantes para uma tribo” (inundações, epidemias, fomes, guerras) mas que se limita, sem dúvida, a uma cinquentena de anos vem depois um “plano das tradições e além “estende-se o horizonte do mito puro”, onde se confundem “o mundo, os povos, as civilizações que existiram todas ao mesmo tempo no mesmo passado imemoriável. Para os Nuer, a história válida termina um século atrás e as tradições conduzem-nos até dez ou doze gerações na estrutura da linhagem.

Nos Azande “presente e futuro sobrepõem-se de tal modo que o presente participa, por assim dizer, do futuro”. Os seus oráculos, muito praticados, contêm já o futuro. Lévi-Strauss julga poder identificá-lo nos Aranda da Austrália Central, através dos churinga, “objetos em pedra ou madeira, de forma aproximadamente oval, com extremidades pontiagudas ou arredondadas, frequentemente semeadas de signos simbólicos...”. Os churinga são os testemunhos palpáveis do período mítico.

Em certos povos da Costa do Marfim a consciência de uma passado histórico já se encontra desenvolvida lado a lado com uma multiplicidade de tempos diversos. OS Guéré têm cinco categorias temporais: 1) o tempo mítico, do antepassado mítico; 2) o tempo histórico, espécie de canção de gesta do clã; 3) o tempo genealógico, que pode abranger mais de dez gerações; 4) o tempo vivido, que se subdivide em tempo antigo, tempo da colonização e tempo da independência; 5) o tempo projetado da imaginação do futuro.
Eric Hobsbawm levando o problema da “função social do passado”, entendendo por passado o período anterior aos acontecimentos de que um indivíduo se lembra diretamente.
A maior parte das sociedades considera o passado como modelo do presente. Nesta devoção pelo passado há fendas das quais se insinuam a inovação e a mudança.
Se a ligação ao passado pode admitir novidades e transformações, na maior parte dos casos o sentido da evolução é apercebido como decadência ou declínio.
Muitos movimentos revolucionários tiveram como palavra de ordem e objetivo o regresso ao passado, por exemplo, a tentativa de Zapata de restaurar, no México, a sociedade camponesa de Morelos, no estado em que se encontrava quarenta anos antes, riscando a época de Porfírio Díaz. Não podemos deixar de referir as restaurações simbólicas, como a reconstrução da velha cidade de Varsóvia, tal como
se encontrava antes das destruições da Segunda Guerra Mundial: o nome 'Gana' transfere a história de uma parte da África para outra, geograficamente afastada e historicamente diferente. O movimento sionista não deu origem à restauração da antiga Palestina judaica, mas a um estado completamente novo: Israel. O passado só é rejeitado quando a inovação é considerada inevitável e socialmente desejável. Quando e como as palavras 'novo' e 'revolucionário' se tornaram sinônimos de 'melhor' e 'mais desejável'? Dois problemas específicos são os que se referem ao passado, como genealogia e cronologia. Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados. Os costumes e o gosto artístico do passado são muitas vezes adotados pelos revolucionários. A cronologia mantém-se essencial para o sentido moderno, histórico, do passado pois que a história é uma mudança orientada. Nadamos no passado como peixes na água e não podemos escapar-lhe. François Châtelet, ao estudar o nascimento da história na Grécia antiga, definiu previamente os traços caracterìsticos do “espìrito histórico” como categorias idênticas e simultaneamente diferenciadas:

a) “O espìrito histórico acredita na realidade do passado e considera que o passado, tal como é, e até certo ponto, no seu conteúdo, não é, por natureza, diferente do presente.

b) O passado e o presente são não só diferenciados, como por vezes se opõem: “Se o passado e o presente pertencem à esfera do mesmo, estão também na esfera da altericidade.

 A ideia de que já nada de novo sob o sol ou mesmo de que há lições do passado, só tem sentido para uma mentalidade não-histórica”.

c) Finalmente, a história, ciência do passado, deve recorrer a métodos científicos de estudo do passado.

“É indispensável que o passado, considerando como real e decisivo, seja estudado seriamente: na medida em que os tempos passados são considerados dignos de atenção e lhes é atribuída uma estrutura, em que lhes são dados traços atuais.

“A preocupação de precisão, no estudo do que outrora aconteceu, só no princìpio do século passado aparece claramente” com “o impulso decisivo dado por L. Von Ranke”, professor da Universidade de Berlim entre 1825 e 1871.

PASSADO/ PRESENTE

 A distinção entre passado e presente é um elemento essencial da concepção do tempo. Ela é reveladora, para os Franceses, do lugar desempenhado pela Revolução Francesa na consciência nacional, pois na França a História Contemporânea começa oficialmente em 1789.

Reencontramos cortes ideológicos deste tipo na maior parte dos povos e das nações. A Itália, por exemplo, conheceu dois pontos de partida do presente que constituem um elemento importante da consciência histórica dos italianos de hoje: o Renascimento e a queda do fascismo. Mas esta definição do presente defronta-se com o peso de um passado muito mais complexo. Gramsci escreveu: “Na Itália, a tradição da universalidade das forças nacionais (burguesas), para além do domínio puramente econômico-municipal, isto é, as “forças” nacionais só se tornam uma “força” nacional depois da Revolução Francesa e da nova posição que o papado ocupa na Europa”. A observação de Gramsci permite avaliar em que medida

a relação com o passado, a que Hegel chamava o “fardo da história” mais pesado para uns povos, que para outros. Mas a ausência de um passado conhecido e reconhecido pode ser fonte de grandes problemas de mentalidade ou identidade coletivas: é o caso das jovens nações, por vezes opostos, dos vários tipos de população pré-americana a exaltação dos acontecimentos relativamente recentes estão sempre presentes enquanto mitos.

Os hábitos de periodização histórica levam, assim, a privilegiar as revoluções, as guerras, as mudanças de regime político, isto é, a história dos acontecimentos.
A realidade da percepção e divisão do tempo em função de um antes e um depois não se limita à oposição presente/ passado: devemos acrescentar-lhe uma terceira dimensão, o futuro. Santo Agostinho exprimiu o sistema das três visões temporais: “o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras” [Confessions, XI, 20-26].

1. A oposição passado/ presente em psicologia

Seria errado transpor os dados da psicologia individual para o campo da psicologia coletiva e, mais ainda, comparar aquisição do domínio do tempo pela criança com a evolução dos conceitos de tempo através da história.

Para a criança, “compreender o tempo é essencialmente dar provas de reversibilidade” pressupõe a educação. A grande diferença é que a criança forma em grande parte a sua memória pessoal, enquanto que a memória social histórica recebe os seus dados da tradição e do ensino, aproximando-se porém do passado coletivo.
A polarização no presente, típica da criança muito pequena do débil mental, do maníaco, do ex-deportado, encontra-se em geral nos velhos e nos indivíduos que sofrem da mania de perseguição e temem o futuro. O exemplo mais clássico é o de Rousseau, ao recordar nas Confessions que a sua imaginação exaltada, que só lhe fazia prever cruéis futuros, o levava a refugiar-se no presente.

Em outros doentes, a angústia face ao tempo assume a forma de uma fuga para o futuro, ou de um refúgio no passado. O caso de Marcel Proust é exemplar na literatura.

2. Passado/ presente à luz da lingüística

O estudo das línguas oferece-nos outro testemunho cujo valor reside nelas desempenhar um papel importante e está estritamente ligada à tomada de consciência da identidade nacional no passado. Segundo Michelet, a história da França “começa com a lìngua francesa”.
A distinção passado/ presente (futuro), embora pareça natural, não é, é estranho a certas línguas: o hebreu nem sequer conhece o que existe entre passado, presente e futuro. O protogermânico não têm forma própria para o futuro. As línguas eslavas distinguem regularmente dois aspectos do verbo: o perfeito e o imperfeito.
Joseph Vendryès faz notar que “é tendência geral da linguagem empregar o presente com a função de futuro. O passado pode também ser expresso pelo presente. Inversamente, o passado pode servir para exprimir o presente. Em francês, o condicional passado pode ser usado com sentido de futuro. A distinção passado/ presente (futuro) é maleável e está sujeita a múltiplas manipulações.

O tempo da narração constitui um local de observação interessante. Harald Weinrich utilizando um estudo sobre textos da Idade Média. O passado não é só passado, é também portador de valores religiosos, morais, civis, etc. É o passado fabuloso do conto “Era uma vez...” ou “Naquele tempo...”.

André Miguel ao estudar a expressão do tempo num conto de As mil e uma noites, verifica que um tempo árabe, o mundi, tempo da concomitância do hábito, que exprime o presente ou o imperfeito.
Este conto tem como função contar aos árabes desapossados uma história de árabes triunfantes, e apresentar-lhes um passado como garantia de eternidade.

A gramática histórica pode também evidenciar a evolução do emprego dos tempos do verbo e das expressões lingüísticas temporais. Paul Imbs sublinha a linguagem, ao longo da Idade Média, torna-se cada vez mais clara a relação passado/ presente, variáveis com as classes sociais; o tempo dos filósofos, teólogos, o tempo do cavaleiro, o do camponês e o tempo dos burgueses.

Émile Benveniste estabeleceu uma importante distinção entre: a) tempo físico, “contìnuo, uniforme, infinito, linear; b) tempo cronológico ou “tempo do calendário”; c) tempo lingüístico que “tem o próprio centro no presente da instância da palavra;



A História de Hoje

Uma das suas mais antigas manifestações foi o desenvolvimento da história econômica e social e o do grande historiador belga Henri Pirenne, teórico da origem econômica das cidades na Europa Medieval.
Ruggiero Romano da Storiografia italiana oggi [1978], indicou um grupo de países em que a participação da história e dos historiadores na vida social e política, e não na vida cultural, é muito viva: a Itália, a França, a Espanha, os países sul-americanos, a Polônia, não se verificando este fenômeno nos países anglo-saxônicos, russos e germânicos.

O trabalho histórico e a reflexão sobre a historia desenvolvem-se hoje num clima de crítica e desencanto perante a ideologia do progresso e, mais recentemente, de repúdio pelo marxismo, pelo menos do marxismo vulgarizado. Toda uma produção sem valor científico perdeu completamente o crédito.

Com o marxismo, se excetuarmos Max Weber, foi o único pensamento coerente no século XX, é importante ver o que se produziu à luz da desafeição pela teoria marxista e a renovação das práticas históricas no Ocidente, não contra o marxismo mas fora dele, embora se concorde com Michel Foucault que alguns problemas capitais para o historiador ainda não podem ser postos, senão a partir do marxismo.

Uma interessante série de textos publicados há alguns anos por alguns historiadores marxistas italianos [Cecchi, 1974], mostrou a vitalidade e a evolução desta procura. Uma obra como Lê féodalisme, um horizon théorique de Alain Guerreau [1980] manifesta a existência de um pensamento marxista, forte e novo.


Já considerei alguns historiadores do passado como antepassados da história nova, pelo seu gosto pela investigação das causas, a sua curiosidade pelas civilizações, o seu interesse pelo material, o cotidiano, a psicologia. De La Popelinière, no fim do século XVI, a Michelet, passando por Fénelon, Montesquieu, Voltaire, Chateaubriand e Guizot encontra-se uma impressionante linhagem de diversidade. Huizinga (morto em 1945) cuja obra-prima O Outono da Idade Média [1919] fez entrar na história a sensibilidade e a psicologia coletiva.

Considera-se a fundação da revista “Annales” (“Annales d‟histoire économique et sociale” em 1929, “Annales. Économies, Sociétés, Civilisations” em 1945), obra de Marc Bloch e Lucien Febvre, como o ato que fez nascer a nova história. As ideias da revista inspiraram a fundação, em 1947, por Lucien Febvre de uma instituição de investigação e de ensino de investigação em ciências humanas e sociais. Em 1975, transformado na École dês Hautes em Sciences Sociales, este estabelecimento, em que a história tinha um lugar importante, ao lado da economia, sociologia, antropologia, psicologia, lingüística e semiologia, assegurou a difusão, na França e no estrangeiro, das ideias que tinham estado na origem dos “Annales”.

Fernand Braudel (n. 1902), autor de uma tese revolucionária sobre La Méditerranée et lê monde méditerranéen à l‟époque de Philippe II [1966], publicou nos “Annales” o artigo sobre a “longa duração” [1958], que viria a inspirar uma parte importante da investigação histórica subsequente.

Um pouco por toda a parte, nos anos 70, colóquios e obras, na sua maioria coletivas, fizeram o balanço das novas orientações da história. Um trabalho conjunto [Le Goff e Nora, 1974] apresentou, com o título Faire de l‟histoire, os “novos problemas”, as “novas abordagens” e os “novos objetivos” da história.

 Entre os primeiros, o quantitativo em história, a história conceitualizante, a história antes da escrita, a história dos povos sem história, a aculturação, a história ideológica, a história marxista, a nova história événementielle.

Os segundos referem-se à economia, demografia, antropologia religiosa, os novos métodos da história da literatura, da arte, da ciência e da política. A escolha de novos objetos tinha-se fixado no clima, o inconsciente, o mito, a mentalidade, a língua, o livro, os jovens, o corpo, a cozinha, a opinião pública, o filme, a festa.

Quatro anos mais tarde, em 1978, um dicionário da La nouvelle histoire [Lê Goff, Chartier e Revel, 1978], destacando também alguns temas: antropologia histórica, cultura material, imaginário, história imediata, longa duração, marginais, mentalidades, estruturas.

O diálogo da história com as outras ciências prosseguia, aprofundava-se, concentrava-se e alargava-se simultaneamente: história e economia, história e sociologia, entre a história e a antropologia. Um historiador como Carr escreve [1961]: “Quanto mais a história se torna sociológica e a sociologia, histórica, melhor será para ambas”; e um antropólogo como Marc Auté afirma: “O objeto da antropologia não é reconstituir sociedades desaparecidas, mas pôr em evidência lógicas sociais e históricas” [1979, p.170].

Neste encontro entre história e antropologia, o historiador privilegiou alguns domínios e problemas. Por exemplo, o do homem selvagem e do homem cotidiano, as relações entre cultura erudita e cultura popular e a história oral. O livrinho de Jean-Claude Bouvier e uma equipe de antropólogos, historiadores e linguistas: valoriza as relações entre oralidade e discurso sobre o passado, define os etnotextos, assim como um método para os recolher e utilizar; e as relações de Dominique Aron-Schnapper e Daniele Hanet sobre a constituição de arquivos orais na história da segurança social.

Destas experiências, destes contatos, destas conquistas, alguns historiadores – em cujo número me incluo – desejavam que se constituísse uma nova disciplina histórica, estritamente ligada à antropologia: a antropologia histórica.





segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Michel Foucault e a Trilogia das Razões.

 Michel Foucault ocupa um lugar excepcional na história por três razões.

Primeiro, porque é um dos maiores historiadores novos. Historiador da loucura, da clínica, do mundo do caráter, da sexualidade, introduziu alguns dos novos objetos “provocadores” da história e pôs em evidência uma das grandes viragens da história ocidental, entre o fim da Idade Média e o século XIX: a segregação dos desviados.

Em seguida, porque fez o diagnóstico mais perspicaz sobre esta renovação de história. Faz a sua análise em quatro pontos:

1) “O questionar do documento”: “A história tradicional dedicava-se a “memorizar” os monumentos do passado, a transformá-los em documentos; nos nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos e que, onde se decifrava traços deixados pelos homens, onde se deixava reconhecer em negativo o que eles tinham sido, há uma amálgama de elementos que têm de ser isolados, agrupados, tornados eficazes, postos em relação, integrados em conjuntos”.

2) “A noção de descontinuidade adquire um papel de maior relevo nas disciplinas históricas”.
3) O tema e a possibilidade de uma história global começam a perder consistência e assiste-se ao esboçar do desígnio, bem diferente, do que poderia chamar-se uma história geral.

4) Novos métodos. A nova história reencontra um certo número de problemas metodológicos. Podemos citar dentre eles: a constituição de corpus coerentes e homogêneos de documentos, o estabelecer de um princípio de seleção; a definição do nível de análise e dos elementos que para ele são pertinentes; as referências – explícitas ou não – a acontecimentos, instituições e práticas; a especificação de um método de análise; a delimitação dos conjuntos e subconjuntos que articulam o material estudado a determinação das relações que permitem caracterizar um conjunto.

Finalmente, Foucault propõe uma filosofia original da história, estritamente ligada à prática e à metodologia da disciplina histórica. “Para Foucault, o interesse da história não está na elaboração de invariantes, quer filosóficas quer organizadas nas ciências humanas. A história é uma genealogia nietzschiana. Por isso, a história passa por ser filosofia; está, no entanto, muito longe da vocação empirista tradicionalmente atribuída à história.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Os Gastos em Educação no Brasil e No Mundo

O Brasil é o 15º maior gastador, mas só aparece em 53º - de um total de 65 países - quando se trata de qualidade da educação. Confira como ele se compara a outras nações


Apesar do investimento brasileiro ser próximo da média dos países da OCDE, o país se encontra somente em 53º lugar - de um total de 65 - no Pisa, um programa de avaliação da qualidade da educação da mesma organização. Ou seja, maiores investimentos não necessariamente acompanham, na mesma proporção, uma melhora no desempenho dos estudantes.
O Brasil é o 15º que mais investe o PIB na área na lista da OCDE. Os lanternas no ranking foram Indonésia (investimento de 3% do PIB), Índia (investimento de 3,5%), Japão (3,8%), Eslováquia (4,1%) e República Tcheca (4,4%).
Confira os maiores “gastadores” e sua posição no ranking de qualidade educacional:
RankingPaísGasto com educaçãoPosição no Pisa
1Islândia7,80%16º lugar
2Noruega7,30%12º lugar
3Suécia7,30%19º lugar
4Nova Zelândia7,20%7º lugar
5Finlândia6,80%3º lugar
6Bélgica6,60%11º lugar
7Irlanda6,50%21º lugar
8Estônia6,10%13º lugar
9Argentina6%58º lugar
10Áustria6%39º lugar
11Holanda5,90%10º lugar
12França5,90%22º lugar
13Israel5,80%37º lugar
14Portugal5,80%27º lugar
15Brasil5,70%53º lugar
16Eslovênia5,70%31º lugar
17Reino Unido5,60%25º lugar
18Suíça5,50%14º lugar
19Estados Unidos5,50%17º lugar
20México5,30%48º lugar
21Hungria5,10%26º lugar
22Polônia5,10%15º lugar
23Canadá5,10%6º lugar
24Alemanha5,10%20º lugar
25Coreia do Sul5%2º lugar
26Espanha5%33º lugar
27Austrália5%9º lugar
28África do Sul4,80%(não participa)
29Rússia4,70%43º lugar
30Itália4,70%29º lugar

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Salvador Allende, Lições para hoje.

Em 04 setembro de 1970 Salvador Allende, o candidato da Unidade Popular, coalizão de minoria comunista, socialista e radical e três outros agrupamentos políticos obtida nas eleições presidenciais chilenas.

Allende representou a linha mais radical socialismo chileno e durante a década de sessenta provou na prática a sua profunda solidariedade e de amizade com o povo cubano e do governo, a ponto de que quando você cria as ondas, a Organização Latino-Americana de Solidariedade, para defender o cada vez mais Revolução Cubana assediado a presidência desta instituição caiu nas mãos do então senador chileno. Três candidatos à eleição de 4 de Setembro: para além de Allende estava assistindo o candidato da direita tradicional, e ex-presidente Jorge Alessandri e falhando e não os democratas-cristãos, Radomiro Tomic, mal posicionada por causa do fiasco que tinha foi a chamada "Revolução em Liberdade" que Washington queria suprimir a revolta popular impulsionada nível continental incessantemente pelo brilhante exemplo de Cuba. No final do dia, a contagem jogou estes números: Allende (UP), 1.076.616 votos; Alessandri (Partido Nacional), 1.036.278, e Tomic (DC), 824,849. Mas a lei eleitoral do Chile estipulado que, se o candidato vencedor não obteve maioria absoluta dos votos populares Congresso Plenário deve eleger o novo presidente a partir dos dois primeiros. Ninguém escapou do enorme significado histórico assumiria a consolidação da vitória de Allende: ser o primeiro presidente marxista da história, que chegou ao poder em um país do Ocidente, e não menos do que na América Latina, o quadro das instituições da democracia burguesa e, em nome de uma coalizão de esquerda radical. 's impacto direito na vitória de Allende mundo latino-americano e era enorme, e quebrou desestabilizadores tremendas pressões da noite de sua vitória.
Para efeitos do Congresso para ratificar a sua vitória (ue era tudo o que podia fazer legitimamente) teve que superar enormes obstáculos. O PN recusou-se a fazê-lo eo DC foi dividido. Para quebrar o impasse da DC exigiu, para exercer o seu voto favorável, que Allende assinar um "Estatuto de Garantias Constitucionais".Na verdade, foi uma extorsão da máfia que visa contrariar a viabilidade do programa de transição ao socialismo. Através desta Allende orquestrada teve que cometer formalmente e explicitamente para preservar liberdades, tais como educação, imprensa, associação e reunião - nenhum dos quais foram ameaçados pelo candidato vencedor ou programa de governo - Remuneração e expropriação sob o programa da Unidade Popular. Este último revela claramente o servilismo da DC eo direito tradicional em relação aos interesses das oligarquias locais e do imperialismo, que exigiam seus comparsas locais, defensores dos auto-denominados de "democracia" e "liberdade", preservar a inviolabilidade absoluta seus interesses. Posteriormente, essa lei foi introduzido como emendas à Constituição em 1971. No dia do Congresso marcada para 24 de outubro, 1970 a data da reunião confirmar o triunfo de Allende. Mas, um dia antes de o comando certo mortalmente ferido em um ataque terrorista, o constitucionalista general René Schneider, que estava a morrer poucos dias depois. Schneider disse que as forças armadas chilenas devem respeitar o veredicto das urnas, e pagou com sua vida. A CIA, o que tem vindo a acompanhar muito de perto os eventos Chile desde o início dos anos sessenta, era suposto ser que, em colaboração com um grupo de extrema-direita planejada e executada esta operação. Triste chileno apesar do choque do momento, ou talvez por causa das graves consequências que viu aparecer no horizonte político, o Congresso passou a ratificar a vitória de Allende por 153 votos a 35, que escolheu Alessandri.
Vale lembrar que o fundo agora que acabou de completar 43 anos de magnífica epopéia do povo chileno e Salvador Allende. E lembre-se também que, de acordo com documentos desclassificados da CIA, a 15 de setembro de 1970, poucos dias após a eleição, o presidente Richard Nixon, que mais tarde foi descartado como um bandido por causa do escândalo Watergate chamou seu escritório Henry Kissinger, conselheiro de Segurança Nacional, Richard Helms, o diretor da CIA, William Colby, Vice-Diretor e Procurador Geral John Mitchell para uma reunião no Salão Oval da Casa Branca para desenvolver a política a ser seguida em relação a má notícia vinda do Chile. Colby escreveu em suas notas que "Nixon estava furioso" porque estava convencido de que a presidência Allende seria promover a difusão da revolução comunista defendida por Fidel Castro, não só no Chile, mas no resto da América Latina. Nessa reunião proposta para impedir Allende Foi ratificada no Congresso e inaugurou sua presidência. A mensagem feita pelo Helms expressa claramente a mistura visceral do ódio e da raiva que causou a vitória de Allende em um personagem gosta de Nixon. De acordo com Helms, as suas instruções são:
"Uma chance em 10 talvez, mas salvar Chile. 
bem a pena a despesa. 
Sem se preocupar com os riscos envolvidos na operação. 
não envolve a embaixada. 
alocar R $ 10 milhões para começar, e se você precisa . trabalho em tempo integral 
Vamos enviar os melhores homens que temos. 
imediatamente: fazer o grito economia. Não é uma porca ou um parafuso para o Chile. 
dentro de 48 horas eu quero um plano de ação. "
O encarregado de acompanhar todo o projeto foi o notório criminoso de guerra Henry Kissinger. O nome desta iniciativa foi desestabilizador terrorismo "Track II", para diferenciá-lo do "Track I", o nome usado para descrever os esforços diplomáticos intensos e "legais" que há muito vinha fazendo na Casa Branca para combater a influência comunista em Chile principalmente através da democracia cristã organizações direita andother naquele país.

Se olharmos para o panorama atual da América Latina e do Caribe vão ver que pouco ou nada mudou.Isso, como eu disse a poesia de Violeta Parra, "o leão é sanguinário em cada geração". O desempenho do imperialismo nos países de Nossa América, e especialmente na vanguarda formado por Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador não foi diferente a partir de hoje as mesmas diretrizes como a CIA e outras agências do governo dos EUA aplicadas com selvageria brutal no Chile Allende. Schneider mortos, Carlos Pratts assassinados em Buenos Aires, Orlando Letelier (ex-chanceler de Allende) morto em Dupont Circle, uma centena de metros da Casa Branca, além dos milhares de detidos, torturados e desapareceram após o golpe militar de 1973. Seria ingênuo pensar que hoje, no Salão Oval da Casa Branca, o improvável Prêmio Nobel da Paz para se reunir com seus assessores para traçar estratégias diferentes político-humanitário, a solidariedade, a democracia, para lidar com a resistência que se levantam contra imperialismo em diferentes latitudes, isto é, na Síria e no Líbano, em Cuba e na Venezuela, Bolívia e Equador e, por extensão, de toda a América Latina e Caribe, países como prioridade absoluta para preservar a integridade do retaguarda imperial. Discursos contra os colonizadores, autodescalificadores racistas e até mesmo divulgando a irrelevância desta parte do mundo, os trágicos acontecimentos no Chile e mostrou mais do que 40 anos atrás era crucial que o processo político no país para a estabilização da dominação global EUA. Hoje podemos dizer sem medo de contradição, que, por comparação com o que aconteceu naqueles dias fatídicos de 1970, a importância de Nossa América é muito maior, como é o império virulência terrorista em seus esforços para reverter o estado de nossos países que antes do triunfo da Revolução Cubana. Daí a necessidade de tomar nota das lições que deixa o caso chileno e manter-se vigilante para um segundo antes de inimigo tão perverso e incorrigível, quaisquer que sejam os seus gestos, retórica ou personagens para representá-los. Nixon, Reagan, Bush (pai e filho), Clinton e Obama são, basicamente, a mesma coisa que administrar um império fantoches saques e pilhagem de vida, protegidos por um aparato ideológico formidável e ainda mais a comunicação e tremendo poder O fogo pode eliminar toda a vida no planeta Terra. Seria imperdoável se estávamos errados na caracterização de sua natureza e suas verdadeiras intenções.
Fonte>  Debate Cuba

domingo, 1 de setembro de 2013

Globo- Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro.



RIO - Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura.
Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro.


Há alguns meses, quando o Memória estava sendo estruturado, decidiu-se que ele seria uma excelente oportunidade para tornar pública essa avaliação interna. E um texto com o reconhecimento desse erro foi escrito para ser publicado quando o site ficasse pronto.
Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda de manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário.
Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas.
De nossa parte, é o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos, ao reproduzir nesta página a íntegra do texto sobre o tema que está no Memória, a partir de hoje no ar:
1964
“Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964.
A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais.
Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas.
Na noite de 31 de março de 1964, por sinal, O GLOBO foi invadido por fuzileiros navais comandados pelo Almirante Cândido Aragão, do “dispositivo militar” de Jango, como se dizia na época. O jornal não pôde circular em 1º de abril. Sairia no dia seguinte, 2, quinta-feira, com o editorial impedido de ser impresso pelo almirante, “A decisão da Pátria”. Na primeira página, um novo editorial: “Ressurge a Democracia”.
A divisão ideológica do mundo na Guerra Fria, entre Leste e Oeste, comunistas e capitalistas, se reproduzia, em maior ou menor medida, em cada país. No Brasil, ela era aguçada e aprofundada pela radicalização de João Goulart, iniciada tão logo conseguiu, em janeiro de 1963, por meio de plebiscito, revogar o parlamentarismo, a saída negociada para que ele, vice, pudesse assumir na renúncia do presidente Jânio Quadros. Obteve, então, os poderes plenos do presidencialismo. Transferir parcela substancial do poder do Executivo ao Congresso havia sido condição exigida pelos militares para a posse de Jango, um dos herdeiros do trabalhismo varguista. Naquele tempo, votava-se no vice-presidente separadamente. Daí o resultado de uma combinação ideológica contraditória e fonte permanente de tensões: o presidente da UDN e o vice do PTB. A renúncia de Jânio acendeu o rastilho da crise institucional.
A situação política da época se radicalizou, principalmente quando Jango e os militares mais próximos a ele ameaçavam atropelar Congresso e Justiça para fazer reformas de “base” “na lei ou na marra”. Os quartéis ficaram intoxicados com a luta política, à esquerda e à direita. Veio, então, o movimento dos sargentos, liderado por marinheiros — Cabo Ancelmo à frente —, a hierarquia militar começou a ser quebrada e o oficialato reagiu.
Naquele contexto, o golpe, chamado de “Revolução”, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Na justificativa das Forças Armadas para a sua intervenção, ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as eleições presidenciais de 1966.
O desenrolar da “revolução” é conhecido. Não houve as eleições. Os militares ficaram no poder 21 anos, até saírem em 1985, com a posse de José Sarney, vice do presidente Tancredo Neves, eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de receber a faixa.
No ano em que o movimento dos militares completou duas décadas, em 1984, Roberto Marinho publicou editorial assinado na primeira página. Trata-se de um documento revelador. Nele, ressaltava a atitude de Geisel, em 13 de outubro de 1978, que extinguiu todos os atos institucionais, o principal deles o AI5, restabeleceu o habeas corpus e a independência da magistratura e revogou o Decreto-Lei 477, base das intervenções do regime no meio universitário.
Destacava também os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara a sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da democracia e, depois, para conter a irrupção da guerrilha urbana. E, ainda, revelava que a relação de apoio editorial ao regime, embora duradoura, não fora todo o tempo tranquila. Nas palavras dele: “Temos permanecido fiéis aos seus objetivos [da revolução], embora conflitando em várias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir a autoria do processo revolucionário, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, ‘por exigência inelutável do povo brasileiro’. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um ‘pronunciamento’ ou ‘golpe’, com o qual não estaríamos solidários.”
Não eram palavras vazias. Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Cobrou de Getúlio uma constituinte que institucionalizasse a Revolução de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constituição de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares.
Durante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda: como é notório, fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO. São muitos e conhecidos os depoimentos que dão conta de que ele fazia questão de acompanhar funcionários de O GLOBO chamados a depor: acompanhava-os pessoalmente para evitar que desaparecessem. Instado algumas vezes a dar a lista dos “comunistas” que trabalhavam no jornal, sempre se negou, de maneira desafiadora.
Ficou famosa a sua frase ao general Juracy Magalhães, ministro da Justiça do presidente Castello Branco: “Cuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus”. Nos vinte anos durante os quais a ditadura perdurou, O GLOBO, nos períodos agudos de crise, mesmo sem retirar o apoio aos militares, sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática.
Contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais. A História não é apenas uma descrição de fatos, que se sucedem uns aos outros. Ela é o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhecê-los.
Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país.
À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”


Editorial Jornal O Globo de 31/08/ 13