terça-feira, 13 de março de 2012

O Fantasma de Jack, o Estripador


O Assassino de Whitechapel ainda assombra a pérfida Albion
 
Jack, o estripador
Os assassinatos perpetrados durante o último mês de 1888, e atribuídos ao maior "serial killer" de Londres, constituem o maior enigma da história criminal. Todas as vítimas foram degoladas, mas o qualificativo de estripador (ripper - rip = rasgar) provém do fato de todas as vítimas terem tido o ventre dilacerado e os órgãos extirpados. É impossível descrever com mais detalhes a natureza dos ferimentos, dado o seu horror.

Buck's Row, 31 de agosto de 1888, 3h40. A viela está iluminada apenas por um candeeiro. George Cross, comerciante, vai para o trabalho. Na calçada, vê algo parecido com um grande fardo. Na verdade, trata-se do corpo de uma mulher. A infeliz teve a garganta cortada de uma orelha à outra. A lâmina penetrou até a coluna vertebral. A vítima tem entre 40 e 45 anos. Segundo o médico que efetua a autópsia, a arma utilizada deve ter sido um punhal, daqueles usados para cortar cortiça ou couro, com uma lâmina de 15 a 20 centímetros. Não há marcas sobre as roupas e os objetos pessoais limitam-se a um pente, um espelho quebrado e um lenço. A polícia identifica o corpo como sendo de Mary Ann Nichols, conhecida por Polly, 42 anos, 1,55 m, cabelos castanhos e um sinal particular, a falta de cinco dentes frontais.

Nascida em 1851, aos 12 anos de idade, Polly Walker casa-se com Nichols, funcionário de uma gráfica. Seis anos de casamento e cinco filhos. Ela é alcoólatra e o casal acaba por se separar. Nichols fica com a guarda das crianças e paga pensão à ex-mulher, até que ela começa a se prostituir. O álcool a deixa violenta, mas o fato de levar uma vida dissoluta e ser agressiva não basta para explicar o seu assassinato. Como primeira hipótese, a polícia acredita na ação de uma gangue de exploradores de prostitutas. No hospital, os policiais interrogam uma colega de Polly, Emma Smith, que fora atacada e espancada por quatro homens. Mas, sem forças para fornecer qualquer informação, morre em conseqüência dos ferimentos. Outra mulher é considerada como a segunda vítima da gangue, ou a primeira de Jack, o Estripador. Martha Tabram, nascida Turner, foi assassinada com 39 facadas e seu corpo encontrado em 7 de agosto, num imóvel em Whitechapel, no edifício George Yard Building (atualmente Gunthorpe Street).

A segunda mulher assassinada, ou a terceira, conforme a tese escolhida, chama-se Annie Chapman. O morador de uma pensão, situada no número 29 da Hambury Street, a cinco metros da Buck's Row, encontra o corpo de Annie em 8 de setembro, às 6h00. A cabeça estava praticamente separada do corpo e, aos pés, foram cuidadosamente dispostos seus anéis e dinheiro. No local, a polícia só descobre provas insignificantes. O médico-legista manda levar o corpo, por curiosidade, no mesmo caixão usado para transportar Polly Nichols. Às 14h00 do mesmo dia, prossegue o interrogatório das testemunhas. Uma mulher diz ter visto Annie Chapman às 5h30 com um homem. Ela afirma ter escutado o desconhecido perguntar: "...e então, está de acordo?" e Annie responder-lhe afirmativamente. O homem era moreno, parecia estrangeiro, e aparentava possuir uns 40 anos. Amelia Farmer, amiga de Annie Chapman, conta que, pouco tempo antes de ser morta, ela havia brigado com outra prostituta.
Os suspeitos


Mas, teria Jack, o Estripador, terminado sua obra macabra? Três outros crimes ainda ocorrem para assustar a população londrina. As opiniões a respeito dos assassinatos se dividem entre os que atribuem a autoria das mortes a Jack e os que rejeitam essa hipótese. As vítimas são Elizabeth Jackson, meretriz, cujo corpo decapitado é retirado do rio Tâmisa em junho de 1889; Alice Mackenzie, encontrada enforcada e mutilada em 17 de julho em Whitechapel; e Frances Coles, prostituta, socorrida ainda agonizante sob o arco de uma ponte ferroviária, também em Whitechapel. A polícia investiga, interroga algumas pessoas, analisa os álibis... e, finalmente, detém dez suspeitos que poderiam ser o estripador.

O primeiro dos suspeitos é George Chapman, de origem polonesa, cujo verdadeiro nome é Severin Klosovski, proprietário de um salão de cabeleireiros a alguns metros do local onde Martha Tabram foi assassinada. Chapman é parecido com o homem visto com Mary Kelly. Além disso, algumas das cartas assinadas por Jack, o Estripador, contêm expressões idiomáticas americanas, e Chapmam morou durante dois anos nos Estados Unidos. Mas ele é enforcado em 1903, condenado pelo envenenamento de três de suas amantes. Um outro é o suspeito mais famoso, o duque de Clarence, filho mais velho do futuro rei da Inglaterra Eduardo VII. Mentalmente retardado, aos 24 anos, o duque sofre de gota e de sífilis. Ele corteja uma mendiga, o que não o impede de sentir atração por meninos. Clarence não possui disposição para nada e, em 1892, deixa a lista de suspeitos após morrer de pneumonia, ou sífilis.

Entretanto, o duque costumava contar à família que ele e Jack, o Estripador, eram uma só pessoa. Os companheiros de Clarence compõem um vasto leque de criminosos potenciais. O tutor do duque em Cambridge, James Stephen, é um dos suspeitos, enquanto o escudeiro é primo de dois outros suspeitos, Milis e John Druitt. Voltaremos a isso.

O doutor Neil Cream envenenou quatro prostitutas com estricnina, e ficou conhecido como o "Envenenador de Lambeth". Por esses crimes, é enforcado em 1892. No cadafalso, suas últimas palavras para o carrasco são: "Eu sou Jack, ...". Contudo, no momento dos assassinatos, Cream estava preso em Illinois, nos Estados Unidos. Absolvido pela Justiça norte-americana em julho de 1891, está na Grã-Bretanha desde setembro. A situação complica-se quando Cream envolve no caso um sósia dele. De fato, anteriormente, para se defender num processo de bigamia, ele afirma que, à época dos crimes, estava detido em Sydney, na Austrália. O diretor da prisão confirma que um homem com as características de Cream esteve preso na instituição, o que basta para esclarecer as dúvidas. Obviamente, dois homens serviram-se mutuamente de álibis, e as derradeiras palavras de Cream ao carrasco teriam sido uma última demonstração de generosidade ao seu cúmplice. 

Precedida por uma dinastia que os arqueólogos convencionaram denominar "Zero", a história do Egito faraônico começa por volta de 3150 a.C. com o rei Menés.
 
Período tinita (cerca de 3150 a.C. a 2700 a.C.) - I e II dinastias
A história do Egito faraônico começa com o rei Menés, responsável pela unificação entre o Alto e o Baixo Egito e pela fundação de Mênfis, a capital do Império. Interlocutor dos homens com os deuses, Menés ostenta a coroa branca do Alto Egito (hedjet) e a coroa vermelha do Baixo Egito (deshret).

Antigo Império (por volta de 2700 a.C. a 2140 a.C. ) - III e IV dinastias
Nesta época, o Estado egípcio se desenvolve consideravelmente e a sua administração centraliza-se na figura do faraó, que passa a ser venerado como verdadeiro deus. Djoser inaugura a III dinastia (cerca de 2700 a.C.). Seu conselheiro, o arquiteto Imotep, constrói a pirâmide em degraus de Saqqara, a primeira tumba real com essa forma arquitetônica.

IV dinastia é marcada por reinados nos quais foram construídas as três grandes pirâmides de Gizé - Queóps, Quéfren e Miquerinos. Esses complexos funerários são o símbolo de um Estado forte e de uma civilização avançada.

É na V dinastia (aproximadamente 2480 a.C. a 2330 a.C.), originária de Heliópolis, que se verifica o culto ao Sol, o que não significa a rejeição aos outros deuses. O faraó é agora o "filho de Rá", o deus-sol.

Pepi I, representante da VI dinastia, reina por mais de 50 anos. Ele é também um grande construtor de pirâmides (Bubastis, Abydos, Dendérah). Pepi II sobe ao trono aos seis anos de idade e nele permanece por 94 anos.

Primeiro período intermediário (por volta de 2140 a.C. a 2040 a.C) - VII-X dinastias
Uma revolução, seguida pela invasão de povos asiáticos, põe fim à VI dinastia. Porém, nenhum nome dos reis da VII dinastia é conhecido. A VIII dinastia, a menfita, cuja capital era Mênfis, demonstra os sinais da decadência política do Egito. O país é dividido em três: o Delta, o Egito Médio - cujo centro político era Heracléopolis - e o Alto Egito, agrupado em Tebas. Inicia-se um período de anarquia e de recessão econômica (escassez de alimentos, desordem civil e violência). Uma série de conflitos ininterruptos entre as facções do sul (de Tebas) e do norte (Heracléopolis) ocorrem e cessam apenas na XI dinastia.

A grande pirâmide de Gizeh com a Esfinge


Médio Império (por volta de 2040 a.C. a 1750 a.C.) - XI e XII dinastias
Mentuotep II, rei de Tebas, reunifica o Egito (aproximadamente em 2020 a.C.). Mas são os soberanos Amenemés e Sésostris (XII dinastia, por volta de 1900 a.C. a 1790 a.C.) que conduzem o Império ao seu apogeu. A expansão comercial abre-se para o mar Vermelho, mar Egeu, Fenícia, Núbia e Delta, e o país conhece a prosperidade econômica. Dessa época, há vários manuscritos literários, textos de instruções, profecias e contos.

Segundo período intermediário (1750 a.C. a 1560 a . C. ) - XIII-XVII dinastias
Nas XIII e XIV dinastias, o Império passa por um processo de declínio. Vulnerável e enfraquecido, sucumbe à tomada do poder por invasores estrangeiros. As XV e XVI dinastias são marcadas pelo domínio dos hicsos, chamados de reis pastores ou príncipes do deserto. O domínio estrangeiro trouxe muitas inovações técnicas para o Egito. Os hicsos introduzem a utilização do bronze, da cerâmica e dos teares, diferentes instrumentos de guerra, que incorporam o uso do cavalo e das carruagens, e estilos musicais, assim como novas raças de animais e técnicas de colheita. De certa forma, os hicsos modernizaram o Egito. Na XVII dinastia, a partir de Tebas (sul do Egito), os monarcas empreendem a reconquista do país, definitivamente concluída por Ahmose, que inaugura o Novo Império.

Novo Império (por volta de 1560 a. C. a 1070 a . C ) - XVIII-XX dinastias
Predomina na XVIII dinastia a intenção de expandir o império rumo à Ásia. O faraó Ahmose (em torno de 1560 a.C. a 1526 a.C.) organiza uma administração hierarquizada, dirigida pelo vizir, segundo homem do Estado. Sob os governos de Thutmose III (cerca de 1490 a.C. a 1436 a.C.) e Hatshepsut (1490 a.C. a 1468 a.C.), o Egito se torna uma temível potência militar. O enriquecimento do país é perceptível em todas as classes da sociedade, que aprende a gostar das artes e a ostentar o luxo. Dentre as construções da época, constam os templos funerários de Deir el-Bahari, de Luxor e de Karnak e o de Amenófis III (aproximadamente 1402 a.C. a 1364 a.C.).

O faraó Amenófis IV, ou Akhenaten, (por volta de 1364 a.C. a 1347 a.C.) transfere a capital de Tebas para Amarna. Ele impõe uma nova religião, dedicada ao culto do deus único Aton. O governante que o sucede é Tutankhamon (em torno de 1347 a.C. a 1338 a.C.), que retorna a sede do governo para Tebas, onde reincorpora o culto a Amon-Rá.

XIX dinastia é o período dos constantes conflitos entre egípcios e hititas. Ramsés II (em torno de 1290 a.C. a 1224 a.C.) trava, contra o rei hitita Mouwatalli, a célebre batalha de Kadesh. É a época das grandes construções, o hipostilo de Karnak, o templo de Abu-Simbel e o templo de Medinet Habu. Sob a XX dinastia (cerca de 1185 a.C. a 1070 a.C.), o país se fragmenta. O grande sacerdote de Amon, Herihor, assume o trono.
Terceiro período intermediário (aproximadamente de 1070 a.C. a 715 a.C.) - XXI-XXIV dinastias
Nesta época, o Egito é dividido em dinastias locais cada vez mais independentes. O único fato notável em política exterior é a conquista da Palestina por Chechanq I (945).

Período Inferior (715-332) - XXV-XXXI dinastias
A conquista do Egito, em torno de 740 a.C., por um rei núbio, cujos sucessores instauram uma dinastia "etíope", chamada de koushita (XXV dinastia, de 715 a.C. a 664 a.C.), revela a decadência do império. Após o recuo dos etíopes para o sul, a XXVI dinastia (ou período saita, de aproximadamente 664 a.C. a 525 a.C.) é marcada pelo reinado de Psammetik I (664-610). Ele expulsa os assírios e, assim, consegue estabilizar o país. Seu sucessor, Necau, exerce a mesma política.

XXVII dinastia (cerca de 525 a.C. a 404 a.C.) marca o início da dinastia persa. Ela começa com a conquista do Egito por Cambises. Com a morte de Dario II, em 405 a.C., os egípcios reconquistam a sua independência. Amirteu, faraó da XXVIII dinastia, expulsa os persas. Mas a XXIX e a XXX dinastias são marcadas por brigas políticas por sucessão.

Nectânabe é o último rei nativo. Os persas realizam nova investida ao território egípcio. Tomam a capital Mênfis, após a batalha de Pelusa. É a queda do último faraó egípcio.

segunda dominação persa (por volta de 343 a.C. a 332 a.C.), de Artaxerxes III até Dario III, parece ter sido um período difícil para os egípcios. Assim, Alexandre da Macedônia, ao derrotar Dario, é considerado um libertador do Egito. Alexandre, considerado filho de deus (e faraó), funda Alexandria no delta do Nilo (332 a.C.).
Dinastia ptolomaica (305 a.C. a 30 a.C.)
Após a morte de Alexandre, o Grande, seus generais dividiram entre si o Império, estabelecendo o sistema de satáprias. Ao Egito coube a influência de um dos melhores generais de Alexandre, Ptolomeu, que governa entre 305 a.C. e 282 a.C. Ele constrói o farol e a biblioteca de Alexandria. A partir de Ptolomeu IV, as intrigas familiares enfraquecem a dinastia.

Em 51 a.C., o governo egípcio passa para a filha de Ptolomeu XII, Cleópatra, que é a última rainha do Egito (de 51 a.C. a 30 a. C.) Por interesses políticos, ela se casa com o imperador romano Júlio César, que coloca o Egito sob proteção de Roma. Após o assassinato de César, a rainha se casa com o general romano Marco Antonio, um dos membros do triunvirato que sucede César no poder do Império Romano, o que desperta a ira e a inveja de outras forças de Roma. Em conseqüência, Octávio se autoproclama imperador de Roma e decide invadir o Egito.

Em 30 a.C., na batalha do Ácio, os exércitos comandados por Cleópatra e Marco Antonio são derrotados pelas forças romanas. Quando Otávio, vencedor, entra em Alexandria, Cleópatra e Antonio se suicidam. O Egito torna-se província romana.

Cães de Guerra, ofício milenar


Cães de Guerra, ofício milenar
Mercenários, eles saem pelo mundo em eterna luta, sem nenhum ideal.

Batalha de Sluys, durante a Guerra dos Cem Anos (1340), conflagração em que os ingleses decretam que os soldados devem receber salário e surge a necessidade de contratação de mercenários
Eficazes no plano militar, esses soldados de ofício, reunidos provisoriamente sob a liderança de um chefe forte, lutam por um soldo e pelo butim, mas não totalmente indiferentes ao país de origem, à honra e a legalidade. A ambição dos primeiros mercenários se restrinmge a ganhar dinheiro e a conquistar um ou dois castelos, mas, conforme os êxitos, a ambição aumenta.

O avião da companhia particular francesa Aero Services Executive decola, em junho de 2002, do aeroporto parisiense de Bourget em direção a Madagascar, onde Marc Ravalomanana, o novo presidente eleito, luta pelo poder com Didier Ratsiraka, seu predecessor.

A bordo do aparelho estão 12 mercenários franceses, entre 30 e 61 anos. Marc Garibaldi, conhecido por suas atividades na República Democrática do Congo, é um deles. Por intervenção do governo francês, o avião aterrissa em Dar es-Salaam, na Tanzânia, onde é reabastecido.

Logo depois retorna ao ponto de origem. Ao mesmo tempo, na África do Sul, três ucranianos - todos com cerca de 40 anos de idade - são interrogados. Incapazes de informar, com exatidão, o lugar onde devem permanecer em Madagascar, declaram simplesmente que "devemos encontrar certas pessoas no aeroporto"

Os dois acontecimentos levam Bernard Valéro, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, a "lembrar que a França condena vigorosamente esse tipo de ação". Assim como a tentativa, em dezembro de 2001, de desembarque de mercenários franceses no arquipélago de Comores, a operação em Madagascar é um verdadeiro fiasco, interrompendo uma série de intervenções bem-sucedidas entre os anos 1970-1980.

"Os atuais soldados de aluguel não têm muitas semelhanças com os 'desprezíveis' dos anos 60, proscritos e homens fora da lei", comentam Philippe Chapelau e François Misser em seu livro Mercenários AS (Desclée de Brouwer, 1998).

Mercenários contemporâneos
Repulsivos, mas também fascinantes, os mercenários de hoje, de acordo com esses autores, se aproveitam da "explosão da demanda proveniente de governantes em apuros, mas também de outros agentes, desejosos de operar em zonas de elevada insegurança: empresas, organizações internacionais ou humanitárias". Mas, se de alguma forma ainda se assemelham a aventureiros do fim do século XX, como Bob Denard, os novos mercenários são de fato herdeiros de uma longa tradição.

O antigo Egito já utilizava mercenários líbios para guardar suas fronteiras. Da mesma forma, na Grécia ancestral inúmeros combatentes estrangeiros se engajavam nos exércitos das cidades, enquanto os próprios gregos prestavam serviços ao império persa. 

A degola de um movimento


Com uma repressão cruel, comparável à de Canudos, o exército extinguiu a guerrilha rural no Araguaia, um projeto que via no campo o caminho para a revolução socialista.

A foto tirada por um militar, a chegada do exército à região do Araguaia, em setembro de 1972
Na tarde do dia 4 de fevereiro de 1974, "Osvaldão" sentou-se para descansar. Negro, forte e alto, usava uma longa barba. Completaria 36 anos em abril. Estava sozinho numa capoeira em plena floresta amazônica, próxima ao rio Araguaia. Tornara-se mito na região, considerado um guerrilheiro invencível. Os camponeses acreditavam que, ao entrar na mata, ele se transformava em mosquito, borboleta ou cachorro, livrando-se do cerco do exército. Era temido pelos militares. Fatigado pela fuga, "Osvaldão" não percebeu a chegada de uma patrulha. O guia que vinha à frente dos soldados disparou em sua direção. Morto, foi preso a uma corda e içado por um helicóptero. A 20 metros de altura, o corpo se desprendeu e caiu. Dependurado novamente, foi exibido aos moradores da região, para que se convencessem de sua morte. Antes de ser enterrado, teve a cabeça cortada.

Osvaldo Orlando da Costa, o "Osvaldão", foi o primeiro militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B) a chegar, em 1966, à região do Araguaia, com a missão de organizar a guerrilha rural. Mineiro de Passa Quatro, estudara engenharia de minas na Universidade de Praga, na Tchecoslováquia. Fora também campeão de boxe pelo Botafogo. À sua chegada, seguiu-se a de outros militantes, mas aos poucos, para não levantar suspeitas. Em meados de 1968, compunham um grupo de 15 guerrilheiros. No início de 1972, às vésperas da primeira expedição do exército contra a guerrilha, eram cerca de 70. Instalaram-se ao longo de uma área de floresta tropical de cerca de 7 mil km2, num arco estendido da cidade de Xambioá à de Marabá, no sul do Pará.

Ocultaram suas identidades com o uso de nomes falsos e ocupações comuns na região. Transformaram-se em pequenos agricultores, barqueiros, quitandeira, dono de farmácia, mascate e até curandeiro. Moravam afastados uns dos outros e esforçavam-se por se integrar à vida das comunidades onde viviam. Até 1972, eximiram-se de atuar politicamente, dedicando-se a ações assistencialistas. Faziam partos, atendiam doentes e arrancavam dentes, davam aulas nas escolas, ajudavam nos mutirões da roça e participavam de festividades. Assim, ganharam a estima da população.

Boa parte desses homens e mulheres que se embrenharam nas matas do Araguaia eram estudantes que haviam tomado parte em importantes manifestações contra a ditadura militar, nas grandes cidades do país entre 1967 e 1968. Vários deles já tinham passado pelo cárcere por conta de suas atividades oposicionistas. Jacob Gorender, em seu Combate nas trevas, informa que pouco mais de 70% dos guerrilheiros provinham da classe média; eram estudantes, profissionais liberais (médicos, professores, advogados), comerciários ou bancários. Menos de 10% eram operários. E cerca de 20%, camponeses (quase todos recrutados na região). Os combatentes tinham, em média, pouco menos de 30 anos. A implementação da guerrilha foi chefiada localmente por dois dirigentes comunistas de muita experiência política: Maurício Grabois e João Amazonas. Ingressaram no Partido Comunista Brasileiro (PCB) na década de 30 e haviam sido presos durante o Estado Novo. Com a legalização do PCB depois da deposição de Getúlio Vargas, foram eleitos deputados constituintes em 1946. E, em 1962, participaram do "racha" do PCB que originou o PC do B.

A real Cleópatra, muito acima da lenda


A real Cleópatra, muito acima da lenda
A última grande figura do Egito antigo sonhou um destino excepcional para seu país. Seu caráter era apaixonado, e ela exerceu o poder com notável gênio político.

Fragmento de um relevo que se acredita ser um retrato de Cleopatra. A imagem provavelmente esta inacabada ou era usada por escultores como modelo
Após o assassinato de sua filha Berenice, restavam a Ptolomeu Aulete quatro filhos legítimos: dois meninos, ambos chamados Ptolomeu, e duas meninas, Arsinoé e Cleópatra. Quando o faraó morreu, os meninos eram bem pequenos e Arsinoé tinha 14 anos. Quem assumiu o poder, no ano 51 a. C., foi a mais velha, Cleópatra. Aos 17 anos, ela já era admirada por suas qualidades de estadista, inteligência, energia, sentido de grandes projetos e, também, paciência e tenacidade.

Crescera em meio ao tumulto e à angústia da guerra, da invasão. Conheceu a humilhação da ocupação estrangeira, a arrogância e a brutalidade dos romanos, os caprichos rústicos e ruidosos daquela população mestiçada que habitava Alexandria, a docilidade e a resignação dos camponeses curvados pelo peso de milênios de submissão. Por mais que tivesse orgulho de sua ascendência real e de sua herança macedônica, sentia uma profunda simpatia pelo povo egípcio, com suas virtudes ancestrais, seu amor pela paz, sua harmonia com os elementos e as estações do ano.

Ela não era egípcia; seu sangue se constituía de heranças gregas, macedônicas e persas. Pertencia ao Egito pela inteligência e coração. De natureza generosa, orgulhosa e ousada, ela se indignou quando o jugo de Roma pesou sobre aquele país cuja civilização era tão mais antiga e refinada. Acalentou o sonho e a a ambição de livrar seu povo da tirania estrangeira. Todos os atos de seu governo e seu comportamento pessoal indicam que Cleópatra desde sempre acalentou a possibilidade de reinar sobre um vasto domínio, além- fronteiras. É imperioso abandonar o clichê da Cleópatra voluptuosa, ocupada apenas com paixões e prazeres. Ou, ao menos, é preciso reconhecer que, se essa Cleópatra realmente existiu, ela não era sua única face. Seu caráter e seu temperamento afastam qualquer tentativa de delimitação. A obstinação de definir de modo tão apequenado uma personalidade de prodigiosa complexidade não resiste diante das afirmações dos melhores historiadores da dinastia ptolomaica, que reconhecem todos nessa mulher as qualidades e as ambições de um grande rei.

As fantásticas (e verdadeiras) aventuras de Marco Polo



Quando Marco Polo voltou a Veneza em 1295, seus compatriotas não o reconheceram - o que não foi uma surpresa, já que ele os havia deixado 24 anos antes, quando tinha apenas 17. Foi isso, sem dúvida, que inspirou o relato exagerado, quase lendário, narrado por Giovanni Battista Ramusio (1485-1557), autor que escreveu sobre os Polo, três séculos depois. Marco, Niccolo, seu pai, e Matteo, seu tio, teriam chegado em casa como peregrinos, vestidos com trajes miseráveis.

Tiveram, dificuldade em se fazer reconhecer pelos parentes, que, ocupavam a casa, pensando que estavam mortos. Os três viajantes convidaram, então, todos os seus aparentados para um banquete, no qual surgiram vestidos com hábitos de cetim violeta, logo trocados por outros de seda estampada, ainda mais preciosos, antes de retomarem seus hábitos à moda veneziana. Em seguida, Marco Polo trouxe os trapos com que estavam vestidos quando de sua chegada a Veneza; descosturou-lhes a barra, fazendo tombar "uma grande quantidade de jóias de um valor inestimável, rubis, safiras, granadas, diamantes e esmeraldas". Imediatamente, sua família "lhes devotou sinais de estima e de respeito".

Apesar de se tratar apenas de um apólogo, essa cena reflete a emoção que tomou conta dos venezianos ao rever esses três homens, que há tempos se pensava que estavam mortos, e contemplar as riquezas trazidas de países tão longínqüos, dos quais nunca tinham ouvido falar.

Muitos curiosos dirigiam-se à casa dos Polo, em uma pequena praça perto da ponte do Rialto. Com bastante complacência, Marco relatava suas extraordinárias aventuras e descrevia os países que tinha percorrido. Como bom homem de negócios veneziano, avaliava suas enormes riquezas em milhões de moedas de ouro.

Uma paixão que mudou o curso da história



Naquele outono de 41 a.C., a cidade de Tarso, não mais que um grande burgo da Cilícia (atual Turquia), parecia ter se transformado numa das capitais do mundo romano. Em expedição ao Oriente, o triúnviro Marco Antônio ali se deteve, convocando Cleópatra, a rainha do Egito, a prestar contas do apoio que teria dado aos assassinos de César. Já muito excitados pela presença de Marco Antônio entre seus muros, os habitantes de Tarso esperavam febrilmente a chegada de Cleópatra.

Ninguém ignorava que ela, sete anos antes, conquistara Júlio César, acompanhando-o a Roma e dando à luz um filho apresentado como sendo do ditador. Mesmo sem nunca tê-la visto, a maioria das pessoas conhecia sua reputação de beleza, sedução e inteligência. Desde o nascer do dia, um rumor avançava, vindo da embocadura do Cydnus, o rio de Tarso, e logo toda a cidade encontrava-se reunida em suas margens. Uma galera subia o rio. Sua popa era de ouro reluzente, suas velas desfraldadas eram tingidas de púrpura e dezenas de remos de prata cortavam as águas. No leme e nos cordames, nada de rústicos marujos, mas um enxame de formosas jovens vestidas de ninfas. Debaixo de uma tenda tecida de ouro, estava Cleópatra, recostada, tal como uma deusa do amor. Crianças fantasiadas de pequenos cupidos abanavam-na com seus leques. O conjunto formava um verdadeiro quadro, dedicado a Afrodite. Quando o navio acostou, toda a cidade ali estava, e Marco Antônio, que esperava a rainha na praça pública, ficou sozinho. Muito contra a vontade, precisou descer ele mesmo até o porto, onde Cleópatra convidou-o a partilhar a refeição. A festa noturna que ela organizou foi espetacular.

As peripécias do festim, difundidas pelos criados, encantavam os curiosos. Cleópatra, ao que parece, cativou o hóspede com falas aliciadoras e atitudes provocantes. Dizem que Marco Antônio, de início embaraçado, sucumbiu pouco a pouco aos charmes da egípcia. Lembravam os mais velhos que Cleópatra já tivera uma aventura com Marco Antônio, quando seguiu César a Roma. E não esqueciam que, algumas semanas antes, Marco Antônio fizera sua entrada no Éfeso fantasiado de Dioniso, cercado por Bacantes, crianças e homens vestidos de sátiros e de pãs.

Somos ou não somos Racistas?


Eis a questão que desafia legisladores, intelectuais, cientistas e historiadores há mais de um século, em uma nação que é tão mestiça quanto desigual.

O jornalista e cientista social Ali Kamel publicou o livro Não somos racistas (Nova Fronteira). Trata-se, como o subtítulo indica, de "uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor". O livro defende a idéia de que compomos uma nação predominantemente mestiça e que o racismo existe como manifestação minoritária e não institucional, sendo a pobreza o principal problema do país. Pretende criticar as reivindicações do movimento negro e os projetos de adoção de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras.

Do outro lado do debate, há vozes que defendem a tese de que o elogio da mestiçagem brasileira tem caráter ideológico, tendendo a esconder o racismo existente no país e a exclusão do negro ao longo dos cinco séculos de formação do Brasil. Esse é o pensamento do antropólogo Kabengele Munanga em seu Rediscutindo a mestiçagem no Brasil (Autêntica, 2004)

Para se situar nessa discussão, seria interessante compreender o contexto dos períodos anterior e posterior à abolição. O processo de abolição não pode ser resumido ao 13 de maio de 1888. Por trás da data histórica, o comportamento da população negra no país mostra a existência de uma realidade muito mais complexa. Por um lado, antes mesmo da abolição, ser negro já não significava mais exatamente ser escravo. Pesquisas recentes apontam que apenas 5% do total da população negra ou parda do país era escrava às vésperas da extinção da escravidão. O grande número de alforrias por reconhecimento, laços pessoais e familiares, compras, entre outros fatores, mostrava que já havia muitos negros e mestiços vivendo além da escravidão, principalmente no meio urbano. Além disso, as fugas e formações de quilombos, muitos dos quais apoiados pela população pró-abolição, também já contribuíam para uma relativização da identificação do negro como escravo nos últimos anos do império. Um sujeito de cor negra ou parda poderia ser escravo, mas também livre ou liberto, como indicam as categorias dos censos do período.

Amazônia de Galvez a Chico Mendes


Os 100 anos por trás da nova superprodução da televisão brasileira. Uma saga de aventureirismo, exploração predatória e degradação ambiental. E o desafio de promover o desenvolvimento sustentável.
© carlos ruggi/ae
Chico Mendes, seringueiro e líder
A história do Acre é marcada pela personalidade dos líderes que lutaram por sua independência e desenvolvimento. Lembrados com entusiasmo pela população, foram eles o espanhol Luiz Galvez, que presidiu a República do Acre, o libertador Plácido de Castro e o líder camponês Chico Mendes. No início deste ano, a discussão sobre como o estado foi anexado ao Brasil voltou à tona. Recém-eleito presidente da Bolívia, Evo Morales relembrou então um antigo folclore político para incendiar a crise do gás. Ao discursar para chefes de Estado reunidos em Viena, o boliviano afirmou que o Brasil havia comprado o Acre de seu país pelo preço de um cavalo. Exagero, é claro. O Acre estava longe de valer um cavalo quando foi anexado ao Brasil. Valia ouro, o "ouro negro", como era chamada a borracha. A épica história da formação do estado, suas lendas e seu folclore devem voltar ao debate público em 2 de janeiro, quando a TV Globo prevê levar ao ar a minissérie Amazônia, de Galvez a Chico Mendes, da acreana Glória Perez, com direção geral de Marcos Schechtman.

Até 1880, o Acre estava ocupado praticamente apenas por índios. Para a Bolívia, proprietária do espaço, ali era uma terra não-descoberta. Segundo o diretor do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre, Marcos Vinicius Neves, a área servia de refúgio para todos. Havia brasileiros fugidos da seca no Ceará, da Guerra de Canudos, da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul e até sírios e libaneses que escaparam dos turcos.

Adaptar-se à vida da floresta, porém, talvez fosse o maior desafio para quem se aventurava a trabalhar nos seringais. Nas palavras de Euclides da Cunha, que esteve na Amazônia em 1905, quando o Acre já havia sido anexado ao Brasil, "o homem, ali, ainda é um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido - quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão". Em À margem da história, o escritor relata como, apesar do descaso do governo em relação aos colonizadores, mas graças à ajuda do dinheiro estrangeiro, as cidades acrea-nas conseguiram prosperar. Segundo Cunha, era para a Amazônia que o governo despachava doentes e flagelados, sem oferecer suporte médico que lhes permitisse enfrentar o "inferno verde". Malária e beribéri eram algumas das temidas doenças autóctones.

Na História


NASCE CHICO SCIENCE, UM DOS FUNDADORES DO MOVIMENTO MANGUEBEAT

13 de março de 1966
No 13 de março de 1966 nascia, em Olinda (PE), o cantor e compositor Francisco de Assis França, mais conhecido como Chico Science. Um dos principais idealizadores do movimento Manguebeat, em meados da década de 1990, ele foi o líder da banda Chico Science & Nação Zumbi. Sua carreira foi precocemente encerrada no dia 2 de fevereiro de 1997 por conta de um acidente de carro. Chico Science morreu aos 30 anos, em Recife, capital pernambucana. Seus dois álbuns gravados - Da Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996) - foram incluídos na lista dos 100 melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone.
Nascido em Olinda (PE) no dia 13 de março de 1966, Chico Science misturou ritmos nordestinos, principalmente o maracatu, com suas influências do hip-hop, soul e funk na banda Nação Zumbi. O grupo lançou um "movimento", o Manguebeat, com o manifesto “Caranguejos com Cérebro”. Seu primeiro álbum, Da Lama ao Caos, projetou a banda nacionalmente. O segundo, Afrociberdelia, levou a banda a viagens pela Europa e Estados Unidos, onde fizeram sucesso de público e crítica.

MORRE IRMÃ DULCE, A BEATA DOS POBRES

13 de março de 1992
No dia 13 de março de 1992 morria, em Salvador (BA), Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, mais conhecida como Irmã Dulce, Beata Dulce dos Pobres ou Bem-Aventurada Dulce dos Pobres. Ela foi uma religiosa católica, conhecida por suas obras de caridade e de assistência. Nascida na capital baiana, no dia 26 de maio de 1914, ela chegou a ser indicada ao prêmio Prêmio Nobel da Paz pelo então presidente José Sarney, com o apoio da rainha Sílvia da Suécia. Em 2000, recebeu do papa João Paulo II o título de Serva de Deus. Em maio de 2011, foi beatificada em Salvador. A celebração da sua festa litúrgica é no dia 13 de agosto.
Irmã Dulce trabalhou durante mais de 50 anos para a caridade. Entre suas obras, estão a fundação do Hospital Santo Antônio, do Centro Educacional Santo Antônio (CESA) e do Círculo Operário da Bahia.
Mesmo com a saúde frágil, Irmã Dulce construiu e manteve uma das maiores e mais respeitadas instituições filantrópicas do país. No dia 11 de novembro de 1990, ela começou a ter problemas respiratórios e foi internada no hospital. Em 20 de outubro de 1991, recebeu no convento, em seu leito de morte, a visita do Papa João Paulo II para receber a bênção e extrema unção. Ela morreu em seu quarto, de causas naturais, aos 77 anos.