domingo, 11 de março de 2012

Índios protestantes no Brasil holandês

Com a recém-conquistada colônia holandesa, a Igreja Cristã Reformada, nome da Igreja Protestante na Holanda, inicia sua expedição missionária com os índios do Brasil holandês. Além da pregação religiosa na língua nativa, outras iniciativas pretendiam a tradução da Bíblia para o tupi e a ordenação de pastores indígenas.


Na urgência de encontrar aliados para assegurar o seu domínio, os holandeses firmaram alianças com os tapuias. Dança dos índios tapuias, óleo sobre tela de ALbert Eckout, 1641
Três vezes a igreja protestante foi implantada no Brasil Colônia, três vezes foi expulsa pelos portugueses católicos. Primeira vez: a igreja reformada dos franceses no Rio de Janeiro (1557-1558); segunda, a dos holandeses na Bahia (1624-1625); terceira, a dos holandeses, alemães, ibéricos, ingleses, franceses e índios no Nordeste, quase 30 anos depois.

A história da igreja protestante indígena durante a ocupação holandesa do Nordeste (1630-1654) está registrada em vários arquivos, especialmente em Amsterdã e Haia, na Holanda.

No século XVII, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco constituíam os três principais centros urbanos do Brasil Colônia. A riqueza produzida pelo açúcar brasileiro ajudava a Espanha a consolidar o seu domínio, enquanto procurava estrangular a jovem República dos Países Baixos - ou seja, a Holanda.

OS CONFLITOS DA COROA DE CASTELA

Embora o Brasil tivesse nascido como colônia portuguesa, a partir de 1580 Portugal havia passado a fazer parte da União Ibérica, comandada pela Espanha. O Brasil, em conseqüência, foi envolvido nos conflitos internacionais da coroa de Castela.

O Rio de Janeiro em pé de guerra

A resistência popular, conhecida como Revolta da Vacina, teve o apoio de positivistas e da Escola Militar
por Moacyr Scliar

A imprensa ridicularizava Oswaldo Cruz e a vacinação obrigatória.Caricatura de Vasco Lima, 1904
Há um século, o povo do Rio de Janeiro pegou em armas contra o projeto de vacinação obrigatória proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz. A resistência popular, quase um golpe militar, teve o apoio de positivistas e da Escola Militar.

Seria preciso não conhecermos a vida da cidade do Rio de Janeiro, mesmo nos seus dias anormais, para não compreendermos os acontecimentos de ontem que encheram de pânico e pavor toda a população.
Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados." - Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904.

Tudo começou no dia 10 de novembro de 1904 com uma pequena manifestação: estudantes - não raro são eles que começam estes movimentos - saíram às ruas, gritando lemas de protesto, entoando canções satíricas. Houve confronto com a polícia, violência, prisões. No dia seguinte, novas manifestações, agora com troca de tiros, a indicar que o conflito se ampliava. No dia 12 o número de pessoas nas ruas cresceu consideravelmente. Em passeata, os manifestantes dirigiram-se ao Palácio do Catete, sede do Governo Federal.

Tiros foram disparados contra o carro do comandante da Brigada Policial, o general Piragibe. O Exército entrou de prontidão. No domingo, dia 13, estava caracterizada a rebelião. O centro da cidade do Rio de Janeiro e os bairros adjacentes, Tijuca, Gamboa, Saúde, Laranjeiras, Botafogo, Rio Comprido, Catumbi e Engenho Novo transformaram-se em campo de batalha. Bondes eram virados e incendiados, os lampiões de gás eram quebrados e começavam a

As raízes puritanas

Ao contrário da versão corrente, são os presbiterianos radicais de Massachusetts - e não os pioneiros do Mayflower - os fundadores da nação americana


A chegada dos peregrinos a Massachusetts, óleo sobre tela de Antonio Gisbert, 1864
No outono de 1620, 102 ingleses embarcaram no Mayflower para viajar rumo a uma concessão situada perto da embocadura do rio Hudson, que lhes tinha sido concedida pelos mandatários da Companhia de Virgínia pelo prazo de sete anos.

Os passageiros, incluindo mulheres e crianças, não formavam um grupo homogêneo. Trinta e cinco deles eram presbiterianos, que cultivavam o desejo de viver em paz segundo suas convicções religiosas, ao passo que o gosto pela aventura e o desejo de fazer fortuna motivavam os outros companheiros.

Após uma tempestade na costa americana, os viajantes não esperaram chegar ao destino previsto inicialmente. Desembarcaram 200 quilômetros mais ao norte, diante do Cabo Cod - fora, portanto, dos territórios da Companhia. Os puritanos não somente foram abandonados à própria sorte, "largados como vieram ao mundo", como ficaram à mercê, acreditavam, da cupidez manifesta dos outros passageiros. Para dar valor legal à sua fixação na costa americana, e também, sem nenhuma dúvida, para se proteger de seus companheiros, redigiram um documento, o Mayflower Compact ,assinado ainda a bordo por 41 adultos, em 21 de novembro (ou 11 de novembro para os anglo-saxões, que só aceitaram o calendário gregoriano a partir do século XIX).

Desde o início da colonização, os puritanos manifestaram o desejo de se organizar em um corpo político civil. A terra prometida trouxe a esses novos "filhos de Israel" sua parcela de sofrimento. A fome, o frio e a doença dizimaram a pequena colônia. A metade dos pioneiros não resistiu ao primeiro inverno. Os sobreviventes, contudo, dedicaram-se ao trabalho. Uma boa colheita, no verão seguinte, os confortou, e eles a celebraram com um solene Thanksgiving, o Dia da Ação de Graças. Assim, os primeiros perus apareceram sobre as mesas para agradecer a Deus pelas suas dádivas. À cidadezinha que fundaram numa verde colina deram o nome de New Plymouth. Em 1627, um holandês, vindo de Nova Amsterdã, constatou a boa organização da cidade. Notou que a colônia possuía um governador e um conselho, cujos membros eram eleitos ou reeleitos a cada ano por toda a comunidade, regida por leis restritas, notadamente no que se referia a adultério e fornicação.

As muitas tragédias de Olga

A prisão do líder comunista Luís Carlos Prestes, depois de uma seqüência de erros, levou à deportação de sua mulher, morta na Alemanha em um campo de concentração.


Luis Carlos Prestes e Olga Benário, como Antônio Vilar e Maria Bergner Vilar: detalhe do passaporte português falso apreendido no mesmo dia que o líder foi capturado
Alguém batizado de Amleto - Hamlet, em italiano - deveria estar acostumado a dúvidas, mas as que assaltavam Amleto Locatelli na noite de 4 de janeiro de 1936, uma sexta-feira, eram realmente cruéis.

Único italiano num time de mais de vinte enviados especiais da Internacional Comunista, Amleto desembarcara no Rio, dois meses antes, vindo da União Soviética, apenas para participar da derrota de um levante que duvidara que desse certo desde o primeiro encontro com seus líderes, o brasileiro Luís Carlos Prestes e o alemão Arthur Ewert. O próprio Amleto tinha se encarregado de abortar a revolta em São Paulo. Concluíra que nada estava correto do que Prestes e Ewert tinham contado aos chefes em Moscou: não havia em parte alguma do Brasil um partido comunista suficientemente organizado ou influente, nem os militares estavam prontos para acompanhar Prestes num golpe, nem as condições sociais ou políticas favoreciam uma revolução que derrubasse o regime de Getúlio Vargas. Fazia uma semana que Ewert, um ex-deputado do Reichstag em Berlim, ex-político com sólida formação teórica, tinha sido preso pela polícia brasileira após o fácil esmagamento da revolta, que entrou para a história brasileira como a Intentona de 27 de novembro de 1935. Prestes, uma mistura de profeta da revolução e caudilho militar, desaparecera na clandestinidade, e agora Amleto Locatelli só queria cair fora da arapuca brasileira.

Sem falar português numa cidade que mal conhecia, precisava de um contato com o agente soviético que controlava, de um apartamento em Copacabana, a grana e as comunicações com Moscou. Mas onde estava o agente soviético?

Amleto Locatelli não era o único a fazer a mesma pergunta. Naquela noite de sexta-feira, diante do Edifício Rosada, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, 92, o italiano estava acompanhado de mais três profissionais da revolução. O primeiro era o argentino Rodolfo Ghioldi, teoricamente o principal dirigente da Internacional na América do Sul, e que virara uma figura hesitante, relegado a segundo plano por Ewert e Prestes, com os nervos em frangalhos. Lamentava o tempo todo os "erros" do líder brasileiro, que acusava de ter colocado em perigo todo mundo pela teimosia em se recusar a sair da cidade enquanto ainda havia tempo. Os dois restantes formavam um casal, o disfarce predileto da Internacional para mandar seus enviados ao redor do mundo: os alemães Jonny de Graaf e Helena Krüger. Jonny era um terrorista, especializado em fabricação de bombas. A linda loirinha Helena tinha sido motorista de Prestes durante a fase preparatória do levante. Ao contrário das normas de qualquer conspiração séria, conhecia todos os endereços dos participantes, circulava entre as diversas células, brasileiras e estrangeiras, e freqüentava a mesma costureira da guarda-costas de Prestes, Olga Benário, de quem era muito amiga.

Tesouros no fundo do mar

Misturadas às exuberantes flora e fauna subaquáticas do litoral brasileiro estão embarcações antigas e suas preciosas cargas; muitas já foram resgatadas, outras ainda permanecem como mistério a desvendar.


Salvamento da nau Vasco da Gama, em 6 de agosto de 1850, em óleo sobre tela de Eduardo de Martino
Quando o grande navio encalhou, já quase chegando a Salvador, ao bater no banco de Santo Antônio, aproximadamente às 18 horas daquela noite escura e tempestuosa de 5 de maio de 1668, todos a bordo sabiam que havia poucas chances de sobrevivência. Logo depois, o galeão português Sacramento se soltou e começou a afundar. Às 23 horas, só restavam destroços na superfície do mar. A bordo estavam cerca de 600 pessoas, entre tripulantes e passageiros que vinham de Portugal, inclusive o general Francisco Correia da Silva, designado para o cargo de governador do Brasil. Ele não estava entre os que se salvaram, cerca de 70 pessoas, principalmente marinheiros e soldados. Foi uma grande tragédia, lamentada pelos cronistas dos tempos coloniais. Era um navio de guerra português, construído em 1650, na cidade do Porto, para enfrentar as grandes viagens oceânicas e projetar, além-mar, o poder militar de Portugal.
O mundo vivia um período de conflitos, de maneira que as embarcações mercantes navegavam agrupadas em comboios, sob a escolta de navios de guerra. O Sacramento era, justamente, a nau capitânia da frota de uns 50 navios que, no regresso do Brasil, levaria a produção da colônia para a Europa. Trezentos anos depois, no início da década de 1970, o exato local do naufrágio do Sacramento, em frente ao rio Vermelho, na Bahia, foi encontrado por mergulhadores. O sítio arqueológico era um amontoado de pedras de lastro e objetos, inclusive canhões de ferro e bronze. Na mesma década, a Marinha e o Ministério da Educação e Cultura ofereceram os meios para recuperar parte do material submerso, que estava sendo saqueado. O trabalho se desenvolveu de 1976 a 1987 e parte do que foi recuperado integra a exposição permanente de Arqueologia Subaquática do Espaço Cultural da Marinha, no Rio de Janeiro.

Essa foi a primeira ocasião em que, de fato, se incorporaram preocupações arqueológicas em um resgate de peças em sítio de naufrágio, no Brasil. O resultado foi impressionante: canhões de bronze portugueses, ingleses e holandeses, dos séculos XVI e XVII; ânforas de cerâmica utilizadas para transportar a carga de azeite de oliveira ou mesmo azeitonas; louça portuguesa (faiança), inclusive peças pintadas em azul, com as armas do general Francisco Correia da Silva (provavelmente de sua bagagem pessoal); astrolábios portugueses do século XVII; punhos de navalhas; imagens de Cristo e de santos, feitas de chumbo ou de cerâmica. Um verdadeiro tesouro artístico e cultural, de grande importância para a história.

Naufragaram muitos outros navios, antes e depois do Sacramento, na costa brasileira; seguramente centenas deles. O primeiro de que se tem notícia fazia parte da frota de Gonçalo Coelho e afundou próximo à ilha de Fernando de Noronha, em 1503. Muitos eram caravelas, naus e galeões em missão mercantil ou de combate, durante o período da ocupação do Nordeste brasileiro pela Companhia das Índias Ocidentais holandesa. Havia os que aqui arribaram, nos séculos XVI, XVII e XVIII, em busca de abrigo, reparação nos estaleiros ou provisões - alguns traziam cargas de produtos do Oriente. Outros afundaram com ouro, no século XVIII. Navios mercantes ou de guerra foram a pique nos séculos XIX e XX, entre os quais alguns torpedeados durante a Segunda Guerra Mundial por submarinos alemães e italianos. Entre estes, também, houve os que foram destruídos durante a guerra por ataques de navios de guerra de superfície ou mesmo aviões - como o U-199, que soçobrou no litoral do Rio de Janeiro, atingido por um avião PBY Catalina, da Força Aérea Brasileira.

Lenin - o revolucionário discreto

Intelectual por excelência, o líder da Revolução Russa mudou o curso do mundo no século XX. Era avesso a qualquer ostentação: quando passou a morar no Kremlin escolheu um modesto aposento.


Lenin, durante uma entrevista em Moscou pouco antes de sua morte, ocorrida em 1924
"SÓCRATES PROCLAMADO REI." Assim é possível resumir , com uma metáfora, a longa e taciturna vida, apenas no final marcada por alguns anos cintilantes de Vladimir Ilitch Ulianov, que marcou seu nome na ´história com Lenin, filósofo, polemista e revolucionário de gabinete, um dia consagrado Czar. Durante 40 anos - de aproximadamente 1877, quando tinha 17 anos e tomou partido do marxismo contra os antigos regimes até 1917, quando foi chamado para dar " o último golpe" contra a dinastia dos Romanov -, sua existência se resume a uma única imagem: o homem que permanece sentado rascunhando enquanto sua companheira, Nadjeda Krupskaia, organiza fichas.

Aos 20 anos, Lenin já era o que seria 40 anos mais tarde: a aparência envelhecida, a silhueta magra e pequena, o paletó lustroso nos cotovelos, as botinas gastas, a cabeça grande demais para ombros tão estreitos, a fronte ossuda e os olhos mongólicos. Ele tinha crises de riso nervoso e uma voz rouca, cortando as sílabas e cindindo as frases. Sofria de uma timidez prodigiosa, que só superava por uma energia prodigiosa. E, para completar, Lenin, no início de sua carreira política, ainda era ofuscado por um combatente brilhante. Fazia-lhe sombra seu irmão Alexandre, "Sacha", quatro anos mais velho, um personagem surpreendente, que organizou um atentado contra o czar, mas foi preso antes de realizar seu intento. Julgado, foi condenado à morte e enforcado aos 23 anos de idade.

Lenin - que nasceu em 22 de abril de 1870, o quarto filho entre os seis do casal llia Ulianov e Maria Alexandrovna Blank - era taciturno perto de Georgi Valentinovitch Plekhanov, intérprete inconteste do marxismo durante longas estações e papa respeitado do socialismo russo. Da mesma forma parecia, perto do jovem Lev Davidovitch Bronstein, a quem chamavam Leon Trotski, e que, com um gênio excepcional e um talento para a história, organizou o supremo combate contra os palácios imperiais, depois forjou o Exército Vermelho. Sua companheira, Krupskaia, também era taciturna. À época do casamento, durante o exílio a que ele foi forçado na Sibéria, ela completara os 27 anos de idade - um a mais que o marido. Filha da pequena nobreza arruinada, ela e a mãe precisaram alugar quartos para sobreviver. Krupskaia foi apresentada a Lenin em 1893, em Okhta, em meio a uma festa, numa noite de carnaval. Foi tomada de admiração por aquele "revolucionário muito culto", autor de uma notável Discussão entre um social-democrata e um populista, inimigo dos hipócritas gentis e irmão de Alexandre Ulianov, que fora enforcado.

Lenin, que resistia a outro envolvimento amoroso porque não queria que nada o distraísse da revolução, sentiu-se à vontade diante dessa intelectual enérgica, professora na escola do bairro Smolensk, em Petrogrado e dirigente de círculos operários na periferia da porta Nevski. Seguro de sua dedicação à causa popular e de seu incontestável talento para reunir artigos e fichários, ele a contratou como sua secretária particular. Ela era taciturna, robusta, com gestos lentos e o rosto redondo e plácido, segura de si, os lábios grossos que mal sorriam.

As muitas vidas da Ku Klux Klan

A organização racista nasceu após a Guerra de Secessão, mas seus fantasmas assombram até hoje os Estados Unidos.


Membros da Ku Klux Klan desfilam em Washington, na Pennsylvania Avenue, próximo ao Capitólio ( ao fundo), em 1928.
Estamos em 1865. Em um sul devastado, arruinado pelo desemprego e pela miséria, jovens veteranos da confederação sulista, o conjunto de estados que se separou da união, inventam algo para passar o tempo.

No dia 24 de dezembro, em Pulaski, obscuro centro administrativo do Tennessee, seis deles - Calvin Jones, Frank McCord, Richard Reed, John Kennedy, John Lester e James Crowe - se reúnem para fundar uma associação. Nada de política. A idéia era apenas prolongar a fraternidade das armas. Respeitando a tradição dos clubes de estudantes, os colegas batizaram a comunidade com um nome cercado de mistério.

Egresso do center college do kentucky, kennedy adotou a palavra grega kuklos, que significa "círculo". Crowe a dividiu em dois e mudou o final, chegando a "ku klux". Observando que os fundadores eram de origem escocesa, lester propôs acrescentar ao nome uma evocação ao "clã", em harmonia com a ortografia adotada. Crowe achou divertida a idéia de fantasiar os membros, assim como seus cavalos, com panos e capuzes roubados da casa de seus hóspedes. Assim nascia a ku klux klan.

O que começou como uma brincadeira logo mudou de natureza. Os desfiles mascarados, realizados pelos seis amigos, tinham como objetivo aterrorizar os negros, sem instrução e supersticiosos, que acreditavam cruzar com os fantasmas dos confederados mortos em combate. Instrumentalizavam, portanto, o medo do além. Os sulistas empobrecidos viram nisso uma oportunidade de trazer de volta para o trabalho nas plantações os 4 milhões de negros que Abraham Lincoln tinha liberado com a Proclamação da Emancipação de 1o de janeiro de 1863. Não precisava de mais nada para os encapuzados seguirem com sua perseguição. Sob o pretexto de manter a ordem, divertiam-se em aterrorizar os negros, utilizando diversos dispositivos para dar credibilidade a seus poderes sobrenaturais: ossos de esqueletos escondidos sob os tecidos com que se cobriam, para apertar a mão dos antigos escravos alforriados, abóboras habilmente recortadas, que colocavam e retiravam rapidamente, para evocar a lenda do cavaleiro sem cabeça etc.

Cinema e cangaço na terra do sol

A saga do cineasta amador Benjamin Abrahão, o único a filmar Lampião e seu bando de cangaceiros, antes do massacre de Angicos.


O encontro de Abrahão com o bando de Virgulino, em foto tirada pelo cangaceiro Juriti. Da esquerda para a direita: Vila Nova, não identificado, Luís Pedro, Benjamin Abrahão (à frente), Amoroso, Lampião, Cacheado (ao fundo), Maria Bonita, não identificado, Quinta-Feira
Dentre os jovens libaneses que, durante a Primeira Guerra Mundial, deixaram vilas e cidades até hoje obscuras entre as montanhas de cedros, estava um rapaz de Zahelh (a das tâmaras doces) chamado Benjamin Abrahão. Ele seguiu o impulso de evasão, mas em vez do destino preferencial, a América do Norte, foi para o borrão dos edens do hemisfério sul e suas estranhezas: selvas, sertões e sertanejos parecidos com alguns dos imigrantes da sua terra. Abrahão deu adeus às tâmaras em busca dos frutos tropicais ácidos e barrocos no aspecto, naqueles lugares de sol refulgindo em nomes inesperados como "Pernambuco" - com a sua sugestão de oco do mundo e porto de ventos entre fáceis riquezas. Abrahão chegou, assim, a um Recife ainda sereno, cortado por um rio lento. O rapaz dos jardins orientais viu o Derby elegante, os jogos de times de futebol e regatas, os cinemas Royal e o Glória às vezes exibindo filmes locais, cujos letreiros ajudavam a aprender a língua.

No melodramático Filho sem mãe, de Edson Chagas, o imigrante veria, pela primeira vez, a figura de um cangaceiro, ao mesmo tempo mítica e pobre, injuriada e condenada a morrer, no futuro imediato, pela chegada do progresso. Nessa altura, Abrahão vendia tecidos, como um mascate entre os muitos que percorriam as ruas de casas com varais coloridos de roupas ao vento. Passado um tempo, as ofertas do libanês se ampliaram também para farinha, fubá de milho, rapadura e carne do sertão. Esta palavra - "sertão" - viria a fazer parte fundamental da sua vida, embalaria seus sonhos e selaria, um dia, o seu destino. Ele era um montanhês, e sentia falta dos espaços mais livres das pontes graciosas sobre o Capibaribe. Um dia, Benjamin comprou dois burros - Assanhado e Buril -, o cavalo Sultão e um segundo estoque de mercadorias. Em seguida, partiu para Juazeiro do Norte (CE), o antigo arraial "inchado" pelos romeiros do padre Cícero Romão Batista. Começava a aventura cinematográfica do mascate vindo dos sertões do Líbano.

No staff do Padim
Estrangeiro jeitoso e falante, Benjamin Abrahão conheceu logo o Padim Padre Ciço dos cangaceiros e coronéis, e se tornou, com o tempo, nada menos que o seu "secretário para assuntos internacionais". Na louca Juazeiro das fanáticas multidões, passava pela cabeça do padre a possibilidade de ter assuntos de "relações exteriores" para tratar. Foi nessa condição que o nosso peregrino da sorte pôde testemunhar, na verdade, as relações conflitadas no próprio sertão, quando, numa clara manhã de março de 1926, o cangaceiro Lampião e mais 49 cabras triunfalmente entraram na cidade das rezas. Dizem que Abrahão já alcançara status suficiente, naquela "corte", para estar presente à reunião na qual o "primeiro-ministro" do padre Cícero - o deputado Floro Bartolomeu - concedeu a patente de "Capitão" ao controverso "afilhado" do religioso, a fim de atraí-lo para a luta contra a Coluna Prestes, inimiga do governo do presidente Artur Bernardes.

Virgulino Ferreira da Silva desde o primeiro momento impressionou o assessor juazeirense para assuntos das "estranjas". Ali estava uma espécie de guerreiro de Saladino, agarrando o seu punhal de 48 centímetros com dedos morenos enfeitados dos anéis de pedras duvidosas. Tinha senso da cena, nas suas chegadas e ataques: vestia-se com uma roupa de campanha atravessada de bandoleiras que lembravam mexicanos revoltosos, sem perder nada do exame de uns óculos de finos aros de ouro a lhe darem certa distinção equívoca, feita de segurança e ameaça. Desfilando pela rua, pisava forte como um príncipe tisnado, e dava entrevistas, era fotografado pelos repórteres (Lauro Cabral e Pedro Maia) convidados do "Dr. Floro".

Petróleo, causa (inconfessada) de guerra

O ouro negro não aparece como motivo do conflito entre os Estados Unidos e o Iraque, onde fica a segunda maior reserva mundial, alvo de concessões já no início do século XX.


Campos de petróleo queimam no Kuwait, em 1991, em decorrência da Guerra do Golfo. A ajuda americana foi imediata.
Da rivalidade entre russos e britânicos nasceu a história do petróleo no Oriente Médio. Desde 1872, e de novo em 1889, o barão inglês Julius Reuter, fundador da agência de informações de mesmo nome, negociava, com a Pérsia, acordos que previam a exploração do petróleo, de maneira a detonar forte oposição da Rússia. O regime czarista temia a aproximação dos ingleses da sua fronteira sul. Os acordos foram anulados. Mas os homens de negócio da City não desanimaram: os entendimentos foram retomados pelo riquíssimo William Knox d'Arcy. Em Teerã, o xá tinha necessidade de dinheiro novo. As duas partes acabaram firmando um novo contrato. Em 28 de maio de 1901, mediante o pagamento de 20 mil libras líquidas à vista, igual montante em ações e 16% sobre os eventuais lucros, o xá firmou com D'Arcy uma concessão de 60 anos sobre dois terços do país. Com isso, os ingleses fincaram os pés na Pérsia.

O negociante contratou o engenheiro George Reynolds, que se instalou numa região deserta e selvagem entre a Pérsia (Irã) e a Mesopotâmia (Iraque), a 500 km do golfo Pérsico. A primeira perfuração começou em 1902, sob uma temperatura de 50oC à sombra, em meio a tribos hostis. Em abril de 1904, um poço começou a produzir, mas bem pouco. D'Arcy, contudo, ganhara a aposta: na região havia petróleo. Mas seriam necessárias ainda milhares de libras para explorá-lo e transportá-lo. E D'Arcy não dispunha dos meios para assumir sozinho os encargos da prospecção. Os geólogos tinham lhe assegurado que a perfuração de dois poços custaria 10 mil libras. Ora, em quatro anos ele já havia investido 200 mil libras. Logo, precisava encontrar parceiros.

D'Arcy fez negócio com a Burmah Oil e cedeu parte de suas ações. Essa sociedade petrolífera, baseada em Glasgow, era apoiada por Londres. Eles escolheram uma nova zona de prospecção: a "planície do óleo", a sudoeste de Teerã, perto de Chatt el-Arab. Para ali chegar foi preciso abrir uma estrada e encaminhar 40 toneladas de materiais antes de começar a perfurar, em janeiro de 1908. Muito longe, muito caro.

Em 14 de maio de 1908, a Burmah Oil estava a ponto de interromper os gastos: chegou a mandar Reynolds abandonar as perfurações. Em 26 de maio, contudo, um jato de petróleo saltou 15 metros acima da torre. Reynolds, a acreditar-se na lenda, enviou um telegrama aos sócios: "Ver Salmo 104, versículo 15, terceiro parágrafo". Na Bíblia, pode-se ler: "Que ele possa fazer sair o óleo da terra para a alegria de todos".
Para fazer frente aos pesados investimentos, a Burmah Oil criou em 1909 a Anglo-Persian Oil Company (a futura Britsh Petroleum), cujas ações dispararam. "Um oleoduto de 225 quilômetros, atravessando duas cadeias de colinas e uma planície desértica, foi construído em um ano e meio. Seis mil burros participaram do esforço", explicou Daniel Yergin, em Os homens do petróleo, lançado pela editora Stock em 1991. Uma refinaria foi instalada em Abadã, perto da fronteira com o Iraque, mas as dificuldades financeiras reapareceram. Desde 1912, a companhia tinha esgotado seu capital de giro. Parecia necessária a fusão com a grande rival, a companhia anglo-holandesa Royal Dutch-Shell, que na época dominava o mercado petrolífero. Para os ingleses não estava em questão perder o controle sobre seu abastecimento de petróleo. Ainda mais porque os programas navais de 1912, 1913 e 1914, previstos para confrontar a potência alemã, dependiam da construção de navios movidos a combustível, e não mais a carvão.

Kamikazes, as bombas humanas

A derrota esboçada no início de 1944 não era sequer cogitada pelo Japão, que respondeu à armada americana com guerreiros suicidas.


Grupo de pilotos kamikazes japoneses em uniforme de vôo, em 1945
O culto dos heróis é sem dúvida o mais difundido no mundo desde a Antigüidade. Muitas civilizações têm templos e rituais em homenagem aos "mortos pela pátria".
No país do sol nascente, o Yasukuni jinja, ou "Santuário da nação em paz", receberia as almas dos soldados japoneses mortos em combate. Ele foi construído em Tóquio, em 1869, pelo imperador Meiji, vinculado ao xintoísmo, a religião do Estado, bastante impregnada pelo militarismo. Na história de todas as sociedades humanas, os exemplos de gestos heróicos ou feitos realizados durante as guerras jamais são esquecidos. No Japão, os atos suicidas (jibaku) eram cometidos muitas vezes em caráter individual por soldados carregados com explosivos, que se jogavam sobre as posições inimigas, por aviadores em meio às grandes batalhas aeronavais, tendo na mente o lema banzai "antes a morte que a rendição". Os americanos atribuíam essas atitudes ao "fanatismo".

Os chefes militares japoneses sabiam que o tempo agia contra eles e que a esmagadora superioridade da produção de guerra americana conduzia irremediavelmente à derrota do Japão e, também, à da Alemanha hitlerista. A menos que fossem introduzidas armas novas que revertessem a situação. Em todos os países em guerra, os cientistas desempenhavam o papel de aprendizes de feiticeiro, envolvidos, entre outros projetos, na fabricação de uma bomba atômica. Mas os de Los Alamos, nos Estados Unidos, estavam confortavelmente mais adiantados que seus "concorrentes" alemães de Hechingen e, ainda mais, dos japoneses do centro nuclear de Hunan, na Coréia do Norte. O resultado seria visto em Hiroshima e Nagasaki.

O sonho japonês de levar a guerra ao solo americano ficou patente com o lançamento de 9 mil balões de 10 metros de diâmetro, carregando uma carga explosiva e incendiária de 90 quilos, empurrados para o leste pelos ventos dominantes sobre o oceano Pacífico e que atingiam 300 km/h, acima de 10 mil metros de altitude. Cerca de um milhar deles atingiram os Estados Unidos provocando somente incêndios de extensão limitada. A obsessão era sua eventual utilização na guerra bacteriológica, pois as pesquisas da unidade 731, do general Ishiii Shiro, estavam significativamente avançadas. Mais modestamente, os engenheiros japoneses tinham se inspirado no "torpedo humano" italiano chamado maiale, montado por dois homens-rãs que se soltavam após fixar no casco de um navio inimigo uma carga explosiva de efeito retardado. O engenho japonês, operacional em abril de 1944, chamava-se kaiten (volta ao céu) e, implicitamente, não previa a sobrevivência dos homens-rãs, chamados fukuryu (dragões sorrateiros).

Batizada de kikumizutai (crisântemos d'água), a operação de 19 de novembro de 1944 pela primeira equipe de cinco homens-torpedos, transportados por três submarinos cargueiros ancorados na ilha Ulithi, entre as Marianas e as Palau, foi um fracasso. Em janeiro de 1945, uma segunda operação contra navios americanos em Guam obteve resultados tão modestos que os kaiten foram abandonados. Como o seriam as sentinelas suicidas Shinyo (agitadores marítimos), que navegavam a 30 nós com duas toneladas de bombas na dianteira.

Bolívia - a luta para ser nação

Em 1952, o país vive seu despertar, quando a reação a uma tentativa de golpe militar transforma-se em revolução, mobilizando intelectuais, operários e camponeses. Apesar de abortado, o episódio está na raiz do processo atual, que levou Evo Morales à presidência.


Mortos no conflito de 1952, à espera de identificação
Apesar do seu pomposo impacto, a nacionalização das reservas de gás natural e petróleo da Bolívia, decretada em maio do ano passado pelo presidente Evo Morales, não foi a primeira do gênero no país. Propostas anteriores de nacionalização, como as lançadas na Revolução de 1952 (provavelmente a única revolução operário-camponesa acontecida na América do Sul), mostram que se trata de um processo quase recorrente na história boliviana. E refletir sobre o tema e sobre os fatos que levaram à derrocada desses processos ajuda a avaliar as possibilidades de êxito desse novo governo que, assim como o de 1952, busca ser revolucionário.

De início, vale lembrar que a ocupação das ex-colônias da América do Sul esteve ligada à exploração dos recursos naturais. No caso da Bolívia, os espanhóis encontraram recursos que logo justificariam a empreitada. As minas de prata andinas, marcadas pelo apogeu e pela decadência do Cerro Rico de Potosí, foram, provavelmente, a principal riqueza explorada pelos espanhóis em terras austrais. Mas não eram as únicas ali disponíveis. Após a independência (1826), o salitre, o estanho, o látex e o petróleo marcariam os ciclos econômicos do primeiro século de vida republicana do país.

Porém, a exploração desses recursos não se desvinculou do padrão vigente no período colonial. Exploradas por empresas diretamente ligadas a setores estrangeiros, responsáveis pela demanda desses recursos, essas atividades abasteciam uma elite demograficamente restrita e com nítida filiação étnica. A elite criolla, formada por gente nascida nas colônias e por descendentes de espanhóis, conservou a hegemonia política e econômica do país, e o conduziu a um sistema excludente, no qual a população indígena e chola (mestiços de classe média baixa) era mantida como mão-de-obra barata ou em sistemas como a pongueaje (prestação de serviços não remunerada, devida pelas comunidades indígenas aos proprietários das terras).

A nota trágica, que consagraria a imagem da Bolívia como país frágil e desagregado, seriam as perdas territoriais. Envolvida em guerras fronteiriças, a Bolívia se viu mutilada em mais de 50% do território que contava à época da independência. Dessas, além da derrota na Guerra do Acre, ao final da qual a Bolívia concordou em ceder o território acreano ao Brasil em troca de compensações econômicas, a mais dramática foi a perda da faixa litorânea para o Chile, na Guerra do Pacífico. Para um país cuja economia se baseava na exploração de recursos naturais voltada para uma demanda externa, a perda do litoral implicou prejuízos que ainda hoje marcam a economia boliviana.
Evo Morales acena para correligionários em cerimônia no palácio presidencial


Vocação mineira
Foi essa a Bolívia que ingressou no século XX. Do ponto de vista econômico, a vocação mineira boliviana teria continuidade com a exploração do estanho, na mesma região das esgotadas minas de prata (os departamentos de Oruro e Potosí). Mas, assim como no período anterior, essa exploração estava profundamente ligada aos interesses de uma oligarquia que estendia sua influência a todos os setores da vida boliviana. A "rosca", como viria a ser conhecido esse grupo, era a denominação aplicada inicialmente ao grupo das três maiores empresas exploradoras de estanho - Patiño, Hotschild e Aramayo -, todas, a princípio, de capital boliviano, mas com escritórios sediados na Europa e controladoras de quase 80% do setor. Porém, os tentáculos da "rosca" se prolongavam, em especial, nas esferas políticas, fazendo com que a condução do país se mantivesse de acordo com seus interesses. Nas questões sociais, ficava claro que o ideal do Estado passava pela exclusão, ou até mesmo a eliminação, do indígena. A idéia era que os indígenas seriam os responsáveis pelo "atraso" do país, interna e externamente.

Nesse contexto, o país se veria diante de um novo conflito. A Guerra do Chaco (1932-1935), decretada durante o governo de Daniel Salamanca, oporia Bolívia e Paraguai num conflito deflagrado, a princípio, pelo interesse boliviano no rio Paraguai, como forma de acesso ao Atlântico. Posteriormente, as companhias petrolíferas Standard Oil e Royal Dutch Shell seriam acusadas de insuflar o embate, em razão das prováveis reservas de hidrocarbonetos da região. O resultado foi uma nova derrota boliviana, a perda de dois terços do Gran Chaco, a região de planícies que divide os dois países, e a detonação de um processo de reflexão em âmbito nacional que imporia transformações profundas na trajetória do país.

Por um lado, a derrota lançou questionamentos sobre a soberania do país. Por outro, para o conflito concorreram basicamente indígenas e cholos, uma vez que a oligarquia não mandava seus filhos à guerra. Os relatos do período dão conta de recrutamentos forçados de camponeses indígenas, aqueles mesmos que em outros momentos eram considerados entrave ao desenvolvimento do país.

O processo de reflexão ocorreu em todos os níveis da sociedade. Indígenas retornavam do campo de batalha a suas comunidades trazendo ligações traçadas com setores sindicais urbanos. Além disso, o armamento não foi devolvidow, passando a formar pequenos arsenais de fuzis em posse dessas comunidades. Dessa forma, tinha início uma mobilização no meio rural, que elevou as tensões entre proprietários de terras e indígenas insurretos.
Os militares se dividiam entre um setor nacionalista, que retornara do campo de batalha desejoso de reformas, e outro ligado às elites, que ainda ansiavam por manter-se no poder. Essa divisão se projetaria num conturbado cenário político, com alternâncias dos dois grupos à frente do Estado. A fase dos militares nacionalistas no governo seria conhecida como o período do "socialismo militar", com abertura política para a participação de indígenas e operários, mas sob forte controle estatal. Porém, a força da "rosca" permanecia, e tais governos terminaram, quase sem exceção, de forma trágica.
Em refinaria em Tarija, na Bolívia, soldado segura a bandeira do país


A tarefa que se impunha era difícil: articular uma gama de interesses distintos que chegava ao poder de forma abrupta e que logo exigiria sua parte na fatura. Assim, o MNR desenhou uma coalizão de "co-governo": no dia 16 de abril, uma semana após a revolução e com a presença de Victor Paz, era formada a Central Obrera Boliviana (COB), frente sindical única que seria o braço operário do governo revolucionário. E os militares veriam o exército desarticulado, com as milícias camponesas assumindo o papel de forças armadas.

Nacionalização das reservas
O governo MNR-COB teve um início arrasador, decretando medidas que atendiam às demandas de suas frentes de apoio. Entre elas, na questão econômica, o governo decretou a nacionalização de todas as reservas minerais do país, o que significava o fim da "rosca", e a formação da empresa estatal Comibol (Comissão Mineira Boliviana). Porém, não tardaria para que medidas como essa encontrassem seus limites. A fragilidade econômica do país era evidente. A economia continuava baseada na exploração do estanho, e a ausência de refinarias no país fazia com que pouco valor fosse agregado às exportações desse mineral. Além disso, a necessidade de conceder indenizações às empresas nacionalizadas diminuía as receitas do governo.

Essa carência de receitas também ditava os rumos da reforma agrária. Não havia recursos para financiamento aos novos proprietários, e estes, inseridos de forma abrupta num sistema de produção privada distante das práticas comunitárias andinas, e após anos de pongueaje, não conseguiram obter produtividade suficiente para abastecer a si e ao mercado. A reforma agrária ia se transformando num processo espontâneo de tomada de terras por milícias armadas, enquanto os grandes proprietários, por sua vez, se deslocavam em direção ao leste boliviano (departamentos de Santa Cruz e Tarija), que servia de abrigo para as grandes propriedades e os setores conservadores.

Essas carências logo forçaram o governo a adaptar-se às pressões internas e externas, como forma de buscar financiamento para suas ações. O primeiro grande indício dessa adaptação foi o Código do Petróleo, de 1955, que, apenas três anos após a revolução, abria a possibilidade de investimentos privados junto à YPFB, e outorgava a prioridade na exploração petrolífera à Bolivia Gulf Company (subsidiária local da americana Gulf Oil Company). Com isso, o antiimperialismo, um dos pilares do nacionalismo do MNR, se via derrubado.

Não tardaram, assim, a surgir dissensões entre os integrantes da coalizão. As diferentes soluções iam do aprofundamento das medidas revolucionárias à adaptação a um cenário que lhes exigia maior moderação.
O MNR alternou-se no poder com as presidências de Victor Paz (1952-1956), Hernán Siles (1956-1960) e, novamente, Victor Paz (1960-1964). Foi nesse último governo, com a adoção do Plano Triangular em 1961 - um plano concebido pelo BID com capital dos Estados Unidos e da Alemanha Ocidental para modernização da mineração nacionalizada - e, principalmente, com a decisão de Victor Paz de concorrer à reeleição com apoio militar, que houve o rompimento entre Paz e Siles Suazo, ao lado do agravamento definitivo das tensões internas. Em novembro de 1964, três meses após a posse, o general Barrientos (vice de Paz) decretava um golpe de Estado, e com ele, o fim do governo revolucionário de 1952.

Pacto Militar-Campesino
É inegável que as transformações legadas pela revolução de 1952 permaneceram na órbita dos governos que a sucederam. O general Barrientos legitimou-se no poder por meio do Pacto Militar-Campesino, pelo qual ganhava o apoio das milícias no campo, diminuindo as pressões às quais era submetido. Ao mesmo tempo a COB, ainda que duramente reprimida pelos militares, continuava desempenhando papel importante.

A herança do nacionalismo fica evidente no governo que sucede Barrientos, morto prematuramente em acidente de helicóptero em 1969. O general Alfredo Ovando Candia, em um breve governo de pouco mais de um ano, entre 1969 e 1970, decretou o fim do Código do Petróleo e a nacionalização da Gulf Company, e estabeleceu relações com a URSS e o bloco socialista, ao mesmo tempo que sufocava focos guerrilheiros no país. Mas a força do movimento já não era a mesma, e a década de 70 veria na longa ditadura do general Hugo Bánzer o ingresso da Bolívia num cenário compartilhado pelos demais países do continente.

Já o epílogo do movimientismo do MNR se daria de forma inusitada. De volta ao poder após a redemocratização, com a reeleição de Victor Paz à presidência em 1985, foi ao mesmo MNR de 1952 que coube a missão de rearticular os objetivos, não só do partido, como das instituições que ele havia ajudado a criar. Nos primeiros meses de governo, o MNR lançaria o Decreto Supremo 21.060, que mudava o papel da Comibol, descentralizando-a e transformando-a numa administradora de contratos nos quais empresas privadas seriam autorizadas a exercer a atividade mineira. Esse decreto levou a uma traumática realocação de trabalhadores mineiros, deslocados de suas zonas de origem para novas frentes agrárias ou para a periferia dos grandes centros. Ao mesmo tempo, abria-se ali o processo de capitalizações - privatizações que, segundo o governo, manteriam o controle estatal sobre as empresas. O MNR se afastava de sua função de articulador das frentes sociais, para assumir o papel de um administrador dinâmico, que buscava o ingresso da Bolívia num cenário globalizado.

Mas as pressões que o haviam levado pela primeira vez ao governo, em 1952, continuam presentes na sociedade boliviana. A retirada pouco honrosa do MNR da presidência do país em outubro de 2003, na Guerra do Gás, fortaleceu a possibilidade de ascensão ao governo de uma nova frente que, assim como a de 1952, congrega diferentes anseios e assume o poder buscando reformular a concepção de Estado e de sociedade no país. Essa frente, assim como para com os revolucionários de 1952, deverá, em breve, refletir sobre os limites com que terá de deparar, para que suas intenções não naufraguem diante de um mar de conflitos e

O New Deal

Em 1933, Franklin Delano Roosevelt, o novo presidente dos Estados Unidos, apresenta-se como o salvador de uma nação economicamente esgotada. Seu objetivo é restaurar no país as sólidas bases sociais e administrativas que fizeram a grandeza dos EUA

©BETTMANN/CORBIS – STOCK PHOTOS
Vista aérea da construção das barragens de represa hidrelétrica, em 1935, no vale do Tennessee, pelo Tennessee Valey Authority (TVA), orgão federal destinado a assegurar o desenvolvimento econômico da região e a criação de empregos
Em 4 de março de 1933, Franklin Delano Roosevelt torna-se presidente dos Estados Unidos. A crise econômica e social iniciada em outubro de 1929 arruína o país. Desaparece a confiança na prosperidade. Os especuladores arruinados não podem mais saldar suas dívidas. Os bancos reclamam sua parte. Como não conseguem reaver o dinheiro que lhes é devido, 659 bancos fecham suas portas em 1929, 1.352 em 1930, e 2.294 no ano seguinte. Obrigados a abrir falência, os industriais fecham as fábricas. O desemprego atinge índices astronômicos: 1,5 milhão de americanos em 1929, 13 milhões de homens e mulheres quatro anos mais tarde, ou seja, um quarto da população ativa. Se levarmos em conta que, há uma década, os agricultores sofrem com o excesso de produção e com as condições climáticas, compreenderemos o subconsumo, a miséria crescente e o pavor que assolam os EUA. É certo que não se trata da primeira crise econômica. Os especialistas pedem um pouco de paciência. Ou, conforme as palavras do presidente Herbert Hoover, a prosperidade está na próxima esquina. Isto não impede que os meses e os anos passem sem um vislumbre de recuperação. Os desempregados só podem contar com a caridade. Surgem acampamentos no centro das cidades, como, por exemplo, no Central Park, em Nova York. Os políticos propõem explicações que não convencem e são incapazes de descobrir soluções. Eles, assim como os cidadãos, estão perturbados. Franklin Roosevelt constitui uma exceção. Em 1928, fora eleito governador do estado de Nova York, sendo reeleito em 1930. Nascido em 1882, filho de família nobre, primo e depois sobrinho por afinidade do presidente Theodore Roosevelt, antigo secretário adjunto da Marinha durante a presidência de Woodrow Wilson, Roosevelt representa o novo Partido Democrata, mais aberto ao mundo urbano e atento às minorias étnicas. Ele está disposto a adotar todas as soluções, mesmo as contraditórias. Na eleição presidencial de 1932, Roosevelt restaura a esperança. Seu adversário republicano, o presidente Herbert Hoover, decepcionou a muitos e perde a batalha.

Roosevelt promete agir imediatamente. De março a junho de 1933, inúmeros projetos invadem o Congresso. A equipe do presidente, principalmente o Brain Trust, demonstra uma atividade febril. A 9 de março, uma lei reorganiza o sistema bancário e permite a reabertura dos bancos. A 20 de março, nova lei assegura o equilíbrio orçamentário. A 22 de março, inicia-se o processo que suspenderá a proibição das bebidas alcóolicas. Mas, sobretudo, nasce

os órgãos federais.


O otimismo do presidente Roosevelt foi fundamental para acalmar a desesperada nação americana. Assim conseguiu o apoio da sociedade


O Civilian Conservation Corps (CCC), conduzido por militares, empregará 250 mil pessoas, que passam a trabalhar nas estradas, florestas e parques nacionais. A Federal Emergency Relief Administration (Fera) destinará A retórica do presidente Roosevelt foi essencial para a recuperação da confiança e da auto-estima dos americanos US$ 500 milhões aos estados e municípios para que criem empregos. O Agricultural Adjustment Act (AAA) tenta remediar a crise agrícola limitando a superprodução, elevando os preços, e ajudando os fazendeiros que aceitarem reduzir a superfície cultivada. A Tennessee Valley Authority (TVA) valorizará o vale do Tennessee, construirá barragens hidrelétricas, facilitará a irrigação e assegurará o desenvolvimento regional. A National Industrial Recovery Act (Nira) visa dar novo vigor às atividades industriais, e confia aos empresários a iniciativa de concluir acordos com a ajuda do federal. O artigo 7 dessa lei garante aos trabalhadores o direito de formar sindicatos. A Civil Works Administration (CWA) dará assistência a 4 milhões de desempregados.

O método não se limita aos cem dias do programa. À medida que vários desses organismos vão desaparecendo, conforme o prazo fixado pela lei, são substituídos por outras administrações, formadas segundo o mesmo modelo. A Works Progress Administration (WPA) data de 1935 e é sucessora da Fera. A Securities Exchange Commission (SEC) cuida da regulamentação das operações da Bolsa. A Rural Electrification Administration (REA) recebe a missão de eletrificar as zonas rurais. A National Youth Administration (NYA) trata do desemprego dos jovens. O National Labor Relations Board (NLRB) controla o processo de negociações trabalhistas. A lista poderia ser aqui aumentada com o sistema de seguridade social, que nasce em 1935, as leis sobre o aluguel, sobre os seguros bancários, os impostos, a extração do carvão. Cada medida envolve a criação de secretarias, comitês e serviços para assegurar a aplicação da lei. É como se os Estados Unidos procurassem compensar seu atraso em relação às pesadas administrações européias.
Família de lavradores fugidos da seca que atinge o estado de Oklahoma acampados em estrada da Califórnia, em 1936


Roosevelt esforça-se por responder a questões simples. Como restaurar a confiança dos americanos? O discurso é essencial. O presidente irradia otimismo a seus compatriotas. Permitam-me afirmar, declara em seu discurso de posse, que só temos uma coisa a temer: o próprio temor, o medo sem nome, irracional e sem justificativas. (...) Não fomos assolados pela invasão de alguma peste. (...) A abundância está na nossa porta. Roosevelt consegue encantar, é extraordinário na conversa, e um sedutor ainda mais eficaz diante dos infortúnios que o acometem. Como a poliomielite que, aos 39 anos, paralisa suas pernas, mas testemunha sua energia para enfrentar os desafios da vida. Ele é o grande comunicador dos anos 30. É também o herdeiro do progressismo, uma corrente de pensamento que surge no início do século XX. Os progressistas não têm a intenção de eliminar o capitalismo, revolucionar a sociedade ou instaurar o socialismo. Eles desejam humanizar as relações em uma nova economia. O capitalismo selvagem, acreditam, é perigoso. É preciso um contrapeso que só o governo federal pode fornecer. Ao lado,
ou fazendo frente ao Big Business, é preciso um Big Government e, para evitar os excessos de um e outro, um Big Labor, o poder sindical conforme o modelo americano: forte, independente dos partidos, e que reivindica. Roosevelt segue esta via quando cria, por exemplo, a Tennessee Valley Authority.

Em defesa da democracia

Ao mesmo tempo, porém, Roosevelt não deixa de percorrer outros caminhos. A Nira demonstra sua vontade de confiar nos empresários, ainda que não esqueça de associá-los aos funcionários e aos sindicatos. A lista de contradições é infindável. Para além da heterogeneidade das medidas, uma idéia- chave predomina: Washington ocupa, agora, a posição central, é onde as decisões são tomadas. O governo federal torna-se o motor da vida econômica e social, intervindo em todos os domínios. Neste sentido, Roosevelt vai contra os seus predecessores. Ele não acredita mais na filosofia política do passado. É preciso que o país entre na modernidade. Nesses anos 30, propícios às aventuras políticas, Roosevelt poderia ter caído na armadilha da ditadura. Mas isto não ocorreu. Reeleito em 1936, 1940 e 1944, foi sempre o campeão da democracia, reforçando a autoridade presidencial, mas respeitando os direitos do Congresso, a Corte Suprema (apesar da reforma abortada de 1937), e a imprensa. Mas ele transformou profundamente o Partido Democrata. De agora em diante, os negros, os operários e as minorias étnicas votarão, em sua maioria, nos democratas. Os segregacionistas do Sul, porém, não deixam, graças a uma tradição que remonta à Guerra de Secessão, de confiar no partido que se opôs ao republicano Lincoln. Constitui-se, assim, uma curiosa coalizão em torno de Roosevelt, coalizão que detém a maioria no Congresso e que sobreviverá até os anos 80. É incontestável o mérito do presidente, numa época em que comunistas e socialistas, fascistas, demagogos e populistas dedicam-se a atacar a democracia.



O primeiro dos Civilian Conservation Corps começou a funcionar em Camp Roosevelt, na Virgínia. A criação desses orgãos federais gerou mais de 4 milhões de empregos


Críticas ao presidente

Esse sucesso não poupa Roosevelt das críticas. Os quadros administrativos aumentam na capital federal e nos estados e municípios. Para atender às novas necessidades, o partido majoritário fornece os homens e mulheres para as instituições. Engrenagem que suscita reações. Alguns acusam Roosevelt de encher as administrações com os simpatizantes do Partido Democrata. Outros acusam-no de abrir as portas aos subversivos e aos comunistas. A caça às bruxas começa.

A segunda crítica não é menos grave. Seis anos após a ascensão ao poder de Roosevelt, a crise não fora superada. Os índices econômicos são reveladores. O PIB de 1939 atinge com dificuldade o nível de 1929; e se o critério escolhido for o PIB per capita, o índice de 1939 é ligeiramente inferior. A produção industrial experimentou ligeira melhora em 1937, antes de cair novamente no ano seguinte e ganhar alguns pontos em 1939. O desemprego diminuiu. Todavia, há ainda 9,5 milhões de pessoas sem emprego, ou seja, 17% da população ativa. O desempregado de 1939 está, é certo, mais bem protegido do que o de 1929. Mas o que colocará a economia americana nos trilhos será a produção de guerra. O New Deal teve êxito apenas relativo.(Tradução de Alexandre Massella)
A DEMOCRACIA A CAMINHO: SEU DISCURSO DE POSSE
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Roosevelt promete resolver a crise econômica que assolava o país havia quatro anos
(...) “Nossa Constituição é tão simples e tão prática que sempre é possível atender necessidades extraordinárias mediante alterações de ênfase e de interpretação, sem que se abandone a forma essencial...

Podemos esperar que o jogo normal dos poderes Executivo e Legislativo seja perfeitamente adequado para realizar a tarefa que nos cabe. Mas a exigência de uma ação urgente, sem precedentes, pode exigir o abandono temporário do jogo normal do procedimento público.

Estou disposto a propor, em virtude de meu dever constitucional, as medidas que uma nação ferida em um mundo ferido pode exigir. Essas medidas, assim como todas as outras que o Congresso, em sua sabedoria e experiência, vier a elaborar, eu tentarei, nos limites de meu poder constitucional, implementar rapidamente. Mas, se o perigo nacional tornar-se crítico, não me furtarei ao dever evidente que precisarei então enfrentar.

Solicito ao Congresso a única arma que resta para combater a crise, um amplo poder executivo para ganhar a guerra contra o perigo, um poder tão amplo quanto aquele que me seria concedido se nossa nação estivesse invadida por um exército inimigo.” (Trecho do discurso de posse, de 4 de março de 1933)