quinta-feira, 8 de março de 2012

O estopim da escalada nazista


O incêndio no edifício do Reichstag, o parlamento alemão, foi um ardil usado por Adolf Hitler para fechar o regime e tomar o poder

Um plano criado pelo ministro Hermann Goering atribuiu o atentado aos comunistas
Cinco dias antes das eleições legislativas de 1933, na noite de 27 de fevereiro, a sala de sessões do Reichstag, o parlamento alemão, inflamava-se como uma tocha.

Ardiam as chamas contra o céu de Berlim. No dia seguinte, a polícia, colocada sob a autoridade de Hermann Goering, ministro do Interior da Prússia, apresentava seu suspeito: um anarco-comunista holandês de 24 anos, o pedreiro Marinus van der Lubbe. Ele tinha sido "pego em flagrante", e "seus cúmplices comunistas, fugido".

No dia seguinte, sob o pretexto de uma ameaça de complô de esquerda, Hitler impunha ao presidente Hindenburg um decreto de emergência abolindo todas as liberdades fundamentais da República. Nos dias que se seguiram, milhares de adversários dos nazistas foram presos. A imprensa socialista e comunista foi proibida. A Gestapo e a tropa diferenciada SS tinham plenos poderes. O incêndio do Reichstag, de alguma forma, foi o ato fundador do III Reich, e escancarou as portas do poder para Hitler. De fato, em 5 de março, os nacionais-socialistas e seus aliados obtiveram 51,8% dos sufrágios.

O processo de Van der Lubbe durou de setembro a dezembro de 1933, na Corte Suprema de Leipzig. A seu lado, no banco dos réus, encontravam-se o líder do grupo comunista do Reichstag, Ernst Torgler, e três correligionários búlgaros, um deles o responsável pelo Komintern, Georgi Dimitroff. No entanto, muitos duvidavam da culpa de Van der Lubbe. E não apenas os socialistas e comunistas. Até entre os que apoiavam Hitler, havia quem pensasse que o Partido Nazista, o NSDAP, estava envolvido na trama. Os autos dos interrogatórios - conduzidos pelo comissário Walter Zirpins sem a presença de intérprete, embora Lubbe falasse mal o alemão - foram assinados pelo acusado, que admitia o crime. O documento ainda aventava a hipótese de que ele agira por instigação dos comunistas - o que ele negara.

Campanha da Rússia, um colossal revés para Napoleão


Nas vastas planícies geladas do Leste Europeu, o exército do imperador conheceu o gosto amargo da derrota: embora vitorioso do ponto de vista militar, sucumbiu na retaguarda


O czar Alexandre e o imperador Napoleão, acumulando mágoas recíprocas, passaram a trocar farpas que anunciavam a guerra. Entre os principais pontos de discórdia estava o bloqueio continental imposto pela França, em 1806. Obrigado, por acordo de 1807, a fechar suas fronteiras ao comércio inglês, o czar se viu assediado pelas queixas dos grandes proprietários do império, que, sem poder exportar para a Inglaterra - seu principal mercado - os produtos da terra e das minas, puseram-se a anunciar a ruína. Alexandre, que tudo faria para evitar uma guerra com os súditos, reabriu parcialmente as fronteiras, favoreceu o comércio dos neutros e gravou as mercadorias francesas com taxas quase proibitivas: a seda, o vinho, os bens de luxo.

Essas medidas afetaram a França sobretudo porque, naquele momento (início de 1811), sua indústria atravessava uma crise grave, e, para lhe compensar o efeito, Napoleão anexou as cidades hanseáticas, Bremen, Hamburgo, assim como Oldemburgo, pertencentes ao cunhado de Alexandre, o que suscitou novas queixas.

"O arco está tenso há muito tempo", disse Napoleão, e não seria em São Petersburgo que ele se flexionaria. Ele não queria a guerra, mas, a partir do momento em que se viu sozinho contra Alexandre, que violara acordos e tomara o partido da Inglaterra, o conflito tornou-se inevitável. Além disso, o czar sabia como enfrentar as forças do adversário. Por meio de espionagem, seus colaboradores descobriram a posição das tropas francesas na Alemanha e o quadro de seus movimentos; ao mesmo tempo, receberam informações sobre o melhor método de se impor ao inimigo: evitar os grandes confrontos, fustigá-lo com marchas e contramarchas.

Napoleão, por sua vez, tinha um plano bem claro: avançar rapidamente em território russo, obrigar Alexandre a combater, fazê-lo recuar até a antiga Moscóvia, desvincular da Rússia a Polônia, que serviria de fronteira para a Alemanha, restaurar sua autoridade e, assim, completar o sistema continental.

A Tragédia de Pompéia


Nas horas que se seguiram à erupção do Vesúvio, morreram 16 mil habitantes de Pompéia, praticamente 80% de toda a população.

Cinzas e lama moldaram os corpos das vítimas, permitindo que fossem encontradas do modo exato em que foram atingidas pela erupção do Vesúvio, cujo vulto vê-se ao fundo
Nas horas que se sguiram à erupção do Vesúvio, morreram 16 mil habitantes de Pompéia. Hoje, é possível reconstituir esta tragédia passo a passo, como se estivéssemos presentes.

Pompéia, uma cidade de 20 mil habitantes, produtora de vinho e azeite, vive hoje, 24 de agosto de 79 d.C., um dia de festa. Um grupo de teatro vindo de Roma deve se apresentar no Grande Teatro. Começando por volta das 11 horas da manhã, o espetáculo deve durar, como sempre, até a noite. São um pouco mais de dez horas.

Os padeiros, com suas cestas de doces nos braços, se dirigem às arquibancadas. Diante das thermopolia, bares ao ar livre da Antigüidade, os consumidores terminam de beber suas últimas taças de posca e as lojas começam a descer as persianas de madeira, sinal de fechamento. O dia está bonito e, como na véspera, se anuncia quente.

De repente, ouve-se uma explosão. Espanto! Num instante, todos estão na rua. Espetáculo alucinante, o topo do Vesúvio havia se partido em dois. Uma coluna de fogo escapa dali. É uma erupção! De início, todos se assustam e se interpelam. Havia pelo menos 900 anos que o vulcão não dava sinais de vida. Dizia-se que ele estava extinto. Logo depois é a agitação. Em volta começa a desabar uma chuva de projéteis: pedras-pomes, lapíli e, às vezes, pedaços de rochas - fragmentos arrancados do topo da montanha e da tampa de lava resfriada que obstruía a cratera.

As bravas mulheres do bandeirismo paulista


Embora com uma imagem ortodoxa, em especial pela indumentária que sugeria submissão e timidez, elas foram muito ativas e tiveram um papel econômico fundamental, até mesmo como negociantes

No século XIX, muitas mulheres paulistas ainda se cobriam com mantos de baeta escura. Aquarela de Eduard Hildebrant, 1844
Boas esposas e mães de família, quase sempre recolhidas aos seus lares. "Recatadas" e "austeras", nas poucas vezes que saíam à rua cobriam-se totalmente com mantos de baeta - um tecido de lã grosseiro e tingido de cor escura -, o que lhes rendeu o apelido de "mulheres tapadas". Essa era a imagem estereotipada das mulheres paulistas do período colonial que muitos historiadores repetiram em suas obras durante muito tempo. Era quase um consenso entre eles que, quando as moças se casavam, passavam do poder paterno para o do marido, a quem seriam submissas pelo resto da vida. Limitavam-se a costurar, lavar, bordar, fazer rendas, mandar nas escravas, rezar, e, é claro, parir e criar muitos filhos, um após o outro.

Poucos pesquisadores apresentaram outras imagens. Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, insistiu em que elas saíam de casa mais vezes do que se pensava, e tinham muita participação na vida de suas comunidades: faziam curas e partos, lutavam pela sobrevivência cotidiana. Outros apontaram que as moças pobres, obrigadas a trabalhar muito para viver, eram sempre vistas nas ruas. Só as mais ricas ficavam em casa, à espera de um casamento vantajoso. Benedito Carneiro Bastos Barreto, o caricaturista Belmonte, outro autor da história paulista, destacou que a tal capa de baeta nem sempre fora marca do recato feminino como se pensava.

Ela permitia que muitas senhoras e senhoritas freqüentassem as casas dos homens - em outras palavras, fizessem o que quisessem - sem ser identificadas. Mesmo assim, ao retomar a seriedade habitual dos pesquisadores, ele enfatizou que eram exceções, pois a atitude de recolhimento imperava.

Assim, durante muito tempo as mulheres do período bandeirista - séculos XVI e XVII - foram vistas como figurantes da história. Enquanto os maridos e filhos cuidavam dos negócios comerciais ou seguiam, sertões adentro, à caça de indígenas e à procura de ouro nas bandeiras, elas simplesmente cuidavam das coisas do lar. Aos homens coube alargar as fronteiras da América Portuguesa, percorrendo territórios que, pelo Tratado de Tordesilhas, pertenceriam à Coroa da Espanha e que, mais tarde, passaram à Coroa lusa. Eles destruíram, ainda, as missões jesuíticas em territórios que hoje compõem o Rio Grande do Sul e Paraguai, na sua sede de escravos indígenas e riquezas. A elas, restou a tarefa de multiplicar a prole dos bandeirantes. Tudo parecia encaixar-se claramente. Homens e mulheres teriam vivido em universos totalmente separados, com papéis sociais opostos.

Napoleão na terra dos faraós


A expedição comandada por Napoleão Bonaparte ao Egito foi originalmente uma operação política elaborada para consagrá-lo definitivamente como chefe de Estado. Mas, foi além disso, constituiu também uma formidável missão científica, sem precedentes históricos, e inaugurou a era do colonialismo na História Moderna.

Vista geral das pirâmides e da Esfinge ao entardecer, em desenho de Charles Louis Balzac (1752-1820), para gravura de Baltard. Em primeiro plano, a pirâmide de Mênfis
É preciso voltar no tempo para encontrar um conquistador que tivesse sido acompanhado, em uma expedição longínqua, de um contingente científico de grande renome. Antes de Bonaparte e sua aventura egípcia, só Alexandre, o Grande, havia feito o mesmo. A expedição ao Egito, aventura militar e política em princípio, vai se transformar, em parte, em expedição científica.

Em 1º e 2 de março de 1798 (11 e 12 de Ventoso do ano VI da República), o Diretório suspende o projeto de desembarque na Inglaterra, e decide enviar uma expedição ao Egito para abater e enfraquecer a "pérfida Albion" em suas colônias. Com a engenhosidade de seu general na liderança, essa expedição deve igualmente enriquecer o patrimônio cultural da França, daí a idéia de associar às forças militares um contingente científico.

Nessa época, Bonaparte acabara de ser nomeado membro da Academia de Ciências, ocupando a cadeira deixada vaga por Carnot. Relata seu projeto a Monge, que se mostra entusiasmado: Napoleão precisava levar as artes da Europa na direção de um povo semibárbaro e semicivilizado, sem indústria, sem as luzes da ciência.

A idéia de constituir uma Comissão das Ciências e Artes germinou no espírito do general. Em 16 de março (26 de Ventoso), o Diretório ordena ao ministro do Interior que coloque à disposição do general Bonaparte os engenheiros, artistas, e todo o material necessário à expedição. Monge, Berthollet, Caffarelli, Fourier, Villiers du Terrage formam o núcleo de base da comissão. As grandes escolas e as principais instituições científicas fornecem seu contingente: Central, Normal, das Minas, Politécnica, das Pontes e Calçadas, das Artes e Ofícios, o Parque Aerostático de Meudon, o Museu de História Natural, o Jardim Botânico. Bonaparte quer que todas as especialidades estejam representadas: literárias, artísticas, econômicas e técnicas. São 167 "eruditos", formando a Comissão das Ciências e Artes da expedição ao Egito, que enfrentam o mar. Para dois dentre eles, Regnault de Saint-Jean-d'Angély e seu cunhado Antoine Arnault, a viagem termina em Malta.

São Bartolomeu : O Massacre em nome de Deus


O reinado de Carlos IX é conturbado, marcado pelos conflitos entre católicos e protestantes. Os vacilos do soberano resultam numa carnificina que praticamente dizima os huguenotes.

O rio Sena, banhado de sangue, como cemitério a céu aberto - O massacre de São Bartolomeu, agosto de 1572, em gravura anônima do século XVI
O ano é 1572. Carlos IX tem 22 anos, e seu reinado é conturbado devido aos conflitos que opõem católicos e protestantes. A conjuração de Amboise precedeu, um pouco, sua coroação, em 1560.Os grandes do reino, como os Montmorency, os Guise e os Bourbon, disputam o poder sob o pretexto da religião e em nome de um jovem monarca que pretendem derrubar. Catarina de Médici, a rainha-mãe, joga uns contra os outros para garantir a herança de Henrique II e lograr um modus vivendi entre as duas facções. Apesar da derrota imposta pelo duque de Anjou, irmão de Carlos IX, nas batalhas de Jarnac e de Moncontour, os calvinistas conseguem recompor suas forças. Tendo por capital La Rochelle, chamada de a "Jerusalém Marítima", eles formam um estado dentro do estado, sob a autoridade do almirante Gaspard de Coligny, da rainha de Navarra, Joana d´Albret, e de seu filho Henrique (futuro Henrique IV). Eles têm agentes diplomáticos, exército, armada, finanças e, como aliados, a rainha Elizabeth da Inglaterra e seus correligionários de Londres.

São uma ameaça crescente à autoridade real, ou o que resta dela. Mas a rainha-mãe, cujo otimismo não fica aquém de sua tenacidade, não se desespera. Ela decide dar sua filha Margot como esposa a Henrique de Navarra. Acredita piamente que esse casamento terá o condão de reconciliar os franceses. Ela pretende também conseguir a conversão do futuro genro e, com isso, enfraquecer o partido calvinista, mas se choca com a intransigência de Joana d'Albret. Para abrandar a rainha de Navarra e tirá-la do prumo, ela necessita do apoio de Coligny. É com essa perspectiva que convoca o almirante a comparecer à Corte.

Carlos IX venera a mãe - um pouco demais, talvez -, mas suporta cada vez menos governar à sua sombra, e ainda ser um rei de fachada e ver seus feitos e gestos incessantemente controlados e suas iniciativas contrariadas. Além disso, ele sofre por não ser o filho predileto. Catarina idolatra o duque de Anjou, a quem chamam Monsieur. Ela assegurou sua fortuna e sua glória, sob pretextos falaciosos e em detrimento de Carlos, o filho mais velho, que se vê obrigado a conceder ao irmão o título de intendente geral do reino com poderes exorbitantes. Carlos tem fibra militar. Ele sonha imitar seu avô Francisco I e superar seu pai Henrique II.

É precisamente esse filão que o almirante vai explorar. Catarina assumiu um grande risco ao chamá-lo à Corte, porque, entrando no jogo, ele aposta no jovem rei. Escuta-o com atenção respeitosa, infla sua ambição, atiça seu ódio contra Filipe II da Espanha - assim, ganha sua simpatia. Carlos sente prazer em conversar com esse homem maduro. Não partilha de sua fé, mas admira sua coragem. O almirante o aconselha a governar sozinho, já que ele tem o poder, a idade e as capacidades para desafiar a rainha-mãe e sua roda excessivamente italiana, e, sobretudo, Monsieur que, campeão do catolicismo, está a serviço de Filipe II. Coligny lhe repete que ele tem o estofo de um grande rei, de um conquistador, e que lhe basta querer. Essas palavras são um bálsamo para o coração ulcerado de Carlos, que passa a nutrir um sentimento quase filial pelo almirante, a quem chama de "meu pai", certo de ter encontrado nele a figura paterna que perdera muito jovem, o conselheiro que tão penosamente lhe faltara. Quando admite entre seus familiares os auxiliares do almirante, Briquemault, Rohan, Téligny, La Rochefoucauld, os cortesãos começam a se agitar, cogitando se não estará disposto a abjurar a religião romana.

A heróica e desprezada batalha da borracha


Sem ter sido um episódio propriamente militar, a tentativa de ampliar dramaticamente a produção brasileira de borracha foi um projeto governamental que recebeu apoio técnico e financeiro dos norte-americanos em guerra contra o eixo Roma, Berlim e Tóquio.

Jovens recrutados fazem ginástica nos alojamentos, preparando-se para o trabalho nos seringais, Fortaleza, Ceará
Os nordestinos recrutados para trabalhar nos seringais foram chamados de "soldados da borracha", mas jamais receberam soldo nem medalhas.

De repente, em plena Segunda Guerra, os japoneses cortaram o fornecimento de borracha para os Estados Unidos. Como resultado, milhares de brasileiros do Nordeste foram enviados para os seringais amazônicos, em nome da luta contra o nazismo. Essa foi a Batalha da Borracha, um capítulo obscuro e sem glória do nosso passado, ainda vivo na memória dos últimos e ainda abandonados sobreviventes. No final de 1941, os países aliados viam o esforço de guerra consumir rapidamente seus estoques de matérias-primas estratégicas. E nenhum caso era mais alarmante do que o da borracha. A entrada do Japão no conflito determinou o bloqueio definitivo dos produtores asiáticos de borracha. Já no princípio de 1942, o Japão controlava mais de 97% das regiões produtoras do Pacífico, tornando crítica a disponibilidade do produto para a indústria bélica dos aliados.

A conjunção desses acontecimentos deu origem no Brasil à quase desconhecida Batalha da Borracha. Uma história de imensos sacrifícios para milhares de trabalhadores que foram para a Amazônia e que, em função do estado de guerra, receberam inicialmente um tratamento semelhante ao dos soldados. Mas, ao final, o saldo foi muito diferente: dos 20 mil combatentes na Itália, morreram apenas 454. Entre os quase 60 mil soldados da borracha, porém, cerca da metade desapareceu na selva amazônica.

Os Acordos de Washington

Quando a extensão da guerra ao Pacífico e ao Índico interrompeu o fornecimento da borracha asiática, as autoridades americanas entraram em pânico. O presidente Roosevelt nomeou uma comissão para estudar a situação dos estoques de matérias-primas essenciais para a guerra. E os resultados obtidos por essa comissão foram assustadores.

Napoleão: A segunda morte do Imperador


Napoleão repousa no Museu dos Inválidos? O escritor Georges Rétif acredita que ele foi envenenado pelos ingleses, que teriam substituído seu corpo no caixão para ocultar o assassinato.

Pomo da discórdia: O corpo que está na tumba do Museu dos Inválidos talvez não seja o do imperador
Santa Helena, 15 de outubro de 1840, cerca de 13 horas. Os generais Bertrand e Gourgaud, Emmanuel de Las Cases e os antigos servidores de Napoleão Bonaparte prendem o fôlego: o que irão descobrir no momento da retirada da tampa da urna funerária? Os 19 anos passados não teriam transformado o corpo num esqueleto hediondo? Não! Para surpresa geral, os restos de Napoleão aparecem milagrosamente conservados.

Em 15 de dezembro de 1840, a França organiza o retorno solene dos restos mortais de seu imperador, na presença do rei Luís Felipe, das autoridades de Estado e daqueles que continuavam fiéis a Napoleão Bonaparte.

Cento e vinte e nove anos mais tarde, em 1969, cabe à República, presidida por Georges Pompidou, conferir pompa à comemoração do bicentenário do nascimento de Napoleão. E é este o momento escolhido pelo escritor Georges Rétif de la Bretonne para escandalizar a opinião pública com sua obra Anglais, rendez-nous Napoléon!, na qual afirma que restos de imperador não repousam no Museu dos Inválidos. A afirmativa é imediatamente refutada pelo coronel MacCarthy, na época curador do Museu dos Inválidos.

A tese de Georges Rétif assim pode ser resumida: os companheiros de Napoleão, não desejando que sua fealdade física fosse legada à posteridade, decidem, depois de informar o governo britânico, substituir a máscara mortuária do herói pela de Cipriani Franseschi, mordomo da casa de Longwood, em Santa Helena, morto em fevereiro de 1818.

Freud: Segredos de Família


O fundador da psicanálise se revela um patriarca exigente e tirânico, cuja vida foi semeada por relações passionais e rompimentos conturbados.

BETMANN/CORBIS/STOCK PHOTOS
Com o charuto, a mais famosa foto do pai da psicanálise (1922)
"Judeu, venha até aqui, gritou o cristão, após haver jogado o meu boné de pele na lama". "E o que o senhor fez?", pergunta o jovem Sigmund a seu pai Jacob. "Apanhei meu boné", responde o pai. Essa cena incomoda a criança, que prefere substituí-la na imaginação pela história de Amílcar, obrigando Aníbal, seu filho, a jurar que o vingaria dos romanos.

Freud conta esta anedota em sua obra Interpretação dos Sonhos, publicada em 1900. Ela o marca de tal forma que, doravante, ele se torna o herói que ultrapassa o pai humilhado. Igualmente, ele vive sem religião, sem, porém, renegar seu judaísmo.
Sigmund Freud nasce na Morávia, em Freiberg, em 8 de maio de 1856. O pai, Jacob Freud, comerciante de tecidos, casa-se com Amalia Nathanson, em terceiras núpcias.

Com ela, tem outros sete filhos, depois do pequeno Sigmund. Mesmo sendo o mais velho desta irmandade, Freud já tem dois meio-irmãos mais velhos, nascidos do primeiro casamento de Jacob.

Originária da Renânia, região alemã banhada pelo rio Reno, a família refugia-se na Áustria para fugir das perseguições anti-semitas. Dramas e incidentes marcam o menino. Quando estava com 19 meses, morre seu irmãozinho Julius, 11 meses mais novo. Pouco tempo depois, em 1858, nasce a irmã Anna. Como companheiro, ele tem o sobrinho John, um ano mais novo, filho de seu meio-irmão Emannuel.

O grande choque é a saída de Freiberg, em 1859, para Leipzig, e, mais tarde, para Viena. Freud sofre dolorosamente com as emigrações. A viagem é de trem. Mais tarde, o doutor Sigmund Freud evocará longamente sua fobia por estradas de ferro.

Caneca, nosso primeiro padre guerrilheiro


Frei Joaquim do Amor Divino Caneca levou o liberalismo aprendido no Seminário de Olinda às últimas consequências. Contra o autoritarismo de d. Pedro I, pegou em armas, e pagou com a vida pela rebeldia

Nenhum carrasco habilitou-se a executá-lo. Nem mesmo em troca da liberdade, presidiário algum aceitou a tarefa. A execução de frei Caneca (detalhe), óleo de Murilo la Greca
Cadeia pública do Recife, 10 de janeiro de 1825. Um homem é condenado à forca, em sentença lavrada por comissão militar nomeada pelo imperador d. Pedro I. A forca está levantada no patíbulo, o condenado já rezou, já se confessou, já adquiriu a serenidade diante do inevitável. Só falta o carrasco.

A autoridade militar está em busca de um carrasco, que não aparece, pois não há quem queira executar aquele condenado. Manda-se chamar um preso comum, um mulato recrutado às pressas com promessas de benefícios. Mas o mulato não quer enforcar o condenado, mesmo sofrendo ameaças e sendo espancado a coronhadas pela soldadesca.

Nos dias 11 e 12 a tensão da espera continua. Mais um negro, igualmente espancado, e mais outro, igualmente torturado, se recusam a enforcar aquele homem que espera em sua cela. Do lado de fora da prisão, muita gente pede clemência para o condenado. Petições, passeatas de ordens religiosas, nada demove a vontade imperial de executar aquele homem querido e respeitado, e não há carrasco disposto a enforcá-lo. Trata-se do revolucionário liberal Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

O PANFLETÁRIO

Nascido em Recife em 1799, de origem humilde, Joaquim do Amor Divino vendia canecas nas ruas do Recife quando garoto, daí a origem de seu nome eclesiástico quando se tornou frade carmelita. Educado no Seminário de Olinda, centro de difusão de idéias liberais, tornou-se um dos mais combativos lutadores pela independência e pela república nos anos de 1817 a 1824

Eva Perón - A idolatrada mãe dos pobres


Filha ilegítima e desprezada, Evita tornou-se poderosa graças à sua determinação feroz. Sua mais cara e realizada promessa: ajudar os desvalidos.
 
Em 24 de agosto de 1951, Eva fala a uma multidão de mulheres.
Só me casarei com um príncipe ou um presidente", dizia Maria Eva Duarte quando vivia em Los Toldos, sua cidade natal no meio do pampa. Desprezada por todos como filha ilegítima, a criança almejava um futuro radiante como ouvia nas novelas de rádio, lia nas revistas de cinema e via nos filmes de Hollywood. O pai, don Juan Duarte, proprietário de terras, havia literalmente comprado sua mãe, a bela Juana Ibarguren, em troca de um jumento e uma carroça. Da união nasceram quatro meninas e um menino. Evita, a caçula, em 7 de maio de 1919. Ela mal conheceu o pai, que em seguida regressou ao católico lar onde o esperavam a esposa e filhos legítimos.

Dona Juana enfrentou sozinha as vicissitudes e, quando a caçula Evita estava com 11 anos, mudou-se com os filhos para Junín, uma vila na mesma província de Buenos Aires. O preconceito, porém, era igual. Os colegas de escola, por exemplo, não tinham permissão de cortejar Evita, em razão da origem. Não obstante, suas três irmãs mais velhas progrediram socialmente. Encontraram trabalho e fizeram bons casamentos.

Restaram os rebeldes: Juancito e Eva, a sonhadora decidida a tentar a vida no mundo do espetáculo. Humilhações demais lhe renderam um caráter duplamente genioso e uma vontade indomável. Aos 15 anos, em um dia 2 de janeiro de 1935, ela partiu para a capital, Buenos Aires. Apelidada de "Paris da América do Sul", a cidade fora arruinada pela crise mundial de 1929-30 e dependia das exportações de carne e de trigo, Eva, pálida e morena, batia incansavelmente às portas dos teatros. Seu único trunfo, a obstinação. Fora a teimosia que se tornou lendária, ela não tinha grande coisa a oferecer. Sem real talento artístico nem extraordinária beleza, ela era ignorante, arredia. Às humilhações vividas, somaram-se outras. Histórias bastante banais: diretores que exerciam a sedução, amantes de algumas horas. À mãe e às irmãs, que lhe suplicavam a volta para Junín, respondia sempre: "Primeiro, a celebridade".

De fato, em 1939, ela conseguiu se impor como atriz radiofônica. Encarnava as heroínas chorosas de novelas semelhantes às que haviam forjado sua ambição.

Deng Xiaoping - O arquiteto do milagre chinês


O pragmático sucessor de Mao Tsé-tung mudou os rumos do socialismo em seu país e traçou o projeto de desenvolver a China por meio da liberalização econômica sem democracia
São Paulo 08/03/2012
© DAVID HUME KENNERLY/GETTY IMAGES
Recém-empossado como vice-primeiro-ministro, Deng Xiaoping participa de recepção ao presidente americano Gerald Ford em Pequim, em 1975
Quem acredita em signos – coisa sempre importante quando se pensa na China – faz questão de lembrar que Deng Xiaoping nasceu no dia 12 de julho de 1904, sob o signo do dragão, sinônimo de grandes perturbações e, ao mesmo tempo, de prosperidade. Já os amantes da história observam que aquele também foi o ano da irrupção da Guerra Russo-Japonesa, conflito que se encerraria com a surpreendente vitória de um país asiático sobre uma potência européia.

Era o início de um século de crises e conflitos. Nos quatro cantos do mundo, e particularmente na Ásia, as reivindicações nacionais emergiam tal como o dragão adormecido desperta no seio da terra. Na China, esse dragão atendia pelo nome de Kuomintang, movimento nacionalista fundado por Sun Yatsen, do qual o próprio pai do jovem Deng era simpatizante.

O futuro líder comunista cresceu em meio a essa efervescência política e aos 15 anos, depois de concluir o ensino fundamental, partiu para a França, onde desembarcou no fim de 1920. Na Europa tomou contato com o marxismo e finalmente estabeleceu-se em Paris em 1925 enquanto uma revolta antibritânica explodia em sua terra natal. Tudo começou em Xangai, depois que um ofi cial inglês ordenou o fuzilamento de 12 chineses. Diante da agressão, os militantes do Kuomintang, agora oficialmente aliado da União Soviética e da Internacional Comunista (Comin tern), reagiram com a greve geral, marchando ao lado do Partido Comunista Chinês.

A onda de revolta chegou até a França e, na qualidade de um dos líderes comunistas chineses mais influentes em Paris, Deng ajudou a organizar grandes protestos contra a embaixada de seu país. Para fugir da perseguição que se seguiu, ele partiu para a clandestinidade e buscou exílio em Moscou.

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Deng Xiaoping e Mao Tse-tung juntos em março de 1959. O ímpeto de Mão era contrabalançado pela paciência do secretário-geral do partido


Na capital soviética, o “Pequeno Timoneiro” converteu-se num militante comunista disposto a todas as missões. E estas não faltavam. De volta à China, teve seu primeiro encontro com Mao Tsé-tung no dia 7 de agosto de 1927. Em seguida, foi enviado a Xangai para ajudar os comunistas locais na disputa contra os militantes locais do Kuomintang, liderados por Chiang Kai-shek.

Atuando na clandestinidade, o jovem ativista adotou o nome de “Deng Xiaoping” (a Pequena Paz), mas foi com o nome de guerra de Deng Bin que organizou, por ordem expressa do partido, diversas insurreições rurais fracassadas: na região de Guangxi, perto da fronteira com a Indochina.

Após essas tentativas frustradas de insurreição, fi nalmente Deng incorporou-se à Longa Marcha (ver glossário) em 1935. Rompendo à força o cerco dos soldados de Chiang Kai-shek, os comunistas abandonaram as montanhas do sul do país e se deslocaram até Yenam, no norte, onde instalaram uma nova capital revolucionária. Ao longo da marcha, Mao Tsé-tung tornou-se o líder inconteste do comunismo chinês. Em janeiro de 1935, Deng Xiaoping foi promovido ao posto de secretário do Comitê Central na decisiva conferência de Zunyi, na qual Mao se impôs.

Em Yenam, Deng teria papel destacado na guerra contra os japoneses. Ao lado do “Dragão Caolho” Liu Bocheng, assumiu o comando do exército “Liu-Deng” contra as tropas do Kuomintang, e se tornou um curinga na nova República Popular da China proclamada por Mao, em Pequim, em outubro de 1949.

“MILAGRE ECONÔMICO” Deng Xiaoping não acreditava na democracia. Pelo menos demoraria muito a chegar a tanto. A China só se desenvolveria se conduzida pela única força centralizada do país, o Partido Comunista. Sem dúvida, um partido disposto a discutir, aberto, realista no plano econômico, mas cujo papel de guia não podia ser contestado. No fundo, as coisas não tinham evoluído desde que o jovem Deng aderira ao comunismo. Dramaticamente retardada por dez anos de Revolução Cultural, a China continuava sendo, aos seus olhos, um país imenso, pobre, subdesenvolvido que precisava “ser parido a fórceps”.

Sem consideração pelo amor-próprio tradicional de seus compatriotas, Deng não cessava de pôr o dedo na ferida. Mao queria fazer da China um novo Império do Meio. Deng defi niu um objetivo mais limitado para sua pátria: “chegar, na metade do século XXI, ao nível de um país medianamente desenvolvido”. E criou um método para isso: “Para que o socialismo seja concretamente superior ao capitalismo, é necessário que ele seja capaz de nos tirar da pobreza”.

O rumo a ser seguido era o da liberalização econômica sem democracia, e Deng se empenhou com ardor em construir esse caminho. Se durante a Revolução Cultural a China havia se tornado o império do “totalmente político”, sob Deng Xiaoping o Ocidente passou a vê-la como o reino do “totalmente econômico”.

Esse raciocínio, porém, era um tanto limitado: a realidade chinesa também era política, como demonstraram os protestos estudantis na praça de Tiananmem, em abril de 1989, ao reivindicarem o advento da democracia.

A resposta foi a repressão comandada pelo marechal Yang Shangkun e seu cunhado, o general Yang Baibing. Sangue nas ruas de Pequim. Apesar das aparências, nem por isso o principal líder chinês restaurou o maoísmo. Foi justamente o que ele demonstrou ao apoiar, na década de 90, o retorno progressivo e cautelosamente controlado do clã “reformador” (no sentido econômico do termo). Mas continuou fiel ao seu credo: sem a estrutura de um partido dirigente forte, a China jamais viria a ser uma grande potência. O homem que liqüidou o maoísmo nunca cogitou de se livrar de toda a herança do “imperador vermelho”, e aplicou ao seu antigo mestre a avaliação que Mao havia feito do próprio Deng 20 anos antes: “70% de bom e 30% de ruim”.

Homossexualidade na Igreja: uma tradição medieval


Documentos do século XIV mostram que relações sexuais entre religiosos maduros e jovens aprendizes é muito mais antiga que o atual escândalo enfrentado pelo Vaticano
Prof Adail

Museu do Prado, Madri
Hieronymus Bosch, O jardim dos prazeres terrenos, 1504.
Apesar de perseguido, o homossexualismo esteve muito presente na Idade Média. Segundo John Boswell, autor de Christianisme, tolérance sociale et homosexualité(Cristianismo, tolerância social e homossexualismo), a prática teve uma importância no período que só seria igualada em nossos dias. Boswell atribui a disseminação do homossexualismo à renascença carolíngia, ao desenvolvimento das cidades e à cultura eclesiástica.

Na Idade Média, o meio monástico era um terreno propício para a sodomia: a Regra de São Bento previa que os monges deviam dormir cada um em uma cama, de preferência em um mesmo local, com sacerdotes mais antigos que cuidariam deles. Os regulamentos de Cluny proibiam que os noviços ficassem sozinhos ou na companhia de um só professor. Se um dentre eles, à noite, tivesse de sair para satisfazer suas necessidades, tinha de estar acompanhado por um mestre e por outro jovem munido de lanterna.

Foi em meio a esse ambiente que Arnaud de Verniolle, subdiácono fugido das prisões da ordem dos franciscanos no século XIV, acusado de heresia e de sodomia, afirmou ter sido iniciado nas práticas homossexuais por um colega mais velho, que se tornara padre. Aos 12 anos, seu pai o colocou em uma escola de Pamiers comandada pelo mestre Pons de Massabuc para aprender gramática. Arnaud dividia o quarto com seu professor e outros jovens. “Quando eu morava naquele quarto, fiquei dormindo na mesma cama, durante cerca de seis semanas, com Arnaud Auréol. Depois de duas ou três noites que passamos juntos, ele, pensando que eu dormia, me tomou nos braços e me prendeu entre suas coxas, colocando seu membro viril entre as minhas e, como se estivesse com uma mulher, se mexeu e ejaculou em minhas pernas. Quase sempre, a cada noite que dormíamos juntos, ele recomeçava esse pecado. Como eu, naquele tempo, era ainda uma criança, apesar de não gostar do ato, não ousava contá-lo a ninguém, por pudor.”

Arnaud declarou que, anos depois, sentia um mal físico quando se abstinha por mais de oito ou quinze dias de ter relações com um homem ou uma mulher. Tinha, então, experiências heterossexuais, mas uma aventura o fez renunciar às mulheres. Segundo o frei Pierre Record, encarcerado na mesma cela que Arnaud por alguns dias, o subdiácono lhe contou que “na época em que se queimavam os leprosos, ele morava em Toulouse, tendo relações com uma mulher da vida; depois de cometer esse pecado, seu rosto inchou, o que o fez acreditar que estivesse com lepra. Por isso, jurou que a partir de então nunca mais teria relações carnais com mulheres.”