domingo, 12 de fevereiro de 2012

Um Nordeste Verde Dólar


 A economia do Nordeste beneficiou-se, principalmente,
de um modelo econômico que priorizou a demanda. A expansão
dos programas sociais e, sobretudo, o aumento do salário mínimo
tiveram sobre a região um impacto bem maior do que no
restante do país. A economista Tânia Bacelar, da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), lembra que metade das famílias
que ganham um salário mínimo se encontra no Nordeste.
A população nordestina também absorve 55% do orçamento
destinado ao Bolsa Família. "Pela estrutura de renda da região,
mais baixa que no resto do país, o efeito das políticas que mexeram
com a renda foi maior aqui. O aumento dessas receitas
impulsionou o consumo e atraiu investimentos, especialmente
dos grandes grupos de alimentos, bebidas, varejistas e distribuição
de alimentos."
Investimentos em infraestrutura, como a duplicação da
BR-101, a transposição do rio São Francisco e a construção da
ferrovia Transnordestina injetaram bilhões na economia e ajudaram
a dinamizar a construção civil, assim como os investimentos
da Petrobras – que asseguraram à indústria naval a
demanda necessária para voltar a investir depois de mais de
uma década sem produzir um único navio.
A interiorização das universidades federais e a criação
de novos institutos tecnológicos também mudam a cara do Nordeste,
especialmente nas cidades médias. É o caso de Caruaru,
um dos municípios que mais crescem na região. Nos últimos
anos, a "Princesa do Agreste", mais conhecida por suas confecções
e pelas feiras que movimentam milhões de reais, atraiu
estudantes e professores de todos os lugares e observou uma
profunda transformação em seus hábitos.
A outra face do "novo Nordeste" está no campo. Nas
áreas de Cerrado, como no oeste da Bahia e no sul do Maranhão,
o agronegócio avança e transforma chapadões em
imensas propriedades produtoras de soja. No Semiárido, onde
as condições são bem menos favoráveis, o aumento dos recursos
destinados a financiar a agricultura familiar e o empreendedorismo
dos pequenos ajudam a mudar a vida das pessoas.
É o que se observa em Picos, polo produtor de mel e caju
no sertão do Piauí.

Argentina Cada Vez mais Próxima, do confronto com os Ingleses


 A Marinha britânica iniciou sexta-feira o exercício de troca de guarda nas Ilhas Faklands/Malvinas. Sai a veterana fragata Montrose, ficam um super destróier, novo em folha e, na esteira, o acirramento das relações bilaterais entre Buenos Aires - que acusa a Grã-Bretanha de militarizar o arquipélago - e Londres, que se limita a dizer que trata da segurança territorial dos 2.300 habitantes civis, os kelpers, e de seus carneiros, cerca de 40.100 deles.
Dauntless está na região das Ilhas Malvinas; navio de guerra britânico irrita governo argentino - Arquivo/AE
Arquivo/AE
Dauntless está na região das Ilhas Malvinas; navio de guerra britânico irrita governo argentino
Na manifestação da chancelaria, nem uma só palavra sobre os 8,3 bilhões de barris de petróleo, o tamanho da reserva que os ingleses garantem ter descoberto na área. Ou sobre os nódulos polimetálicos, uma espécie de jazida de minerais estratégicos que haveria ali, no subsolo oceânico.
A temperatura bateu nos 7 graus há dois dias em Mount Pleasant, a portentosa base inglesa nas ilhas. Nada ruim para o arquipélago austral de mais de 700 afloramentos, onde os termômetros caem, com facilidade, até terríveis temperaturas polares, coisa de 20,5 graus negativos, como foi registrado em 2 de janeiro.
A bordo do Dauntless, o sofisticado destróier que passa a liderar a ação militar dissuasiva na área, tudo normal: o ambiente climatizado é mantido em 18 graus. É apenas uma das características dessa máquina de guerra naval, a segunda da série 45 de novas fragatas - como seriam classificadas, por exemplo, no Brasil - produzidas na Grã-Bretanha.
Entre os integrantes da Ala Aérea está um príncipe da casa real, ninguém menos que William, segundo na linha de sucessão. Pilota helicópteros de resgate. É um trabalho e tanto - naquela região do Atlântico, a operação de salvamento no mar não pode ultrapassar o limite de meia hora.
O moderno navio, em operação há 18 meses, foi enviado para ficar, ao menos por um certo tempo. Leva 190 tripulantes e o desenho "furtivo" é destinado a driblar sensores de detecção. Desloca oito mil toneladas.
Faz parte do plano de defesa do território, junto com o Esquadrão 1.435 da Real Força Aérea, a RAF, equipado com quatro caças Eurofighter Typhoon, o mais poderoso do arsenal da Inglaterra e um dos mais caros do mundo: não sai por menos de 90 milhões.
A base abriga 1.650 militares, ao menos uma aeronave pesada para cumprir missões de vigilância e sensoriamento eletrônico, helicópteros antissubmarino, lanchas armadas e um grande jato para realizar o reabastecimento de combustível em voo.
Um time das forças especiais, de tamanho e especialidade não revelados, é mantido em Mount Pleasant sob alerta médio - ou seja, os homens moram na base e devem estar prontos para ação em 40 minutos depois do acionamento.
O atracadouro pode receber e manter os submarinos de propulsão nuclear de 7 mil toneladas da frota britânica. O centro de informações do comando funciona, a rigor, como uma agência de inteligência, com recursos eletrônicos digitais atualizados pela última vez em 2010. O núcleo militar foi criado em 1982, pela então primeira-ministra Margaret Thatcher, três dias depois do fim da guerra entre britânicos e argentinos pela posse das ilhas. O conflito deixou o saldo negativo mais de 900 mortos. 

A Era Hugo Chaves Chegando ao Fim


CARACAS - Há 13 anos no poder, o presidente Hugo Chávez deverá enfrentar pela primeira vez um candidato único da oposição, ao tentar a reeleição em outubro. Cinco candidatos oposicionistas disputam neste sábado eleições primárias unificadas, para escolher o adversário de Chávez.
Henrique Caprilles é o mais cotado a vencer as primárias marcadas para este domingo - Carlos Garica Rawlins/Reuters
Carlos Garica Rawlins/Reuters
Henrique Caprilles é o mais cotado a vencer as primárias marcadas para este domingo
Eles ocupam todo o espectro ideológico, da direita à esquerda, mas estão unidos no propósito de derrotar o até agora invencível Chávez, financiado por petrodólares e apoiado na máquina do Estado, cada vez mais poderosa.
As pesquisas ainda indicam Chávez - beneficiado por um recente câncer que despertou compaixão em muitos eleitores que faziam menção de abandoná-lo - como favorito nessa quarta eleição presidencial da qual participa, com 56% a 44%. Mas a esperança da oposição é a de que, uma vez adquirindo "um rosto", seu candidato possa crescer nas intenções de voto. O mais cotado para vencer as primárias é o governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles Radonski, que antes foi prefeito de Baruta, um distrito de Caracas.
Embora esteja muito identificado com a capital, que se situa dentro de Miranda, Capriles, de 39 anos, ganhou projeção nacional como um jovem e bem-apessoado líder oposicionista, e percorreu o interior do país nas últimas semanas. Seu partido, Primeiro Justiça, é considerado de centro-direita, mas ele se define como de centro-esquerda, enfatizou na campanha suas preocupações sociais e assumiu um discurso de "reconciliação nacional", estendendo a mão aos chavistas.
Em contraste, a deputada María Corina Machado, a única mulher dos cinco candidatos, salientou sua diferença em relação a Chávez, com uma campanha a favor da iniciativa privada, contra o "socialismo bolivariano", que tem incluído confiscos de propriedades e de empresas. "Expropriar é roubar", disse ela a Chávez na abertura da sessão do Parlamento em janeiro, e a frase tornou-se célebre. Deputada mais bem votada da Venezuela, María Corina notabilizou-se como vice-presidente da ONG Súmate, de defesa da democracia, e, aos 44 anos, também representa uma liderança jovem, de centro-direita.
Em segundo lugar nas pesquisas, depois de Capriles, está Pablo Pérez, governador de Zulia, Estado produtor de petróleo. Advogado, de 42 anos, Pérez tem um perfil de centro-esquerda. Embora também defenda a reconciliação, ele fez uma campanha centrada no fim da impunidade, atacando dois problemas que afligem os venezuelanos: a criminalidade e a corrupção. Os outros dois candidatos, Pablo Medina, de 64 anos, um ex-chavista que se tornou feroz crítico do presidente, e Diego Arria, de 73, doutor em economia e diplomata, têm menos chances.
Muitos eleitores têm medo de serem perseguidos pelo governo, se participarem das primárias. Para afastar esse receio, a Mesa da Unidade Democrática, que reúne os oposicionistas, promete apagar, amanhã, os arquivos dos votos, que são digitados em urnas eletrônicas, como no Brasil. O resultado deve sair esta noite.
Uma participação expressiva representará uma vitória para a oposição. Mas nem todos os que comparecerão hoje pretendem votar na oposição em outubro. O pedreiro José Figueroa, de 42 anos, conta que vai votar em Capriles neste domingo e em Chávez no dia 7 de outubro: "É um dos presidentes que mais se dedicaram aos pobres na Venezuela. Os outros não se inclinaram em direção aos pobres".
Capriles é o preferido também de León Espuma, funcionário de uma empresa de segurança, de 56 anos. "É um jovem bem preparado, está bem respaldado, bem assessorado", diz Espuma, que não gosta de Chávez: "Não simpatizo, não me agrada. Tem sabido levar, e não tem convencido".
A experiência, como prefeito e agora governador, é o atributo mais valorizado pelos eleitores de Capriles. "Acho que até agora é quem tem um pouco de experiência e teria a capacidade de administrar", espera Hercris Pérez, estudante de Comunicação de 21 anos. María Uzcatel, uma dona de casa de 55 anos, enumera as coisas que espera de Capriles: "segurança, educação, moradia e saúde".
Nas eleições para o Parlamento, em 2010, a oposição teve mais votos que o governo - 51% a 49% -, mas acabou com menos cadeiras, pelo sistema proporcional. Mas pela primeira vez enfrentará unida o carisma pessoal de Chávez. 

O País no tempo do Contestado.Especial

O Brasil de 1912 ainda assistia a lutas de sangue provocadas pela proclamação da República, duas décadas antes. Representantes do setor agrário de São Paulo e Minas Gerais e militares eram os protagonistas de um regime com instituições tomadas pela corrupção e que não conseguiam evitar rebeliões nas cidades e no interior, causadas por um desarranjo político, com a ascensão de novos coronéis e o fim do poder de apoios da monarquia.










O presidente Hermes da Fonseca, um militar de carreira, mantinha a política do tio, Deodoro, proclamador da República, e de Floriano Peixoto de aniquilar defensores da monarquia. A presença de federalistas, adversários de Floriano, no movimento do Contestado, e os "vivas" dados pelos revoltosos a uma "monarquia celeste" eram pretextos usados pelo governo para esquecer o desastre de Canudos, de 1897, e enviar o Exército para mais uma batalha nos sertões, desta vez em Santa Catarina e Paraná.








Nos bastidores, o governo era pressionado por lobistas contratados pela madeireira norte-americana Lumber, companhia de Percival Farquhar, construtor da Ferrovia São Paulo - Rio Grande do Sul. Políticos catarinenses e paranaenses, alguns que atuavam como advogados da empresa, também pressionavam Hermes a mandar tropas federais para combater os caboclos.








Naquele momento, o governo enfrentava o descontentamento das ruas pelo aumento dos preços e pela repressão à revolta da Chibata, um movimento de marinheiros contra os maus-tratos, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910. Não era um pedido fácil de atender. Hermes dispunha de um Exército marcado por disputas internas, que se dividia até mesmo na forma para acabar com os movimentos populares.
O presidente terminou o mandato em novembro de 1914, quando os líderes caboclos tinham o controle de uma área extensa na região disputada desde o início do século por Santa Catarina e Paraná, rica em madeira. O sobrinho de Deodoro, no entanto, deixou para o sucessor, Venceslau Brás, um plano pronto para sufocar a revolta cabocla.


Especial: contestado 100 anos A Guerra da Miséria .


Batalha entre grupo de cablocos e um coronel militar foi o estopim para o conflito que deixou milhares de mortos


Eles eram crianças quando, em 1912, tropas do Exército e agentes policiais desembarcaram nos sertões de Santa Catarina e Paraná para combater seus pais, mães, tios e avós que pegaram em facões de pau e velhas espadas farroupilhas e julianas, num movimento contra o projeto de uma ferrovia em suas posses de terra e os desmandos de lideranças emergentes da República, proclamada duas décadas antes.

Às vésperas do centenário da Guerra do Contestado, a maior rebelião civil do País no século 20, que agitou o Sul entre os anos de 1912 e 1916,  investigações sobre  o paradeiro das últimas testemunhas do conflito que deixou um saldo estimado de 10 mil mortos. Altino Bueno da Silva, hoje com 108 anos, Maria Trindade Martins, 105, e Sebastiana Medeiros, 102, foram localizados em porões de casas e barracos de bairros pobres, numa investigação jornalística de 12 meses, para dar a versão dos derrotados sobre os cem dias decisivos da vitoriosa campanha militar (dezembro de 1914 a abril de 1915) comandada pelo general Fernando Setembrino de Carvalho - o cerco, a tomada e a destruição do reduto caboclo de Santa Maria, principal acampamento dos revoltosos, no atual município catarinense de Timbó Grande, a 400 quilômetros de Florianópolis.

A luta sertaneja marcou uma área de 30 mil quilômetros quadrados, maior que Alagoas e o Haiti, ainda hoje uma região tratada como "maldita" pelo Poder Público - as terras do Contestado, cercadas por cidades colonizadas por europeus e com padrões de primeiro mundo, apresentam índices de desenvolvimento humano equivalentes a rincões pobres do Nordeste. É uma história de renegados em pleno Sul do Brasil.





As memórias de infância de três brasileiros que sobreviveram a uma guerra militar e enfrentam a guerra da pobreza, ultrapassando cem anos de idade numa região onde a expectativa de vida é inferior à média nacional, foram confrontadas com todos os documentos militares que se têm registro sobre o Contestado - duas mil páginas de relatórios e fotografias. As lembranças dos "meninos", que surgem lentamente, influenciadas durante anos pelos relatos de adultos, e os papéis amarelados dos vencedores, retirados de caixas de um arquivo do Rio de Janeiro, usado pelos pesquisadores do tema, embora com suas versões distintas, compõem um mosaico de violações de direitos humanos que não tinha sido visto desde o massacre das revoltas regenciais. A aproximação entre o passado e o presente fica ainda mais nítida na análise das ações e prioridades dos governos em Santa Catarina, um Estado reconhecido por sua pujança econômica.

Prisioneiros. Em 1910, a Brazil Railway Company, subsidiária da holding Lumber Company, criada pelo empresário norte-americano Percival Farquhar, concluía a construção do trecho da ferrovia São Paulo- Rio Grande do Sul no território disputado por Santa Catarina e Paraná, o Contestado. Quatro mil ex-detentos e miseráveis de Santos, Rio de Janeiro e São Paulo recrutados para as obras foram demitidos e expulsos de cabanas de palha levantadas nas margens da estrada.
A Lumber conseguiu concessão do governo para explorar pinhos e imbuias nos 15 quilômetros de cada lado da ferrovia. Os renegados engrossaram redutos formados por caboclos nativos que, por orientação de monges andarilhos, pregavam nos desertos sulistas a chegada do exército celeste de São Sebastião, chefiado por uma tropa de elite chamados de os "Pares de França", figuras de histórias medievais reproduzidos em folguedos de origem portuguesa e folhetins.