domingo, 9 de outubro de 2011

O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


Carnificina no mar do Nordeste leva o país a declarar
guerra contra o Eixo - Um único submarino alemão
afunda cinco embarcações e vitima quase 600 pessoas -
Ataques realizaram-se em curtíssimo intervalo de tempo




Enquanto o sol de 15 de agosto de 1942 começava a mergulhar no oceano Atlântico, o navio Baependy, que deixara Salvador com destino a Recife, aproximava-se do farol do rio Real, perto de Maceió. Os 233 passageiros, a maioria deles militares do Exército, já haviam jantado. Ao lado dos 73 homens da tripulação, os viajantes celebravam naquele momento o aniversário do imediato Antônio Diogo de Queiroz. Rá. Tim. Bum! Repentinamente, um estampido abala a embarcação. O relógio apontava exatamente 19h12 quando um torpedo lançado por um submarino alemão U-507 atingiu o Baependy. Dois minutos depois, com outro torpedo no casco, o barco foi a pique. 215 passageiros e 55 tripulantes mortos.

Voraz, o U-507 não se contentaria com o notável estrago. Algumas horas depois, a embarcação tedesca se aproximaria do Araraquara, que também saíra de Salvador em direção ao Norte do país. Às 21h03, lançou dois torpedos que afundaram o mercante de 4.871 toneladas em cinco minutos. Das 142 pessoas a bordo, 131 perderam a vida. Sete horas depois do segundo ataque, o U-507, que ainda perambulava pela região, assaltou o Aníbal Benévolo. Às 4 horas da manhã do dia 16, dois torpedos - um na popa, outro na casa de máquinas - meteram no fundo o pequeno navio de 1.905 toneladas. Todos os 83 passageiros, a maioria deles recolhidos às suas cabines, morreram; de 71 tripulantes, só quatro sobreviveram.

Em menos de oito horas, o U-507, brinquedo assassino de Adolf Hitler, afundara três embarcações brasileiras e matara 541 homens. O país ainda se comovia com a tragédia causada pelos pérfidos ataques quando o submarino voltou à carga. No dia 17, próximo à cidade de Vitória, o Itagiba foi atingido às 10h45. O Arará, que se dirigia de Salvador para Santos, e parou a fim de socorrer o colega, acabou tornando-se a quinta vítima dos petardos tedescos. Os 36 mortos do Itagiba e os 20 do Arará fizeram a conta das baixas brasileiras rasparem nas seis centenas. Ficava difícil esconder o desejo de revanche....

Estado de beligerância - Antes de julho de 1942, 13 navios brasileiros já haviam sido afundados na batalha que as embarcações germânicas travavam contra suas correlatas brasileiras desde que o presidente Getúlio Vargas cortara relações diplomáticas com os protetorados de Hitler, Benito Mussolini e Hiroíto - decisão anunciada em 28 de janeiro de 1942. No total, os danos tinham causado a morte de cerca de cem tripulantes - apenas sete passageiros pereceram. Getúlio Vargas, considerando as ocorrências casualidades inerentes ao contexto internacional, preferira não tomar medidas mais drásticas.

Apesar de oficialmente neutro na refrega, o Brasil já se bandeara para o lado dos Aliados desde 1941, quando o chefe da República abriu espaço para bases aéreas e navais no Nordeste brasileiro. Em dezembro, Natal recebia uma parte do esquadrão naval VP-52; além disso, a 3º Força-Tarefa americana passou a ser lotada no Brasil, contando com uma esquadra equipada para atacar submarinos e navios mercantes rompedores de bloqueio do Eixo, que tentavam trocar mercadorias com o Japão.

A postura passiva, contudo, já não era suficiente para acalmar a traumatizada opinião pública e manter a soberania do país. Getúlio Vargas não teve escolha senão reconhecer o conflito entre o Brasil e as potências do Eixo. Em resposta aos apelos da sociedade, finalmente o Brasil anunciou, em 22 de agosto de 1942, o estado de beligerância - que, porém, duraria pouco. Em 31 de agosto de 1942, com a declaração do estado de guerra, o Brasil ingressava na mais internacional das batalhas da História.
 

O INICIO DO FIM?

Soviéticos impõem em Stalingrado primeiro e inconteste revés à 'Wehrmacht' - Pertinácia de Hitler sela a derrota alemã - Stalin prevê novos êxitos nas batalhas contra os nazistas - EUA e Grã-Bretanha também comemoram



Ruidosas metralhas e morteiros solapam a fachada da Univermag, loja de departamentos transformada em quartel-general das forças de ocupação alemãs em Stalingrado. Após um cerco de semanas, as falanges soviéticas acabam de chegar à Praça Vermelha. Um dos prisoneiros tedescos informa que o marechal-de-campo Friedrich Paulus, comandante do Sexto Exército, está no magazine, localizado no coração da cidade velha. Os russos já se preparam para a invasão do local quando avistam uma bandeira branca sendo desfraldada. De imediato, o tenente russo Fedor Yelchenko cruza a praça e entra no edifício, escoltado por dezenas de soldados. Encontra Paulus no porão, deitado em uma cama dobrável, impecavelmente trajado em seu uniforme militar. "Bem, então acabamos por aqui", diz Yelchenko. O alemão meneia a cabeça, assentindo; minutos mais tarde, assina sua rendição.

A folhinha marca 31 de janeiro de 1943. Anotem. É a data em que a Wehrmacht experimenta pela primeira vez o gosto da capitulação. É a jornada na qual o Exército Vermelho recupera o controle de Stalingrado. É o instante que representa um divisor de águas na pugna que se arrasta desde 1939. A lenda do invencível exército dos super-homens arianos de Adolf Hitler caiu por terra, justamente pelas mãos dos soviéticos, povo que o Reich inclui em sua lista de Untermenschen, "subumanos". Além de se recuperar das severas perdas materiais e de pessoal, os alemães terão de superar um terrível golpe psicológico. Em contrapartida, para Josef Stalin, o êxito em Stalingrado é a prova da irrefutável vitória da Guerra Patriótica da terra-mãe Rússia. Daqui para frente, ao que tudo indica, a luta será conduzida em seus termos.

O triunfo do Exército Vermelho encerra uma batalha de quase seis meses, seguramente a mais sangrenta e parelha desta guerra. Desde que, em 12 de setembro de 1942, as primeiras tropas tedescas entraram em Stalingrado, até o raiar de fevereiro, quando os últimos alemães baixaram as armas, a carnificina fez parte do cenário da cidade, tal e qual a usina Outubro Vermelho, a montadora de tratores Djerjinski e a fábrica de produtos químicos Lazur - que, como a vasta maioria das edificações, acabaram em ruínas. Os duelos eram travados rua a rua, a cada esquina. Conquistar Stalingrado, portentosa cadeia urbana e industrial às margens do rio Volga, importante ponto de entroncamento ferroviário, havia virado questão de honra para ambos os lados. Com isso, a lógica militar deu lugar a um fanatismo incontrolável - especialmente por parte de Hitler, que se recusava a admitir a hipótese de derrota. Obcecado, o Führer terminou por insistir em uma campanha que, já em fins de dezembro, estava condenada à destruição.

O resultado, é evidente, não poderia ser outro. Calcula-se que 120.000 germânicos foram mortos em Stalingrado, enquanto outros 91.000 foram feitos prisioneiros. Nessa contagem não estão incluídas baixas do Terceiro e Quarto Exércitos da Romênia e do Oitavo Exército da Itália, que correram em socorro da Alemanha e acabaram dizimados por completo. As perdas materiais nazistas são igualmente devastadoras: 75.000 veículos, 3.500 tanques, quase 2.000 aeronaves, 12.000 metralhadoras e morteiros. A imagem dos alemães rendidos, esqueléticos, sujos e ainda atarantados com o cerco de semanas à cidade está impressionando o mundo. "O que testemunhamos em Stalingrado é uma catástrofe de inédita magnitude", afirmou Hitler, que, pela primeira vez, deixou transparecer um tom soturno e perturbado em mensagem aos correliginários nazistas. Será o começo do fim? ...

Teimosia fatal - Analistas do teatro de operações já afirmavam desde o ano passado que a agonia alemã em Stalingrado poderia ter sido evitada mesmo antes da primeira contra-ofensiva soviética, em novembro. Era sabido que o Sexto Exército germânico, apesar de ter ocupado sete oitavos de Stalingrado, estava desprotegido e vulnerável em seus flancos. Ciente do iminente ataque vermelho, generais do Reich tentaram demover Hitler da idéia de prosseguir na conquista total da cidade, mas este insistiu na cruzada e convocou o Terceiro e o Quarto Exércitos da Romênia para proteger as alas direita e esquerda, com o auxílio de forças italianas e algumas unidades da Luftwaffe. Entretanto, quando a chamada operação Uranus foi lançada, em 19 de novembro, esses reforços laterais provaram-se de cristal, soçobrando em menos de três dias. Isolado em um bolsão, o Sexto Exército, com seus 220.000 homens, passou a depender de suprimentos conduzidos por via aérea.

Não havia, porém, pistas de pouso adequadas no perímetro das tropas germânicas acuadas. Para piorar, o frio, acompanhado de uma névoa cerrada que tornava os vôos arriscados - quando não impraticáveis -, torturava os mecânicos em terra, congelados em suas vestes inadequadas. Na virada de dezembro, o comandante Paulus pediu a Hitler permissão para bater em retirada, enxergando uma saída a Oeste: "Exército a caminho do desastre. É essencial retirarmos todas as divisões de Stalingrado". Mas o Führer ordenou a manutenção das tropas alemãs no local.

A insistência insana do chefe apressou a confirmação das previsões de Paulus. Em 8 de janeiro, o general Konstantin Rokossovsky, comandante do front Stalingrado soviético, ofereceu um termo de rendição aos alemães. A proposta era mais do que atraente para os famélicos e congelados farrapos fardados confinados nas ruínas da cidade: os camaradas prometiam que todos os homens que se entregassem seriam alimentados e receberiam assistência médica. Além disso, poderiam manter seus uniformes, medalhas, condecorações e todos os objetos pessoais e de valor. Aos oficiais graduados era reservado inclusive o direito de permanecer com suas espadas e baionetas. Entretanto, nas entrelinhas, Rokossovsky já alertava: caso a oferta fosse recusada, o Exército Vermelho partiria para o massacre das forças nazistas cercadas em Stalingrado.

Os soldados tedescos tomaram conhecimento da proposta por folhetos espalhados por aviões do Exército Vermelho, e viram no acordo a última esperança de que sua provação chegasse ao fim. Hitler, porém, mais uma vez determinou a Paulus que repelisse qualquer tipo de rendição. A recusa desestruturou ainda mais os combatentes germânicos; um deles resumiu o desespero da situação em carta enviada à família. "Estamos sozinhos, sem ajuda externa. Hitler nos abandonou aos lobos. Quando Stalingrado cair, vocês ficarão sabendo. E terão a certeza que não retornarei para casa". ...

'Reverência e estupor' - Responsáveis pela impecável estratégia de ataque ao Sexto Exército, o recém-nomeado marechal Georgi Zhukov e o general Aleksandr Vasilevsky deixaram o confronto final com os alemães a cargo das tropas de Rokossovsky. A operação Pequeno Saturno, iniciada em dezembro, deu origem a uma operação-filhote, batizada de Anel. Em 10 de janeiro, quando o plano começou a ser executado, o bolsão das forças alemãs se estendia por 60 quilômetros no sentido Leste-Oeste e 45 quilômetros no sentido Norte-Sul. Atacando no sentido Oeste-Leste, o Exército Vermelho reconquistou metade do terreno em menos de uma semana; no final do mês, a resistência nazista resumia-se a dois minúsculos bolsões separados no centro de Stalingrado.

Por volta do dia 25, Friederich Paulus havia novamente sugerido a rendição a Hitler - sugestão mais uma vez rejeitada. Em 30 de janeiro, o Führer promoveu o oficial a marechal-de-campo. A mensagem endereçada ao comandante era clara. Jamais um marechal-de-campo alemão havia se rendido ao inimigo: Hitler esperava que o líder do Sexto Exército cometesse suicídio. Mas o oficial não tinha sequer forças para isso, e se entregou no dia seguinte, fazendo o líder nazista explodir em fúria. "Há que matar-se com a última bala. Desprezo um soldado que se rende. Vinte mil pessoas se suicidam por ano na Alemanha, e é absurdo que um general não possa fazer o mesmo que uma mulher ultrajada. Não farei mais marechais-de-campo. O heroísmo de dezenas de milhares de soldados é manchado pela covardia de um só". Os combatentes do segundo bolsão, seguindo a ordem de Berlim, ainda lutaram por mais algumas horas, mas também entregaram-se à capitulação. Em 2 de fevereiro, toda a resistência havia cessado.

Stalin, porém, já comemorava desde 25 de janeiro: em sua ordem do dia, dirigiu aos militares vermelhos seus mais graduados elogios, continuando a incitá-los para a luta. "Nossas tropas conquistaram uma grande vitória, e seguimos com a ofensiva. Vamos em frente, rumo à aniquilação dos invasores germânicos e sua expulsão de nosso país!" Com o moral elevado, o Exército Vermelho ganha agora novo impulso para enfrentar os homens de Hitler no vasto front soviético, especialmente em Leningrado e no Cáucaso, pontos-chave desta contenda. Os alemães que se preparem: em Stalingrado, os russos deram uma inequívoca demonstração de sua força militar. Já não devem mais nada aos nazistas em número e qualidade de seus tanques e armas. Até mesmo a tão decantada Luftwaffe - que, a bem da verdade, já não tem colhido bons resultados há tempos - foi neutralizada pelos soviéticos, com a estréia do La-5, caça confeccionado em madeira que teve papel decisivo na conquista da superioridade aérea na batalha em questão.

Enquanto os camaradas celebram a vitória - comemorada também com alívio pela Grã-Bretanha e os Estados Unidos - e a nação alemã abate-se com o malogro do Sexto Exército no Volga, uma única voz dissonante se alevanta. É a de Hermann Göring, o comandante da Luftwaffe (leia entrevista nesta edição). "Daqui a mil anos, os alemães falarão desta batalha com reverência e estupor, e lembrarão que, apesar de tudo, a vitória da Alemanha foi ali decidida". Como profeta, Göring parece ser um excelente piloto....
 O cerco de Stalingrado e a destruição da cidade




No País do Papa


Com poderes ilimitados e polpuda indenização em caixa,
Pio XI molda a estrutura do recém-criado estado do Vaticano. E já
 incomoda seu vizinho, o ditador fascista Benito Mussulini.
  
Em setembro de 1870, quando as tropas de Vittorio Emanuelle II, proclamado rei da recém-unificada Itália, subjugaram e anexaram a cidade de Roma, o papa Pio IX enclausurou-se nos muros do Vaticano. A essa altura, o Risorgimento italiano já havia tomado a maioria dos estados papais, e o pontífice, para não se submeter à nova ordem política na Velha Bota, rompeu relações com a monarquia e declarou-se um prisioneiro do poder laico. O mal-estar entre o estado e a Igreja finalmente chegou ao fim em fevereiro deste ano, quando o papa Pio XI e o ditador fascista Benito Mussolini, o "Duce", assinaram o Tratado e o Concordato de Latrão, que determinaram a criação do estado soberano do Vaticano, reconheceram o catolicismo como religião oficial da Itália e ainda garantiram à Santa Sé uma polpuda compensação financeira pelas anexações dos rincões papais. Livre depois de quase seis décadas, é o Santo Padre que agora se esbalda com seus poderes de chefe-de-estado, literalmente mandando prender e mandando soltar dentro do Vaticano.

Com a garantia da indenização da administração italiana, de 750 milhões de liras, à vista, e de um bilhão de liras em títulos do governo, o chefe da Santa Sé começa a estruturar uma respeitável aparelhagem estatal – boa parte dela, a seu serviço imediato. Já existe um diário oficial, o L’Osservatore Romano, e Pio XI, de acordo com seus assessores próximos, planeja estruturar no futuro próximo uma rádio oficial para alardear o cristianismo e, claro, a palavra papal. O maior candidato para tocar a empreitada é Guglielmo Marconi. Está em circulação a moeda corrente do Vaticano, a lira vaticana, com a efígie do sumo pontífice, também aceita na Itália e que tem valor parelho ao da lira italiana. O serviço postal do Vaticano foi inaugurado em fevereiro. Já o Corpo da Gendarmaria Pontifícia e o Corpo da Guarda do Papa, com suas coloridas fardas desenhadas por Michelangelo, ganham ainda mais liberdade dentro do Vaticano para assegurar a proteção do agora chefe de estado Pio XI.

Para completar, em junho último, foi promulgada a Lei Fundamental do Estado do Vaticano, que dá ao sucessor de São Pedro a plenitude dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário no enclave de 0,44 quilômetro quadrado ao norte de Roma e em mais doze edifícios espalhados pela cidade, incluindo o Palácio de Castelgandolfo. Os bens da Santa Sé, sua administração, a biblioteca, o arquivo, a livraria e a tipografia do Vaticano também estão diretamente subordinados à vontade do pontífice. Tal lei criou a figura do governador, que pode criar regras para a ordem pública na cidade-estado, com a anuência do Conselho. Porém, a escolha do governador é exclusiva do papa, e pode por ele ser revogada a qualquer momento, sumariamente. Qualquer semelhança com os plenos poderes de Mussolini não é mera coincidência – ao menos para os cartunistas locais, que não se cansam de produzir caricaturas retratando Pio XI envergando a camisa negra do fascismo e o Duce com a tiara papal em sua careca.
Os dois manda-chuvas, aliás, trocaram algumas farpas há alguns meses – Mussolini dizendo à Câmara dos Deputados que "a Igreja é soberana apenas no reino da Itália, e não no estado italiano", com a resposta de Pio XI lamentando as declarações hereges do fascista. As arestas ainda não foram completamente aparadas. Para acabar de vez com a animosidade, no fim do ano, de acordo com informações extra-oficiais, o Santo Padre deve receber pela primeira vez no Vaticano o rei Vittorio Emanuele III, em um encontro simbólico para selar a paz entre a monarquia e a Igreja. Mas também aí se descortina um problema diplomático. Pelas rígidas regras cerimoniais do Vaticano, todo soberano católico deve ajoelhar-se ao pé do papa e beijar seu dedão. Benito Mussolini, porém, é radicalmente contra o ósculo, preferindo o tradicional aperto de mão entre dois chefes de estado. Fontes ligadas ao príncipe Umberto garantem que este prefere o cumprimento da formalidade. Este beijo ainda dará muito o que falar.

A crise de 29


Turbulência americana acentua a crise do café no Brasil
e causa temor de quebras em cadeia na economia nacional. País está atolado
 com produção e estoques muito maiores do que a demanda.

A periclitante situação da economia cafeeira já era assunto obrigatório em quase todas as esquinas paulistanas. Com a diminuição das exportações e a queda no preço do grão, chegam à ordem de centenas as empresas levadas a registrar falências e concordatas neste ano – apenas em setembro, foram 72, de acordo com o Correio da Manhã. Mas o amaldiçoado mês de outubro nos Estados Unidos tornou mais dramática a conjuntura do café no Brasil. Em primeiro lugar, ainda na quinzena inicial do mês, o preço do grão caiu 200 pontos em dois dias na Bolsa de Café e Açúcar de Nova York – de 19,25 dólares passou a 16,65. A queda vertiginosa no comércio futuro do café nacional foi explicada pelo vice-presidente da instituição, Benjamin B. Peabody, por "rumores inquietantes a respeito da situação do Brasil". Para completar o cenário funesto, o crash na Bolsa de Valores de Nova York, que colocou a economia americana à beira de um colapso, deve inviabilizar o empréstimo de 50 milhões de dólares que a Casa Branca planejava ceder ao governo brasileiro para ajudar os fazendeiros via Instituto do Café.

Os bons tempos de ouro negro estão mais distantes do que nunca. O Brasil não tem mais para onde escoar sua pantafaçuda produção, que deve chegar neste ano a mais de 21 milhões de sacas, superando e muito as previsões iniciais, que falavam em 13 milhões. São Paulo, orgulhoso de ser o "estado com um bilhão de pés de café", é responsável por quase dois terços da produção mundial da rubiácea. Tudo isso seria excelente se a demanda mundial crescesse em igual proporção. Mas as exportações seguem caindo – 15 milhões de sacas em 1927, 13,8 milhões em 1928. Pior: o café exportado hoje pelo Brasil é da safra de dois anos atrás, o que significa que ao menos 20 milhões de sacas estão estocadas. A diminuição massiva da venda do café tem tudo para desencadear um rombo na economia brasileira, baseada três quartos na exportação do grão. Quando a notícia da queda em Nova York chegou ao Rio de Janeiro, os operadores da bolsa local, também em acentuada baixa, não enviaram os resultados do fechamento diário para os Estados Unidos, como de costume, temendo que os números no vermelho ampliassem ainda mais o derrocada do café no hemisfério norte.

Especialmente depois da debacle de Wall Street, o governo do presidente Washington Luiz encontra-se em uma sinuca de bico. O consumo mundial de café é estimado hoje em 22 milhões de sacas. O Brasil está atolado com uma produção e um estoque muito maiores do que a demanda – isso sem falar na quase certa recessão de um de nossos principais compradores, os Estados Unidos, e na concorrência de países que, atraídos pelos lucros obtidos aqui com a rubiácea, investiram na cafeicultura e começam a colocar no mercado grãos de qualidade a preços módicos. Manter o café nos armazéns para valorizá-lo, como foi marca registrada da política cafeeira paulista durante a década, já não surte efeito. O governo não tem mais dinheiro para comprar a produção e manter os preços em patamares razoáveis. Em compensação, simplesmente abrir a porta dos armazéns e despejar a produção no mercado faria depreciar ainda mais os valores já rasos do grão, e causaria certamente uma quebradeira em cadeia na economia paulista e nacional. Impulsionar a indústria e diversificar a produção são as saídas óbvias, mas ambas são soluções a, no mínimo, médio prazo, e não aliviam a pressão sobre a economia. A bolha especulativa do mercado financeiro já estourou, causando a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Será o precioso ouro negro o próximo alvo?

Desde a chegada dos pioneiros africanos, em 1619, os negros da América enfrentam uma contenda laboriosa em busca de direitos iguais, passando pela escravidão e pela segregação


 
Em 1619, os pioneiros africanos desembarcaram na Virgínia como servos por contrato - status semelhante ao dos trabalhadores ingleses, que também empenharam anos de trabalho para cobrir os custos da passagem à América. Pouco tempo depois, entretanto, a escravidão, ainda que não regulamentada, já se verificava em muitos estados do país. A cultura do tabaco no Sul dos EUA se alimentou do tráfico negreiro para compor sua mão-de-obra por décadas a fio; como resultado, o censo americano de 1860 registrava uma população de 4 milhões de escravos nos quinze estados em que a escravidão era legal. Nesses estados, a população total era de 12 milhões de pessoas. Cerca de 500.000 negros viviam livres no país naquele tempo.

As vozes abolicionistas, que timidamente apareceram nos EUA no século XVIII, ganharam força com a eleição à presidência de Abraham Lincoln, opositor declarado da escravidão, em 1860. Convencidos de que seu modo de vida estava ameaçado, os estados do Sul se separaram da União e detonaram a Guerra Civil Americana. Em 1863, durante o conflito, Lincoln assinou a Proclamação da Emancipação, libertando os escravos dos estados confederados e proibindo a escravidão em todo o país. Mas era apenas o começo

 Segregação institucionalizada - No fim do século XIX, os estados do Sul, afetados economicamente com o fim da escravidão, promulgaram as chamadas leis Jim Crow, uma série de determinações para legitimar a discriminação racial e dificultar o acesso dos negros ao voto. Legislações semelhantes apareceram por todo o país, e a segregação passou a ser uma realidade nos Estados Unidos. Prédios e transporte públicos, escolas, restaurantes, cinemas e até cadeias tinham áreas separadas para brancos e negros - a dos negros, via de regra, em estados deploráveis. Casamentos entre brancos e negros ou seu descendentes eram proibidos em diversos estados, para evitar a miscigenação. Na Carolina do Norte, nem mesmo os livros da biblioteca poderiam ser consultados por negros e brancos - se o primeiro a retirá-lo fosse um branco, apenas os brancos teriam acesso ao volume

Entre os anos de 1916 e 1930, uma onda de migração negra do sul para o norte, meio-oeste e oeste do país - regiões onde a tolerância e as oportunidades eram maiores - deu início ao movimento pela igualdade de direitos. Entretanto, apesar de alguns pioneiros terem ultrapassado a barreira racial (como o atleta Jackie Robinson, craque do beisebol, que em 1947 tornou-se o primeiro jogador negro nas ligas maiores da modalidade preferida dos americanos, colocando um ponto final na segregação que durou 60 anos), apenas a partir da década passada é que os resultados coletivos começaram a aparecer. O boicote de Montgomery e a marcha em Washington, ambos marcados pela não-violência e pela tentativa de integração racial pregada por Martin Luther King, tiveram grande repercussão - e, mais importante ainda, resultados práticos. Contudo, alguns líderes e grupos, notadamente Malcolm X (1925-1965) e o recém-formado Black Power, advogam pela ruptura total entre a América negra e a branca, utilizando-se da violência se for preciso. A grande incógnita é o caminho que será tomado pelos herdeiros de King - se a rota da não-violência trilhada pelo reverendo ou uma estrada muito mais sinuosa, manchada de sangue..
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DISCURSO DE MARTIN LUTHER KING, JR.

Discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington.

O discurso de Martin Luther King, pronunciado na escadaria do Monumento a Lincoln, em Washington, foi ouvido por mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, reunidas na capital dos Estados Unidos da América, após a «Marcha para Washington por Emprego e Liberdade». A manifestação foi pensada como uma maneira de divulgar de uma forma dramática as condições de vida desesperadas dos negros no Sul dos Estados Unidos, e exigir ao poder federal um maior comprometimento na segurança física dos negros e dos defensores dos direitos civis, sobretudo no Sul.

Devido a pressões políticas exercidas pela Presidência dos Estados Unidos - ocupada por John Kennedy -, as exigências a apresentar no comício tornaram-se mais moderadas, mas mesmo assim foram feitos pedidos claros: o fim da segregação no ensino público, passagem de legislação clara no que respeita aos direitos civis, assim como de legislação proibindo a discriminação racial no emprego; para além do fim da brutalidade policial contra militantes dos direitos civis e a criação de um salário mínimo para todos os trabalhadores, que beneficiaria sobretudo os negros.

Realizado num clima muito tenso, a manifestação foi um estrondoso sucesso, e o discurso conhecido sobretudo pela frase permanentemente repetida no meio do discurso «I have a Dream» (Eu tenho um sonho), mas também pela frase que é repetida no fim - «That Liberty Ring» (Que a Liberdade ressoe), que retoma o poema patriótico «América», tornou-se, com o discurso de Lincoln em Gettysburg, um dos mais importantes da oratória americana.

Em 1964 a Lei dos Direitos Civis foi votada e promulgada por Lyndon B. Johnson e em 1965 a Lei sobre o Direito de Votar foi aprovada.

Martin Luther King, Jr. foi escolhido como Prémio Nobel da Paz no ano seguinte, em 1964.





«que a liberdade ressoe!»



Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre.

Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra.

Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.

Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade. É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente". Porém nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidades deste país.

Por isso viemos aqui cobrar este cheque - um cheque que nos dará quando o recebermos as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América da clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxuria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo. Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.

Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre. Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania.

Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça. Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.

Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto realizado de uma forma criativa degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.

Esta maravilhosa nova militancia que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade.

Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?" Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial. Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.

Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.

Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para as bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos embrenhemos no vale do desespero.

Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".

Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caractér.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de ... e recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul. Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias de nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.

Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".

E se a América quiser ser uma grande nação isto tem que se tornar realidade. Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire. Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvania!

Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!

Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!

Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!

Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.

Que de cada localidade, a liberdade ressoe.

Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra: "Liberdade finalmente! Liberdade finalmente! Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"