sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A Violência dos Lamas

A Violência dos Lamas

No velho Tibete, as classes altas pregavam uma não-violência budista mística. Mas, como todas as classes dominantes da história, praticavam uma violência reaccionária para manterem o seu domínio.

O sistema lamaísta de governo foi forjado em lutas sangrentas. Sabe-se que os primeiros lamas assassinaram o último rei tibetano, Lang Darma, no século X. Depois, durante séculos, travaram guerras civis que incluíram massacres mútuos de mosteiros inteiros. No século XX, o 13º Dalai Lama trouxe instrutores imperialista britânicos para modernizarem o seu exército nacional. Ele ofereceu mesmo algumas das suas tropas para ajudarem os britânicos na I Guerra Mundial.

Estes factos históricos só provam que as doutrinas lamaístas de “compaixão” e “não-violência” são uma hipocrisia.

A antiga classe dominante nega que havia luta de classes no velho Tibete. Um relato típico de Gyaltsen Gyaltag, um representante do Dalai Lama na Europa, diz: “Antes de 1950, os tibetanos nunca passaram fome e as injustiças sociais nunca resultaram numa insurreição popular”. É verdade que há poucos registos escritos da luta de classes. A razão disso é que o Lamaísmo impediu que fossem escritas quaisquer histórias verdadeiras. Apenas foram registadas as disputas sobre dogmas religiosos.

Mas as montanhas do Tibete estavam cheias de bandidos foragidos e cada propriedade tinha os seus próprios soldados armados. Isto só prova que uma luta constante – por vezes aberta, por vezes escondida – definia a sociedade tibetana e as suas relações de poder.

Os historiadores revolucionários documentaram insurreições dos servos tibetanos em 1908, 1918, 1931 e nos anos 40. Numa famosa insurreição em 1918, 150 famílias de servos do município de Thridug, no norte do Tibete, ergueram-se lideradas por uma mulher, Hor Lhamo. Mataram o dirigente do município, sob as palavras de ordem: “Abaixo os funcionários! Abolição de todo o trabalho forçado ulag!”

A violência diária no velho Tibete era dirigida contra as massas populares. Cada amo castigava os “seus” servos e organizava bandos armados para imporem o seu domínio. Esquadrões de monges brutalizavam as massas. Eram chamados “Barras de Ferro” por causa das grandes barras metálicas que usavam para bater nas pessoas.

Era crime “sair do seu lugar” – como pescar ou caçar ovelhas selvagens que os lamaístas consideravam “sagradas”. Era mesmo crime que um servo recorresse das decisões do seu amo junto de outra autoridade. Quando os servos fugiam, os bandos dos seus amos perseguiam-nos. Cada propriedade tinha o seu próprio calabouço e câmara de tortura. Introduziam pimenta sob as pálpebras e espigas debaixo das unhas. Ligavam as pernas dos servos com pequenas grilhetas e libertavam-nos para que vagueassem mancos para o resto das suas vidas.

Grunfeld escreveu: “As crenças budistas excluem tirar a vida, pelo que chicotear uma pessoa até à beira da morte e libertá-la para morrer noutro lugar permitia então aos responsáveis tibetanos que justificassem a morte como ‘um acto de Deus’. Outras formas brutais de castigo incluíam cortar as mãos pelos pulsos, arrancar olhos com ferros incandescentes, pendurar pelos polegares ou estropiar o ofensor, cosê-lo numa bolsa e atirar a bolsa ao rio”.

Como sinais do poder dos lamas, as cerimónias tradicionais usavam partes dos corpos de pessoas que tinham morrido: flautas feitas de ossos de coxas humanas, tigelas feitas de crânios, tambores feitos de pele humana. Depois da revolução, foi encontrado no palácio do Dalai Lama um rosário feito de 108 crânios diferentes. Depois da libertação, os servos relataram extensivamente que os lamas faziam sacrifícios humanos rituais – incluindo enterrar filhos de servos vivos nas cerimónias da primeira pedra dos mosteiros. Os antigos servos testemunharam que pelo menos 21 pessoas foram sacrificadas pelos monges em 1948 na esperança de impedirem a vitória da revolução maoista.
Usar o Karma para Justificar a Opressão

Uma crença central do lamaísmo é a reencarnação e o karma. Dizem que cada ser vivo é habitado por uma alma imortal que nasceu e renasceu muitas vezes. Após cada morte, supostamente a alma obtém um novo corpo.

Segundo o dogma do karma, cada alma recebe a vida que merece: um comportamento piedoso conduz a um bom karma – e com isso vem uma subida de estatuto social na vida seguinte. Um comportamento ímpio (pecador) conduz a um mau karma e a próxima vida poderá ser como insecto (ou como mulher).

Na realidade, isso da reencarnação não existe. As pessoas mortas não regressam em novos corpos. Mas, no Tibete, a crença na reencarnação teve terríveis consequências reais. As pessoas intrigadas pelo misticismo tibetano precisam de perceber a função social que essas crenças lamaístas serviam dentro do Tibete: o Budismo Lamaísta foi criado, implementado e perpetuado para impor uma extrema opressão feudal sobre o povo.

Os lamaístas contam hoje a história de um antigo rei tibetano que queria fechar o fosso entre ricos e pobres. O rei perguntou a um académico religioso por que é que os seus esforços tinham fracassado. “Diz-se que o sábio lhe explicou que o fosso entre ricos e pobres não podia ser fechado à força, porque as actuais condições de vida são sempre consequência de actos de vidas anteriores e por isso o curso da vida não podia ser mudado arbitrariamente”.

Grunfield escreveu: “De um ponto de vista puramente laico, esta doutrina deve ser sempre vista como uma das formas mais engenhosas e perniciosas de controlo social jamais inventado. Para o tibetano comum, a aceitação dessa doutrina excluía a possibilidade de alguma vez mudar o seu destino nesta vida. A doutrina do karma ensina que se alguém nasce escravo, isso não é culpa do esclavagista mas antes do próprio escravo por ter cometido alguma falta numa vida anterior. Por seu lado, o esclavagista apenas está a ser recompensado pelas suas boas acções numa vida anterior. Para o escravo, tentar romper as cadeias que o prendem equivale a uma autocondenação a renascer numa vida pior que a que já padece. Certamente este não é o material de que são feitas as revoluções...”

Os abades-lamas feudalistas do Tibete ensinavam que o seu lama supremo era um único ser divino deus e rei – cujo domínio e sistema impiedoso era uma exigência dos mecanismos naturais do universo. Esses mitos e superstições ensinavam que não podia haver nenhuma mudança social, que o sofrimento tem uma justificação e que para deixarem de sofrer as pessoas tinham que tolerar pacientemente o sofrimento. Isto é quase exactamente o mesmo que a igreja católica medieval da Europa dizia às pessoas em defesa de um sistema feudal semelhante.

Também como na Europa medieval, os feudalistas do Tibete tentaram reprimir tudo o que pudesse minar o seu sistema “fechado”. Todos os observadores concordam em que, antes da revolução maoista, não havia jornais, revistas, livros impressos ou literatura não-religiosa de qualquer tipo no Tibete. O único jornal em língua tibetana era publicado em Kalimpong por um cristão tibetano convertido. As fontes de notícias do mundo exterior eram os viajantes e duas dezenas de rádios de onda curta que apenas pertenciam a membros da classe dominante.

As massas criaram um folclore, mas o idioma escrito estava reservado aos dogmas e disputas religiosas. As massas populares e provavelmente a maioria dos monges eram mantidos completamente analfabetos. A educação, as notícias do exterior e a experimentação eram consideradas suspeitas e maléficas.

Os defensores do lamaísmo agem como se essa religião fosse a essência da cultura (e mesmo da existência) do povo tibetano. Isso não é verdade. Como todas as coisas na sociedade e na natureza, o Budismo Lamaísta teve um início e terá um fim. Houve culturas e ideologias no Tibete antes do lamaísmo. Depois surgiram esta cultura e religião feudais conjugadas com a exploração feudal. Era inevitável que a cultura lamaísta se estilhaçasse com o fim dessas relações feudais.

De facto, quando em 1950 surgiu a revolução maoista, esse sistema já estava a apodrecer por dentro. Mesmo o Dalai Lama admite que a população do Tibete estava em declínio. Estima-se que havia cerca de 10 milhões de tibetanos há 1000 anos atrás, quando o Budismo foi inicialmente introduzido – por altura da revolução maoista restavam apenas dois ou três milhões. Os maoistas estimaram que o declínio se tinha acelerado: a população tinha-se reduzido a metade durante os 150 anos anteriores.

O sistema lamaísta sobrecarregava as pessoas com uma enorme exploração. Impunha o fardo especial do apoio a um clero enorme, parasita e que não se reproduzia, de cerca de 200 000 pessoas – que absorvia 20% ou mais dos homens da região. O sistema reprimia o desenvolvimento das forças produtivas: impedia o uso de arados de ferro, a exploração de minas de carvão ou de combustíveis, a pesca e a caça e as inovações médicas e sanitárias de qualquer tipo. A fome, a esterilidade causada pelas doenças venéreas e a poliandria mantinham as taxas de natalidade baixas.

O invólucro místico do lamaísmo não consegue esconder que a velha sociedade tibetana era uma ditadura dos proprietários sobre os servos. Não há nada que possa.