segunda-feira, 31 de outubro de 2011

EUA cortam financiamento à Unesco após agência ter admitido palestinos


Os Estados Unidos anunciaram nesta segunda-feira (31) que vão deixar de depositar fundos para a Unesco, após a agência da ONU ter admitido a Palestina como membro pleno.

"Tínhamos de fazer um pagamento de US$ 60 milhões à Unesco em novembro e não vamos fazer", disse Victoria Nuland, porta-voz do Departamento de Estado, em entrevista.

Washington se opõe ao pedido palestino de uma cadeira na ONU sob o argumento de que isso não ajudaria nos esforços de reviver as negociações de paz com Israel, que sofreram colapso no ano passado.

O financiamento americano equivale a pouco mais de 20% das verbas totais da Unesco.

Membro pleno
A agência cultural da Organização das Nações Unidas concedeu o status de membro total aos palestinos no órgão, em uma votação que pode impulsionar a tentativa da nação de ser reconhecida como Estado perante a ONU.

A Unesco é a primeira agência da ONU em que os palestinos buscaram integração como membro total desde que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, entrou com o pedido de uma cadeira na ONU, em 23 de setembro.


A adesão foi aprovada por 107 votos a favor, 52 abstenções e 14 contra.

EUA, Canadá e Alemanha votaram contra. Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul e França, entre outros, votaram a favor. O Reino Unido se absteve.

O governo brasileiro, em nota do Itamaraty, parabenizou os palestinos.

Os Estados Unidos já haviam dito que vetariam a reivindicação palestina na ONU e também de outros órgãos da ONU.

O ministro do Exterior palestino, Riyad al-Malki (centro), é visto entre o secretário da Organização de Cooperação Islâmica, Ekmeleddin Ihsanoglu (esq.), e o embaixador palestino na Unesco, Elias Sanbar (dir.), na sede da Unesco em Paris nesta segunda (31) (Foto: Reuters)

Israel critica
A admissão palestina afasta as perspectivas de um acordo de paz, afirmou nesta segunda o governo israelense, ao condenar "a manobra unilateral" palestina.

"Israel rejeita a decisão da Assembleia Geral da Unesco (...) aceitando a Palestina como Estado membro da organização", afirma um comunicado do ministério das Relações Exteriores, ao estimar que "se trata de uma manobra palestina unilateral que não mudará nada no terreno, mas que afasta a possibilidade de um acordo de paz".

Os países que, como a França, apoiaram o pedido verão sua influência sobre Israel enfraquecer, afirmou nesta segunda-feira o embaixador israelense, Nimrod Barkan.

"Isto vai enfraquecer a capacidade deles de influenciar na posição de Israel", principalmente em relação ao processo de paz, disse à AFP.

Os países que votaram sim "adotaram uma versão de ficção científica da realidade ao admitirem um Estado que não existe nesta organização encarregada da ciência... A Unesco deve se preocupar com a ciência e não com a ficção científica", acrescentou.

Plenário da Unesco após a votação da adesão palestina nesta segunda (31) (Foto: AP)


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Kadafi está morto, anuncia premiê de governo interino da Líbia

O primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição (CNT), Mahmoud Jibril, confirmou nesta quinta-feira que o líder deposto Muamar Kadafi, de 69 anos, foi morto na Líbia. Kadafi, que se agarrou ao poder por 42 anos até que fosse deposto por sua própria população em um levante que se tornou uma sangrenta guerra civil, foi morto por forças revolucionárias durante a queda de Sirte, sua cidade natal, o grande último bastião de resistência desde a queda do regime, há dois meses.




"Esperávamos por esse momento há muito tempo. Muamar Kadafi foi morto", disse Jibril durante uma coletiva na capital do país, Trípoli. Segundo o premiê, o líder deposto morreu de um ferimento causado por um disparo na cabeça. Kadafi, segundo Jibril, foi atingido durante o fogo cruzado entre seus partidários e combatentes do governo interino depois de ter sido capturado ao ser retirado de um duto de esgoto.

"Kadafi foi retirado do duto sem resistir. Quando o levávamos, foi atingido por um disparo no braço direito e então colocado em uma picape", disse Jibril ao ler um relatório forense. "Quando o carro se movia, foi pego no fogo cruzado e atingido por uma bala na cabeça. O médico forense não pôde dizer se a bala era dos revolucionários ou das forças de Kadafi."

Também de acordo com premiê, Kadafi morreu poucos minutos antes de chegar ao hospital. O presidente do CNT, Mustafa Abdel Jalil, declarará a libertação da Líbia no sábado.

Na coletiva em Trípoli, Jibril também pediu que a Argélia entregue os membros da família de Kadafi que se abrigaram no país. A mulher do líder deposto, assim como três de seus filhos - Aisha, Muhammad e Hannibal - fugiram para a Argélia em agosto. Saadi, outro filho de Kadafi, abrigou-se em setembro no Níger. A Interpol emitiu um mandado de prisão contra ele a pedido do CNT.

Kadafi é o primeiro líder morto na Primavera Árabe, onda de movimentos populares que ocorrem no Oriente Médio e no norte da África desde dezembro para exigir o fim de governos autocráticos e mais democracia. Além da Líbia, regimes foram depostos na Tunísia e no Egito. Kadafi foi um dos líderes mais longevos do mundo, dominando o país por meio de um regime comandado por seus caprichos e atraindo condenação internacional e isolamento durante anos.

Além da morte de Kadafi, Abdel Majid Mlegta, autoridade do CNT, disse à Reuters que Mutassim, outro filho do Kadafi, morreu durante a captura do pai. "Ele tentava retaliar e resistir aos combatentes", disse. Um repórter da Reuters confirmou que viu o corpo, que foi colocado sobre cobertores no chão de uma casa em Misrata, coberto da cintura para baixo com uma capa de plástico azul. O corpo apresenta ferimentos no peito e pescoço.

Há relatos conflitantes sobre o paradeiro de Saif al-Islam, sempre apontado como sucessor de Kadafi. À rede de TV árabe Al-Jazira, uma autoridade do governo interino afirmou que ele ainda estaria foragido no deserto da Líbia. Posteriormente, surgiram informações de que ele, que teria tentado fugir de Sirte em um comboio, estava cercado e sob ataque. Já a rede Al-Arabyia afirmou que ele foi morto. Mais tarde, a TV pró-Kadafi Al-Ra, que fica na Síria, disse que "não havia nenhuma verdade" nas informações sobre a morte ou captura de Saif al-Islam.

Outros dois filhos de Kadafi foram mortos previamente. A morte de Khamis em um confronto perto de Trípoli foi confirmada por uma rede pró-Kadafi nesta semana. O filho mais novo de Kadafi, Saif al-Arab, foi morto em um ataque aéreo da Otan em abril.

Circunstâncias incertas da morte

O presidente dos EUA, Barack Obama, disse que a morte de Kadafi "põe fim a um longo e doloroso capítulo da Líbia". "O regime de Kadafi chegou ao fim", disse, afirmando que "hoje é um dia importante na história" do país. Outros líderes ocidentais, que contribuíram para a queda do regime por meio de operações da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), consideraram que a morte de Kadafi marcava o "fim da tirania". A presidenta brasileira, Dilma Rousseff, afirmou que o mundo deve apoiar e incentivar o processo de transição democrática no país, mas ressaltou que uma morte não deve ser "comemorada".

Líbios saíram às ruas de todo o país para celebrar a notícia. "Nosso atual ambiente será aprimorado. Esperávamos por essas notícias. Líbia se tornará um local muito seguro. A comunidade econômica aqui ficará muito feliz, poderemos retomar nossos negócios. Estamos gratos aos EUA, à França e ao Reino Unido por sua ajuda", afirmou um residente de Trípoli.

Antes de o prêmie líbio declarar que Kadafi tinha sido morto por uma disparo na cabeça, informações iniciais de combatentes indicavam que o cerco ao líder começou quando ele estava escondido com seus partidários nos poucos prédios que ainda controlavam em Sirte, que fica na costa do Mar Mediterrâneo. Em meio a fortes combates, um comboio supostamente com ele teria tentado fugir do local e foi atingido por ataques aéreos da Otan.

A Otan confirmou que bombardeou dois veículos militares pró-Kadafi nos arredores de Sirte. "Aproximadamente às 8h30 locais, a Otan bombardeou dois veículos pró-Kadafi que faziam parte de um grupo maior manobrando perto de Sirte", disse o porta-voz Roland Lavoie em uma declaração. A organização, porém, não soube dizer quem estava no comboio.


É definitivamente ele, é seu cabelo, seu rosto, saberia disso em qualquer lugar - todos os líbios saberiam", disse líbio que viu corpo em Misrata

O corpo do líder deposto foi levado para a cidade vizinha de Misrata, que as forças de Kadafi cercaram durante meses. Mohammed, um residente de Misrata, alegou que esteve na mesquita para onde o corpo de Kadafi foi levado. À BBC, disse: "É definitivamente ele, é seu cabelo, seu rosto, saberia disso em qualquer lugar - todos os líbios saberiam."

A rede de TV Al-Arabyia mostrou uma gravação em que o corpo ensanguentado do ditador é colocado em um veículo cercado por uma ampla multidão gritando "O sangue dos mártires não correrá em vão". A rede de TV árabe Al-Jazira divulgou um vídeo de um homem parecido com Kadafi morto ou severamente ferido, com sangramento na cabeça, enquanto combatentes o arrastavam pela rua (veja vídeo abaixo).

Antes da informação sobre a morte de Kadafi, o comandante do CNT Mohamed Leith, anunciou que ele havia sido capturado. "Ele foi capturado em sua cidade natal, Sirte. Está muito ferido, mas ainda está respirando." Segundo ele, o líder deposto vestia um uniforme cáqui e um turbante.

Fonte IG. Acessado em 20/10/2011 ás 19:25




domingo, 16 de outubro de 2011

A Guerra Civil Americana (Guerra de Secessão)


O intenso crescimento territorial dos Estados Unidos na primeira metade do século XIX, acompanhado de um rápido aumento da população, com muitos imigrantes europeus atraídos pela facilidade de adquirir terras, tornava ainda mais flagrante, o contraste entre o desenvolvimento do norte e o atraso do sul.

No norte, o capital acumulado durante o período colonial, criou condições favoráveis para o desenvolvimento industrial cuja mão-de-obra e mercado, estavam no trabalho assalariado. A abundância de energia hidráulica, as riquezas minerais e a facilidade dos transportes contribuíram muito para o progresso da região, que defendia uma política econômica protecionista. Já o sul, de clima seco e quente permaneceu atrasado com uma economia agro-exportadora de algodão e de tabaco, baseada no latifúndio escravista. Industrialmente dependente, o sul era franco defensor do livre-cambismo, caracterizando mais um contraponto com a realidade do norte.


O Acordo de Mississipi em 1820 proibia a escravidão acima do paralelo 36º40'. Em conseqüência, o presidente Monroe, que assinara o tratado, foi homenageado com a denominação de "Monróvia", para capital do Estado da Libéria, fundado na África em 1847, para receber os escravos libertados que quisessem voltar à sua terra. Em 1850 foi firmado o Compromisso Clay, que concedia liberdade para cada Estado da federação decidir quanto ao tipo de mão-de-obra.

Em 1852, Harriet Beecher Stowe publicou a romance abolicionista A Cabana do pai Tomás, que vendeu 300 mil cópias só no ano de sua edição, sensibilizando toda uma geração na luta pelo abolicionismo. Dois anos depois surgia o Partido Republicano, que abraçou a causa do abolicionismo.


Em 1859, um levante de escravos foi reprimido na Virgínia e seu líder John Brow foi enforcado, transformando-se em mártir do movimento abolicionista. No ano seguinte, o ex-lenhador que chegou a advogado, Abraham Lincoln, elegeu-se pelo novo Partido Republicano. O Partido Democrata, apesar de mais poderoso, encontrava-se dividido entre norte e sul, o que facilitou a vitória de Lincoln, um abolicionista bem moderado que estava mais preocupado com a manutenção da unidade do país. Em campanha Lincoln teria afirmado que "Se para defender a União eu precisar abolir a escravidão, ela será abolida, mas se para defender a União eu precisar manter a escravidão, ela será mantida". Apesar da questão do escravismo ser apenas secundária para Lincoln, o mesmo era visto pelos latifundiários escravistas do sul como um verdadeiro revolucionário.

A eleição de para a presidência dos Estados Unidos aborreceu os sentimentos dos dirigentes políticos dos estados do sul, cuja economia se baseava na cultura intensiva com recurso sistemático à mão-de-obra escrava. No seu discurso de tomada de posse, Lincoln reafirmara o propósito de preservar a unidade da nação americana, colocando à parte a idéia de forçar a abolição do sistema escravagista. Tal atitude não foi suficiente para tranquilizar os elementos mais radicais dos estados do sul, que se constituíram numa Confederação que se separou da União e desencadeou operações militares contra as tropas desta, estacionadas em Fort Sumner (12 de Abril de 1861).

O conflito deste modo desencadeado foi favorável à Confederação durante o primeiro ano de guerra, mas a situação inverteu-se a partir da primavera de 1862, terminando com a derrota militar da Confederação sulista. O Norte, dirigido por Lincoln, dispunha de vantagens significativas, de entre as quais se devem destacar as seguintes:

- Uma população mais numerosa, na ordem dos 22 milhões de habitantes, contra os 9 milhões do sul, dos quais pelo menos um terço eram escravos;
- Agricultura apta a produzir gêneros alimentícios em quantidade e variedade capaz de alimentar não apenas a população civil mas ainda as tropas na frente de combate, enquanto a produção agrícola do sul se limitava a gêneros de exportação, não comestíveis, como o algodão;
- Forte capacidade industrial, aproximadamente cinco vezes superior a do Sul, incluindo o exclusivo quase completo da indústria de armamento.

Enquanto Lincoln colocava a tônica no desiderato de defender a União, recusando ao Sul o direito de se separar do todo nacional, o Sul insistia no seu direito à independência. A questão da escravatura foi assim ficando secundarizada e só voltou ao primeiro plano quando Lincoln (num momento em que se podia já prever a derrota da Confederação, embora à custa de grandes sacrifícios) decidiu introduzir um novo elemento dinamizador da opinião pública do Norte, que simultaneamente funcionasse como fator de desencorajamento da opinião pública do Sul. Fê-lo assinando, em 22 de setembro de 1862, a Proclamação de Emancipação dos escravos, na qual se estipulava que os escravos que vivessem no território da Confederação passariam a ser pessoas livres a partir de 1º de Janeiro seguinte. Deu assim uma grande satisfação ao movimento abolicionista, em cujas preocupações a abolição da escravatura ocupava o primeiríssimo lugar, mudando deste modo o sentido da guerra. A partir deste momento, a guerra trava-se com dois objetivos, um de carácter político (a preservação da unidade nacional) e outro de natureza social (o fim da escravatura), este último com fortes implicações na economia do país.

Passada a primeira fase vitoriosa da guerra, o Sul rapidamente compreendeu que não poderia sair vencedor, mas nem por isso diminuiu o seu esforço bélico. As suas tropas bateram-se sempre com extrema bravura até a rendição final, em 9 de abril de 1865. A batalha mais feroz foi certamente a de Gettysburg (ilustração abaixo), travada durante três dias, com um balanço final superior a cinqüenta mil mortos. Para homenagear os caídos em combate, Lincoln pronunciou um breve discurso, em 19 de maio de 1863, no qual acrescentou uma outra dimensão à guerra - a defesa da democracia, definida como "o governo do povo, pelo povo e para o povo".

de baixas que qualquer outro conflito em que os Estados Unidos se envolveram. Contaram-se mais de 600.000 mortos e metade do país ficou em ruínas. A reconstrução da economia do país (especialmente a do Sul) foi penosa e longa. A unidade nacional foi preservada, e a abolição da escravatura, proclamada por Lincoln, foi pouco depois consagrada na Constituição (13ª Adenda). O próprio Lincoln caiu vítima de um atentado perpetrado por um radical sulista. Os negros, agora livres, integraram-se no mercado de trabalho como assalariados, mas encontraram enormes dificuldades na conquista da igualdade real. As perseguições brutalíssimas por parte de organizações racistas como o Klu Klux Klan e as discriminações de várias ordens (no direito eleitoral, no mercado de emprego, no acesso ao ensino e à habitação etc.) de que foram vítimas só foram eficazmente combatidas por um amplo movimento social encabeçado por Martin Luther King Jr., na década de 60 do século passado.

ANÁLISE DA GUERRA

Até hoje, muito se discute por que a União venceu (ou por que a Confederação perdeu) a guerra. As vantagens da União que contribuíram para o sucesso desta, e que são largamente aceitas entre historiadores, incluem:

• A economia industrializada do Norte, em contraste com a economia agrária do Sul. Esta economia industrializada ajudou na fabricação de armas e outros suprimentos.
• A grande e eficiente malha ferroviária do Norte, que permitiu o transporte rápido de tropas. Apesar de o Sul ter ao longo da guerra mais quilômetros de ferrovias per capita, várias destas ferrovias não eram compatíveis entre si, e não formavam uma malha ferroviária consistente - as tais ferrovias serviam primariamente para o transporte de algodão dos campos para os portos. A Guerra Civil Americana foi a primeira guerra da história onde ferrovias desempenharam um importante papel.
• Uma maior população, e taxas maiores de imigração no Norte, que possibilitou que mais pessoas pudessem atuar na guerra como soldados.
• A possessão de uma forte força naval, que levou ao bloqueio econômico bem-sucedido da Confederação por mar.
• O governo estável e popular da União.
• A causa moral proclamada pela Proclamação de Emancipação, que deu à União um incentivo adicional em continuar os esforços de guerra.
• O recrutamento de afro-americanos às forças da União, após a "Proclamação de Emancipação", que foram usados primariamente como arma ideológica contra a Confederação. Afro-americanos não foram autorizados a atuar nas forças militares da Confederação até as semanas finais da guerra.
• O péssimo uso de recursos existentes em ofensivas por parte da Confederação, e na falha desta em usar táticas de guerrilha contra o sistema de transportes e de comunicação da União. • A falha da Confederação em conseguir suporte militar de qualquer outro país, primariamente por causa dos resultados da Batalha de Antietam e da Proclamação de Emancipação, em 1863.

DESFECHO

Custos da guerra
A guerra terminou com a rendição incondicional das forças confederadas. Não houve conflitos de guerrilha significante. Muitos oficiais do alto escalão da Confederação escaparam para a Europa, o México e o Brasil, entre outros países. Davis foi capturado e aprisionado por dois anos, e libertado em seguida. Nenhum oficial confederado foi processado por traição.


Oficialmente, um total de 558 052 soldados morreram durante a Guerra Civil Americana. Considerando soldados desaparecidos, o total sobe para aproximadamente 620 mil. O número de feridos é de aproximadamente 275 mil na União e de 137 mil na Confederação. Estes números fazem da Guerra Civil Americana a mais sangrenta de toda a história dos Estados Unidos. Aproximadamente 360 mil soldados da União e 198 mil da Confederação morreram. O número de americanos mortos na Guerra Civil Americana é maior do que a soma de americanos mortos durante todos os outros eventos da história militar dos Estados Unidos, desde a Revolução Americana de 1776 até tempos atuais. Três quintos de todas as mortes foram causados por doenças, um quinto por lesões e ferimentos e apenas um quinto morreu diretamente em combate.

Sócio-econômicos e culturais
A Guerra Civil Americana drenou os recursos financeiros do Norte e arruinou completamente a economia do Sul. O custo total da guerra foi de 115 bilhões de dólares. Grande destruição ocorreu no Sul por causa da guerra. Inúmeras fábricas, estabelecimentos comerciais e residências foram destruídos e campos foram queimados pelos soldados do Norte. O monopólio mundial do algodão sulista foi destruído. Imediatamente após a guerra houve o aparecimento de grandes ressentimentos e atritos entre a população do Sul e do Norte dos Estados Unidos, que perduraram por várias gerações. Ressentimentos da população sulista contra o Partido Republicano, o partido de Abraham Lincoln, também surgiram. Os republicanos teriam grandes dificuldades em vencer quaisquer eleições federais até a década de 1970, e mesmo em tempos atuais, os Estados do Sul são governados em sua grande parte por democratas.

Nenhum programa governamental foi previsto para a integração profissional e econômica do Sul aos Estados Unidos da América. O Sul perdeu toda sua influência política, econômica e cultural nos Estados Unidos. Os ideais tradicionais do Sul passaram a não ter nenhuma influência no governo federal. Enquanto o conflito assolava os Estados americanos, a exportação de algodão pelos Estados do Sul ao Reino Unido ficou altamente prejudicada - o setor têxtil inglês a importar algodão de duas de suas colônias - o Egito e a Índia, e também incentivando outros países produtores de algodão - inclusive, o setor algodoeiro no Brasil. Foi o "surto nas exportações brasileiras de algodão".

A Guerra Civil Americana causou a urbanização das terras do oeste e das áreas centrais norte-americanas, contribuindo ainda mais para o crescimento da economia, a expansão industrial e o desenvolvimento do capitalismo dos Estados Unidos.

Apesar das dificuldades financeiras enfrentadas pela União ao longo da guerra, graças ao esforço de guerra, o Norte cresceu de maneira surpreendente, principalmente na metalurgia, transporte ferroviário, armamentos e naval. Além do desenvolvimento tecnológico, houve ganhos no campo da medicina, escolas e instituições de ensino superior. O comércio cresceu de maneira exponencial, espalhando-se para todo o território americano. O padrão de cultura dos Estados Unidos passou a ser o ideal nortista de "trabalho duro, educação e liberdade econômica a todos", e que eventualmente, faria dos Estados Unidos a maior potência econômica do mundo.

Mais de 60 mil livros e artigos foram escritos sobre a Guerra Civil Americana, fazendo desta guerra uma das guerras sobre as quais mais se escreveu na história da literatura. O poeta americano Walt Whitman predisse, corretamente, após o fim da guerra: "Uma grande literatura deverá surgir desta era de quatro anos".

Efeitos no militarismo
A Confederação foi abolida pela União, e os Estados rebeldes foram ocupados por tropas da União até 1877.

A Guerra Civil Americana é considerada por vários historiadores como a primeira guerra moderna. O conflito gerou vários avanços na área militar. Táticas e armas foram criadas e introduzidas, que seriam largamente usadas nas próximas décadas, até o começo do século XX. Entre as principais inovações da guerra está a invenção de rifles que podiam atirar várias balas antes de serem recarregados, e o uso das primeiras metralhadoras.

A Guerra Civil Americana foi a primeira guerra onde balões foram utilizados com o propósito de patrulhamento aéreo. Pela primeira vez, ironclads foram utilizados em guerra, bem como submarinos capazes de destruir outros navios. Minas terrestres e aquáticas foram outras inovações. Além disso, pela primeira vez na história mundial, ferrovias foram usadas para movimentar um grande número de soldados de uma região para outra, em questão de poucos dias. O telégrafo também foi usado, para comunicação, pela primeira vez.

Além disso, a Guerra Civil Americana é considerada uma guerra moderna por causa da grande destruição gerada. Foi a primeira guerra total do mundo, onde todos os recursos disponíveis foram usados por ambos os lados para os esforços de guerra.

Fim da escravidão
A Constituição americana de 1776 dizia que "todos os homens são iguais". Ironicamente, após a independência ter sido alcançada, e até o fim da Guerra Civil Americana, os Estados Unidos eram o maior país escravista do mundo. Após o fim da guerra, os americanos tentaram fazer esta igualdade uma realidade no país, através da aprovação da 13ª Emenda à Constituição americana, tendo sido ratificada no final de 1865, e que acabou oficialmente com a escravidão no país. A 14ª Emenda foi aprovada em 1868, definia cidadania e dava ao governo federal amplos poderes para forçar os Estados a fornecerem proteção igualitária às leis. A 15ª Emenda foi aprovada em 1870, e dava a todos os afro-americanos do sexo masculino maiores de idade o direito de voto.

Porém, o lugar dos afro-americanos na sociedade americana continuou indefinido, e os afro-americanos continuaram a ser marginalizados em todo país, uma vez que leis antidiscriminação ainda não existiam na época. O sul seria ocupado por tropas do Norte até 1877, e diversos afro-americanos foram colocados em posições importantes do governo dos Estados sulistas, pelo governo americano. A maior parte da população sulista sentiu-se humilhada com estas medidas, favorecendo o surgimento de sociedades secretas como os Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan, que empregavam a violência para perseguir os afro-americanos e defender a segregação racial.

União
Alguns historiadores acreditam que a guerra tenha sido a maior falha da democracia. Afinal, como o próprio Lincoln disse no final da guerra: "A guerra foi uma segunda instância, da votação à bala".

O único lema dos Estados Unidos então era "E Pluribus Unum", que significa "De Muitos Um". O lema é uma referência à criação dos Estados Unidos das 13 antigas colônias britânicas. Mas as divergências existentes entre o Norte e o Sul criaram um sentimento de indecisão nos americanos - a escolha entre formar uma única grande nação ou várias nações menores. Porém, o desfecho da guerra claramente estabeleceu que os Estados, por si só, não têm o direito ou o poder de sair da União.

Refugiados
Após a derrota e a recessão político-econômica que se seguiu no Sul, muitos confederados migraram para outras regiões dos Estados Unidos (primariamente, para o Norte e o Oeste americano). Os Estados confederados em conjunto (com exceção da Flórida e do Texas) sofreram em conjunto um decréscimo populacional de cerca de 300 mil habitantes na década de 1870, 450 mil na década de 1880 e 550 mil na década de 1890. Muitos dos confederados que abandonaram o Sul americano emigraram para outros países, entre eles o Brasil, buscando fugir não somente da recessão econômica, bem como da perseguição e discriminação que se seguiu contra a população confederada. Essa fuga consistiu no maior êxodo populacional da história dos Estados Unidos.

 Os confederados encontraram no Brasil terra produtiva para o plantio de culturas das quais eles tinham ampla experiência, como algodão, milho e melancia. Não se sabe ao certo o número de confederados que abandonaram os Estados Unidos e se instalaram no Brasil. Estimativas variam entre quatro mil a vinte mil confederados que imigraram para o Brasil, onde se instalaram primariamente em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo.

 Fontes: Carton, Bruce. Reflections on the Civil War. Doubleday Books, 1981| Kirchberger, Joe H. Civil War and Reconstruction: an Eyewitness History. Facts on File, 1991 | Barney, William L. Battleground for the Union: the Era of the Civil War and Reconstruction. Prentice Hall, 1990. | Infopédia, Editora Porto, Porto, Lisboa. 

leis de Jim Crow Ou Lei do Corvo. E.U.A



As lutas pelos direitos civis tornou-se mais e mais prevalente nos Estados Unidos durante a última parte do século 19 e parte do século 20, leis estaduais e locais conhecidos como "leis de Jim Crow definido o que muitos cidadãos E.U. sentida para ser" separadas mas iguais " tratamento para Africano americanos. As leis foram predominantes no sul, mas não foram exclusivos para essa área. Leis de Jim Crow, desde a espinha dorsal para a segregação racial e foram considerados, no final do século XX, a ser uma violação dos direitos civis e, portanto, inconstitucional.
O termo Jimm Crow originou, supostamente, de um ator branco que retratou um homem negro chamado Jim Crow, mas também pode ter se originado de uma música e dança caricatura que zombava Africano americanos no início até meados do século XIX. Leis de Jim Crow apareceu pela primeira vez logo após a Guerra Civil, quando o governo federal começou a devolver o poder aos estados do sul. Sob a lei federal, os escravos libertados foram garantidos os direitos civis, mas como democratas brancos no sul começaram a recuperar o controle dos governos estaduais? muitas vezes através de meios agressivos, incluindo a intimidação dos eleitores e violência direta - as leis de Jim Crow Africano americanos começaram a segregar do resto da população branca.
Leis de Jim Crow permitiu a segregação nas empresas, bairros, escolas e outras facetas da vida diária. Africano-americanos foram obrigados a usar seções separadas de ônibus e trens, sente-se em seções separadas de restaurantes, e frequentar escolas separadas do que os americanos brancos. Este tipo de segregação levou a violentas lutas pelos direitos civis, especialmente em relação a leis de Jim Crow que as escolas segregadas. Em 1954, o Supremo Tribunal pronunciou-se sobre um caso histórico, Brown vs Board of Education, que a segregação nas escolas era inerentemente desigual, assim, abolir a segregação nas escolas públicas. A prática, no entanto, continuou por mais alguns anos, resultando em mais tensões raciais e muitas vezes violência.
O desaparecimento das leis Jim Crow não veio de uma vez. Vários eventos importantes? inclusive Rosa Parks? recusa para se deslocar de seu assento em um ônibus segregados, bem como vários boicotes de ônibus? constituídas e, desde tensão suficiente na sociedade que a questão da segregação, finalmente, teve de ser tratada. Martin Luther King, Jr. foi um dos principais proponentes para acabar com as leis de Jim Crow, e não muito tempo depois de sua morte, o Congresso promulgou a Lei dos Direitos Civis de 1964, terminando efetivamente leis de Jim Crow. O Voting Rights Act de 1965 continuou em que o sentimento, não permitindo a segregação em todas as eleições. Infelizmente, muitas práticas de Jim Crow persistiu até meados dos anos 1970? S, sob a forma de violência ou provocação pura e simples, e alguns o sentimento de segregação ainda existe hoje em toda as partes dos Estados Unidos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Processo abolicionista no Brasil

Lei Bill Aberdeen (1845).

Ao longo da História do Brasil, a produção de riquezas foi viabilizada por meio da adoção da mão-de-obra escrava. A perpetuação desse tipo de relação de trabalho chegou até mesmo a incutir a idéia de que não haveria outra forma de sustentar a economia que não fosse pela exploração do esforço dos escravos. Entretanto, a partir do período monárquico alguns setores da sociedade nacional começaram a se manifestar contra a escravidão no Brasil.

Inspirados nos ideais do iluminismo, alguns intelectuais e críticos começaram a defender a idéia de que seria impossível construir uma nação livre, onde a grande maioria da população vivia submetida a uma ordenação social excludente. Além de contar com essas primeiras vozes contrárias, o movimento abolicionista brasileiro se desenvolveu também graças a pressão política da Inglaterra que, desde os primeiros anos da independência, exigia o fim dessa prática.

A postura britânica pode ser vista de forma bastante curiosa, já que ao longo de todo o século XVIII essa mesma nação ocupou o posto de maior traficante de escravos. Poderíamos alegar aqui que a ilha britânica, assim como no Brasil, foi influenciada pelos ideais de liberdade e assim mudou sua visão em relação à escravidão. No entanto, devemos nos lembrar que os séculos XVIII e XIX foram marcados por uma profunda transformação econômica trazida com a Revolução Industrial.

No conjunto de suas transformações, a Revolução Industrial abriu portas para que o sistema capitalista consolidasse novas relações de produção, demanda e consumo. Sendo visivelmente marcadas pela competitividade e a busca pelo lucro, as práticas capitalistas exigiam que a Inglaterra ampliasse os seus mercados consumidores. Todavia, a permanência da escravidão era vista como um entrave para a ampliação dos mercados. Afinal de contas, um escravo não recebia salário e, muito menos, poder de compra.

Por conta dessa necessidade, os ingleses, já em 1833, deram fim à escravidão em todas as suas colônias e passaram a ser grandes defensores do abolicionismo internacional. Nessa época, o Brasil era o maior mercado consumidor de escravos e, por conta disso, a Inglaterra exerceu fortes pressões políticas para que o país abolisse a escravidão no menor espaço de tempo possível. Em 1831, o poder legislativo brasileiro aprovou uma lei que concedia liberdade a qualquer africano que chegasse a terras brasileiras.

No entanto, essa lei não surtiu efeito, pois grandes proprietários não tomaram conhecimento da nova lei e o Estado também não tomou as ações para que a mesma fosse cumprida. Essa famosa lei “para inglês ver” indignou as autoridades britânicas que logo trataram de tomar uma medida mais incisiva. Em 1845, o parlamento inglês aprovou uma lei, a Lei Bill Aberdeen, que dava poderes para a esquadra britânica prender e punir qualquer navio negreiro encontrado pelos mares do mundo.

 Mesmo com os enérgicos protestos das autoridades políticas brasileiras, a lei de caráter supranacional dos ingleses acabou sendo posta em prática. A dependência econômica com os ingleses acabou fazendo com que as autoridades nacionais não tivessem meios suficientes para se opor à imposição britânica. Em pouco tempo, o capital que girava em torno desse comércio diminui seus volumes e abriu portas para que outras leis abolicionistas fossem criadas no paí

Lei  Eusébio de Queirós de (1850)

A Lei Eusébio de Queirós de 1850 proibiu o tráfico de escravos que era realizado no Oceano Atlântico em sentido ao Brasil. A lei do Segundo Reinado atendia a um interesse da Inglaterra e foi fundamental para dar início ao completo processo de abolição da escravatura no país.


Ainda durante o Primeiro Reinado no Brasil, algumas leis foram promulgadas na tentativa de reduzir o tráfico de escravos. Por mais que houvesse muitos políticos brasileiros que desde muito cedo no século XIX defendiam o fim da escravidão, a verdade é que o Brasil era um país extremamente baseado na mão-de-obra escrava. Os escravos totalizavam grande parte da população nacional e eram os responsáveis por sustentar a produção brasileira que era comercializada fora do Brasil.

Em 1831 entrou em vigor uma lei que determinava a liberdade de todos os escravos que entrassem no Brasil. A lei do dia 7 de novembro também dizia que os envolvidos com o tráfico interno de escravos seriam punidos por conduta criminosa. Até 1837 a lei foi relativamente respeitada, mas a partir desse ano os índices de chegada de escravos voltaram a subir consideravelmente e durante toda a década de 1840 chegaram ao Brasil cerca de 380 mil escravos.

A escravidão já não era mais bem vista no mundo, durante muito tempo ela foi o padrão de mão-de-obra de vários países, mas a evolução das indústrias como consequência da Revolução Industrial fez-se substituir a mão-de-obra escrava por trabalhadores livres na Europa. Naquele momento da história a Inglaterra era o país com maiores poderes e influências no planeta, naturalmente era a maior interessada na extinção do escravismo, já que permitia a ampliação de mercado consumidor. Induzindo os demais países a adotarem o seu modelo de comércio, a substituição de escravos por trabalhadores remunerados permitiria a escoação de seus produtos para novos compradores.

Foi justamente da Inglaterra que veio uma nova lei contra a escravidão e que incidiu diretamente sobre o Brasil, a Bill Aberdeen. Segundo esta, a Inglaterra concedia a si mesma o direito de legislar sobre os navios que realizavam o tráfico de escravos da África para o Brasil. A medida foi de forte impacto no Brasil por causa das relações entre os dois países, mas acabou não surtindo tanto efeito. Nos anos seguintes continuaram chegando africanos escravizados de forma ilegal, mas os brasileiros arrumaram formas de ludibriar os ingleses para transmitir a imagem de que o tráfico não estava acontecendo. Daí vem a famosa expressão “para inglês ver”.

Lei do Sexagenário (1885)

A Lei dos Sexagenários concedeu liberdade aos escravos com idade igual ou superior a 65 anos. Representou mais uma investida dos abolicionistas rumo ao fim definitivo da escravidão no país.


Na metade do século XIX o Brasil passou a promulgar leis que apontavam para o fim da utilização do trabalho escravo no país. Em consequência da pressão da Inglaterra, que em 1845 promulgou a lei Bill Aberdeen, o Brasil sancionou a Lei Eusébio de Queirós em 1850 proibindo o tráfico negreiro no oceano Atlântico. A medida causou um choque inicial e fez com que os cafeicultores arrumassem outros métodos para adquirir seus trabalhadores escravos. Nos anos seguintes o que ocorreu no Brasil foi uma intensificação do tráfico interno de escravos, o núcleo de maior concentração de mão-de-obra compulsória envolvia São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, as três principais províncias cafeeiras.

Embora houvesse muitos partidários do abolicionismo, somente duas décadas depois uma nova lei foi promulgada em favor dos escravos. Em 1872 o parlamento aprovou a Lei do Ventre Livre, a qual concedia liberdade para os filhos de escravos nascidos a partir da data de sua aprovação. Na prática essa medida também não resolvia o problema do trabalho escravo, pois até o indivíduo atingir a maioridade de 21 anos à época era o fazendeiro que cuidava dele. Desta forma, o liberto acabava realizando trabalho escravo e quando alcançava sua maioridade estava endividado com o fazendeiro, tendo que prestar serviços sem remuneração por mais muitos anos para poder quitar suas dívidas.

Os anos seguintes marcaram a intensificação do discurso abolicionista e do republicano. Já na década de 1880 a pressão interna e externa era muito grande para que o Brasil determinasse o fim do trabalho escravo. Em 1884 o liberal Sousa Dantas apresentou um projeto defendendo a liberdade para os escravos com 60 anos ou mais. O projeto foi extremamente debatido no Parlamento, de um lado, os abolicionistas mantinham-se firmes por mais uma conquista, e de outro lado, os escravocratas reagiam com vigor. Como a maioria dos sexagenários estava nas províncias cafeeiras, os escravocratas protestaram contra a lei. Os fazendeiros, indivíduos de enorme influência no período, conseguiram que a lei fosse aprovada somente em 1885 e ainda com um adendo favorável. A Lei dos Sexagenários, também chamada de Lei Saraiva-Cotegipe, levava esse nome porque no projeto inicial constava a liberação dos escravos com 60 anos ou mais, só que os cafeicultores conseguiram elevar a idade de liberdade para 65 anos.

A Lei dos Sexagenários, que foi promulgada no dia 28 de setembro de 1885, não tinha muito efeito prático, pois os escravos com tamanha idade não eram tão valorizados. Era muito difícil também que os escravos conseguissem viver sob as condições impostas até alcançar tal idade. Assim como a Lei do Ventre Livre, a Lei dos Sexagenários concedeu liberdade a mais uma parcela dos escravos, mas a aplicação prática de ambas era pouco relevante, mantendo o país marcado por sua base escravista.


Lei do ventre Livre de (1871)

A Lei do Ventre Livre concedeu liberdade aos escravos nascidos no Brasil após a data de promulgação da mesma. Representou mais um passo na escalada ruma à libertação de todos os negros utilizados como mão-de-obra escrava no país.


Desde o começo do século XIX se iniciaram os debates sobre a escravidão no Brasil, ainda na primeira metade do século muitos políticos e intelectuais defendiam a abolição. A pressão foi aumentando à medida que a Inglaterra consolidava sua Revolução Industrial e estabelecia a mão-de-obra assalariada como a melhor para a nova ordem mundial. Como o trabalho do escravo não cabia de nenhuma remuneração, essas pessoas não se faziam como consumidores para os produtos gerados nas novas fábricas inglesas.

Na década de 1830 surgiu no Brasil a primeira lei coibindo o trabalho escravo, mas que acabou sendo ignorada pelos proprietários de escravos. O choque maior sobre a utilização do trabalho compulsório aconteceria em 1845 com a promulgação da lei inglesa Bill Aberdeen. Através desta, a Inglaterra se colocava no direito de legislar sobre os navios que realizassem o tráfico negreiro em sentido ao Brasil, a lei proibia tal comércio no Oceano Atlântico. Como o Brasil tinha relação muito íntima com a Inglaterra, por causa de sua liderança econômica mundial, teve que atender à solicitação. Todavia, é claro que houve manobras para que a utilização da mão-de-obra escrava não se encerrasse naquele momento. Nos primeiros anos após a lei o Brasil foi impactado de tal forma que em 1850 foi promulgada a Lei Eusébio de Queirós no país estabelecendo também o fim do tráfico negreiro. A medida inglesa que teve como consequência a lei brasileira causou a insatisfação de muitos fazendeiros, os quais arrumaram alternativas para conseguir seus trabalhadores, como o tráfico interno, por exemplo. Entretanto nas décadas seguintes o número de escravos chegados ao Brasil voltou a aumentar substancialmente.

O debate em torno da abolição do trabalho escravo ganhava cada vez mais forma no Brasil. No começo da década de 1870 o Partido Liberal e o Partido Conservador debatiam no Parlamento outra medida de extinção do trabalho compulsório. Por vários meses os deputados debateram a nova medida, até que em 28 de setembro de 1871 o Senado aprovou a lei nº2040, que já havia sido aprovada pela Câmara também. Mesmo fruto de controvérsias, a Lei do Ventre Livre foi aprovada sob o Gabinete de Visconde do Rio Branco, membro do Partido Conservador. A lei também é conhecida como Lei Rio Branco, por causa do então Chefe de Gabinete.

O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados com 65 votos favoráveis e 45 contrários. A maior parte dos votos contrários estava entre os cafeicultores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
A Lei do Ventre Livre estabelecia que todo filho de escravo nascido a partir da promulgação da nova lei seria livre, gerando uma alteração no mundo do trabalho, todavia sem criar grandes mudanças na economia ou sociedade. Mas a prática da lei não era tão direta quanto parecia.

A lei oferecia aos ingênuos, filhos de escravos, duas opções: poderiam ficar com seus senhores até atingir a maioridade, que era de 21 anos à época, ou serem entregues ao governo para arriscar a sorte na vida. Quase todos os ingênuos ficavam com seus senhores, estes dispensavam apenas doentes, cegos e deficientes físicos. A criança vivia sob os cuidados do senhor, mas na verdade prestava serviços como de escravos. Como os senhores já não tinham mais a obrigação de sustentar os filhos de escravos, consideravam todo o tempo até a maioridade como geradores de encargos desnecessários. Quando o indivíduo atingia a maioridade estava totalmente atrelado às dívidas adquiridas com os senhores por terem investido em seus cuidados. Para pagar essas dívidas, os libertos tinham que prestar serviços gratuitos para quitar as contas, o que voltava a ser uma situação de escravidão.

A Lei do Ventre Livre permitia a liberdade para os filhos de escravos, mas vários artifícios na lei permitiam que os senhores não perdessem seus trabalhadores. Por outro lado, aumentou o índice de mortalidade infantil por conta do descaso com os recém-nascidos por parte dos senhores. De todo modo, a década de 1870 aumentou os debates abolicionistas e a ação do Estado rumo à abolição da escravatura.

Lei Aurea de 13 de Maio de 1888

Após uma longa batalha dos abolicionistas para acabar com a escravidão no Brasil no século XIX, no dia 13 de maio de 1888 finalmente é sancionada a Lei Áurea, que tinha por finalidade libertar todos os escravos que dependiam dos senhores de engenho e da elite cafeeira.


Até a promulgação definitiva da abolição da escravatura, muitas leis foram criadas no sentido de ‘libertar lentamente’ os trabalhadores forçados. Em setembro de 1871 foi criada a Lei do Ventre Livre, que proibia o trabalho de negros escravizados que não haviam atingido a maioridade; e a Lei dos Sexagenários, favorável aos escravos de mais de 60 anos.

Como regente do Brasil na época, a Princesa Isabel foi a responsável por assinar a Lei Áurea, depois de diversas tentativas empenhadas pelos integrantes da Campanha Abolicionista, que se desenvolvia desde 1870.

Também houve grande envolvimento com a liberdade dos escravos da própria Princesa Isabel. Ela votou a favor à Lei do Ventre Livre como senadora do Parlamento e financiou quilombos e refúgios de escravos com o fim de libertá-los.

O projeto da Lei Áurea foi apresentado pela primeira vez uma semana antes de ser aprovado pelo ministro Rodrigo Augusto da Silva. Passou pela Câmara e foi rapidamente avançado pelo Senado, para sanção da princesa regente. Foi uma medida estratégica, porque os deputados e alguns senadores queriam que o projeto de lei fosse aprovado de qualquer maneira enquanto o rei D. Pedro II viajava para o exterior.

A aprovação da lei acabou se tornando uma faca de dois gumes para a princesa. Se por um lado ela pretendia alavancar sua carreira política, acabou arruinando todas as possibilidades ao assinar a Lei Áurea. De fato, a sanção foi um enorme passo dado pelos liberais, que um ano mais tarde iriam derrubar o sistema monárquico em favor da Proclamação da República.

Por mais que a libertação dos escravos representasse a vitória de uma árdua batalha contra as elites, os negros não foram absolvidos em sua totalidade. Primeiramente, não houve um projeto efetivo de integração que permitisse que os antigos escravos se sustentassem de forma independente. Assim, muitos continuaram prestando serviços aos seus senhores para garantir moradia e alimentação.

De todos os países do continente americano, o Brasil foi o último a abolir a escravidão. Ainda hoje, mais de um século depois de aprovada a Lei Áurea, o regime escravocrata ainda resiste em lavouras e grandes pedaços de terra.

Lei de Terras de 1850



A questão agrária no Brasil, tão atual e discutida por diversos setores de nossa sociedade, remonta um longo processo histórico que assinala o problema da concentração de terras em nosso país. Durante o Segundo Reinado, destacamos um dos mais importantes marcos desse processo no momento em que o poder imperial estabelece a Lei de Terras de 1850. Sendo um fruto de seu tempo, essa lei assinalou o predomínio dos grandes proprietários de terra no cenário político do século XIX.

Essa lei surgiu em uma época de intensas transformações sociais e políticas do Império. Naquele mesmo ano, duas semanas antes da aprovação da Lei de Terras, o governo imperial criminalizou o tráfico negreiro no Brasil por meio da aprovação da Lei Euzébio de Queiroz. De fato, essas duas leis estavam intimamente ligadas, pois o fim da importação de escravos seria substituído por ações que incentivavam a utilização da mão de obra assalariada dos imigrantes europeus.

A chegada desse novo contingente populacional, representava uma ameaça ao interesse econômico de muitos proprietários de terra. De fato, vários dos imigrantes europeus esperavam chegar ao Brasil para obterem terras onde poderiam praticar um tipo de agricultura contrário ao sistema monocultor e agroexportador estabelecido pela nossa classe proprietária de terras. Além disso, a extinção do regime de sesmarias, abolido em 1822, representava um risco à grande propriedade mediante a falta de uma nova lei agrária.

Antes da aprovação dessa lei, já em 1843, foi oferecida à Câmara de Deputados um primeiro projeto de lei onde se defendia uma política agrária semelhante à que foi criada para o processo de colonização australiano. Esse primeiro projeto liberava a compra de terras devolutas por meio de pagamento à vista e com altos valores, a criação de um imposto sob a propriedade das terras e o estabelecimento do registro e demarcação de todas as propriedades em um prazo de seis meses.

A proposta, que já assegurava boa parte dos interesses dos grandes proprietários, foi aprovada e enviada para o Senado. No ano de 1848, os senadores decidiram estabelecer algumas alterações que retiravam a cobrança do imposto e substituía as penas de desapropriação – mediante situação irregular – pelo pagamento de multas. Após a aprovação dessas correções, o Senado aprovou definitivamente a lei no ano de 1850.

Por meio desta, a terra se transformava em uma mercadoria de alto custo, acessível a uma pequena parte da população brasileira. Com isso, pessoas com condição financeira inferior – como ex-escravos, imigrantes e trabalhadores livres – tinham grandes dificuldades em obter um lote de terras. Paralelamente, apesar de regulamentar a propriedade agrária, a lei de terras não foi cumprida em boa parte das propriedades, legitimando o desmando e a ampliação de terras dos grandes proprietários.

Apesar de ter sido criada em um momento completamente distinto das nossas instituições políticas e condições sócio-econômicas, a Lei de Terras de 1850 legalizou o penoso processo de concentração de terras que marcou a história brasileira. Ainda hoje, alguns movimentos populares tentam superar esse arcaico traço de nossa história ao defender uma reforma agrária capaz de facilitar o acesso às terras para aquelas famílias camponesas que almejam uma condição de vida mais digna.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Diversidade em sala de aula

Alardeada como a primeira “escola gay” do Brasil, a Escola Jovem LGBT quase passa despercebida no pacato bairro residencial em que está instalada, na cidade de Campinas (SP). A despeito do título adotado, não se trata de uma escola regular, dirigida para o ensino de Matemática, História ou Língua Portuguesa. Dentro da casa de seis cômodos, cerca de 30 jovens LGBT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) participam gratuitamente de aulas de música, teatro e de produção de revistas, todas voltadas para o universo gay. A ideia nasceu há dez anos, a partir de e-mails trocados pelo fundador, o jornalista Deco Ribeiro, com outros jovens que passavam pelas mesmas angústias que ele. Hoje com 39 anos, Deco conta que se descobriu homossexual no início da adolescência, aos 13. “Eu achava que era o único gay da minha escola, da minha rua, da minha cidade. Com a internet, descobri que muitos passavam pelo mesmo que eu”, lembra. Com o sucesso da lista de e-mails, que chegou a reunir 4 mil participantes, Deco criou um site para agregar as principais dúvidas e questionamentos dos jovens. Foi quando nasceu o E-Jovem, transformado em 2004 em uma ONG para combater a homofobia.

Em 2009, o projeto de Deco para uma escola de artes voltada para jovens LGBT venceu um edital do Ministério da Cultura, em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura. Único dos 350 candidatos a propor a criação de um centro cultural voltado para a diversidade sexual e de gênero, o projeto passou a ser um dos Pontos de Cultura do Estado e a receber uma verba de 60 mil reais por ano. Com o dinheiro, Deco transformou a casa em que vivia com o companheiro Chesller -Moreira (a drag queen Lohren Beauty) em escola. O espaço ainda parece improvisado. O pequeno pátio recebeu carteiras e espelhos nas paredes pintadas de rosa e branco, um banner e a clássica bandeira arco-íris do movimento são os únicos sinais de militância LGBT. Na outra sala, três computadores e um monitor formam a sala de informática. As oficinas oferecidas também funcionam como espaço de convivência. “Aqui todo mundo pode ser como realmente é”, afirma Deco. A verba do Ministério também paga o salário de três professores e fornece ajuda de custo para seis bolsistas. Como as aulas são gratuitas, a quantia de 100 reais serve principalmente para transporte. Além de jovens de Campinas, há alunos de cidades próximas, como Valinhos e Monte Mor.

Apesar do foco no mundo gay, héteros também são bem-vindos na escola. Atualmente, duas meninas heterossexuais participam das oficinas de revista. “Não é um curso fechado para gays. Acreditamos que, quanto mais você conhecer o diferente, mais rica será sua experiência”, explica Deco. Nem todos, porém, -compartilham do mesmo ponto de vista. Em novembro do ano passado, a escola foi atingida por pedras e garrafas. A suspeita é que o ataque tenha partido de moradores da região. A direção da escola colocou a boca no trombone: depois dos avisos na mídia local de que câmeras de segurança seriam colocadas na entrada, não houve mais ataques.
Todos os fins de semana, jovens gays, bissexuais e travestis entre 14 e 24 anos organizam-se nas três turmas de dez alunos da escola. O clima é de descontração. Muitos estão fora da escola tradicional. É o caso de Gabriel. Aos 15 anos, não aceito pela família biológica, o garoto relata diversas fugas de abrigos da prefeitura, onde era, muitas vezes, hostilizado pelos outros adolescentes. Encontrado à beira de situação de risco pelo fundador da escola, Gabriel vive com o casal no espaço da escola desde o ano passado. “Eu sou aluno integral”, brinca. A travesti Juana, de 21 anos, é exceção. Ela está no segundo ano do Ensino Médio de uma escola estadual da cidade e conta que conquistou o respeito de colegas e professores. “A vice-diretora até foi assistir minha apresentação de dança”, comemora. Juana também luta pela erradicação da homofobia nas escolas: “Todo travesti tem o direito de estudar”. A sensação de estar entre semelhantes faz toda a diferença para o jovem Willber, 18 anos. Um pouco mais tímido, o rapaz conta, com os joelhos balançando de nervosismo, que ficou sabendo da escola por meio dos amigos. “Aqui todo mundo entende como eu sou, eu me identifico com eles”, garante.

Além dos três cursos em vigor hoje (criação de revista, música e teatro), a escola já ofereceu aulas de dança, criação de fanzines e um curso livre de defesa pessoal. Ministrada por um especialista em artes marciais, o curso era focado em como evitar e como escapar de agressões. Até o fim do ano, Deco espera oferecer cursos de Sociologia da Homossexualidade, de Espanhol e de Drag Queen, que será desenvolvido por Lohren Beauty e vai ensinar desde a escolha do figurino e maquiagem até presença de palco.

Antigo participante da lista de e-mails que deu origem ao E-Jovem, Breno Queiroz, de 25 anos, recebe 300 reais por mês para ministrar uma oficina semanal de criação de revistas. Ano passado, o jornalista já havia participado como professor do curso de produção de fanzines, publicação alternativa que trabalha com linguagem de quadrinhos. “Muitos foram praticamente alfabetizados com o fanzine, outros não sabiam usar o computador”, lembra. As oficinas deram origem a cinco volumes do fanzine No Closet, cuja tiragem de 5 mil exemplares foi distribuída gratuitamente.

Para o diretor da escola, o movimento LGBT passa por um período de transição. O primeiro momento, marcado pela busca da visibilidade e aceitação, já passou. Agora é a hora do discurso, da sociedade saber o que os gays têm a dizer. Por outro lado, o aumento da visibilidade alimentaria rea-ções de setores mais conservadores. Apesar de ter sido o ano da aprovação da união estável entre pessoas do mesmo sexo, 2011 encaminha-se para o triste recorde de assassinatos de homossexuais no Brasil. •

domingo, 9 de outubro de 2011

O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


Carnificina no mar do Nordeste leva o país a declarar
guerra contra o Eixo - Um único submarino alemão
afunda cinco embarcações e vitima quase 600 pessoas -
Ataques realizaram-se em curtíssimo intervalo de tempo




Enquanto o sol de 15 de agosto de 1942 começava a mergulhar no oceano Atlântico, o navio Baependy, que deixara Salvador com destino a Recife, aproximava-se do farol do rio Real, perto de Maceió. Os 233 passageiros, a maioria deles militares do Exército, já haviam jantado. Ao lado dos 73 homens da tripulação, os viajantes celebravam naquele momento o aniversário do imediato Antônio Diogo de Queiroz. Rá. Tim. Bum! Repentinamente, um estampido abala a embarcação. O relógio apontava exatamente 19h12 quando um torpedo lançado por um submarino alemão U-507 atingiu o Baependy. Dois minutos depois, com outro torpedo no casco, o barco foi a pique. 215 passageiros e 55 tripulantes mortos.

Voraz, o U-507 não se contentaria com o notável estrago. Algumas horas depois, a embarcação tedesca se aproximaria do Araraquara, que também saíra de Salvador em direção ao Norte do país. Às 21h03, lançou dois torpedos que afundaram o mercante de 4.871 toneladas em cinco minutos. Das 142 pessoas a bordo, 131 perderam a vida. Sete horas depois do segundo ataque, o U-507, que ainda perambulava pela região, assaltou o Aníbal Benévolo. Às 4 horas da manhã do dia 16, dois torpedos - um na popa, outro na casa de máquinas - meteram no fundo o pequeno navio de 1.905 toneladas. Todos os 83 passageiros, a maioria deles recolhidos às suas cabines, morreram; de 71 tripulantes, só quatro sobreviveram.

Em menos de oito horas, o U-507, brinquedo assassino de Adolf Hitler, afundara três embarcações brasileiras e matara 541 homens. O país ainda se comovia com a tragédia causada pelos pérfidos ataques quando o submarino voltou à carga. No dia 17, próximo à cidade de Vitória, o Itagiba foi atingido às 10h45. O Arará, que se dirigia de Salvador para Santos, e parou a fim de socorrer o colega, acabou tornando-se a quinta vítima dos petardos tedescos. Os 36 mortos do Itagiba e os 20 do Arará fizeram a conta das baixas brasileiras rasparem nas seis centenas. Ficava difícil esconder o desejo de revanche....

Estado de beligerância - Antes de julho de 1942, 13 navios brasileiros já haviam sido afundados na batalha que as embarcações germânicas travavam contra suas correlatas brasileiras desde que o presidente Getúlio Vargas cortara relações diplomáticas com os protetorados de Hitler, Benito Mussolini e Hiroíto - decisão anunciada em 28 de janeiro de 1942. No total, os danos tinham causado a morte de cerca de cem tripulantes - apenas sete passageiros pereceram. Getúlio Vargas, considerando as ocorrências casualidades inerentes ao contexto internacional, preferira não tomar medidas mais drásticas.

Apesar de oficialmente neutro na refrega, o Brasil já se bandeara para o lado dos Aliados desde 1941, quando o chefe da República abriu espaço para bases aéreas e navais no Nordeste brasileiro. Em dezembro, Natal recebia uma parte do esquadrão naval VP-52; além disso, a 3º Força-Tarefa americana passou a ser lotada no Brasil, contando com uma esquadra equipada para atacar submarinos e navios mercantes rompedores de bloqueio do Eixo, que tentavam trocar mercadorias com o Japão.

A postura passiva, contudo, já não era suficiente para acalmar a traumatizada opinião pública e manter a soberania do país. Getúlio Vargas não teve escolha senão reconhecer o conflito entre o Brasil e as potências do Eixo. Em resposta aos apelos da sociedade, finalmente o Brasil anunciou, em 22 de agosto de 1942, o estado de beligerância - que, porém, duraria pouco. Em 31 de agosto de 1942, com a declaração do estado de guerra, o Brasil ingressava na mais internacional das batalhas da História.
 

O INICIO DO FIM?

Soviéticos impõem em Stalingrado primeiro e inconteste revés à 'Wehrmacht' - Pertinácia de Hitler sela a derrota alemã - Stalin prevê novos êxitos nas batalhas contra os nazistas - EUA e Grã-Bretanha também comemoram



Ruidosas metralhas e morteiros solapam a fachada da Univermag, loja de departamentos transformada em quartel-general das forças de ocupação alemãs em Stalingrado. Após um cerco de semanas, as falanges soviéticas acabam de chegar à Praça Vermelha. Um dos prisoneiros tedescos informa que o marechal-de-campo Friedrich Paulus, comandante do Sexto Exército, está no magazine, localizado no coração da cidade velha. Os russos já se preparam para a invasão do local quando avistam uma bandeira branca sendo desfraldada. De imediato, o tenente russo Fedor Yelchenko cruza a praça e entra no edifício, escoltado por dezenas de soldados. Encontra Paulus no porão, deitado em uma cama dobrável, impecavelmente trajado em seu uniforme militar. "Bem, então acabamos por aqui", diz Yelchenko. O alemão meneia a cabeça, assentindo; minutos mais tarde, assina sua rendição.

A folhinha marca 31 de janeiro de 1943. Anotem. É a data em que a Wehrmacht experimenta pela primeira vez o gosto da capitulação. É a jornada na qual o Exército Vermelho recupera o controle de Stalingrado. É o instante que representa um divisor de águas na pugna que se arrasta desde 1939. A lenda do invencível exército dos super-homens arianos de Adolf Hitler caiu por terra, justamente pelas mãos dos soviéticos, povo que o Reich inclui em sua lista de Untermenschen, "subumanos". Além de se recuperar das severas perdas materiais e de pessoal, os alemães terão de superar um terrível golpe psicológico. Em contrapartida, para Josef Stalin, o êxito em Stalingrado é a prova da irrefutável vitória da Guerra Patriótica da terra-mãe Rússia. Daqui para frente, ao que tudo indica, a luta será conduzida em seus termos.

O triunfo do Exército Vermelho encerra uma batalha de quase seis meses, seguramente a mais sangrenta e parelha desta guerra. Desde que, em 12 de setembro de 1942, as primeiras tropas tedescas entraram em Stalingrado, até o raiar de fevereiro, quando os últimos alemães baixaram as armas, a carnificina fez parte do cenário da cidade, tal e qual a usina Outubro Vermelho, a montadora de tratores Djerjinski e a fábrica de produtos químicos Lazur - que, como a vasta maioria das edificações, acabaram em ruínas. Os duelos eram travados rua a rua, a cada esquina. Conquistar Stalingrado, portentosa cadeia urbana e industrial às margens do rio Volga, importante ponto de entroncamento ferroviário, havia virado questão de honra para ambos os lados. Com isso, a lógica militar deu lugar a um fanatismo incontrolável - especialmente por parte de Hitler, que se recusava a admitir a hipótese de derrota. Obcecado, o Führer terminou por insistir em uma campanha que, já em fins de dezembro, estava condenada à destruição.

O resultado, é evidente, não poderia ser outro. Calcula-se que 120.000 germânicos foram mortos em Stalingrado, enquanto outros 91.000 foram feitos prisioneiros. Nessa contagem não estão incluídas baixas do Terceiro e Quarto Exércitos da Romênia e do Oitavo Exército da Itália, que correram em socorro da Alemanha e acabaram dizimados por completo. As perdas materiais nazistas são igualmente devastadoras: 75.000 veículos, 3.500 tanques, quase 2.000 aeronaves, 12.000 metralhadoras e morteiros. A imagem dos alemães rendidos, esqueléticos, sujos e ainda atarantados com o cerco de semanas à cidade está impressionando o mundo. "O que testemunhamos em Stalingrado é uma catástrofe de inédita magnitude", afirmou Hitler, que, pela primeira vez, deixou transparecer um tom soturno e perturbado em mensagem aos correliginários nazistas. Será o começo do fim? ...

Teimosia fatal - Analistas do teatro de operações já afirmavam desde o ano passado que a agonia alemã em Stalingrado poderia ter sido evitada mesmo antes da primeira contra-ofensiva soviética, em novembro. Era sabido que o Sexto Exército germânico, apesar de ter ocupado sete oitavos de Stalingrado, estava desprotegido e vulnerável em seus flancos. Ciente do iminente ataque vermelho, generais do Reich tentaram demover Hitler da idéia de prosseguir na conquista total da cidade, mas este insistiu na cruzada e convocou o Terceiro e o Quarto Exércitos da Romênia para proteger as alas direita e esquerda, com o auxílio de forças italianas e algumas unidades da Luftwaffe. Entretanto, quando a chamada operação Uranus foi lançada, em 19 de novembro, esses reforços laterais provaram-se de cristal, soçobrando em menos de três dias. Isolado em um bolsão, o Sexto Exército, com seus 220.000 homens, passou a depender de suprimentos conduzidos por via aérea.

Não havia, porém, pistas de pouso adequadas no perímetro das tropas germânicas acuadas. Para piorar, o frio, acompanhado de uma névoa cerrada que tornava os vôos arriscados - quando não impraticáveis -, torturava os mecânicos em terra, congelados em suas vestes inadequadas. Na virada de dezembro, o comandante Paulus pediu a Hitler permissão para bater em retirada, enxergando uma saída a Oeste: "Exército a caminho do desastre. É essencial retirarmos todas as divisões de Stalingrado". Mas o Führer ordenou a manutenção das tropas alemãs no local.

A insistência insana do chefe apressou a confirmação das previsões de Paulus. Em 8 de janeiro, o general Konstantin Rokossovsky, comandante do front Stalingrado soviético, ofereceu um termo de rendição aos alemães. A proposta era mais do que atraente para os famélicos e congelados farrapos fardados confinados nas ruínas da cidade: os camaradas prometiam que todos os homens que se entregassem seriam alimentados e receberiam assistência médica. Além disso, poderiam manter seus uniformes, medalhas, condecorações e todos os objetos pessoais e de valor. Aos oficiais graduados era reservado inclusive o direito de permanecer com suas espadas e baionetas. Entretanto, nas entrelinhas, Rokossovsky já alertava: caso a oferta fosse recusada, o Exército Vermelho partiria para o massacre das forças nazistas cercadas em Stalingrado.

Os soldados tedescos tomaram conhecimento da proposta por folhetos espalhados por aviões do Exército Vermelho, e viram no acordo a última esperança de que sua provação chegasse ao fim. Hitler, porém, mais uma vez determinou a Paulus que repelisse qualquer tipo de rendição. A recusa desestruturou ainda mais os combatentes germânicos; um deles resumiu o desespero da situação em carta enviada à família. "Estamos sozinhos, sem ajuda externa. Hitler nos abandonou aos lobos. Quando Stalingrado cair, vocês ficarão sabendo. E terão a certeza que não retornarei para casa". ...

'Reverência e estupor' - Responsáveis pela impecável estratégia de ataque ao Sexto Exército, o recém-nomeado marechal Georgi Zhukov e o general Aleksandr Vasilevsky deixaram o confronto final com os alemães a cargo das tropas de Rokossovsky. A operação Pequeno Saturno, iniciada em dezembro, deu origem a uma operação-filhote, batizada de Anel. Em 10 de janeiro, quando o plano começou a ser executado, o bolsão das forças alemãs se estendia por 60 quilômetros no sentido Leste-Oeste e 45 quilômetros no sentido Norte-Sul. Atacando no sentido Oeste-Leste, o Exército Vermelho reconquistou metade do terreno em menos de uma semana; no final do mês, a resistência nazista resumia-se a dois minúsculos bolsões separados no centro de Stalingrado.

Por volta do dia 25, Friederich Paulus havia novamente sugerido a rendição a Hitler - sugestão mais uma vez rejeitada. Em 30 de janeiro, o Führer promoveu o oficial a marechal-de-campo. A mensagem endereçada ao comandante era clara. Jamais um marechal-de-campo alemão havia se rendido ao inimigo: Hitler esperava que o líder do Sexto Exército cometesse suicídio. Mas o oficial não tinha sequer forças para isso, e se entregou no dia seguinte, fazendo o líder nazista explodir em fúria. "Há que matar-se com a última bala. Desprezo um soldado que se rende. Vinte mil pessoas se suicidam por ano na Alemanha, e é absurdo que um general não possa fazer o mesmo que uma mulher ultrajada. Não farei mais marechais-de-campo. O heroísmo de dezenas de milhares de soldados é manchado pela covardia de um só". Os combatentes do segundo bolsão, seguindo a ordem de Berlim, ainda lutaram por mais algumas horas, mas também entregaram-se à capitulação. Em 2 de fevereiro, toda a resistência havia cessado.

Stalin, porém, já comemorava desde 25 de janeiro: em sua ordem do dia, dirigiu aos militares vermelhos seus mais graduados elogios, continuando a incitá-los para a luta. "Nossas tropas conquistaram uma grande vitória, e seguimos com a ofensiva. Vamos em frente, rumo à aniquilação dos invasores germânicos e sua expulsão de nosso país!" Com o moral elevado, o Exército Vermelho ganha agora novo impulso para enfrentar os homens de Hitler no vasto front soviético, especialmente em Leningrado e no Cáucaso, pontos-chave desta contenda. Os alemães que se preparem: em Stalingrado, os russos deram uma inequívoca demonstração de sua força militar. Já não devem mais nada aos nazistas em número e qualidade de seus tanques e armas. Até mesmo a tão decantada Luftwaffe - que, a bem da verdade, já não tem colhido bons resultados há tempos - foi neutralizada pelos soviéticos, com a estréia do La-5, caça confeccionado em madeira que teve papel decisivo na conquista da superioridade aérea na batalha em questão.

Enquanto os camaradas celebram a vitória - comemorada também com alívio pela Grã-Bretanha e os Estados Unidos - e a nação alemã abate-se com o malogro do Sexto Exército no Volga, uma única voz dissonante se alevanta. É a de Hermann Göring, o comandante da Luftwaffe (leia entrevista nesta edição). "Daqui a mil anos, os alemães falarão desta batalha com reverência e estupor, e lembrarão que, apesar de tudo, a vitória da Alemanha foi ali decidida". Como profeta, Göring parece ser um excelente piloto....
 O cerco de Stalingrado e a destruição da cidade




No País do Papa


Com poderes ilimitados e polpuda indenização em caixa,
Pio XI molda a estrutura do recém-criado estado do Vaticano. E já
 incomoda seu vizinho, o ditador fascista Benito Mussulini.
  
Em setembro de 1870, quando as tropas de Vittorio Emanuelle II, proclamado rei da recém-unificada Itália, subjugaram e anexaram a cidade de Roma, o papa Pio IX enclausurou-se nos muros do Vaticano. A essa altura, o Risorgimento italiano já havia tomado a maioria dos estados papais, e o pontífice, para não se submeter à nova ordem política na Velha Bota, rompeu relações com a monarquia e declarou-se um prisioneiro do poder laico. O mal-estar entre o estado e a Igreja finalmente chegou ao fim em fevereiro deste ano, quando o papa Pio XI e o ditador fascista Benito Mussolini, o "Duce", assinaram o Tratado e o Concordato de Latrão, que determinaram a criação do estado soberano do Vaticano, reconheceram o catolicismo como religião oficial da Itália e ainda garantiram à Santa Sé uma polpuda compensação financeira pelas anexações dos rincões papais. Livre depois de quase seis décadas, é o Santo Padre que agora se esbalda com seus poderes de chefe-de-estado, literalmente mandando prender e mandando soltar dentro do Vaticano.

Com a garantia da indenização da administração italiana, de 750 milhões de liras, à vista, e de um bilhão de liras em títulos do governo, o chefe da Santa Sé começa a estruturar uma respeitável aparelhagem estatal – boa parte dela, a seu serviço imediato. Já existe um diário oficial, o L’Osservatore Romano, e Pio XI, de acordo com seus assessores próximos, planeja estruturar no futuro próximo uma rádio oficial para alardear o cristianismo e, claro, a palavra papal. O maior candidato para tocar a empreitada é Guglielmo Marconi. Está em circulação a moeda corrente do Vaticano, a lira vaticana, com a efígie do sumo pontífice, também aceita na Itália e que tem valor parelho ao da lira italiana. O serviço postal do Vaticano foi inaugurado em fevereiro. Já o Corpo da Gendarmaria Pontifícia e o Corpo da Guarda do Papa, com suas coloridas fardas desenhadas por Michelangelo, ganham ainda mais liberdade dentro do Vaticano para assegurar a proteção do agora chefe de estado Pio XI.

Para completar, em junho último, foi promulgada a Lei Fundamental do Estado do Vaticano, que dá ao sucessor de São Pedro a plenitude dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário no enclave de 0,44 quilômetro quadrado ao norte de Roma e em mais doze edifícios espalhados pela cidade, incluindo o Palácio de Castelgandolfo. Os bens da Santa Sé, sua administração, a biblioteca, o arquivo, a livraria e a tipografia do Vaticano também estão diretamente subordinados à vontade do pontífice. Tal lei criou a figura do governador, que pode criar regras para a ordem pública na cidade-estado, com a anuência do Conselho. Porém, a escolha do governador é exclusiva do papa, e pode por ele ser revogada a qualquer momento, sumariamente. Qualquer semelhança com os plenos poderes de Mussolini não é mera coincidência – ao menos para os cartunistas locais, que não se cansam de produzir caricaturas retratando Pio XI envergando a camisa negra do fascismo e o Duce com a tiara papal em sua careca.
Os dois manda-chuvas, aliás, trocaram algumas farpas há alguns meses – Mussolini dizendo à Câmara dos Deputados que "a Igreja é soberana apenas no reino da Itália, e não no estado italiano", com a resposta de Pio XI lamentando as declarações hereges do fascista. As arestas ainda não foram completamente aparadas. Para acabar de vez com a animosidade, no fim do ano, de acordo com informações extra-oficiais, o Santo Padre deve receber pela primeira vez no Vaticano o rei Vittorio Emanuele III, em um encontro simbólico para selar a paz entre a monarquia e a Igreja. Mas também aí se descortina um problema diplomático. Pelas rígidas regras cerimoniais do Vaticano, todo soberano católico deve ajoelhar-se ao pé do papa e beijar seu dedão. Benito Mussolini, porém, é radicalmente contra o ósculo, preferindo o tradicional aperto de mão entre dois chefes de estado. Fontes ligadas ao príncipe Umberto garantem que este prefere o cumprimento da formalidade. Este beijo ainda dará muito o que falar.

A crise de 29


Turbulência americana acentua a crise do café no Brasil
e causa temor de quebras em cadeia na economia nacional. País está atolado
 com produção e estoques muito maiores do que a demanda.

A periclitante situação da economia cafeeira já era assunto obrigatório em quase todas as esquinas paulistanas. Com a diminuição das exportações e a queda no preço do grão, chegam à ordem de centenas as empresas levadas a registrar falências e concordatas neste ano – apenas em setembro, foram 72, de acordo com o Correio da Manhã. Mas o amaldiçoado mês de outubro nos Estados Unidos tornou mais dramática a conjuntura do café no Brasil. Em primeiro lugar, ainda na quinzena inicial do mês, o preço do grão caiu 200 pontos em dois dias na Bolsa de Café e Açúcar de Nova York – de 19,25 dólares passou a 16,65. A queda vertiginosa no comércio futuro do café nacional foi explicada pelo vice-presidente da instituição, Benjamin B. Peabody, por "rumores inquietantes a respeito da situação do Brasil". Para completar o cenário funesto, o crash na Bolsa de Valores de Nova York, que colocou a economia americana à beira de um colapso, deve inviabilizar o empréstimo de 50 milhões de dólares que a Casa Branca planejava ceder ao governo brasileiro para ajudar os fazendeiros via Instituto do Café.

Os bons tempos de ouro negro estão mais distantes do que nunca. O Brasil não tem mais para onde escoar sua pantafaçuda produção, que deve chegar neste ano a mais de 21 milhões de sacas, superando e muito as previsões iniciais, que falavam em 13 milhões. São Paulo, orgulhoso de ser o "estado com um bilhão de pés de café", é responsável por quase dois terços da produção mundial da rubiácea. Tudo isso seria excelente se a demanda mundial crescesse em igual proporção. Mas as exportações seguem caindo – 15 milhões de sacas em 1927, 13,8 milhões em 1928. Pior: o café exportado hoje pelo Brasil é da safra de dois anos atrás, o que significa que ao menos 20 milhões de sacas estão estocadas. A diminuição massiva da venda do café tem tudo para desencadear um rombo na economia brasileira, baseada três quartos na exportação do grão. Quando a notícia da queda em Nova York chegou ao Rio de Janeiro, os operadores da bolsa local, também em acentuada baixa, não enviaram os resultados do fechamento diário para os Estados Unidos, como de costume, temendo que os números no vermelho ampliassem ainda mais o derrocada do café no hemisfério norte.

Especialmente depois da debacle de Wall Street, o governo do presidente Washington Luiz encontra-se em uma sinuca de bico. O consumo mundial de café é estimado hoje em 22 milhões de sacas. O Brasil está atolado com uma produção e um estoque muito maiores do que a demanda – isso sem falar na quase certa recessão de um de nossos principais compradores, os Estados Unidos, e na concorrência de países que, atraídos pelos lucros obtidos aqui com a rubiácea, investiram na cafeicultura e começam a colocar no mercado grãos de qualidade a preços módicos. Manter o café nos armazéns para valorizá-lo, como foi marca registrada da política cafeeira paulista durante a década, já não surte efeito. O governo não tem mais dinheiro para comprar a produção e manter os preços em patamares razoáveis. Em compensação, simplesmente abrir a porta dos armazéns e despejar a produção no mercado faria depreciar ainda mais os valores já rasos do grão, e causaria certamente uma quebradeira em cadeia na economia paulista e nacional. Impulsionar a indústria e diversificar a produção são as saídas óbvias, mas ambas são soluções a, no mínimo, médio prazo, e não aliviam a pressão sobre a economia. A bolha especulativa do mercado financeiro já estourou, causando a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Será o precioso ouro negro o próximo alvo?

Desde a chegada dos pioneiros africanos, em 1619, os negros da América enfrentam uma contenda laboriosa em busca de direitos iguais, passando pela escravidão e pela segregação


 
Em 1619, os pioneiros africanos desembarcaram na Virgínia como servos por contrato - status semelhante ao dos trabalhadores ingleses, que também empenharam anos de trabalho para cobrir os custos da passagem à América. Pouco tempo depois, entretanto, a escravidão, ainda que não regulamentada, já se verificava em muitos estados do país. A cultura do tabaco no Sul dos EUA se alimentou do tráfico negreiro para compor sua mão-de-obra por décadas a fio; como resultado, o censo americano de 1860 registrava uma população de 4 milhões de escravos nos quinze estados em que a escravidão era legal. Nesses estados, a população total era de 12 milhões de pessoas. Cerca de 500.000 negros viviam livres no país naquele tempo.

As vozes abolicionistas, que timidamente apareceram nos EUA no século XVIII, ganharam força com a eleição à presidência de Abraham Lincoln, opositor declarado da escravidão, em 1860. Convencidos de que seu modo de vida estava ameaçado, os estados do Sul se separaram da União e detonaram a Guerra Civil Americana. Em 1863, durante o conflito, Lincoln assinou a Proclamação da Emancipação, libertando os escravos dos estados confederados e proibindo a escravidão em todo o país. Mas era apenas o começo

 Segregação institucionalizada - No fim do século XIX, os estados do Sul, afetados economicamente com o fim da escravidão, promulgaram as chamadas leis Jim Crow, uma série de determinações para legitimar a discriminação racial e dificultar o acesso dos negros ao voto. Legislações semelhantes apareceram por todo o país, e a segregação passou a ser uma realidade nos Estados Unidos. Prédios e transporte públicos, escolas, restaurantes, cinemas e até cadeias tinham áreas separadas para brancos e negros - a dos negros, via de regra, em estados deploráveis. Casamentos entre brancos e negros ou seu descendentes eram proibidos em diversos estados, para evitar a miscigenação. Na Carolina do Norte, nem mesmo os livros da biblioteca poderiam ser consultados por negros e brancos - se o primeiro a retirá-lo fosse um branco, apenas os brancos teriam acesso ao volume

Entre os anos de 1916 e 1930, uma onda de migração negra do sul para o norte, meio-oeste e oeste do país - regiões onde a tolerância e as oportunidades eram maiores - deu início ao movimento pela igualdade de direitos. Entretanto, apesar de alguns pioneiros terem ultrapassado a barreira racial (como o atleta Jackie Robinson, craque do beisebol, que em 1947 tornou-se o primeiro jogador negro nas ligas maiores da modalidade preferida dos americanos, colocando um ponto final na segregação que durou 60 anos), apenas a partir da década passada é que os resultados coletivos começaram a aparecer. O boicote de Montgomery e a marcha em Washington, ambos marcados pela não-violência e pela tentativa de integração racial pregada por Martin Luther King, tiveram grande repercussão - e, mais importante ainda, resultados práticos. Contudo, alguns líderes e grupos, notadamente Malcolm X (1925-1965) e o recém-formado Black Power, advogam pela ruptura total entre a América negra e a branca, utilizando-se da violência se for preciso. A grande incógnita é o caminho que será tomado pelos herdeiros de King - se a rota da não-violência trilhada pelo reverendo ou uma estrada muito mais sinuosa, manchada de sangue..
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DISCURSO DE MARTIN LUTHER KING, JR.

Discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington.

O discurso de Martin Luther King, pronunciado na escadaria do Monumento a Lincoln, em Washington, foi ouvido por mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, reunidas na capital dos Estados Unidos da América, após a «Marcha para Washington por Emprego e Liberdade». A manifestação foi pensada como uma maneira de divulgar de uma forma dramática as condições de vida desesperadas dos negros no Sul dos Estados Unidos, e exigir ao poder federal um maior comprometimento na segurança física dos negros e dos defensores dos direitos civis, sobretudo no Sul.

Devido a pressões políticas exercidas pela Presidência dos Estados Unidos - ocupada por John Kennedy -, as exigências a apresentar no comício tornaram-se mais moderadas, mas mesmo assim foram feitos pedidos claros: o fim da segregação no ensino público, passagem de legislação clara no que respeita aos direitos civis, assim como de legislação proibindo a discriminação racial no emprego; para além do fim da brutalidade policial contra militantes dos direitos civis e a criação de um salário mínimo para todos os trabalhadores, que beneficiaria sobretudo os negros.

Realizado num clima muito tenso, a manifestação foi um estrondoso sucesso, e o discurso conhecido sobretudo pela frase permanentemente repetida no meio do discurso «I have a Dream» (Eu tenho um sonho), mas também pela frase que é repetida no fim - «That Liberty Ring» (Que a Liberdade ressoe), que retoma o poema patriótico «América», tornou-se, com o discurso de Lincoln em Gettysburg, um dos mais importantes da oratória americana.

Em 1964 a Lei dos Direitos Civis foi votada e promulgada por Lyndon B. Johnson e em 1965 a Lei sobre o Direito de Votar foi aprovada.

Martin Luther King, Jr. foi escolhido como Prémio Nobel da Paz no ano seguinte, em 1964.





«que a liberdade ressoe!»



Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre.

Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra.

Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.

Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade. É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente". Porém nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidades deste país.

Por isso viemos aqui cobrar este cheque - um cheque que nos dará quando o recebermos as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América da clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxuria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo. Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.

Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre. Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania.

Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça. Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.

Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto realizado de uma forma criativa degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.

Esta maravilhosa nova militancia que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade.

Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?" Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial. Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.

Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.

Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para as bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos embrenhemos no vale do desespero.

Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".

Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caractér.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de ... e recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul. Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias de nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.

Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".

E se a América quiser ser uma grande nação isto tem que se tornar realidade. Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire. Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvania!

Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!

Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!

Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!

Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.

Que de cada localidade, a liberdade ressoe.

Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra: "Liberdade finalmente! Liberdade finalmente! Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"