domingo, 28 de agosto de 2011

A “queda” de Kadafi e a disputa pelos recursos da África.


Parte da esquerda descobriu que morre de amores por Kadafi. Outra parte — ou será a mesma? — descobriu que ama o Assad, da Síria. Dois ditadores repugnantes. Não menos repugnantes, no entanto, que alguns democratas do Ocidente. George W. Bush, por exemplo, que matou milhares de pessoas sob o falso argumento de que pretendia conter a proliferação de armas de destruição em massa no Iraque.

Não menos repugnantes, Kadafi e Assad, que alguns ditadores que o Ocidente ama apoiar. Não é preciso ir longe para descobrir a hipocrisia: ditaduras do Golfo Pérsico “promovem” a democracia na Líbia, ao mesmo tempo em que massacram, silenciam ou desconhecem a oposição em casa (a escolha é sua). O mesmo vale para a Arábia Saudita, que invadiu um vizinho para “promover” a estabilidade que interessa a Washington, Paris e Londres.

Assim é a realpolitik, para além das belíssimas declarações de intenções publicadas nos jornais.

Não podemos deixar de notar, no entanto, especialmente no caso da Líbia, que foram abertos alguns precedentes preocupantes:

1. A autorização dada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas foi utilizada para promover a troca de regime.

2. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) deu mais um passo para se tornar uma espécie de polícia da globalização.

A cobertura que a mídia brasileira faz da África é tão bisonhamente fraca que nossos jornalistas e comentaristas acabam simplesmente reproduzindo a opinião alheia, de matriz estadunidense ou europeia, como se fosse verdade absoluta, justamente no momento em que o Brasil busca e precisa de uma política externa soberana e independente, que expresse seu novo papel na economia mundial.

Isso está na raiz, inclusive, da incompreensão que a política do Itamaraty desperta em alguns setores da sociedade brasileira. São setores que não conseguem dissociar os interesses do Brasil daqueles de nossas metrópoles. É a turma da genuflexão automática.

Kadafi era um ator importante nos negócios africanos. A Líbia era um dos grandes investidores no continente, derivando daí o apoio obtido por Kadafi dentro da União Africana. No contexto regional, as posições do ditador líbio eram, vamos dizer, “nacionalistas”. O projeto de Kadafi, montado em seus bilhões de dólares do petróleo, era ancorar a Líbia firmemente nas instituições africanas, apesar das óbvias diferenças históricas, étnicas e culturais entre o norte árabe do continente e a África subsaariana.

Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos, diz o ditado. Pobre Líbia, tão longe de Deus, tão perto do Mediterrâneo.

Qualquer regime que suceder Kadafi não tem chance de durar alguns meses se for carimbado como abertamente entreguista dos recursos naturais do país, ou seja, do petróleo. A dinâmica política interna não permitirá isso, a não ser que tropas da OTAN sejam despachadas para “pacificar” os líbios.

Não duvido que, nos próximos dias, uma “força de estabilização” seja convocada para atuar na Líbia, composta por soldados árabes e/ou africanos. A Líbia é muito importante para ser entregue aos líbios, diriam nos bastidores os europeus.

A disputa pelos recursos naturais do país se dá em um contexto mais amplo, o da valorização dos recursos naturais do continente.

A diplomacia chinesa é a mais atuante na África. Beijing não faz qualquer exigência a seus aliados locais, nem em termos econômicos, nem políticos, muito menos diplomáticos.

A China pode arguir que, diferentemente dos países ocidentais, nunca invadiu a África, nem promoveu a escravidão, nem provocou matanças ou graves violações dos direitos dos africanos comparáveis às cometidas por ingleses, franceses, alemães, belgas, portugueses, etc.

Além disso, os chineses lembram o apoio que deram à luta anticolonial.

A China troca os recursos minerais que obtém na África por importantes obras locais.

A China ofereceu às elites locais uma alternativa às fórmulas do FMI e do Banco Mundial que, nos anos 90, resultaram apenas no enfraquecimento de estados que já eram mínimos.

Não é por acaso, portanto, que outro engajamento recente do Ocidente tenha se dado justamente na partilha do Sudão, um dos grandes aliados da China no continente e também produtor de petróleo.

Vocês não acham curioso que ninguém se importe com as areias do Mali ou com a democracia na República Centro-Africana?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Chávez diz que só reconhecerá Kadhafi como presidente líbio

23/08/2011 16h44 - Atualizado em 23/08/2011 16h49
Chávez diz que só reconhecerá Kadhafi como presidente líbio
'Nós reconhecemos um só governo, aquele dirigido por Kadhafi', disse.
Mídia venezuelana especula possibilidade de que líbio busque asilo no país.
Da Reuters
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O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse na terça-feira (23) que só reconhecerá um governo líbio encabeçado por seu amigo e aliado Muammar Kadhafi, enquanto acontecem combates entre rebeldes e forças leais ao polêmico líder no país africano.
Até o momento o paradeiro de Kadhafi é desconhecido, após grupos rebeldes tomarem seu complexo em Trípoli.

"Nós reconhecemos um só governo, aquele dirigido por Muammar Kadhafi", disse Chávez durante um conselho de ministros.
Na Venezuela, a mídia especula a possibilidade de que Kadhafi pudesse buscar asilo no país sul-americano, embora mais cedo uma autoridade russa tenha dito que falou com o governante líbio, que lhe assegurou que ficará até o fim na Líbia.
Chávez, que sofre de câncer, reiterou seu apoio à Líbia e voltou a acusar os Estados Unidos e seus aliados de desencadearem a guerra para apoderar-se das riquezas petrolíferas da nação no norte da África.
"Estamos diante da loucura imperial (...) É uma nova estratégia, agora o imperialismo coloca o povo para lutar", afirmou o líder venezuelano, de 57 anos.
Chávez e Kadhafi têm uma relação de longa data, que inclui convênios comerciais e diversas visitas entre ambos os presidentes.

Rebeldes líbios devem transferir QG de Benghazi para Trípoli em dois dias

O Conselho Nacional de Transição, órgão político da rebelião da Líbia, vai transferir seu quartel-general de Benghazi,no leste do país, para a capital, Trípoli, dentro de dois dias, disse nesta terça-feira (23) Ahmed Bani, porta-voz militar dos rebeldes, à TV Al Jazeera.
O anúncio da mudança de base ocorre horas depois de combatentes rebeldes terem invadido e saqueado a fortaleza do ditador Muammar Kadhafi na capital, praticamente tomada pelos oposicionistas desde o fim de semana.

O paradeiro de Kadhafi e de seus filhos continuava incerto.
Militares norte-americanos acreditam que ele, que ainda se recusa a entregar o poder, ainda esteja em Trípoli.
Com apoio dos EUA, de países europeus e da ONU, rebeldes preparam-se para assumir interinamente o poder no país do norte da África, que enfrentou uma sangrenta guerra civil de mais de seis meses e foi alvo de intervenção militar da Otan.
O Tribunal Penal Internacional da ONU, com sede em Haia, emitiu no dia 27 de junho ordens de prisão contra Kadhafi, seu filho Seif al Islam e o chefe do serviço secreto, Abdullah al-Senusi, por supostos crimes contra a humanidade cometidos durante a repressão aos protestos.
Transição imediata
"A transição começa imediatamente" para a construção de uma "Nova Líbia", anunciou nesta terça-feira à noite em Doha o número dois da rebelião, Mahmud Jibril.