quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A crise da America Latina

As bactérias e os vírus foram os aliados mais eficazes. Os europeus traziam consigo, como pragas bíblicas, a varíola e o tétano, varias doenças pulmonares, intestinais e venéreas, o tracoma, o tifo, a lepra, a febre amarela, as caries que apodreciam as bocas.

As colônias americanas foram descobertas, conquistadas e colonizadas dentro do processo da expansão do capital comercial.

A rapinagem dos tesouros acumulados sucedeu a exploração sistemática, nos socavãos e jazidas, do trabalho forçado dos indígenas e escravos negros, arrancados da áfrica pelos traficantes.

A Bolívia, hoje um dos países mais pobre do mundo, poderia vangloriar-se – se isso não fosse pateticamente inútil – de ter alimentado a riqueza dos países mais ricos.

Não faltavam justificativas ideológicas. A sangria do Novo Mundo convertia-se num ato de caridade ou uma razão de fé. Junto com a culpa nasceu um sistema de álibis para as conseqüências culpáveis.

Desterrados em sua própria terra, condenados ao êxodo eterno, os indígenas da América Latina foram empurrados para as zonas mais pobres, as montanhas áridas ou o fundo dos desertos, à medida que se estendiam a fronteira da civilização dominante.

As matanças dos indígenas começaram com Colombo e nunca cessaram.

Não se salvam atualmente, nem mesmo os índios que vivem isolados no fundo das selvas. No começo deste século, sobreviviam ainda 230 tribos no Brasil; desde então desapareceram 90, aniquiladas por obra e graças das armas de fogo e micróbios. Violência e doenças, pontas de lança da civilização: o contato com o homem branco continua sendo, para os indígenas, o contato com a morte.

Em ritimo de conquista, homens e empresas dos Estados Unidos lançaram-se sobre a Amazônia como se fosse um novo Far West.

A febre do ouro, que continua impondo a morte e a escravidão aos indígenas da Amazônia, não é nova no Brasil; muito menos seus estragos.

Ao longo do século XVIII, a produção brasileira do cobiçado minério superou o volume total do ouro que a Espanha tinha extraído de suas colônias durante os dois séculos

Portugal não se limitou a matar o embrião de sua própria indústria, mas também, de passagem, aniquilou os germes de qualquer tipo de desenvolvimento manufatureiro no Brasil.

...Minas Gerais tinha um coração de ouro num peito de ferro, porem a exploração de seu fabuloso quadrilátero ferrífero corre por conta, atualmente, da Hanna Mining Co. e a Bethlehem Steel, associadas no projeto: as jazidas foram entregues em 1964, ao fim de uma sinistra história. O ferro em mãos estrangeiras, não deixará mais do que o ouro deixou.

A busca do ouro e da prata foi, sem duvida, o motor da conquista. Porem, em sua segunda viagem, Cristóvão Colombo trouxe as primeiras raízes de cana-de-açúcar, das ilhas Canárias, e as plantou nas terras que hoje ocupa a Republica Dominicana.

Durante pouco menos de três séculos a partir do descobrimento da América, não houve para o comercio da Europa, produto agrícola mais importante que o açúcar cultivado nestas terras.
Os incêndios que abriam terras aos canaviais devastaram a floresta e com ela a fauna... A produção extensiva esgotou rapidamente os solos.

Ate a chegada de Castro ao poder, os Estados Unidos tinham em cuba uma influência de tal maneira irresistível que o embaixador norte-americano era a segunda personalidade do país, e às vezes mais importante do que o presidente cubano.

O testemunho ilustra cabalmente as dificuldades que a revolução encontrou desde que se lançou à aventura de converter a colônia em pátria.

Em 1888, aboliu-se a escravidão no Brasil, porém não se aboliu o latifúndio...

O boom da borracha e o auge do café implicaram grandes levas de trabalhadores nordestinos. Mas também o governo faz uso deste caudal de mão-de-obra barata, formidável exercito de reserva para as grandes obras públicas.

Na concepção geopolítica do imperialismo, a América Central não é mais do que um apêndice natural dos Estados Unidos.as empresas apoderam-se de terras, alfândegas, tesouros e governos; os marines desembarcavam por todas as partes para “proteger a vida e os interesses dos cidadãos americanos”, álibi exato que utilizaram, em 1965, para apagar com água benta as marcas do crime da Republica Dominicana.

Ao ataque de lança ou golpes de facão, foram os expropriados os que realmente combateram, quando despontava o século XIX, contra o poder espanhol nos campos da América Latina.
A idéia de “nação” que o patriciado latino-americano engendrou parecia-se demasiado à imagem de um ponto ativo, habitado pela clientela mercantil e financeira do império britânico, com latifúndios e socavãos à retaguarda.

Exatamente um século depois do regulamento de terras de Artigas, Emiliano Zapata pôs em pratica, em sua comarca revolucionaria do sul do México, uma profunda reforma agrária.

Em 1845, os Estados Unidos tinham anexado os territórios mexicanos de Texas e Califórnia, onde restabeleceram a escravidão em nome da civilização.
Em 1919, um estratagema e uma traição terminaram com a vida de Emiliano Zapata. Morreu com a mesma idade de Che Guevara.

No Brasil, as esplendidas jazidas de ferro de ferro do vale do Paraopeba derrubaram dois presidentes – Jânio Quadros e João Goulart – antes que o marechal Castelo Branco, que tomou o poder em 1964, os cedesse a Hanna Mining Co. Outro amigo anterior do embaixador dos Estados Unidos, o presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-51), tinha concedido a Bethlehem Steel, alguns anos antes, as quarenta milhões de toneladas de manganês do estado do Amapá, uma das maiores jazidas do mundo, ..
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A imperiosa necessidade de materiais estratégicos, imprescindíveis para salvaguardar o poder militar e atômico dos Estados Unidos, está claramente vinculada à maciça compra de terras, por meios geralmente fraudulentos, na Amazônia brasileira.

Para os Estados Unidos sai mais barato o ferro que recebem do Brasil ou da Venezuela do que o ferro que extraem de seu próprio subsolo.

O petróleo é, com o gás natural, o principal combustível dos países que põem em marcha o mundo contemporâneo, uma matéria-prima de crescente importância para a indústria química e o material estratégicos primordial para as atividades militares.

A febre da independência fervia em terras hispano-americanas. A partir de 1810, Londres aplicou uma política ziguezagueante e dúplice, cujas flutuações obedeceram à necessidade de favorecer o comercio inglês, impedir que a América Latina pudesse cair em mãos norte-americanas ou francesas e prevenir uma possível infecção de jacobismo dos novos países que nasciam para a liberdade.

A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai aniquilou a única experiência, com êxito, de desenvolvimento independente.

A invasão foi financiada, do começo ao fim, pelo Banco de Londres, a casa Baring Brothers e o banco Rothschild, em empréstimos com juros leoninos que hipotecaram o destino dos países vencedores.

Os capitalistas norte-americanos se concentram, na América Latina, mais agudamente que nos próprios Estados Unidos; um punhado de empresas controla a imensa maioria das inversões.

Os Estados Unidos, que empregam um vasto sistema protecionista – taxas, cotas, subsídios internos – já mais mereceram a menor observação do FMI. Em compensação, com a América Latina, foi inflexível: é para isso que existe.

Levando muitos dólares do que trazem, as empresas contribuem para aguçar a crônica fome de divisas da região; os países “beneficiados” se descapitalizam ao invés de se capitalizarem.

O capitalismo de nossos dias exibe, em seu centro universal de poder, uma identidade evidente dos monopólios privados e do aparato estatal.