sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lula fala sobre Transposição e Transnordestina

Deve começar em instantes o ato político em Garanhuns, com a presença do presidente Lula, da candidata do PT Dilma Rousseff e dos integrantes da Frente Popular de Pernambuco. O presidente deixou Caetés, pouco antes das 19h30, depois de conceder uma entrevista coletiva. Na entrevista Lula disse que os ataques da oposição, a briga entre a Venezuela e a Colômbia não afetarão a eleição brasileira.

"O que vai influenciar a eleição no Brasil é a proposta dos candidatos", opinou. O presidente, em seguida, ressaltou as qualidades de sua candidata à Presidência da República. "Dilma está num dos melhores momentos da vida. Quanto mais forte fica, tem que ser mais simples, olhar com muito carinho para o povo mais pobre do país", declarou.

Questionado sobre a Transnordestina e a Transposição do Rio São Francisco, algumas das principais obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o presidente foi enfático. "Penso que eu tenho pena das pessoas que têm os olhos, mas não querem enxergar . Essas pessoas deveriam compreender, pois já governaram. Uma ferrovia com quase dois mil quilômentros de extensão e ao custo de quase R$ 6 bilhões, tem muitos problemas. Eu mesmo participei de mais de 30 reuniões sobre a obra. Agora, depois de tanto tempo, está tudo pronto", afirmou. Lula disse que 2011 começará com nove mil homens trabalhando.

Sobre a Transposição Lula criticou a postura da oposição. "Ao invés de ficarem no Recife, eles (oposicionistas) deviam pegar um carro e visitar o canal do São Francisco para morrerem de inveja, quando esse canal tiver pronto. Até D. Pedro, vai dizer lá de cima, ‘obrigado baixinho‘", brincou.

Discurso - Durante o lançamento do programa Um Computador por Aluno, o presidente destacou as realizações do governo federal na área de educação. Lula disse, por exemplo, que construiu 214 escolas técnicas em oito anos, enquanto que o Brasul, em 100 anos, construiu 140. "Ou seja, dobramos o número de escolas técnicas em oito anos", discursou.

Também destacou o Pro-Uni, programa federal que permitiu a entrada de 706 mil jovens carentes na universidade. “Como presidente da República, hoje morreria feliz, pois um curso de Medicina custa cinco mil reais por mês, e esses 400 novos profissionais nada pagaram.”

Terra Natal - O discurso assumiu um tom emocional quando o presidente lembrou ser o único presidente sem diploma da história brasileira e ser o que construiu mais universidades. Sobre a escolha de Caetés como piloto do programa, o presidente Lula disse que foi decisão sua, pessoal, depois que conheceu a experiência obtida pela então governador Pezão, em Piraí, no Rio de Janeiro. Ali, explicou, antes havia uma evasão escolar de 70%, e hoje, com os computadores, o índice de aprovação é 100%.

Confira abaixo o discurso do presidente Lula na íntegra:

A legislação eleitoral não permite que candidato participe de ato oficial do governo. Então, isso aqui é um ato institucional, oficial, do governo, e não pode participar nem candidato a deputado, nem candidato a senador, nem candidato a governador, nem candidato a presidente da República.

Companheiros... Queridos companheiros e companheiras, eu não sei se eu chamo de Vargem Comprida ou chamo de Caetés. Porque, quando eu saí daqui, no dia 13 de dezembro de 1952, a cidade se chamava Vargem Comprida, era subdistrito de Garanhuns. E, em 1962, quando eu saí daqui, dez anos depois, a cidade, ou melhor, Vargem Comprida virou cidade e eu só voltei aqui em 1979. Eu saí com sete anos, eu só voltei aqui 27 anos depois. Eu voltei aqui, já era Caetés.

Fiquei muito decepcionado, porque eu tinha a imagem do açude na frente da nossa casa, eu tinha uma imagem do açude que parecia o mar e, quando eu voltei, o açude era tão pequenininho que eu fiquei decepcionado. Tinha um pé de mulungu, tinha um pé de mulungu na frente da casa que a gente morava, e eu tinha a impressão de que o pé de mulungu fazia sombra para todos nós aqui. E, quando eu voltei, o pé de mulungu era bem pequenininho, eu também fiquei decepcionado. A única coisa que cresceu foi o coração do povo de Caetés, a cidade e o desenvolvimento.

Eu não vou falar, aqui, de computador, primeiro... por duas razões: já falou o ministro da Educação; depois que o ministro da Educação fala de educação, não precisa o Presidente repetir o que falou o ministro da Educação.

Eu quero dizer aos meus companheiros e companheiras aqui, de Caetés, quero dizer ao companheiro prefeito Aércio da minha profunda alegria de voltar à minha terra natal e ver que a cidade está crescendo, ver que a cidade está se desenvolvendo, e poder entregar computador para os estudantes aqui de Caetés.

Vocês não sabem, mas computador virou uma paixão, sobretudo, entre as crianças e os adolescentes. Ou seja, não tem uma criança neste país que não queira um computador, não tem um adolescente neste país que não queira um computador.

Eu lembro que, quando nós discutimos, ainda em 2004, a criação de um programa para baratear o uso de computador e a compra de computador, a ideia nossa era criar um programa em que um companheiro pudesse entrar em uma loja e comprar um computador para pagar R$ 50,00 por mês, R$ 40,00 por mês, 30, 60, porque, até então, computador era coisa que só atendia à parte mais rica da população, os pobres não tinham dinheiro para comprar computador, neste país. O programa, o programa que nós criamos para baratear o computador foi uma revolução no Brasil, porque nós criamos crédito, financiávamos a loja e muita gente pobre, que só via computador pela televisão, pôde entrar em uma loja, comprar o computador e pagar R$ 40,00 ou R$ 50,00 por mês.

Mas ainda faltava uma coisa: o computador virou um instrumento muito importante para aumentar o aprendizado da sociedade brasileira e o aprendizado das nossas crianças. Eu confesso a vocês que durante muito tempo eu tive medo, e não é nenhuma vergonha um presidente falar que tinha medo, e vou dizer para as crianças por que eu tinha medo. Eu tinha medo porque eu ficava preocupado que cada um de vocês pegasse um computador, baixasse a cabeça no computador e ficasse só cada um no seu computador, sem conversar com o vizinho, e que a gente iria criar uma juventude que não conversava mais entre si porque todos estariam apenas olhando a telinha do seu computador.

Até que eu fui à cidade de Piraí, no Rio de Janeiro, que foi governada pelo vice-governador do Rio de Janeiro, o companheiro Pezão, e foi a primeira cidade brasileira onde todas as crianças tiveram um computador dentro das escolas. As crianças desistiam de ir para a escola. Antes do computador, começavam o ano com 100 alunos na escola e terminava o ano com 70, porque 30% das crianças desistiam de estudar. Depois do computador, começa 100 e termina 100. As crianças, inclusive, levam para casa um computador, a crianças fazem um círculo e, entre elas, via computador, elas conversam. Eles aprendem muito mais. Eles têm informação, hoje, do que acontece no mundo inteiro, sobre qualquer matéria, coisa que a nossa geração não teve, e vai aumentar muito.

E eu queria pedir aos jornalistas de Pernambuco, sobretudo aqueles especialistas em educação, queria pedir aos secretários de Educação, que a gente medisse, que a gente medisse a qualidade da educação das crianças de Caetés até hoje e, daqui a um ano, ou um ano e meio, vocês venham aqui – mesmo eu não sendo Presidente, Prefeito, se for convidado, eu virei – para a gente ver como é que evoluiu a educação das crianças neste país.

Na verdade, nós estamos fazendo um plano piloto, ou seja, nós estamos distribuindo 150 mil computadores para 300 escolas... para 300 cidades [escolas] no Brasil. Quero dizer que, quando esse moço aqui foi me comunicar que ia entregar os computadores, ele foi citando cidade, foi citando cidade e foi citando cidade, e foi citando cidade e quando terminou de citar eu perguntei: “E Caetés? E Caetés?” Aí ele falou: “É, mas tem um monte de gente, dos secretários municipais que estão (falha no áudio) critério não sei das quantas...” Aí eu falei: “Olha, não tem problema nenhum. Se alguém perguntar para você qual é o critério em que entrou Caetés, diga que foi o ‘critério Lula’, o critério do Lula querer trazer o computador para a cidade em que eu nasci, para que essas crianças tenham mil vezes mais oportunidades do que eu tive quando eu tinha a idade deles”.

Portanto, eu falei para o nosso Ministro, e falei para o César Alvarez: “Não adianta a gente dar computador aqui apenas para as crianças que estudam nas escolas urbanas. É preciso saber que aqueles que estão a meia hora da cidade, lá no meio do mato, trabalhando, estudando lá têm direito a um computadorzinho igualzinho a esse que essas crianças urbanas receberam. E tem jeito para fazer e vamos fazer”. Podem ficar certos, podem ficar certos de que eu não deixarei a presidência da República sem que a gente tenha entregue os computadores aqui, na zona rural de Caetés, aqui. Significa que, até dia 31 de dezembro, nós vamos ter que entregar os computadores para as crianças da área rural aqui, de Caetés.

A ideia, na verdade, a ideia, a ideia vem sendo trabalhada há alguns anos. Nós estamos trabalhando com a possibilidade de que, primeiro, a gente tenha internet banda larga em todas as escolas públicas deste país e em todas as cidades deste país. A ideia é que a gente, dentro de mais alguns anos, tenha um computador para cada criança neste país. É como um livro, é como uma caneta, ele tenha aquele material como um instrumento de aprendizado no primeiro grau, no segundo grau e no terceiro grau. As crianças vão evoluir com muito mais rapidez. É importante que as mães tomem cuidado apenas para que as crianças não queiram ficar noite e dia no computador, não queiram mais dormir e queiram ficar horas e horas e horas só viajando, só ali, me assistindo falar: “Olha aqui, falando”.

Então, eu... Nós estamos aqui nos vendo no computador, ali, olha. Então, eu queria, companheiros, dizer para vocês que eu não poderia deixar de fazer esse benefício para Caetés. Porque é uma cidade pequena, é uma cidade ainda pobre, e é uma cidade que está se desenvolvendo na medida em que Pernambuco vai se desenvolvendo.

Eu estou convencido de que o Brasil está em uma situação muito melhor do que já esteve a qualquer outro momento da nossa história. O nosso país, neste ano, vai crescer bem; a crise americana não mexeu conosco; vou terminar o meu mandato criando 14,5 milhões de empregos com carteira profissional assinada. Já sou... Veja o que é o destino: eu sou o único presidente da República do Brasil que não tive a oportunidade de ter um diploma universitário. Nem eu nem o meu vice, o Zé Alencar. O Zé Alencar era empresário e eu fui sindicalista.

E quando eu falo isso, eu não falo para que alguma criança fale: “Ah, o Lula na estudou e chegou a Presidente, por que eu vou estudar?” Não falo isso. Eu quero que toda criança estude muito mais do que eu pude estudar, muito mais. E que todos possam ter um diploma universitário, que todos possam ter um diploma universitário, que todos possam ter um diploma técnico. Mas vejam a coincidência: embora eu seja o único presidente sem diploma universitário, eu já sou o presidente que mais fez universidades no Brasil. É até uma coisa... Obviamente que com a ajuda deste extraordinário companheiro, Fernando Haddad, ministro da Educação.

Vejam que coisa, que coisa... como serve de lição para a gente. Durante 100 anos... A primeira escola técnica brasileira foi construída em 1909, na cidade de Campos, no Rio de Janeiro, pelo presidente Epitácio Pessoa. Desde a primeira, em 1909, até 2003 – quase 93 anos –, foram construídas 140 escolas técnicas no Brasil, em 100 anos. Em oito anos, nós vamos entregar 214 escolas técnicas neste país. Ou seja, em oito anos, esse moço e a equipe dele, no meu governo, em oito anos, a gente fez uma vez e meia mais do que tudo o que foi feito em 100 anos neste país, de escolas técnicas.

Este companheiro aqui me deu a ideia do ProUni. O ProUni foi um jeito que nós inventamos, enquanto a gente não construía as universidades federais, a gente precisava colocar criança pobre, da periferia, na universidade. Então, fizemos um convênio com as universidades particulares. Algumas já não pagavam imposto, então a gente não perdeu nada, na verdade. Então, nós fizemos uma isenção de impostos e trocamos o equivalente ao imposto por uma bolsa de estudo. Hoje, já tem 706 mil jovens da periferia deste país, estudantes de escola pública, fazendo universidade pelo ProUni.

Na semana passada eu vivi um dos momentos mais extraordinários que um ser humano pode viver. Eu fui, junto com este moço e junto com o ministro da Saúde, nós fomos fazer uma reunião com os primeiros quatrocentos e poucos jovens que se formaram em Medicina pelo ProUni. Um curso de Medicina custa quase R$ 5 mil por mês. A coisa mais difícil é uma criança de família de classe média baixa poder fazer um curso de Medicina, a não ser que ele passe no vestibular de uma universidade pública. Acontece que todo mundo, e muita gente, quer ser médico. Então, para uma vaga, às vezes aparecem duas mil, três mil, quatro mil pessoas para uma vaga. Aí, o vestibular é muito mais complicado, é muito mais concorrido, e a criança pobre não pode e tem que fazer na escola particular, e aí não pode pagar. E quando eu vi aquelas crianças da periferia deste país, que se a gente não tivesse criado o ProUni jamais entrariam na universidade, se formarem em médicos, eu disse: “Ó meu Deus, eu, agora, posso morrer, porque valeu a pena ser presidente deste país”.

Bem, na educação, nós ainda estamos trabalhando para que todas as escolas tenham um laboratório de informática. Nós queremos que cada criança neste país, cada criança, pode ser um filho ou a filha da pessoa mais pobre do mundo, essa criança tem o direito de ter um computador para estudar e de ter um laboratório de informática na sua escola.

Porque o Brasil é um grande exportador de minério de ferro; o Brasil é exportador da bauxita, que faz o alumínio; o Brasil é o maior exportador de suco de laranja do mundo; o Brasil é o maior exportador de café do mundo, o Brasil é o terceiro exportador de grãos do mundo; o Brasil é o terceiro exportador de aviões do mundo. O Brasil virou um país grande. Mas, agora, nós não precisamos exportar apenas minério de ferro, ou soja, ou alumínio. Não. Nós queremos exportar conhecimento e inteligência. Não adianta a gente vender uma tonelada de ferro, uma tonelada de minério de ferro por US$ 100 e, depois, comprar um chip desse tamanhinho por US$ 1.000. Não, nós queremos é começar a produzir o chip, para gente poder fazer este país virar grande, virar rico, e o povo viver com dignidade neste país.

É por isso que eu quero dizer para vocês que este país nunca mais voltará a ser o mesmo. Este país, este país nunca mais, nunca mais um presidente da República terá que se humilhar diante do FMI. Nunca mais este país vai se humilhar diante de outro país porque é maior do que o nosso. Não, nós aprendemos a ter autoestima, nós aprendemos a gostar de nós mesmos e nós aprendemos no discurso daquela menina Raquel, de que basta a gente querer perseverar e lutar que não tem nada que seja impossível para um ser humano e, sobretudo, para um pernambucano e, sobretudo, um pernambucano de Caetés – pernambucano e pernambucana.

Por isso, meus queridos companheiros, eu quero, do fundo do coração... Eu ainda vou agora ter uma reunião com os prefeitos de todo o estado de Pernambuco, com o Governador – aí já não é coisa mais institucional – e depois eu vou participar, pela primeira vez, do Festival de Inverno.
Vocês estão brincando? Quando eu ganhei, quando eu ganhei as... quando a gente foi lá para Copenhague, que nós ganhamos as Olimpíadas, eu disse para os companheiros: “Se o Brasil continuar assim e Garanhuns continuar com frio, daqui a pouco a gente está reivindicando uma Olimpíada de Inverno para Garanhuns, daqui a pouco”.

Agora, esse Prefeito, se tivesse feito ontem o discurso que ele fez hoje, me indicando para técnico da Seleção Brasileira, quem sabe o Ricardo Teixeira, em vez de ter escolhido o Murici, hoje, teria me escolhido? E, em 2014, a gente não deixava ninguém levar o caneco aqui de jeito nenhum, de jeito nenhum. Nós cercávamos ali o campo... Principalmente os times que jogarem aqui em Pernambuco.

Então, gente, olha, do fundo do coração, eu quero, mais uma vez, agradecer a cada mulher, a cada homem. Quero dizer para vocês que eu fico muito orgulhoso de ver a alegria dessas crianças com esse computador, muito feliz, quero agradecer às diretoras das escolas, às coordenadoras do programa. E quero, sobretudo, agradecer a vocês por, mais uma vez, me tratarem com o carinho que vocês me tratam.

Um grande abraço, um grande beijo e até outro dia, se Deus quiser. E vamos pedir para as crianças estudarem muito a partir de agora. Um abraço, gente.

Da Redação do DIARIDEPERNAMBUCO.COM.BR, com informações da repórter Aline Moura

PSDB SERÁ ENGOLIDO PELO PSB NA PROXIMA DECADA.

Não é por estar envolvido de corpo e alma na campanha para eleger seu substituto, Antonio Anastasia, ao governo de Minas Gerais, e muito menos por distração política, que Aécio Neves deixou de se manifestar sobre as recentes denúncias, encampadas por José Serra, para tentar desestabilizar Dilma Rousseff. É um silêncio significativo. Expressivo como um risco de giz. A metáfora, possível de ser imaginada, que separa o território de atuação da oposição mineira e da oposição paulista. Ambas adversárias do governo Lula. Só que a primeira é democrática e a segunda é golpista.

As duas convivem, no PSDB, por um tempo longo demais, considerando as divergências políticas que emergiram mais claramente quando os paulistas cortaram as asas de Aécio pretendente à candidatura à Presidência pelo partido. Foi a gota d’água para um tucano disposto a voar. José Serra, ainda governador, bloqueou as prévias internas que Aécio propunha e forçou o mineiro a abrir espaço para mais uma candidatura paulista. Aos 68 anos, Serra não tem mais tempo para esperar, porque, conforme anunciou no palanque que a revista Veja lhe ofereceu, preparou-se a vida inteira para ser presidente. E, tudo indica, fracassou.

Há duas semanas, em jantar no Rio de Janeiro, o ex-governador Aécio Neves empolgou-se ao falar da necessidade de reformas políticas no Brasil e, para sustentar os argumentos que desenvolvia junto a um grupo restrito de amigos, ele anunciou: “Eu vou sair do PSDB”, na casa de um empresário, em Copacabana, cercado de convidados importantes.

O cenário entre ele e os tucanos é de desgaste absoluto, embora no quadro da campanha presidencial cumpra, em Minas, segundo maior colégio eleitoral do País, o ritual da fidelidade ao candidato do PSDB. Ele arregaça as mangas por Serra, mas o esforço cessa no momento em que a solidariedade partidária pode pôr em risco o projeto que o ex-governador mineiro tem. Assim, a forte reação do eleitor mineiro excluiu a presença de Serra na propaganda de televisão de Antonio Anastasia, que lidera as pesquisas de intenção de voto no estado.

As eleições mineiras sorriem para Aécio. Ele está praticamente eleito para o Senado e o aliado dele, Itamar Franco, pode ficar com a segunda vaga. Mas os mineiros não sorriem na direção de São Paulo. Pesquisa do instituto Vox Populi mostra que apenas 8% do eleitorado, em Minas, votaria em José Serra “por causa de Aécio”. Reflexo: pesquisa do Ibope de 13 de setembro aponta Dilma com 31 pontos à frente de Serra.

Não será surpresa a desfiliação de Aécio do partido. O neto de Tancredo Neves caminha firme nessa direção. Só que em silêncio, como convém à tradição mineira da qual é herdeiro. A novidade é ter anunciado agora. Por descuido? Só acreditará nisso quem admitir que político mineiro se descuida com assunto tão melindroso.

Segundo a conversa desenrolada no jantar em Copacabana, Aécio já tem um novo projeto político na cabeça. Não vai buscar abrigo em nenhum outro partido ao abandonar os tucanos. Com a vitória da candidata do PT, quer estabelecer uma oposição democrática, já que o PSDB- renegou esse papel ao preferir abraçar o udenismo golpista.

O oposicionista mineiro sempre se afastou disso. Em 2005, manteve distância do episódio do chamado “mensalão” do PT, quando estava no governo de Minas. Atacou o ocorrido. De forma tão incisiva quanto genérica. Reagiu em nome da ética política. Em momento algum, no entanto, apoiou os movimentos subterrâneos que foram iniciados, sem sucesso, para abrir processo de impeachment contra Lula. E mesmo posteriormente, quando Fernando Henrique Cardoso capitaneou o movimento para que o presidente Lula desistisse de disputar a reeleição, Aécio, no governo de Minas, não misturou leite no café amargo que FHC, oposicionista paulista, oferecia.

É bem verdade que a decisão, em2005, pode ter sido companheira da cautela. Se as lambanças do publicitário mineiro Marcos Valério acertaram em cheio o PT, o mesmo aconteceria, depois, com o senador tucano Eduardo Azeredo, um político com trânsito livre no Palácio da Liberdade, sede do governo mineiro. Aécio foi atingido apenas por respingos. Ao fim e ao cabo, esse “Valerioduto”, que irrigou de dinheiro muitas campanhas eleitorais petistas e tucanas, tem a nascente no território mineiro.

Em 2010, o já então ex-governador de Minas não avaliza o factoide contra a candidatura Dilma, criado a partir da quebra criminosa de sigilos fiscais na Receita Federal. Esquivou-se, também, de fazer coro às acusações contra a ex-ministra Erenice Guerra, da Casa Civil, que novamente tinha como alvo a candidata do PT. Não é de hoje, portanto, que ele evita essa linha de ação. Nesse caminho amadureceu uma decisão que botará em prática em momento mais oportuno após as eleições.

Em 2002, ainda no governo do estado, o tucano Aécio e o petista Fernando Pimentel, prefeito de Belo Horizonte, surpreenderam os respectivos partidos quando anunciaram um acordo em torno da candidatura de Márcio Lacerda, do PSB, para disputar a prefeitura da capital. A aliança, vitoriosa, provocou reações claras no PT e preocupação no PSDB.

O comportamento diferenciado de Aécio, no ninho tucano, o empurrou para o desacordo com os paulistas. É bom lembrar que o mineiro já chegou a pensar vagamente, em 2008, na migração para o PMDB por sugestão do presidente Lula. Não se deixou seduzir pela possibilidade de ser vice de Dilma, como, no futuro, não se encantaria com o convite formal para ser vice de Serra.

Uma possível vitória de Geraldo Alckmin para o governo de São Paulo seria mais uma sinalização a indicar para Aécio a porta de saída. Não haverá outra queda de braço com os paulistas dentro do mesmo partido.

Como sugerem as pesquisas, Aécio sairá turbinado na própria base política dele a partir do pleito de outubro. Ele pode ter uma vitória capaz de adubar o projeto que cultiva. Tancredo, avô de Aécio, tomou decisão semelhante, em 1980, após uma declaração de forte impacto naquela época: “O meu MDB não é o MDB de Arraes”. Foi um repúdio à chamada ala “autêntica” do MDB que fazia oposição mais radical à ditadura militar. Reunidos os moderados, Tancredo fundou e presidiu o Partido Popular (PP). A versão atualizada da frase do avô poderia ser adotada assim pelo neto: “O meu PSDB não é o PSDB de Serra”. Embora o PSDB dele não seja golpista. Após isso era só bater a porta e sair.

Definida a eleição de 2010, e confirmada a vitória do PT, o ex-governador mineiro já com o título de senador se tornará naturalmente o líder político dos moderados. E igualmente natural será o fato de se tornar o primeiro candidato de oposição à eleição de 2014. A partir da criação de nova legenda a tarefa será a de fisgar correligionários e costurar alianças. Há um amplo horizonte de especulações possíveis. Na mira dele está uma parte do PSB representada por Ciro Gomes, pelo prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda e, quem sabe, Cid Gomes, praticamente reeleito ao governo do Ceará.

Aécio pode buscar aliança com o PP (sigla coincidente com a do partido fundado pelo avô), cuja liderança maior, o senador Francisco Dornelles, além de mineiro é parente dele e serviu como auxiliar de Tancredo, quando esse- se tornou primeiro-ministro no regime parlamentar de 1964. Essa contabilidade política do novo partido leva em consideração dissidentes do PMDB e, é claro, do próprio PSDB. Nesse caso é possível pensar no senador cearense Tasso Jereissati em conflito com os tucanos paulistas. A bancada do partido que sair da batalha eleitoral, em Minas, deverá acompanhá-lo.

A consequência do movimento de re-acomodação partidária, que se prevê para ocorrer no próximo ano, independentemente da dissidência do ex-governador mineiro, com a inevitável desidratação política do PSDB, aponta para um cenário absolutamente novo que sugere uma constatação, não necessariamente marxista, mas obviamente inspirada ligeiramente em uma das passagens mais conhecidas do Manifesto Comunista de Marx e Engels. Nela se prevê que o capitalismo moderno, com a multiplicação do operariado, criaria o seu próprio coveiro.

O cenário político que se forma agora começou no ventre do capitalismo brasileiro moderno. Mais precisamente em meados dos anos 1970 com o movimento sindical, não revolucionário, fermentado nas linhas de produção da indústria automobilística do ABC paulista. Ali o velho Partido Comunista Brasileiro perdeu o controle dos movimentos sindicais. Os integrantes desse novo universo de operários não era também marionete de empresários que cultivavam sindicalistas dóceis chamados de “pelegos”.

O que não se previa é que daquele movimento surgiria o “coveiro” do setor reacionário do capitalismo, avesso a uma melhor distribuição das riquezas geradas no País. Ou seja, em favor de uma minoria que recebia a maior parte do bolo. Fica de fora uma parte substancial que, expressada em números, significa hoje 30 milhões de pessoas num total de 190 milhões.

O “coveiro” desse modelo capitalista moribundo é um nordestino, torneiro mecânico, surgido naquelas jornadas operárias do ABC. Apelidado de Lula, sem estar preocupado com a interpretação sobre o que ele faz, promove a maior revolução no capitalismo verde-amarelo do pós-Guerra. E, no plano campo, há campo para a oposição atuar, disputar e ganhar eleições com votos e não com expedientes golpistas.FONTE CARTA CAPITAL