quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Gritos de independência

No bicentenário de independência dos países latino-americanos, os desafios que ainda permanecem na região mais desigual do planeta

Há 200 anos, iniciou-se uma onda de movimentos de independência na América Latina. De lá para cá, como é próprio da história, houve permanências e rupturas. Duas questões se colocam por ocasião do bicentenário: o que se precisa ainda romper e para onde devemos caminhar?
Para responder essas e outras interrogações, temos de buscar os precedentes daqueles movimentos e suas características, analisando o processo que fez irromper, quase ao mesmo tempo, diversos novos Estados na região que passou a ser denominada América Latina.

América Latina: a problemática do conceito
A expressão América Latina está longe ainda do sentido de unidade de seus países. A história nos mostra que a proximidade de seus Estados está mais em seus laços de dependência com o estrangeiro do que na arquitetura de um projeto autônomo. Há mais semelhanças no quadro social, em suas estruturas econômicas e políticas do que em projetos de cooperação e autonomia diante dos países centrais.

Se tomarmos a língua latina como fator de identificação, o Canadá também pode ser considerado parte da latinidade. Se for a colonização, o continente inteiro, inclusive os EUA, é latino-americano. Caso o espanhol seja o denominador comum, aí o Brasil fica de fora desse conceito de América. Não por acaso, a diplomacia brasileira prefere trabalhar mais com a ideia de América do Sul que de América Latina, uma vez que temos mais em comum com nossos vizinhos fronteiriços do que com o Haiti ou outros países do Caribe, por exemplo.

No século XIX, por ocasião dos movimentos de independência, se desejo existiu de integração regional, o mesmo não foi à frente por causa das rivalidades alimentadas há tempo por quase todos os países. O Brasil, por exemplo, não era incluído nas ideias de integração. O expansionismo do Estado brasileiro era visto com desconfiança pelos seus vizinhos, e, como essa política de expansão associava-se ao capital estrangeiro, particularmente o inglês, o país era rechaçado e apontado já como imperialista. Conflitos como a Guerra da Cisplatina, Guerra do Paraguai, Guerra do Pacífico, ocupação do Acre pelo Brasil e a Guerra do Chaco são exemplos na América do Sul de como os países, desde o início, se caracterizam mais pelas diferenças que pelas mesmas intenções de construção de uma região integrada e unida.

Independente de quem?
A ingerência de potências europeias sobre a América Latina remonta aos séculos de colonização.­ Como a atividade econômica se guiasse pelos interesses das metrópoles e aos mercados europeus, os recursos daqui explorados ajudaram na acumulação originária do capital, e, dessa forma, podemos afirmar que a região já estava de certa forma integrada à economia internacional e subordinada à sua dinâmica. Já no XIX, com os processos de independência, a influência estrangeira na configuração dos novos Estados não teve mediações. No caso do Brasil, a interferência britânica foi necessária para a consolidação da independência, por exemplo, nas negociações com Portugal para o seu efetivo reconhecimento.

Quando Portugal e Espanha dividiram o Novo Mundo, no fim do século XV, tiveram o reconhecimento desse ato apenas pela Igreja. Dessa forma, Holanda, Inglaterra e França investiram em “invasões” a fim de explorar as riquezas do lugar. A atual configuração geográfica e política da América Latina se devem, em parte, a esse confronto, com Portugal e Espanha segurando como podiam seus domínios na América. No norte, por exemplo, os espanhóis não conseguiram fincar presença e o perderam para franceses e ingleses, cuja colonização deu origem a Canadá e Estados Unidos.

No Brasil, a defesa da colônia exigiu a presença de homens e fortalezas no litoral, o que fez com que o português fosse chamado de caranguejo, pois se locomovia principalmente de lado nas costas brasileiras, favorecendo o adensamento populacional nessa faixa do território e deixando, até hoje, alguns clarões despovoados, como nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Assim, antes mesmo dos movimentos de independência, havia já uma disputa pelo controle e exploração dos recursos da América. Então, o apoio a esses movimentos tornou-se uma forma de retirar das metrópoles (Portugal e Espanha) o poder e privilégio que possuíam, abrindo espaço para as novas formas de domínio e colonização. É nesse sentido que temos que observar a ingerência da Inglaterra, primeiro, e dos Estados Unidos, mais tarde. A defesa da “autonomia” e da “América para os americanos”, como pressupunha a doutrina Monroe (anunciada no governo de James Monroe, em 1823), indicava a pretensão expansionista do vizinho do norte, tornando público que não aceitaria ingerência de nenhum Estado europeu sobre a América Latina, quer em termos de recolonização ou mesmo nos negócios internos e/ou externos dos jovens Estados.

Somada ao Destino Manifesto, ideologia que preconiza o povo norte-americano como uma espécie de “povo escolhido” para conduzir os outros povos, seus efeitos não demoraram a aparecer. Antes disso, porém, quem deu as cartas foi a Inglaterra, que patrocinou a independência do Brasil e interferiu no processo de constituição dos Estados, determinando as decisões políticas e as mudanças socioeconômicas.
Outros projetos de independência
Se falamos em movimentos, há de se falar também em independências. Além do processo para alcançá-las não ter sido igual e homogêneo em todos os países, no interior de cada um desses houve projetos diferentes daqueles que “vingaram”, ou seja, dos que ficaram registrados.

Na Argentina, por exemplo, o processo de constituição do Estado se estica até o término da Guerra do Paraguai (1864-1870). Comemora-se este ano o bicentenário da independência, porém, em 1810, o atual território argentino não estava sequer unificado. Dividida entre federalistas e unitários, num estado de guerra civil quase permanente, Argentina era um nome que não identificava os grupos e não contemplava todos os projetos para o país.

No Brasil, para pegarmos outro exemplo, desde 1789, com a Inconfidência Mineira, até os anos 1840, com os movimentos conhecidos como “rebeliões regenciais” (Farroupilha, Balaiada, Sabinada e Cabanagem), passando pela Conjuração Baiana, pela Revolução Pernambucana e pela Confederação do Equador, não havia sequer a ideia de independência para todo o território, e, sim, para parte dele. Esses movimentos foram duramente reprimidos. Se vingassem, hoje não teríamos um país, mas vários “brasis” dentro desse vasto território. Guardadas as devidas proporções e observando-se as peculiaridades locais, quase o mesmo ocorreu com outros movimentos de independência da América espanhola. Isso porque as elites crioulas tinham interesses diversos entre si e distantes da vontade do restante da população, preferindo dividir o poder político para não abdicar do controle econômico. Assim surgiram as diversas nações, sem o qual teríamos apenas três países, os antigos vice-reinados espanhóis.

Havia, portanto, alguns desafios para os jovens países. Como tornar-se independente sem ficar refém da Inglaterra? Qual projeto político poderia unir internamente a população de cada território? Como desenvolver um projeto socio-econômico autônomo sem o risco de ingerência de potências? Tendo em vista que os Estados surgiram antes de suas nações (algo como ter um corpo sem alma), como construir estas últimas?

Houve quem defendesse a unidade latino-americana como forma de responder a essas questões. Simón Bolívar (1783-1830) talvez seja o grande símbolo dessa ideia. Porém, para ele, seria da união da elite crioula que teríamos uma identidade latino-americana, e o Estado centralizado, sem participação popular, evitaria a anarquia de uma democracia. Ironicamente, o século XIX foi caracterizado por conflitos entre países vizinhos, oriundos de seus expansionismos, onde a política imperialista britânica definiu o destino das guerras e o grau de dependência dos países beligerantes.
Os desafios a partir do bicentenário
Vemos, então, que alguns desafios lançados há 200 anos permanecem. Por exemplo: a luta da camada popular pela emancipação tinha como base a reforma agrária. Ainda hoje essa é uma bandeira importante nas lutas sociais empreendidas na América Latina. O MST, no Brasil, não surgiu por acaso.

Outra questão colocada no século XIX (particularmente na segunda metade) que ainda permanece é a luta anti-imperialista. Se Bolívar tinha uma visão europeizante, José Martí (1853-1895), ao contrário, inaugurou após a luta anticolonialista outra, a anti-imperialista, que no século XX foi retomada por Fidel Castro e Che Guevara.

Para Martí, a América Latina tinha dois momentos para se tornar independente: o primeiro em relação à Espanha, o segundo em relação aos EUA. Para se evitar uma tirania ou uma invasão imperialista, esse autor e combatente defendeu um governo com forte apoio popular. No entanto, a luta pela independência, para ele, não era só contra o imperialismo (fator externo), mas também contra as oligarquias (fator interno), uma vez que estas seriam agentes de uma dependência política, econômica e cultural. Se observarmos o ideário dos movimentos sociais na América Latina hoje, podemos constatar que essas questões estão atuais e sendo rediscutidas à luz do nosso tempo.

À parte, esses pontos em comum entre ontem e hoje, há questões específicas do nosso contexto histórico que nos desafiam. Observe-se, por exemplo, os conflitos envolvendo países na América do Sul e a expansão de bases militares norte-americanas na América Latina, sendo que o terremoto no Haiti serviu de boa desculpa para deslocamento de mais tropas, equipamentos e navios para a região do Caribe. Além, é claro, da gritante desigualdade social e concentração de renda da região. Ainda assim, esses desafios exigem o resgate do passado para ser devidamente enfrentados. O passado, nesse caso, a serviço do presente. A América Latina é um ser em construção, um devir, e a sua definição não está no passado, mas no futuro que fazemos hoje. Fonte carta capital

Michael Moore, faz crítica ao sistema de saúde norte-americano

Quando o cineasta norte-americano Michael Moore ganhou popularidade com o sucesso de Tiros em Columbine, em 2002, surgiram também os primeiros detratores do seu trabalho. O documentário, que tratava do porte de armas de fogo na sociedade norte-americana, foi acusado de uma visão passional e manipuladora. Cinco anos e dois filmes depois a discussão parece esvaziada, especialmente com Sicko - S.O.S. Saúde.

O título deste filme é uma variação do termo sick, que quer dizer "doente". De cara, o cineasta já expõe a sua opinião sobre o tema deste seu terceiro documentário de longa-metragem, que trata sobre seguridade social e saúde nos Estados Unidos. Ao emitir uma constatação pessoal, Moore sublinha o seu jeito de se aproximar dos assuntos que aborda, sempre com uma intervenção particular e direta.

O polêmico Michael Moore também costuma aparecer em frente às câmeras em todos os seus filmes, ele é o protagonista de todos os documentais. Não pelo tempo em que é visto, mas porque opta pelo discurso em primeira pessoa, com suas mordazes observações pontuando e comentando as suas narrativas. Por isso não cabe comparar este tipo de documentário que ele propõe com o formato tradicional, onde existe uma simulação e um jogo que tenta esconder o olhar do diretor.

Puro – Partindo da idéia de que ao definir um tema e trabalhar com as suas variantes e recortes escolhidos é uma intervenção, é óbvio que não existe o documentário puro, livre da presença do seu autor. Nem mesmo a respeitada linha do Cinema Direto, que surgiu na própria escola documental norte-americana, alcança essa limpidez da observação. Moore assume isso e usa a sua figura para aquecer o debate.

Sicko - SOS Saúde tem Moore o tempo inteiro. É a sua obra mais madura, muito superior ao anterior Fahrenheit 11 de Setembro (2004), que foi duramente condenado pela maneira como a informação é manipulada pelo diretor, embora tenha alcançado bilheterias enormes, especialmente por ter sido lançado no ano da última campanha presidencial nos EUA.

Sicko - SOS Saúde questiona as razões pelas quais os Estados Unidos, a nação mais rica do mundo, é também uma das poucas a não socializar a saúde pública. Mostra casos extremos das armações secretas dos planos de saúde para evitarem os gastos com os segurados. Denuncia como o governo trata os doentes e como questões meramente econômicas são colocadas em primeiro plano, muito acima da vida e morte das pessoas.

COMENTÁRIOS – Moore não se isenta de comparar o sistema norte-americano com o vizinho Canadá, e com países europeus, como a França e a Inglaterra, onde a saúde é gratuita e de elevado padrão. Ao tempo em que se aprofunda no funcionamento dos sistemas dos outros países, surgem os comentários irônicos e as demonstrações de surpresa e indignação, que se sobressaem durante todo o discurso.

Na mais ousada iniciativa do filme, Moore viaja de barco com um grupo de heróis do 11 de Setembro que foram abandonados pelo governo e estão doentes. A proposta é ir até o presídio de Guantánamo, supostamente o único lugar em solo americano que oferece tratamento de saúde de graça e com qualidade.

Atrás da irônica idéia de que os heróis merecem, pelo menos, o mesmo tratamento que recebem os supostos terroristas, Moore reserva uma passada surpreendente em Cuba, país que sofre com os embargos econômicos de Tio Sam. Até em terras aparentemente inóspitas para os americanos, o diretor e os doentes que transporta são melhor tratados do que em seu próprio país.

Moore articula o discurso não como quem apresenta informações e registros documentais conferidos em pesquisas. Ele tem uma tese e a partir dela busca os argumentos para a sua defesa. Pode-se questionar a legitimidade da prática, mas nunca a habilidade do diretor para criar uma narrativa atraente e até divertida.

Os seus filmes têm essa marca, de não abdicarem da comicidade - muitas vezes do humor negro - para tratar de assuntos polêmicos, sérios e contundentes. Outra vez Michael Moore acerta no tom e no ritmo.

Consegue criar uma obra informativa, como devem ser os documentários, mas contaminada pela sua própria presença, que está sempre entre acidez crítica e a ironia quase cínica. Há o mesmo sentido de adesão que as outras obras pedem, mas desta vez com uma leveza maior e espantosamente divertida diante de um tema grave.