quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Expansão do PIB chinês não é sinônimo de desenvolvimento.

A confirmação de que a China ultrapassou o Japão no ranking das maiores economias do mundo suscita questionamentos sobre o que representa essa conquista. Possuir o segundo maior PIB global significa que seu grau de desenvolvimento é comparável ao de outras nações ricas, como os Estados Unidos e mesmo o Japão, que passou para a 3ª colocação? A resposta é negativa. Afinal, o conceito de desenvolvimento é bem mais amplo do que a simples geração de riqueza para abranger aspectos sociais. Analistas ouvidos por VEJA.com apontam que, ao contrário, o país ainda patina em questões elementares às nações realmente desenvolvidas, como equidade social, acesso a serviços de saúde, proteção do trabalhador, etc. Os chineses estão na direção correta, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
O especialista em China, Dani Nedal, da Strategus Consultoria, destaca que, para se tornar uma potência de fato, as autoridades locais terão de corrigir as disparidades de distribuição de renda. “O modelo econômico chinês é muito desigual, em parte por conta da corrupção e em parte porque houve desigualdade desde sua implantação”, comenta. O processo de abertura de mercado iniciado no fim da década de 1970, com a escolha de províncias para implantação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), privilegiou o desenvolvimento de algumas regiões em detrimento de outras. “Foram definidos, no começo da reforma, aqueles lugares que iam participar do capitalismo mundial e outros que não iriam. As ZEEs foram criadas como laboratório para testar políticas econômicas e, só depois, o sucesso passou a ser replicado no resto da China. De qualquer maneira, as regiões que tiveram largada antecipada estão hoje na frente”, explica.
Outra questão que, segundo analistas, ofusca a imagem da China é política salarial. Nedal comenta que, apesar de ter havido aumento nos últimos anos, os salários no país são pouco competitivos e díspares. Leis relativas a salários mínimos, implantadas em 2004, não têm alcance nacional. Em outras palavras, os valores variam significativamente conforme a província, aprofundando a desigualdade. As províncias de Xangai e Guangdong, no costa leste chinesa, registram os salários mínimos mais altos, de aproximadamente 1200 yuans. É o dobro do salário, que foi elevado em julho, na província mais populosa, Hena. Dados oficiais mostram que, no ano passado, a renda urbana era de aproximadamente 17 mil yuans, ao passo que a rural girava em torno de 5 mil yuans. A renda urbana cresceu 10% ao ano na última década, enquanto a rural teve alta anual de 7%.
“As oportunidades não são distribuídas de maneira equânime. Isso cria tensões. Fazendo um paralelo com o Brasil, é como se o boia-fria se ressentisse dos trabalhadores bem pagos das indústrias do ABC paulista”, compara o professor James Wright, coordenador do MBA Executivo Internacional da Fundação Instituto de Administração (FIA). O professor acrescenta que o simples direito de ir e vir é controlado no país, impedindo a migração em massa de trabalhadores rurais para os centros mais abastados. “Quando o trabalhador se muda pra áreas urbanas mais prósperas, ele continua a ser um cidadão da região de origem. Logo, não consegue obter autorização para estabelecer moradia, o que o impede de alugar uma casa; não tem direito à assistência de saúde; fica impedido de matricular os filhos em uma escola, entre outras dificuldades”, explica. Para conquistar o direito, só com qualificação e um contrato de trabalho com uma empresa. A fiscalização da mobilidade é feita pelo governo, pela polícia e também pela comunidade local, diz o professor. 
O país também conquistou infame notoriedade pelas péssimas condições de trabalho nas fábricas. Recentemente, uma onda de suicídios na empresa de tecnologia Foxconn – fornecedora da Dell, Apple e HP – colocou as companhias chinesas no centro da discussão sobre o tema. “Os trabalhadores são muito pouco protegidos pelo estado. As condições são insalubres, com muitas horas de trabalho (de 12 a 16 horas diárias a depender da fábrica) e instalações mal cuidadas”, afirma Nedal.
Progresso – Os especialistas ressaltam que, apesar dos desafios que o país tem pela frente, muitas conquistas já foram alcançadas, principalmente no campo da inovação tecnológica e da produção acadêmica. Segundo a Strategus Consultoria, a China hoje forma anualmente mais de 2,5 milhões de estudantes no ensino superior contra 1,4 milhão dos Estados Unidos, 0,6 milhão do Japão e 0,3 milhão da França.
O investimento em Pesquisa e Desenvolvimento representa 1,44% do PIB, conforme dados de 2008 da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O do Brasil, para efeito de comparação, representa 1,13%. Pode parecer pouco, mas representa um avanço para um país que ganhou fama pela pirataria e por roubar tecnologias estrangeiras. “Hoje a China investe em pesquisa própria e isso já começa a aparecer no produto chinês. Isso, inclusive, tem sido um problema para os estrangeiros, pois suas tecnologias começaram a ser preteridas em favor das nacionais”, explica Nedal.
Um plano do governo de Beinjing, elaborado em 2003, tem como objetivo tornar o país numa “sociedade voltada para a inovação tecnológica”. Como efeito, em 2008, o país registrou 194 579 patentes, à frente da Alemanha. “A China vem se qualificando cada vez mais para competir de igual para igual em mercados cada vez mais sofisticados”, avalia Wright.
De acordo com o professor, o governo passou a enfatizar a orientação de recursos de investimento e infraestrutura para o interior do país nos últimos dois anos, construindo escolas, rodovias e usinas de energia na tentativa de reduzir a desigualdade. Neste ano, 14 províncias anunciaram elevações dos salários mínimos, de 15% a quase 30%. As políticas de desenvolvimento em curso revelam que, apesar dos desafios a superar, o gigante asiático caminha com passos firmes rumo à liderança econômica global.
Fonte veja 16/08/10