sábado, 19 de junho de 2010

O Globo joga a toalha. Admite de cada 10 politico 8 acreditam que Dilma não perde mais

O Globo joga a toalha. Noblat diz que 8 de cada
10 políticos admitem que Dilma não perde mais

O fato de um jornalista consagrado, no caso o nosso bom Ricardo Noblat, revelar uma verdade simples como a que vai dita aí no título desta matéria, não deveria merecer destaque ou qualquer comentário. Mas merece, pela boa razão de que isto é absolutamente incomum no Globo, especializado em camuflar, omitir e distorcer as notícias que deveria fornecer de forma lisa e clara a seus leitores.

As razões desse inusitado e gradual reencontro com a verdade dos fatos, veremos mais adiante. Porque, antes, é preciso dizer que Noblat enxergou a realidade, mas não a entendeu. Ele atribui a inevitável vitória de Dilma, que só não ocorrerá se houver “um imprevisto ou clamoroso erro”, à extraordinária popularidade do presidente Lula, associada a suas não menores ousada e “falta de escrúpulo”.

Mas é só isso? Não passa pela cabeça do experiente colunista que José Serra é responsável por pelo menos cinquenta por cento do sucesso da adversária? Se formos por esse caminho, é possível que Noblat concorde que Serra é antipático, especialista nas baixarias de campanha, truculento até com seus companheiros (?) de partido e de jornada, além de espantosamente inábil. Mas ainda assim, nossos emérito colunista passaria longe do fato essencial: o discurso obsoleto do tucano.

A própria alma de Noblat não permite que ele veja isso, porque seu próprio discurso é idêntico ao de Serra. Mas que discurso é esse? É o discurso que impôs seus paradigmas Mundo fora, a partir da queda do Muro de Berlin e da derrocada do Sistema Soviético. Levantando a bandeira correta das liberdades individuais, os neoliberais (tentei evitar essa denominação, mas não foi possível) empurraram, de contrabando, a noção de que as liberdades do cidadão estão engatadas com a liberdade do Capital cada vez menos produtivo e mais agiota. Este bicho feio se esconde por trás dos nossos direitos legítimos para impor a Ditadura do Mercado. Ditadura que, excludente na sua essência, é absolutamente incompatível com tais direitos e, de quebra, destrói a Natureza de forma vertiginosa e incontrolável.

Há dois anos a Grande Crise Norteamericana devasta um a um todos os paradigmas neoliberais. Só os alucinados da Globo e da CBN não vêem isso. Mas para a anônima maioria dos cidadãos vai ficando cada vez mais claro que nossos direitos e liberdades essenciais só estarão a salvo quando passarmos uma coleira pelo pescoço do mercado insano que produz apenas por produzir (acumular) sem levar em mínima consideração as reais necessidades do homem, como indivíduo e como Humanidade.

A chamada A Maioria Silenciosa, que medeia a Esquerda e a Direita declaradas, age por intuição e de forma muitas vezes insuspeitadas. Não raro ela pende para a direita, como foi o caso da eleição do Collor. Outras ocasiões, como agora, ela dá importante inflexão à esquerda. E não só no Brasil como no Mundo.

Só um desinformado em último grau não percebe que não sãos os governos, mas o Sistema que está sendo contestado em Atenas, em Madri, em Budapeste ou em São Francisco da Califórnia. E não se requer um grande QI para notar que há semelhança entre estes movimentos atuais e os que ocorreram nos anos 60 e 70 do século passado. Na época, houve fantástica liberação dos costumes e emancipação de grandes seguimentos sociais. Agora, talvez, a tônica seja pela abolição da escravidão assalariada.

Faltou fazer uma referência às razões desse aparente e gradual reencontro da Globo com a verdade. É que eles não são bestas e sabem até onde podem ir. Em 89, depois da manipulação criminosa do último e fatídico debate entre Lula e Collor, a Direção da empresa chamou o petista para conversar. Foi uma conversa que entrou pela madrugada, durante a qual foram derrubadas algumas garrafas de uísque. Lula é um negociador nato, meio abusado, mas tem o coração mole. A verdade é que eu não consigo imaginar a turma da Globo bebendo uísque com a Dilma.

11-06-10

Marina já arrumou um vice de 2 bilhões de dólares.
Agora é a nova queridinha da mídia. Te cuida Serra

Os especialistas em marketing eleitoral que me corrijam, mas ouso dizer que nem o Serra e nem mesmo o FHC, em seus bons tempos, foram contemplados com uma centimetragem tão grande nos jornais e com tantos minutos no horário nobre da TV, como Marina Silva o foi no lançamento de sua modesta candidatura pelo humilde e pobretão PV. Desculpem a ironia.
A verdade é que Martina e o PV não têm nada de pobres. Para bancá-la , ela arrumou um vice de dois bilhões de dólares, Guilherme Leal, o homem dos cosméticos que, em menos de uma década, desbancou a Avon no Brasil.
De sua parte, o partido já levantou confessados 90 milhões de reais para as despesas de campanha, mais do que os 80 milhões confessados pelo PT na vitoriosa campanha de 2002.
Tudo isso para dizer que não há mais a menor dúvida. A mídia e porventura a classe média “politizada”, que recorre à ecologia para não precisar falar de reforma agrária, encontraram em Marina a alternativa ideal para o caso do provável naufrágio da candidatura Serra.
O discurso da candidata não poderia ser mais vago e ambíguo: não só poupa como sempre que pode elogia tanto Lula como FHC e defende um bem bolado “estado mobilizador” que pode não dizer nada como conceito, mas é bom estribo para que ela trepe no muro e fique eqüidistante do “estado mínimo” dos tucanos e do “estado anabolizado” dos PT neogetulista.
Marina, no Datafolha de vinte dias atrás, já estava com 12%. Avalio que ela deve estar agora com 15%, bem mais do que os 9% do IBOPE, com os quais o alucinado Montenegro pretendeu contê-la, só para não desmentir a bobagem que ele vem repetindo há um ano: “não haverá segundo turno”. Pois não só haverá esse segundo turno como ele pode ser disputado por duas mulheres.

07-06-10

O Efeito Aécio. A eleição será decidida
em Minas, onde o carro de Serra atolou

Os analistas isentos (ver blog de Cesar Maia) concordam que o quadro eleitoral, no momento, pode ser definido desta forma simplificada: a vantagem de Serra em São Paulo e no Sul é compensada pela vantagem de Dilma do Rio, no Nordeste e no Norte. Se considerarmos a situação do Centro-Oeste como de empate, fica nítido, então, que a eleição pode ser decidida em Minas, o segundo maior colégio eleitoral e governada por tucanos há oito anos.

Se for assim (com alguns reparos que farei ao final), a situação de Serra é muito complicada, porque o último IBOPE, de uma semana atrás, revela que, em Minas, Dilma está entre 1,5 e 2 milhões de votos à frente do tucano e em plena expansão. Tudo dependeria de um esforço supremo do o ex-governador Aécio Neves para reverter esse quadro.

Mesmo que Aécio estivesse disposto a isso (há controvérsias) ele simplesmente não tem capacidade para tanto, pelo boa razão de que sua base de sustentação, sobretudo no Interior, depende de vários partidos médios e pequenos, muitos dos quais, por sua direção ou através de seus prefeitos, já declararam apoio a Dilma. O próprio candidato de Aécio, Antonio Anastasia (PSDB), não esconde que não tem como ou não quer coibir a dobradinha pirata Dilmasia (Dilma mais Anastasia) que prolifera no Estado.

Estes fatos estão de tal forma escancarados, que a Folha de hoje apresenta uma estatística minuciosa informando que até no núcleo fechado com Serra (PSDB, DEM e PPS) que controla 264 município – de um total de 853 -, 79 prefeitos declaram-se indecisos ou a favor de Dilma. Além disso, o PMDB é o partido que controla o maior número de cidades. Nelas, Aécio pode até (como candidato ao Sendo) ser bem votado, mas não pode dizer faça isso ou faça aquilo.

É nesse brejo de incertezas que o carro de Serra atolou. Hoje ele estará novamente em Minas (Montes Claros) para, mais uma vez, ao lado do paciente Aécio, tentar reverter esse quadro. É muito difícil, a julgar pelas declarações dos prefeitos entrevistados pela Folha. A maioria acha que Dilma e mais simpática (!) além de serem gratos a Lula e à sua farta distribuição de verbas. E o mais importante: os principais adversários de Serra são justamente os filiados ao PSDB. Eles não perdoam a forma como Aécio foi tratado pelos tucanos paulistas (a lances até de arapongagem), na fase de definição das candidaturas para a presidência.

As ressalvas que anunciei acima: a vantagem de Serra sobre Dilma é verdadeira e muito grande em São Paulo (9 milhões de votos). Mas, no Rio Grande do Sul, por exemplo, há empate técnico e Dilma avança. O mesmo ocorre no Centro-Oeste, onde Dilma já assumiu a dianteira em Brasília.

06-06-10

Ciro Gomes estará com Dilma ainda no primeiro turno

O ex-candidato à presidência já concordou em encontrar-se com a petista, talvez ainda este mês.

Nós sabemos que o presidente Lula detesta perder amigos e despontar pessoas. Quando ele sente que pisou na bola, digamos assim, não sossega enquanto não conserta o mal feito. É o que está acontecendo em relação a seu amigo Ciro Gomes. Ele sabe que teve que sacrificar o ex-ministro que sempre lhe foi leal, num momento de incertezas quando ainda não se sabia que rumo tomariam as pesquisas e a candidatura de Dilma Rousseff.

Isto foi há dois, quando o presidente pediu a cabeça de Ciro ao governador pernambucano Eduardo Campos que é também presidente Partido Socialista Brasileiro, ao qual Ciro é filiado e com o qual pretendia chegar à presidência da República. Um direito seu.

Campos, habilidoso, conseguiu sair dessa sinuca de bico, “fritando” a candidatura de Ciro dentro do próprio partido e obtendo do presidente a promessa de um esforço redobrado para reelegê-lo governador do Estado que é o do nascimento de Lula e onde ele bate recordes de popularidade. Mesmo assim, Campos enfrenta uma parada duríssima contra o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) que governou Pernambuco durante oito anos e agora tenta voltar em aliança com o PSDB e o DEM.

É claro que Ciro sentiu-se traído, tanto que despediu-se da campanha presidencial atirando para todos os lados, até no próprio pé. Mas parece que, com a cabeça fria, já perdoou o presidente e o governador. E fez isso, apesar de haver um mal estar no Ceará, onde o atual governador, seu irmão Cid, também filiado ao PSB (vejam como é dura a vida) desdobra-se para proteger o ultra oposicionista senador tucano Tasso Jereissati, a quem ele e Ciro devem o início de suas carreiras políticas.

Seja como for, cobrado quase que diariamente por Lula (“Você já falou com o Ciro?”), Eduardo Campos obteve, finalmente, a anuência do candidato excluído para um encontro com Dilma Rousseff. Será o reatamento de uma velha amizade e do fio partido da própria carreira de Crio que poderia escorregar para o ostracismo.

Como sempre garantiu (e é verdade) que jamais apoiaria Serra ou Marina, é possível que Ciro suba ao palanque de Dilma ainda no primeiro turno. Para Lula é o alívio da consciência e para Ciro a certeza de que, se quiser, poderá reiniciar sua caminhada como um super ministro de Dilma.

A politica de Hugo Chaves que o mundo não ver

19-06-10

Venezuela na rota do socialismo

Chávez venceu todas as eleições sem esconder sua admiração por Fidel.

Muito poucos no Brasil levam o presidente Hugo Chávez a sério. A mídia, mero eco do Departamento de Estado, habituou-se a tratá-lo com um boquirroto inconseqüente com o agravante de ser autoritário. E a maior parte das esquerdas, por puro preconceito e ignorância, torce o nariz para o que imagina ser apenas mais um episódio populista e caudilhesco, com tintura nacionalista, tão comum na História do Continente.

É possível encontrar algumas dessas características no líder venezuelano. Mas isso não impede que ele esteja empreendendo uma aventura inédita neste canto do Mundo, desde a Revolução Cubana. Aventura esta que está-se tornando irreversível e que possui ineditismo também no fato de ter chegado até onde chegou, sem desrespeitar uma vírgula dos chamados preceitos democráticos e da própria Constituição do País. Nada do que Chávez fez até agora foi feito através de atos discricionários ou desrespeitando o Legislativo e o Judiciário.

Há, ainda, uma remota analogia entre a situação venezuelana e as da Hungria e da Tchecoslováquia nos anos 40 do século passado, quando governos provenientes de eleições legítimas, segundo os critérios da democracia burguesa, evoluíram para o socialismo revolucionário. Mas estes países, destruídos pela guerra, contaram com o apoio material, próximo e imediato, da União Soviética. Chávez conta apenas com os petrodólares.

A mídia brasileira, cada vez mais retardada se limitará a denunciar”, como num disco riscado, “as ameaças de Chávez à democracia. Nesse sentido a matéria de Veja, desta semana, é um resumo do pensamento dos grandes jornais e revistas brasileiros. A conclusão da matéria:

Com a intervenção no Banco Federal, Chávez passa a controlar 26% do setor bancário do país. Há dois anos, a participação era de 10,9%. “A política de desapropriações fere os princípios basilares da economia de mercado e do estado democrático de direito. Os empresários saem, o Estado assume, entra gente que não está preparada e, com isso, o país perde”, afirma Alberto Pfeifer, membro do Conselho Empresarial da América Latina”. (?)

26% é menos do que o Governo do Brasil ocupa no setor bancário e a metade do que ocupava até os anos 90 quando FHC promoveu sua privatização e a internacionalização. Como se vê, nesta área, a Revolução Brasileira está bem mais aditada que a de Chávez

Enfim, depois de convencer seis leitores de que Chávez é uma ameaça ao Capitalismo a revista (e esta é uma tendência geral da mídia) passam a enumerar os passos do presidente venezuelano de forma cronológica, como se lê abaixo::

11/6 - Autoridades decretam a prisão do empresário Guillermo Zuloaga, principal acionista da emissora de TV Globovisión, sob acusação de crimes financeiros.

13/6 - Chávez propõe mudar o nome de uma das maiores companhias de petróleo do mundo e uma das maiores fornecedoras de petróleo bruto aos Estados Unidos. A estatal venezuelana PDVSA passaria a se chamar Petróleos da Venezuela Socialista.

14/6 - Chávez nacionaliza o Banco Federal, pertencente a um dos sócios da Globovisión, citando problemas de liquidez e risco de fraude. Esse banco é responsável pela folha de pagamentos emissora, o que deixa os funcionários preocupados com o recebimento dos salários.

15/6 - A Assembléia Nacional aprovou a Lei de Terras, que condena o latifúndio e dá ao Estado um papel determinante no controle do setor alimentício. A medida cria uma empresa pública para a produção, fabricação, distribuição, comercialização e marketing, em nível nacional e internacional, de produtos agrícolas e alimentares.

17/6 - Chávez anuncia a desapropriação da empresa de autopeças Autoseat da Venezuela, que mudará de nome e ficará sob “controle operário”.

17/6 - O presidente avisa que o governo pode estatizar parte da Globovisión, última rede de televisão que faz oposição à sua administração.

Há muito primarismo e muita precariedade jornalística nisso tudo, além das habituais mentiras e omissões como por, exemplo, dizer vagamente que “autoridades decretam a prisão do empresário”, quando a iniciativa foi do Poder Judiciário, com base em um processo legal sobre corrupção e lavagem de dinheiro.

Mas o absolutamente inacreditável é que , sem querer, esses focas de luxo acertaram: Chávez (na verdade um Comando Revolucionário Informal do qual ele é parte) decidiu, sim, acelerar o passo da Revolução Socialista.

E fez isso, parcialmente, em função da crise mundial e da queda dos preços do petróleo. Pesou também o fato de a popularidade de Chávez que há um ano mantinha-se em torno de lulísiticos 70% de aprovação, ter caído para a faixa dos 50% em função, sobretudo, das crises de energia e do abastecimento, fatores circunstanciais e parcialmente superados. Seja como for, o Comando decidiu acelerar o passo, até porque há um fato concreto muito mais importante: a inflexão, para esquerda, da opinião pública mundial, em função do desmonte dos paradigmas neoliberais que predominaram durante 30 anos.

Em outros artigos desta coluna (que leitor poderá pesquisar, bem como os da coluna Para Entender a Crise) já falei da irreversibilidade da Revolução Venezuela. Como não cabem, neste blog, matérias muito longas, por hoje, vou repetir apenas duas informações que postei há cinco meses, quando houve intensa movimentação no ministério e nos bastidores do governo venezuelano. Na ocasião, assumiram os novos vice-presidente e ministro da Defesa. Quanto ao vice presidente, Elias Jaua Milano, basta dizer que ele é apontado pela Oposição como o membro do governo mais próximo de Fidel Castro. E quanto ao ministro da Defesa, general Juan Carlos Mata Figueroa, basta reler esta frase do seu discurso de posse: “Daqui para a frente a única direção é a Revolução”.

Muito bem: torço pela Revolução Bolivariana, mas temo que ainda falte a ela certa consistência teórica necessária para sua sustentação e continuidade. Me parece ser indispensável, nestes sentido, algo mais do que raciocínios esquematizados que datam das revoluções soviética e cubana. Elas são exemplo, mas não são cartilha, nem poderiam sê-lo, no momento em que há uma vertiginosa transformação no modo de produção globalizado, razão pela qual o Imperialismo “evolui” para sua etapa superior que chamo de Neofeudalismo. Neufeudalismo este que se caracteriza pelo monopólio das tecnologias (saberes) e pela terceirização da produção nas suas esferas inferiores.

A imprensa burguesa e venal, não me incomoda. Ela morrerá pela boca. Mas me inquieta ver a pasmaceira dos “intelectuais de esquerda”. Eles se arvoram em ditadores de regra e querem ser respeitados como “formuladores” (?). Mas em nenhum momento cogitam de baixar o queixo nos livros, não para extrair deles citações centenárias, mas para tentar atualizar textos fundamentais, porém inaplicáveis sem essa devida reciclagem.

E são esses intelectuais meia bomba que torcem o nariz para Chávez e Evo Morales, sem perceber que, empiricamente, embora, esses dois líderes, dão os primeiros passos, sim, na direção do Socialismo do Século XXI.

12-6-10

Brasileiro é porta-voz do
Departamento de Estado

Vejamos este texto de Hillary Clinton:
“Apoiar o Irã, uma ditadura teocrática completamente fora das leis internacionais e do respeito aos direitos humanos é um absurdo, ainda mais quando todo o Ocidente está trabalhando em conjunto para tentar controlar (…). Nem mesmo um pragmatismo comercial justificaria tamanho comprometimento. O Brasil não tem nenhuma razão para sair do bloco ocidental, especialmente por uma causa tão ruim para a Humanidade.”
Queiram perdoar. Este texto não é da Hillary Clinton e sim de Merval Pereira, colunista do Globo. Mas ela não o assinaria tranquilamente?
Agora vejamos as razões que este blog entende sejam as do governo brasileiro:
O Brasil não apóia qualquer tipo de ditadura, mas mantém relações diplomáticas e comerciais com todos os países com assento na ONU e é fiel ao princípio de não intervenção nos assuntos internos desses países.
O Conselho de Segurança da ONU e o privilégio de veto concedido a cinco países tornou-se, no seu atual formato, totalmente anacrônico. Esse formato é resultado do armistício da Segunda Grande Guerra (1945) e foi desenhado para acomodar uma situação geopolítica e geoeconômica absolutamente diferentes das que vivemos hoje. É preciso pelo menos ampliar o número dos países com a assento permanete no Conselho para eliminar o absurdo, por exemplo, de não haver ali nenhum representante da África e da América Latina.
O que desestabiliza o Oriente Médio e o transforma em fonte crônica de tensão é um mal de raiz: a não existência de um estado que conviva pacificamente com Israel e que abrigue os seis milhões de cidadãos, o povo palestino, que ocupa esta área há mais de dois mil anos e que vive, há seis décadas, a tenebrosa experiência de estar sem pátria dentro de sua própria terra, sem outra alternativa que a de buscar o exílio em terras alheias.
A questão do desarmamento, inclusive e principalmente o nuclear, passa por uma oxigenação do tema, e uma assepsia da brutal hipocrisia com que vem sendo tratado: aqueles que já estão armados querem manter os incabíveis privilégios decorrentes tão somente disso, do fato e de já estarem armados. Acresce que esses privilégios não ensejam apenas a chantagem atômica como também os altos lucros provenientes do diferencial tecnológico. Diferencial este que se perpetua quando se nega aos países emergentes o direito ao desenvolvimento autônomo de novas tecnologias.
Ninguém é, isoladamente, guardião da paz ou de qualquer tipo de civilização. Muito menos podem sê-lo aqueles países que já demonstraram, na prática, serem capazes de utilizar, no seu interesse particular, as armas mais covardes e brutalmente mortais e que sacrificam indistintamente militares ou civis indefesos de todas as idades.

04-06-10

A nova doutrina da política externa brasileira

No fundo, Lula defende o óbvio: a igualdade democrática entre todos os países membros da ONU. Mas o luminares da mídia fazem questão de não ver ou de ocultar isso de seus leitores.

Não sei o que está havendo com o Elio Gaspari: ele parecia tão articulado. Agora, em mal disfarçada defesa do terrorismo de estado de Israel, resolveu remeter para a lata de lixo toda a política externa do Brasil, fazendo da ditadura iraniana um cavalo de batalha. Não sou dos que, por conveniência, finge não ver os crimes do regime dos aiatolás e o monte de bobagens sobre o Holocausto que o Ahmadinejad vem dizendo há anos. Mas alguém precisa avisar ao Elio que o Brasil manteve e mantém estreitas relações comerciais e de amizade com ditaduras e ditadores bem piores.

O que está havendo então? Parece que o príncipe do colunismo de dois dos jornais brasileiros mais velhacos, o Globo e a Folha, está fazendo o pagamento semestral do aluguel que paga pelo espaço nestes dois latifúndios de nossa mídia. Durante cinco meses e 29 dias, Helio banca o independente e o irreverente (sempre petulante) capaz de dizer o que bem entende seja para quem for. Mas na véspera do pagamento ele acerta as contas e se alinha à doutrina destes dois veículos antinacionais e alinhados automaticamente com os interesses estratégicos, permanentes, dos Estados Unidos.

Em sua último artigo, Elio acusa o Irã de uma série de barbaridades não maiores do que as praticadas habitualmente pelos serviços secretos dos Estados de Israel. E nos brinda com esta pérola: “Lula argumenta que exerce no Oriente Médio uma função pacificadora, porque o Brasil “cansou de ser tratado como segunda classe”. Expandindo contenciosos e impondo conflitos que pouco têm a ver com o interesse brasileiro, pratica uma agenda de terceira”.

Agora vejamos outro texto publicado no dia seguinte, na mesma página 4 da Folha de S. Paulo e sobre o mesmo tema, com a diferença de que escrito por um homem sério, Janio de Freias: “Israel é uma população dividida em relação ao que faz, mas é um país de mãos livres para fazer o que quiser. E faz, implícita e explicitamente autorizado pela asseguradora cobertura da maior potência mundial”.

Finalmente, digamos com poucas palavras que não é difícil entender as linhas gerais da nova política externa brasileira, a primeira independente deste Getúlio e Jango:

1- Consolidar, tendo como alicerce o MERCOSUL, a integração economia e política da América do Sul .

2- Conter e/ou reverter a indevida e humilhante hegemonia norte-americana na América Latina.

3- Alçar o País no cenário mundial como interlocutor respeitado, compatível com sua grandeza física e coerente com sua imagem de nação pacífica e tolerante, através de um diálogo renovado, sem hipocrisias e imposições.

Só a ridícula e tacanha mídia local, agora com o reforço essencial do Super Gasperi, faz questão de não ver e o possível para que seu leitores não vejam que estes objetivos estão sendo plenamente alcançados. Dito assim parece simples, mas por sua complexidade e ações bem o concatenadas, este conjunto de políticas será estudado, em breve, como a nova doutrina da política externa brasileira.

28-05-10
A resposta da Bolívia ao destrambelhado Serra

O Itamaraty tem infomações de que nas próximas horas todos os países da América do Sul, exceto Peru e Colômbia, vão se solidarizar com a Bolívia. Com Serra na presidência, Brasil ficaria isolado.

Confirmando matéria postada hoje pela manhã (veja logo abaixo) neste blog, o Governo da Bolívia respondeu de forma dura às ofensas de José Serra cometidas na quarta-feira (26) durante entrevista à Rádio Globo. O teor da resposta mostra que a eventual eleição do tucano daria início a um clima de discórdia e desconfiança no Continente, colocando em risco a atual política de entendimento e cooperação que permite ao Brasil exercer uma liderança natural, sem pretensões hegemônicas.

Veja o trecho principal da resposta boliviana divulgada esta tarde pela Agência Estado:

“Irresponsáveis” e “político-eleitorais” foram as expressões utilizadas hoje pelo Ministério da Relações Exteriores da Bolívia para definir as declarações dadas pelo candidato do PSDB à Presidência, José Serra, que afirmou nesta semana que o governo boliviano era cúmplice do contrabando de cocaína para o Brasil. Segundo a chancelaria boliviana, as declarações do tucano foram “desaprensivas” (palavra usada para ”irresponsáveis”, ”imorais” ou ”inescrupulosas”)”.

28-05-10

Bolívia responderá hoje à agressão de Serra.

E Parlamento Sulamericano também falará

O Itamaraty foi informado ontem à noite que o governo boliviano prepara uma dura resposta à “agressão brutal e gratuita” sofrida pelo país, por parte do candidato José Serra. A avaliação da diplomacia brasileira é a de que serão inevitáveis manifestações de solidariedade à Bolívia por parte de quase todos os países do Continente, exceto Colômbia e Peru, subordinados à esfera de influência norteamericana.

O assunto será tratado também pelo Parlamento Sulamericano e pela Cúpula da UNASUL União das Nações Sulamericanas. Entretanto, o Itamaraty recebeu recomendações expressas do presidente Lula no sentido de evitar qualquer radicalização. O objetivo é evitar que a emoção predomine nesta questão delicada, o que poria em risco a própria unidade continental, conquistada a duras penas nos últimos oito aos e que fez tão bem à imagem do Brasil no cenário mundial.

Na mesma linha, Dilma Rousseff não deverá explorar o episódio durante a campanha até para não contribuir para o surgimento de um sentimento chovinista e fascistóide já notado em seguimentos da pequena burguesia européia. A candidata já deu seu recado dizendo que a Bolívia, por ser um vizinho mais frágil, deve ser tratada com carinho. No mais será explorado apenas o lado da personalidade do candidato tucano que revela total destempero quando atua sob pressão.

O mais interessante é que as lideranças mais sensatas do próprio PSDB, a partir de seu presidente senador Sérgio Guerra, já advertiram Serra de que ele deve baixar o tom. Tudo bem quando se trata de combater a violência e o tráfico ou mesmo quando se defende o interesse econômico do país, como é o caso do gás boliviano. Mas eles consideram que Serra errou no tom. E para que não digam que este blog é tendencioso, reproduzimos, abaixo, pequena nota encontrada ao pé da coluna Panorama Político do Globo de hoje:

“ESCORREGA . Embora concordem com no mérito com a crítica de Serra à Bolívia, tucanos acham que ele errou no tom, principalmente ao usar o termo “cúmplice” ao se referir à relação entre o governo daquele país e traficantes de cocaína”

A matéria logo abaixo é complemtno desta.

27-04-10

Na agenda de Serra, a destuição do MERCOSUL

Já sabíamos que José Serra não tem nervos de aço coisa nenhuma e que, destemperado, diz e faz as maiores asneiras. Mas ontem (quarta-26) ele passou dos limites e descredenciou-se como candidato à presidência, ao referir-se de forma grosseira e torpe ao povo boliviano e a seu presidente Evo Morales. Em declarações à Rádio Globo (só podia ser) ele responsabilizou o país vizinho por nossas mazelas em termos de violência e consumo de drogas. E fez isso usando argumentos falsos e palavras incompatíveis com os de um chefe de estado.

Este blog foi informado, ontem mesmo, que a UNASUL, União das Nações Sulamericanas, que reúne todos países do Continente, vai solicitar, formalmente, explicações do transtornado candidato tucano. Em verdade, nem mesmo o mais energúmeno dos direitistas norte-americanos refere-se de forma tão baixa a um país amigo e vizinho.

Eis as palavras textuais do candidato desastrado: “ Você acha que a Bolívia ia exportar 80% a 90% da cocaína consumida no Brasil se o governo de lá não fosse cúmplice”. Em seguida ironizou a amizade entre os presidentes Lula e Evo Morales: “essa coca vem da Bolívia onde há um governo amigo com quem se fala muito”.

Não é verdade que a cocaína que entra no Brasil seja proveniente da Bolívia nas proporções chutadas por Serra. O grande e tradicional fornecedor para o Brasil e para o Mundo é a Colômbia governada por Álvaro Uribe. Ali se localizam os grandes cartéis do crime organizado. Quanto a Uribe, um aliado dos Estados Unidos e ideologicamente afinado com os tucanos, há farta documentação comprovando as ligações de sua família (inclusive seu pai) com os chefões do narcotráfico. Sobre ele, Serra se cala.

Entretanto este é apenas o enredo policial da questão. O mais importante é registrar que o PSDB tem uma longa tradição de má vontade em relação ao MERCOSUL. No final dos anos 90 do século passado, Fernando Henrique quase detonou este mercado comum, no episódio da brusca desvalorização do real, o que colocou nossas relações com a Argentina em seu nível mais baixo.

Para ser ter uma idéia da importância do MERCOSUL diga-se que ele é hoje um dos nosso três principais parceiros comerciais (um terço do nosso comercio exterior), com a vantagem de que ao contrário do que acontece com a Europa e a China, vendemos para nossos vizinhos produtos industrializados, principalmente.

O mais importante, porém, é que o Brasil só alçou a condição de protagonista da cena mundial , plenamente aceito pelas grandes potências, graças ao fato de , antes, como primeiro degrau, ter alcançado a posição de líder natural da América do Sul, sendo, inclusive o idealizador da implantação da UNASUL que só existe, porque, com paciência , habilidade e generosidade, não permitimos que o MERCOSUL fosse fragilizado, um dos objetivos estratégicos dos Estados Unidos. Objetivo este notoriamente compartilhado pelos tucanos e pelas Organizações Globo.

15-01-2009
A integração sulamericana não pode ser
um acerto de elites, mas uma
legítima união a partir das bases populares

Comecei a sonhar com a integração sulamericana, há trinta anos, quando era correspondente da Folha de São Paulo em Buenos Aires. Ali, vasculhando a biografia de Juan Perón, topei pela primeira vez com este nome forte, Pátria Grande, idealizado pelo velho caudilho para sintetizar seu projeto de união continental. Nunca mais deixei de pensar no assunto e, há uns dez anos me transformei num decidido batalhador pela construção desta que será, mais rapidamente do que se imagina, uma das quatro maiores potências mundiais. Enfim, isto explica a existência desta coluna.

Durante toda esta luta, o que mais tem me inquietado é o misto de cegueira e ambigüidade com que as diversas elites nacionais do Continente lidam com este assunto. De um lado, elas perceberam, finalmente, que só tem a lucrar com a integração, mas isto faz com que elas pensem apenas nas vantagens aduaneiras do livre mercado, o MERCOSUL. Fica faltando ainda a visão estratégica e generosa de um pátria comum que, preservando as características individuais de cada república, não deixe de cimentar um pacto federativo, única forma de fazer frente às investidas das grandes potências de outros continentes
Em meio a essas considerações fui procurado por um grupo de jovens que me fizeram enxergar o óbvio: a construção da Pátria Grande é assunto sério demais para ser deixado nas mãos das elites. Com outras palavras: a União Sulamericana será construída a partir de suas bases populares ou será apenas um colcha de retalhos sem a unidade e consistência compatíveis com a ambição do projeto.
E é pela soma de todas estas razões que resolvi transformar esta coluna em espaço de divulgação a disposição da Ação Patriótica (da qual faço parte) e da Juventude Patriótica que adotaram como símbolo a figura emblemática de Tupac Amaru que, como nosso Zumbi dos Palmares, encarna o espírito libertário e verdadeiramente solidário dos povos da América do Sul.
Se você quer aderir ao projeto ou apenas colher mais informações, mande sua mensagem para este blog.

ORGANIZE EM SUA CIDADE, SEU BAIRRO, SINDICATO OU LOCAL DE TRABALHO UM NÚCLEO DA AÇÃO PATRIÓTICA E JUVENTUDE PATRIÓTICA.

30-09-09
Missão cumprida

Está aberto o diálogo democrático em Honduras, o que só foi possível em função da Operação Tgucigalpa, inciativa do Brasil. Com a chegada, hoje, dos representantes da ONU e da OEA, o golpe militar fica praticamene anulado. Para desespero da mídia brasileira vendida e dos analfabetos políticos, com seus xingamentos e ironias baratas. Veja foto da reunião em @AntonioVM

O fator Chávez

15/05/2009

Este blog recebeu no último dia 14 a correspondência enviada pelo senador Eduardo Suplicy a qual o leitor lerá logo abaixo e que me apresso em publicar porque, de forma brilhante, o texto elimina um falso problema, na verdade um quiproquó que poderá levar os senadores da República a cometerem um erro histórico de grandes proporções, talvez o maior de toda uma geração, caso venham a negar o ingresso da Venezuela no Mercosul. Dizendo de forma simplificada, tudo consiste em se compreender que não se estará votando o ingresso do presidente Chávez no Mercosul, mas o ingresso de seu país. País este que, sendo a terceira maior economia do continente, comporá, com o Brasil e a Argentina , a espinha dorsal da União Sul-americana que, assim como a União Européia, representa, nesta fase de intensa globalização ,a única forma de fazer valer, frente às demais potências mundiais, os interesses estratégicos, permanentes, dos países desta parte das Américas até aqui tão menosprezada. Seja como for, a verdade é que o presidente Hugo Chávez não está fazendo nada que vá contra o desejo da maioria do povo venezuelano.

A seguir o texto do senador Suplicy:

Na análise da permissão para a Venezuela ingressar no MERCOSUL é necessário considerar, em primeiro lugar, que acordos internacionais são celebrados por Estados com fundamento em seus interesses de longo prazo. Nesse processo de natureza estratégica e diplomática, governos são circunstanciais. Os compromissos de política externa constituem-se, por definição, em compromissos de países. Portanto, quem está aderindo ao MERCOSUL não é o atual governo venezuelano, mas sim a Venezuela, país vizinho com o qual o Brasil sempre manteve boas relações.

Não obstante essas constatações, é necessário reconhecer que o debate sobre a entrada da Venezuela no MERCOSUL, sempre oportuno numa democracia, ultimamente está um tanto distorcido. Com efeito, esse debate, que deveria ter como parâmetro essencial os interesses estratégicos dos Estados Partes e do próprio bloco, vem sendo conduzido, por vezes, com base em posições ideológicas, não raro marcadas pelo emocionalismo e o desconhecimento.

Assim sendo, parece essencial recolocar essa importante questão nos seus devidos parâmetros e eliminar do debate idiossincrasias políticas que não contribuem para o exame objetivo e amplo deste compromisso internacional de longo alcance.

Em parecer apresentado pelo Deputado Dr. Rosinha sobre esta mesma matéria na Comissão de Relações e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, ele efetua uma pormenorizada análise histórica dos vetores econômicos, comerciais, estratégicos e diplomáticos que, nos últimos 15 anos, adensaram significativamente as relações bilaterais Brasil/Venezuela e pavimentaram o ingresso desse nosso vizinho no MERCOSUL. Cabe recordar os principais dados e argumentos utilizados pelo ilustre parlamentar com o intuito de inserir a discussão da presente matéria em seu apropriado contexto histórico.

Até o final da década de 80 do século passado, a Venezuela estava relativamente isolada do seu entorno regional na América do Sul. A prioridade absoluta da sua política externa eram as “relações privilegiadas” com os EUA, grande comprador do petróleo venezuelano, seguida da sua projeção estratégica no Caribe, mar que a liga à América do Norte. Esse isolacionismo parcial da Venezuela, que aderiu tardiamente ao GATT e à Comunidade Andina, só começou a ser efetivamente revisto quando a relativa abundância de petróleo no mercado internacional, que fez diminuir o preço dessa commmodity, somada à crise da dívida, que viria a atingir fortemente aquele país ao final daquele decênio, produziu uma mudança na estratégia de sua política externa. De fato, a política externa regionalmente isolacionanista, baseada na noção de uma suposta superioridade político-democrática, na afluência econômica do petróleo e nas relações privilegiadas com os EUA, principal comprador dessa commodity, passou a ser substituída progressivamente por uma estratégia de inserção no cenário externo mais realista, na qual a América do Sul passou a ter lugar de destaque.

Em relação especificamente ao Brasil, a progressiva aproximação foi facilitada por fatores históricos e geográficos. Em primeiro lugar, a fronteira da Venezuela com o Brasil, a mais extensa daquele país (2.199 km), foi estabelecida definitivamente por um tratado de 1859. Assim, ao contrário do que ocorreu com seus outros vizinhos, Colômbia e Guiana, a Venezuela nunca teve disputas territoriais com o Brasil. Em segundo, as relações bilaterais, foram, em geral, cordiais, embora pouco densas para a sua potencialidade.

Entretanto, o fator desencadeador do adensamento das relações bilaterais Brasil/Venezuela foi a necessidade conjunta de desenvolver e povoar a região amazônica, compartilhada por ambos os paises. De um lado, o Brasil tinha o programa da Calha Norte, que seria posteriormente complementado pelo SIPAM e pelo SIVAM. De outro, a Venezuela tinha o PRODESSUR, com os mesmo objetivos estratégicos. Essa necessidade estratégica compartilhada por Brasil e Venezuela fez surgir planos bilaterais de integração energética, com o intuito de enfrentar os gargalos de infra-estrutura para o desenvolvimento de suas fronteiras amazônicas. Dessa forma, as estatais EDELCA e ELETROBRAS passaram negociar contratos, em 1993, com base em estudos feitos por um Grupo de Trabalho sobre Energia. Verificou-se que os rios amazônicos da Venezuela, com quedas d’água de potencial hidroelétrico superior, dada à presença próxima do planalto venezuelano, permitiriam fornecimento de energia venezuelana para o norte brasileiro, como de fato foi feito posteriormente.

Também no mesmo ano (1993), a Fundação Alexandre Gusmão FUNAG e o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais-IPRI, órgãos pertencentes ao Itamaraty, elaboraram, com a colaboração de especialistas de ambos os países, um diagnóstico bastante aprofundado das potencialidades da cooperação bilateral Brasil/Venezuela. Os resultados desse diagnóstico foram muito encorajadores, face à complementaridade das economias daquele país e do Brasil. Com efeito, a Venezuela, embora tenha abundância de petróleo e gás natural, tem uma economia pouco desenvolvida em certos setores industriais importantes, como máquinas e equipamentos, automóveis e bens de capital, setores nos quais a economia brasileira é bem mais competitiva.

Do ponto de vista do Brasil, a integração com a Venezuela permitiria o equacionamento de suas necessidades energéticas, facilitaria o desenvolvimento da região amazônica, de grande interesse estratégico, e criaria um corredor de exportação para o Caribe. Sob a ótica da Venezuela, a integração com o Brasil ensejaria a diversificação da sua estrutura produtiva, diminuindo a sua dependência econômica das exportações de petróleo e sua dependência política dos EUA. Desse modo, foram feitos planos para a integração da Petrobrás e PDVSA, a comunicação física de linhas de transmissão de energia elétrica (Manaus-Elétrica Del Guri) e a construção de estradas e pontes para conectar ambas as nações.

Vislumbrava-se, portanto, já naquela época, que a aproximação entre essas nações era inteiramente conveniente aos seus interesses maiores e que a cooperação poderia estar solidamente alicerçada em projetos econômicos, comerciais, de integração energética, de transportes e mesmo geoestratégicos.

O ponto de inflexão dessa aproximação foi a celebração do Protocolo de la Guzmania, firmado pelos presidentes Rafael Caldera e Itamar Franco, em 1994. Mediante tal protocolo, formulou-se uma tríplice estratégia de concertação entre ambos os países. Previa-se o desenvolvimento de ações na zona de fronteira, com o intuito de assegurar a ocupação e o desenvolvimento da região amazônica, o estímulo ao comércio e aos investimentos, assim como ações comuns destinadas à criação de uma zona de livre comércio na América do Sul.

A partir desse marco histórico, houve considerável adensamento das relações bilaterais Brasil/Venezuela. Entre 1995 e 2002, construiu-se uma agenda ampla e diversificada, na qual se destacaram as iniciativas em matéria de integração física e energética, o desenvolvimento fronteiriço e a cooperação em meio ambiente. Além disso, ampliou-se o intercâmbio comercial, com destaque para as compras de petróleo venezuelano, que passaram a situar a Venezuela como um dos principais fornecedores ao Brasil, e concluiu-se a construção das linhas de transmissão de energia elétrica entre a Venezuela e o Estado de Roraima. Também pavimentou-se a BR-174, que liga Manaus ao Caribe, possibilitando a criação de um corredor de exportação de grande relevância para a Região Norte do País.

Do mesmo período datam as tratativas para a criação de uma área de livre comércio entre a Comunidade Andina e o MERCOSUL e as primeiras manifestações oficiais favoráveis à entrada da Venezuela no Mercado Comum do Sul. Desse modo, cumpre destacar que já em sua primeira viagem como mandatário supremo à Venezuela, em julho de 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, em discurso proferido no parlamento venezuelano, que:

O MERCOSUL começa a identificar novos parceiros na América do Sul, onde estamos negociando formas de aproximação com a Venezuela, o Chile e a Bolívia, além do conjunto inteiro do Pacto Andino.Entre essas áreas, com sentido de prioridade (grifo nosso) dada pela vizinhança e pela intensidade da agenda, a aproximação com a Venezuela é natural. De sua parte, a Venezuela também manifestou, no mesmo ano (1995), seu interesse de aproximar-se ao MERCOSUL e formar uma estratégia dirigida a construir um mercado comum sul-americano, “antes do prazo estabelecido para a construção da área de Livre Comércio das Américas (ALCA), ou seja, antes de 2005”.

Vê-se, por conseguinte, que houve uma paciente construção histórica de interesses econômicos, comerciais e geopolíticos comuns, que perpassou governos de diferentes matizes políticos e ideológicos, tanto na Venezuela como no Brasil, e criou sólidas condições objetivas para a entrada desse nosso vizinho no MERCOSUL.

Assim sendo, pode-se dizer que a inclusão da Venezuela no MERCOSUL é, sob a ótica dos interesses brasileiros, apenas a culminação de um longo processo de adensamento das relações bilaterais Brasil/Venezuela iniciado no governo Itamar Franco, consolidado no governo Fernando Henrique Cardoso e concluído na administração de Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, a adesão da Venezuela ao MERCOSUL não tem nada de intempestiva e tampouco resulta de uma decisão política sem substrato econômico, comercial e histórico, como afirmaram alguns.

Nos últimos anos, o incrível crescimento da corrente de comércio Brasil/Venezuela, bem como dos investimentos públicos e privados efetuados em âmbito bilateral, tornam a entrada daquele país no MERCOSUL algo praticamente inelutável. Entre 2003 e 2008, as exortações brasileiras para a Venezuela passaram de US$ 608 milhões para 5,15 bilhões, um crescimento de 758% em apenas 5 anos. O mais interessante para os interesses brasileiros, contudo, não é esse extraordinário aumento, mas a qualidade de nossas exportações e o grande saldo comercial positivo que temos nesse âmbito bilateral específico.

Com efeito, cerca de 72% das nossas exportações para a Venezuela são de produtos industrializados (manufaturados e semimanufaturados), justamente os produtos que têm maior valor agregado e que geram mais empregos. Ademais, temos com a Venezuela um vultoso superávit comercial. Em 2008, obtivemos com esse vizinho do Norte um saldo positivo de US$ 4,6 bilhões. Mencione-se, para efeitos de comparação, que, no mesmo período, tivemos um superávit comercial com os EUA de apenas US$ 1,8 bilhão e, com o conjunto dos 27 países da União Européia, US$ 10,2 bilhões. Na realidade, só um país supera a Venezuela, no que tange à geração de saldos comerciais positivos para o Brasil. Trata-se da Holanda (Países Baixos), com o qual obtivemos, em 2008, US$ 9 bilhões de superávit. Não obstante, esse número extraordinário não foi obtido tanto em razão do dinamismo das relações comerciais bilaterais Brasil/Holanda, mas sim graças à importância do porto de Roterdã, que concentra boa parte da movimentação portuária de toda a Europa.

No campo dos investimentos, há projetos bilaterais de enorme vulto em execução, como o da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco e o da construção do metrô de Caracas, que poderão ser significativamente robustecidos. De fato, nos últimos anos houve aumento considerável de investimentos diretos bilaterais, seja através de empresas privadas, seja através dos fluxos gerados por mecanismos governamentais, como o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR) da Associação Latino-americana de Integração (ALADI). Destaque-se que, em 2007, a Venezuela concentrou cerca de 93% dos investimentos diretos efetuados com base nesse convênio, o que beneficiou várias empresas brasileiras que prestam serviços na região.

Obviamente, a entrada da Venezuela no MERCOSUL deverá aumentar substancialmente esses números já bastante significativos, uma vez que o potencial econômico-comercial da relação Venezuela/ Brasil e Venezuela/ MERCOSUL apenas começou a ser explorado. Face à complementaridade das duas economias, não há dúvida de que, no longo prazo, independentemente da evolução da crise mundial, a Venezuela deverá se converter, caso ingresse no MERCOSUL, num dos maiores parceiros econômicos e comerciais do Brasil.

Independentemente desses sólidos vetores históricos, econômicos, comerciais e geoestratégicos, que recomendam o célere ingresso da Venezuela no MERCOSUL, há aqueles que manifestam sua oposição ao protocolo em apreço.

Os argumentos dos opositores da inclusão da Venezuela no MERCOSUL cingem-se, em geral, a críticas ao regime do presidente Hugo Chávez. O principal deles tange à suposta incompatibilidade entre o atual regime político da Venezuela e o compromisso democrático do MERCOSUL, inscrito no Protocolo de Ushuaia, firmado em 1998. Porém, tal instrumento prevê a possível retirada de um Estado Parte apenas no caso em que haja ruptura da ordem democrática. De fato, o artigo 2 do Protocolo de Ushuaia reza que:

O presente Protocolo se aplicará às relações que decorram dos respectivos Acordos de Integração vigentes entre os Estados Partes do presente Protocolo, no caso de ruptura da ordem democrática (grifo nosso) em algum deles.

Fica claro, por conseguinte, que o Protocolo de Ushuaia só pode ser acionado em caso estrito de fratura severa na ordem democrática. O mesmo vale para a Carta Democrática da OEA, aprovada em 2001, que também tem cláusula semelhante (artigo 19). Assim, a questão que se coloca é se há atualmente na Venezuela uma efetiva ruptura da ordem democrática.

Embora considere que a opinião dos que se opõem ao ingresso da Venezuela no MERCOSUL deve ser respeitada deve-se considerar que não há fatos que consubstanciem essa tese. Apesar dos questionamentos relativos à não-renovação da licença do canal RCTV, feita ao abrigo da lei venezuelana sobre o tema, editada em 1996, a Venezuela tem uma imprensa bastante atuante que faz oposição ferrenha ao governo Chávez, o que assegura a divulgação livre de informações própria dos regimes democráticos. Há também partidos contrários ao regime chavista, como o COPEI e a Ação Democrática, de histórico enraizamento na sociedade venezuelana, que oferecem, quando decidem participar de eleições, alternativas de poder aos cidadãos da Venezuela.

Assinale-se que, nos últimos anos, houve crescimento significativo da oposição venezuelana. Em dezembro de 2007, a oposição ao governo Chávez foi vitoriosa no referendo relativo à reforma da Constituição da Venezuela, o que parece demonstrar que a tese da ausência de limites para reeleições não tem apoio político suficiente para prosperar, no próximo referendo constitucional. Nas eleições provinciais de novembro de 2008, embora o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), chavista, tenha obtido a maior parte dos votos no cômputo geral, a oposição conseguiu importantes vitórias nos estados mais populosos e economicamente dinâmicos (Carabobo, Táchira, Nueva Esparta e Miranda), bem como na capital, Caracas, e na cidade de Maracaibo.

Observe-se, além disso, que em todos os pleitos eleitorais realizados ao longo do governo Chávez, acompanhados por inúmeros observadores internacionais, não houve denúncias comprovadas de fraudes e vícios que tivessem comprometido os resultados, o que poderia ter afetado, de fato, a ordem democrática venezuelana.

A bem da verdade, a última vez que houve ruptura da ordem democrática na Venezuela foi quando setores militares venezuelanos deram um golpe contra o governo Chávez, em março de 2002. Tanto é assim, que, à época do golpe, o Conselho Permanente da OEA foi acionado e chegou a um consenso sobre a necessidade de intervenção com base na Carta Democrática. Só não foram tomadas medidas efetivas, como a suspensão da Venezuela da OEA, porque o golpe foi prontamente revertido.

Em relação ao argumento de que o governo Chávez poderia “perturbar” o MERCOSUL, deve-se observar que as decisões nesse bloco econômico têm de ser tomadas por consenso. Ademais, ante o enorme peso específico econômico, demográfico, territorial e político que o Brasil tem no MERCOSUL, parece-nos impossível que isso venha a acontecer. De outro lado, abstraindo os arroubos retóricos do presidente Hugo Chávez, é do interesse objetivo e estratégico da Venezuela que o MERCOSUL se consolide de forma racional e pragmática para melhor projetar as reivindicações dos Países Membros no cenário internacional. Nenhum Estado Parte tem interesse num MERCOSUL dividido e conturbado.

Há, ainda, o argumento de que o Protocolo de Adesão da Venezuela ao MERCOSUL só poderia ser aprovado pelo Congresso Nacional, quando as negociações técnicas do Grupo de Trabalho criado por seu Artigo 11 estejam concluídas. Ora, se tivermos de esperar pela resolução definitiva de pendências técnicas para aprovarmos os atos internacionais do MERCOSUL, teríamos de rever até mesmo o Tratado de Assunção, pois ainda não conseguimos finalizar a união aduaneira e eliminar a dupla cobrança da TEC, entre várias outras questões operacionais e jurídicas que afetam o processo de integração. Mas, em referencia especificamente às negociações técnicas criadas pelo Artigo 11 do Protocolo, é preciso assinalar que sua primeira fase foi concluída com êxito em março de 2007, sendo que o Conselho do Mercado Comum, através da Decisão nº 12/2007, prorrogou-as para que algumas questões pudessem ser resolvidas. Entre essas, destaca-se o cronograma de liberação comercial Brasil/Venezuela, o qual está, hoje, praticamente acordado, faltando somente o acerto de alguns detalhes que deverá estar concluído nos próximos meses.

Temos de ter, no MERCOSUL, a mesma tolerância e visão estratégica que nortearam a integração da União Européia, a qual soube consolidar-se apesar de notáveis diferenças políticas conjunturais e de retrocessos eventuais. Processos de integração nunca são harmônicos. Há sempre conflitos e assimetrias a serem resolvidos, especialmente quando eles ainda estão em fase de consolidação. Por isso, diferenças políticas entre governos não devem ser encaradas como obstáculos insuperáveis à integração, mas sim como desafios naturais do longo e complexo processo de construção de um mercado comum.

É necessário ponderar também se o isolamento político-diplomático da Venezuela, que a rejeição deste ato internacional inevitavelmente acarretaria, convém aos interesses do Brasil, do MERCOSUL e da América do Sul. Acreditamos que não.

Com a adesão da Venezuela, o MERCOSUL passa a constituir um bloco com mais de 250 milhões de habitantes, área de 12,7 milhões de km², PIB superior a um trilhão de dólares (aproximadamente 76% do PIB da América do Sul) e comércio superior global superior a US$ 300 bilhões. Nesta nova configuração, o Mercado Comum do Sul torna-se um dos mais significativos produtores mundiais de alimentos, energia e manufaturados.

Por conseguinte, trata-se, aqui, de consolidar e ampliar o MERCOSUL, objetivo estratégico de todos os Estados Partes que o compõem e da própria Venezuela. Esse processo de consolidação e ampliação do MERCOSUL, do qual o presente protocolo é um instrumento, vem sendo impulsionado por políticas de Estado dos signatários do Tratado de Assunção, e não por idiossincrasias de governos específicos.

Essa consolidação e ampliação do MERCOSUL, da qual a adesão da Venezuela é uma das vertentes, torna-se emergencial nessa conjuntura de grave crise mundial. A inevitável redução dos fluxos mundiais de comércio e de investimentos que a crise já vem acarretando, demandará medidas fortes de estímulo ao comércio regional e aos investimentos intrabloco. Por isso, o próprio Parlamento do Mercosul aprovou Recomendação ao Conselho do Mercado Comum, na qual coloca-se ênfase na necessidade de promover os fluxos comerciais e de investimentos regionais e de ampliar e consolidar do processo de integração.

Face essa argumentação do Deputado Dr. Rosinha, bem como a de muitos especialistas em relações internacionais creio que a adesão da Venezuela ao MERCOSUL vai ao encontro dos interesses de seus Estados Partes, especialmente nesta conjuntura de grave recessão mundial.

Cordialmente,

Senador Eduardo Matarazzo Suplicy

E os palestinos?

30/04/2009

Mesmo que não tenha ligação direta com os temas deste blog, não posso deixar de comentar a campanha movida contra a visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil. O movimento foi bem revelado na coluna de Merval Pereira do dia 29 de abril, onde é reproduzida a argumentação do ex-chanceler Celso Lafer, ao que parece, um dos líderes do boicote pouco diplomático ao presidente eleito de uma nação amiga e convidado do governo brasileiro.

Os argumentos do diplomata: a Constituição brasileira fala na prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais. Por conta disso (estou transcrevendo trecho da coluna do Merval), no correr dos tempos, o governo brasileiro tem assinado diversos tratados sobre o assunto.

“ A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi concebida como um caminho para se atingir uma relação amistosa entre os povos, e favorecendo a paz, lembra Lafer (continuamos transcrevendo a coluna), e em decorrência dela nasceu o Pacto dos Direitos e Políticos, que o Brasil assinou, além de um tratado regional, o Pacto de São José. Os dois documentos afirmam basicamente a mesma coisa: caberá aos países signatários proibir a propaganda em favor da guerra e toda a apologia ao ódio nacional, racial ou religioso e o incitamento à violência e ao crime”.

O discurso de Lafer, visto de forma genérica é irretorquível, mas eu não quero nem pensar no que ele seria capaz de dizer e fazer às vésperas, por exemplo, de uma visita do presidente chinês Hu Jintao ao nosso país. Mas a questão é outra: como ficam, nesta discussão, os palestinos ? Um povo numericamente superior aos judeus que vivem em Israel, e que ,desde 1949, vem sendo sistematicamente expulso,segregado ,humilhado, esmagado e, por fim, chacinado dentro dos limites do território onde vive há mais de dois mil anos. Há pouco mais de três meses,milhares de civis palestinos foram agredidos e mortos pelas tropas israelenses num brutal e escancarado crime de guerra denunciado por altos dirigentes da própria ONU. Quem poderá convencer a estas vítimas brutalizadas e a seus parentes e a seus patrícios que os israelenses são mais humanos e que seus direitos são mais direitos?

Até a próxima

Alfonsín, Sarney e a mídia idiotizada

02/04/2009

Cheguei a supor que não me surpreenderia mais com a crescente idiotice da grande mídia nacional. Mas ela , imbatível, se supera a cada dia e esta acometida de uma verdadeira doença que decorre do alto grau de alienação obtido através de uma perfeita interação neurótica com a nossa alta classe média. Elas interagem para protegerem-se, talvez, de notícias ruins que eventualmente contrariem seus interesses. Seja como for, elas estão inabilitadas para lidar com a realidade. Realidade da qual elas passaram a ter uma visão distorcida, o que não impede que, em alguns casos, a distorção seja deliberada.

Vejamos um caso concreto e imediato: a morte do ex-presidente argentino Raúl Alfonsín que é apontado por nossos vetustos jornais como uma dos campeões da redemocratização de seu país, o que é verdade. Ele assumiu a presidência em 1983, sucedendo ao último general de uma linhagem que a partir de 1976 notabilizou-se por uma ditadura das mais sanguinárias do continente.

Até aqui tudo bem, mas começamos a pisar no terreno da ficção maldosa quando nossa mídia acrescenta que Alfonsín não conseguiu concluir o seu mandato porque foi vítima de incidiosa campanha movida pelos peronistas, estes populistas irresponsáveis o descontentamento popular às greves, às ruas e à baderna, só porque a taxa de desemprego atingira a taxa record de

8,4 %. Neste ponto, é preciso que Alfonsín e seu Partido Radical (liberal apesar do nome) não estavam sozinhos quando destronaram os militares. Na verdade, foi preciso que os peronistas

fossem mais uma vez às ruas , exatamente como em 1973, quando outra ditadura militar foi derrubada, propiciando o retorno de Perón. Aliás, durante a luta os peronistas não se limitaram aos protestos ditos civilizados e recorreram à luta armada. Nesta época, eles mereceram da mídia brasileira adjetivos que iam de baderneiros a terroristas. Em todo caso, não se pode omitir que o sucessor de Alfonsín, Carlos Menen, um peronista histórico, também deixou-se enredar pela ortodoxia do Fundo Monetário Internacional e pela conversa do Consenso de Washington. Como resultado, literalmente, quebrou a Argentina.

Entretanto, à medida em que escrevo estas linhas, vou despertando a memória que viaja para o longinquo ano de 1957, quando Juscelino profetizou que Frondize outro presidente argentino ligado ao Partido Radical seria deposto porque cedera às exigências do FMI. “Eu não me submeti e transmitirei o cargo para meu sucessor legitimante eleito”, concluiu ele.

Mas voltemos à nossa mídia. Na cobertura da morte de Alfonsín, só de relance ela lembrou que o presidente argentino e seu colega brasileiro, José Sarney, comportaram-se como verdadeiros estadistas ao removerem todos os obstáculos diplomáticos, para, em seguida assinarem o Tratado de Assunção que daria origem ao Mercosul – versão modesta do Mercado Comum Europeu -, que, no entanto, assim como lá, pode ser embrião de uma federação, a União das Nações Sul-americanas, que questão de desacreditar.

Nossos jornalistas, sempre que podem, procuram ignorar esta nova entidade que, apesar deles, já atua e começa a pavimentar o caminho a construção de um poderosos bloco econômico, política e militarmente integrado, sendo provável que nos próximos anos se apresente ao mundo como uma potência emergente de importância capital, dentro da nova geopolítica global que começa, na presente década a ser desenhada. Esta é a realidade que provoca agonias, tanto na mídia e nas elites brasileiras, como em seus patrões de olhos azuis.

Não é para menos: a União Sul-americana é a única entre as grandes potências que pode ostentar auto-suficiência em energias de todos os tipos, bem como em proteínas animais e vegetais, fator de incomparável importância estratégica.

Confesso que recordo com nostalgia a velha imprensa que deu cartas no meio seculo que medeia os anos 40 e 90 nos brindou com personagens antológicas como, só para citar alguns, Carlos Lacerda , Samuel Wainer, Cláudio Abramo e Mino Carta, este, o último moicano de uma tribo que não cabe mais no atual formado medíocre e estéril que, aliás, está sendo siderado pela Internet, este monstro a ser decifrado. A velha mídia não atendia por este nome, era – se isso for possível- romanticamente corrupta, políticamente incorreta, mentia e chutava com grandeza, mas não era idiota.

Ainda neste semestre, o Senado brasileiro deverá dizer sim ou não ao ingresso da Venezuela no Mercosul. Esta adesão é de radical importância para a consolidação da União Sul-americana, porque, se o tripé Brasil-Argentina-Venezuela for solidamente fincado no continente estará da a condição de irreversibilidade ao projeto da Pátria Grande Sul-americana, como Juan Perón a chamou um dia. Tudo isto, independente das extrapolações de lideranças polêmicas porém transitórias.

A grande mídia insensata e seus anões alienados então assetando suas baterias de ódios, preconceitos e desinformações deliberadas , na tentativa de barrar o ingresso venezuelano. Se eles vencerem, estaremos assistindo a um desastre histórico de proporções gigantescas.

Até a próxima