domingo, 13 de junho de 2010

Fatos e possibilidades Eleitorais para 2010

E Serra, quem diria, pode perder a eleição em São Paulo

Na verdade, ele vence em seu Estado, mas não com a diferença necessária para compensar a vantagem de Dilma no Rio e no Nordeste. Além de Quércia que começou a afastar-se na semana passada, agora é Geraldo Alckmin que fecha os olhos para abertura de comitês Dilmin (Dilma/Alckmin).

Na série de análises que tenho feito sobre pesquisas e tendências, sempre raciocinando junto com o leitor, já afirmei que a eleição pode ser decidida em Minas. O balanço simplificado é o seguinte: Serra sairia de São Paulo com uma vantagem entre seis e oito milhões de votos. Nos estados do Sul, somados, ele já foi mais forte, mas ainda tem uma sobra de cerca de dois milhões, graças principalmente, ao Paraná. Este é o seu saldo.

Dilma Roussef vence Serra por larga margem no Norte e Nordeste e no Estado do Rio com um saldo em torno de dez milhões de votos. No Sudeste e em Minas, a petista leva pequena vantagem, em torno de dois milhões de votos.

Quem duvidar de todos estes números que consulte o blog do Cesar Maia (dos políticos na ativa, o mais bem informado) e a coluna do Merval Pereira (Globo) que quando não resolve ser faccioso mostra que conhece bem as tendências eleitorais, até porque ele tem aceso ao “porão” das pesquisas, aqueles relatórios que o IBOPE, por exemplo, fornece a clientes especiais, com números que não chegam ao grande público.

Sendo assim, os dois principais candidatos, por enquanto, já traçaram suas estratégias e seus roteiros de viagem. Dilma se concentra mais em Minas e em São Paulo. Serra dará prioridade a Minas, Paraná – que ele considera uma extensão do eleitorado paulista – e Rio. Entre os cariocas ele quer pegar carona na razoável popularidade de Fenando Gabeira que terá que se desdobrar, em seu palanque multi-uso, para servir ao tucano e à Marina ao mesmo tempo.

Em Minas, a candidata de Lula que é mineira de nascimento, aposta nas defecções entre os tucanos. Todos sabem que Aécio elegeu-se duas vezes governador permitindo a combinação de seu nome com o de Lula que venceu ali nas duas últimas eleições.

E como todos também sabem, a prioridade de Aécio é eleger-se senador e fazer Antônio Anastasia seu sucessor. Dentro deste espírito, ele fechará os olhos para a dobradinha pirata Dilmaia (Dilma/Anastasia) que já corre solta pelo Interior do Estado. Além disso, numa obra prima de mineirice, já enviou telegrama cifrado para Fernando Pimentel, candidato ao Senado pelo PT. Como este ano serão eleitos dois senadores, é possível antever a dobradinha Aécio/Pimentel. Nesse caso quem pode dançar é Itamar Franco, candidato a senador pelo PPS.

Mas é São Paulo que nos reserva a grande surpresa. Além de Quércia que desde a semana passada começou a afastar-se de Serra, permitido a abertura de comitês Dilma-Mercadante-Quércia, agora é nada menos que Geraldo Alckmin quem fecha os olhos para os comitês Dilmin (Dilma/Alckmin) que começam a pipocar no interior do Estado, numa iniciativa de prefeitos do PMDB, do próprio PSDB e de partidos menores. Neste caso, além de Serra, Mercadante (candidato petista ao governo do Estado) também fica no prejuízo.

O jogo pesado

O leitor não deve estranhar todas estas aparentes extravagâncias que são, entretanto, comuns na política. E, no caso especifico de Serra, há uma explicação razoável: desde os longínquos tempos em que presidiu a UNE, ele sempre foi conhecido por “jorgar pesado”. Jogar pesado quer dizer, nos bastidores políticos, uma forma fria e inescrupulosa de tratar como inimigos a adversários eventuais, muitos dos quais eram parceiros até à véspera.

Neste jogo, Serra não vacila em usar instrumentos perigosos como seria o caso de se recorrer ao aparelho policial (federal ou estadual) ainda hoje majoritariamente tucano. Para eliminar dúvidas, perguntem para a Roseana Sarney, para o Aécio Neves, o Tasso Jereissati e até o Geraldo Alckmin, porque eles odeiam tanto o Serra.

Finalmente, uma curiosidade. Embora eu sempre valorize em minhas analises a questão do eixo ideológico, sempre negligenciado pelos marqueteiros (em sua maioria analfabetos políticos), não ignoro as peculiaridades regionais e estaduais do eleitorado. Aqui, como nos Estados onde há estados republicanos e, outros, democratas, existem os estados tucanos e os lulistas. Eu não disse petistas que é um fenômeno bem mais restrito.

10-06-10

Até Quércia, que parecia uma craca, já
está abandonado barco de José Serra

As pesquisas negativas fizeram com que Serra perdesse, na reta final para as convenções, uma série de aliados importantes na maioria dos estados. E isto, apesar de o Globo ter omitido dados essenciais do último IBOPE. No Interior de São Paulo já estão proliferando comitês eleitorais Dilma-Mercadante-Quércia.

Só na última terça-feira o IBOPE divulgou o relatório completo da pesquisa presidencial realizada na semana anterior. E aí aparecem dois dados essenciais que o Instituto e o Globo pretenderam ocultar: o primeiro, mal divulgado, é o da pesquisa espontânea, quando não é apresentado nenhum nome ao entrevistado. Nele, Dilma aparece pela primeira vez na frente de Serra, (dois pontos) E isto é crucial, porque este é o tipo de voto que revela uma tendência definitiva. Só em situações excepcionais (grandes escândalos), o voto espontâneo é revertido.
O mais importante, porém, é o dado da votação por sexo. E este foi totalmente omitido pelo Globo. Entre os homens, Dilma tem 24% contra 15% de Serra, uma diferença enorme. Entre as mulheres, Dilma tem 16 contra 14%. Para explicar esses números, sempre haverá teorias infantis dizendo que no Brasil, mulher não vota em mulher.
Mas não é nada disso. Os especialistas sabem que o que há é que no País, infelizmente, as mulheres só se interessam e se informam sobre política, muito tempo depois dos homens. E há um consenso no sentido de que, aos poucos, vai havendo uma homogeneização dos votos entre os dois sexos, com a aproximação do voto feminino aos números do masculino. Disso resulta que a vantagem de quase 10 pontos obtida por Dilma entre os homens revela, também, uma tendência de difícil reversão.

Trair e coçar…

Com base na leitura do último IBOPE, por assessores especializados, o partidos promovem uma espécie de realinhamento, agora, às vésperas de suas convenções. Como resultado, a candidatura de Serra sofre pesadas baixas.
Não há espaço, aqui, para verificar a situação de cada estado, mas merecem menção os seguintes movimentos ocorridos nos últimos sete dias: o PMDB do Rio Grande do Sul, simpático a Serra, “evoluiu” para uma posição de neutralidade e o de Santa Cantarina, antes serrista, fechou com Dilma. O PP da dupla Maluf/Dornelles está evoluindo da “neutralidade” para o apoio à petista. Já o PDT do Paraná, com seu candidato ao governo, Osmar Dias, finalmente chegou a um acordo com o PT.
Das seções do “PMDB dissidente” que namorava Serra, parece que só as de Pernambuco e do Mato Grossodo Sul não abandonaram o tucano. O mais extraordinário, contudo, está ocorrendo em São Paulo, onde o chefe local do PMDB, Orestes Quércia (candidato ao Senado) que estava grudado a Serra como uma craca a um casco de navio, já permite que seu nome seja usado numa aliança com Dilma Rousseff. É assim que o presidente nacional do partido, Michel Temer (o vice de Dilma), foi autorizado e já está montando pelo Interior do Estado, comitês eleitorais com os nomes de Dilma, Mercadante ( candidato do PT ao governo) e Quércia.

08-06-10

Serra vai à convenção sem vice. Será que ainda espera por Aécio?

Coincidência ou não, assim que José Serra encerou, ontem, sua viagem a Minas, onde fez campanha ao lado de Aécio Neves, o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra, informou que o tucano irá para a convenção do partido, sem vice. A lei permite isso, mas não é natural que um candidato à presidência compareça à festa de homologação de seu nome, sem um companheiro de chapa. A convenção será agora, no próximo sábado e a data limite para o registro da chapa completa é 30 de junho.

De qualquer forma, bastou esta informação para que reacendessem as especulações sobre a possibilidade de Aécio vir a ser o vice. Bobagem. Aécio já foi mais do que claro na sua recusa e insistir no assunto só serve para fragilizar ainda mais a candidatura de Serra. Passa a impressão de que sem Aécio não há possibilidade de vitória e, pior: revelaria que ninguém quer ser o companheiro do paulista.

De Minas veio outra notícia ruim para Serra: o PT local oficializou seu apoio a candidatura de Hélio Costa (PMDB) ao goveno do Estado, abrindo mão da candidatura própria, a do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Na verdade, tudo não passou de jogo de cena A direção mineira do PT e o próprio Pimentel precisavam dar uma satisfação ao eleitorado e à militância, fazendo parecer que lutou-se bravamente pela candidatura própria, até ceder às pressões da direção nacional do partido e do próprio Lula. Pura encenação. Pimentel é íntimo de Dilma Rousseff e dirigiu a campanha dela até dois dias atrás. Em todo caso, com o fim das especulações, o PMDB mineiro não precisa mais ameaçar fazer corpo mole em relação à candidata petista.

E como desgraça pouca é bobagem, de Santa Catarina veio outra noticia ruim para Serra. O PMDB local, tradicional aliado dos tucanos, fechou acordo com o PT. O candidato a governador, Eduardo Moreira, já ofereceu seu palanque para Dilma.

05-06-10

A manipulação chegou ao limite.
Agora IBOPE e Globo terão que
confessar a vantagem de Dilma

Não dá mais para esconde: Dilma e Serra estariam empatados em 37% na pesquisa IBOPE/Globo finalmente divulgada. Isto quer dizer que, pela margem de erro, Dilma pode estar com 39% e Serra com 35%. Ou vice-versa. A lógica, entretanto, mostra que a primeira hipótese é a mais provável. Isto porque, como tenho dito sempre neste blog, é preciso estar atento para o fator tendência. Então vejamos: em fevereiro Serra estava com 41%, Dilma com 28. Há 30 dias, Serra estava com 40% e Dilma com 32. Agora, o IBOPE esconde-se atrás da margem de erro e nos apresenta este empate improvável. É como se a TV mostrasse o momento da ultrapassagem e congelasse a imagem.

Na verdade, Dilma já deve estar de 4 a 5 pontos à frente, como dissemos em matéria de três dias atrás. Veja coluna Coisas da Política deste blog. Mas deixemos pelo mais barato e fiquemos com este empate fajuto de 37%. De acordo com a nítida tendência confessada pelo próprio IBOPE é fácil imaginar que daqui a trinta dias não haverá mais manipulação possível.

Por esta mesma última pesquisa Marina está com 9%. Na margem de erro, poderia estar com 11%. Aqui, novamente pode ser detectado o vírus da manipulação. Como informei na matéria referida acima, eles farão o possível para “segurar” a candidata verde na casa dos 10%. Isto porque sabem que se ela superar essa casa, o “voto útil” vai começar a agir em seu favor e ela avançará ainda mais rapidamente sobre o eleitorado de Serra.

Finalmente, registre-se que a rejeição de Serra, 21%, já superou a das concorrentes, ambas com 15%. Se continuar com seu discurso ultra direitista a rejeição tende a crescer ainda mais rapidamente.

05-06-10 (postada pela manhã)

Fim da picada. Serra começa a derreter também no Sul

Suspense! O Globo já recebeu (há 24 horas)o último IBOPE das eleições presidenciais. Por que não divulga o resultado?

Já sabemos que, segundo o IBOPE (que o Globo não divulgou), Dilma está 19 pontos à frente Serra no Rio e 5% em Minas. Em São Paulo o tucano ainda vence com folga, vantagem de 9 milhões de votos. E no Sul? No Sul havia empate técnico até a semana passada. Não há mais. Dilma já está na frente entre o eleitorado gaúcho.

O extraordinário é que as organizações Globo têm todos esses dados à sua disposição. Montenegro, o dono do IBOPE, trabalha na casa, é uma espécie de agregado da Família Marinho. Mas eles não fornecem estas informações ao seus eleitores, obrigação elementar que covardemente não cumprem.

Querem um exemplo: há três dias informamos neste blog que, segundo o IBOPE, Dilma está na dianteira em Minas. Informamos também que para o governo do Estado havia empate técnico entre Antônio Anastasia, candidato de Aécio Neves, e Hélio Costa (PMDB ), apoiado pelo PT. O embate persiste se no lugar de Hélio entrar o petista Fernando Pimentel. Pois, bem. Hoje, sábado, na coluna Panorama Político, o Globo dá essa informação atrasada, a do empate. Mas da forma mais leviana omite o principal, os tais cinco pontos que Dilma tem sobre Serra no Estado.

É o exemplo clássico de manipulação e desrespeito ao leitor. Omite-se o mais importante e se oferta o secundário. Esse jornalismo do Globo realmente não vale nada.

Quanto à vantagem (pequena) de Dilma no Rio Grande, ela se deve à virada de mão do PMDB local: José Fogaça, prefeito de Porto Alegre e o ético senador Pedro Simon, quase sempre aliados dos tucanos do Estado, inclusive da super-ética governadora Ieda Crusius, fizeram uma prudente escalada do muro e declararam sua neutralidade.

04-06-10

Wagner Montes, PDT, pode garantir
segundo palanque para Dilma no Rio

Um almoço inocente degustado, hoje, no centro do Rio, pode resultar em mais um palanque para Dilma Rousseff no estado. Cansado de ser apenas coadjuvante, o pessoal do PDT fluminense decidiu não depender apenas do governador Sérgio Cabral e articulou-se com o ex-governador Antony Garotinho atualmente impugnado pela Justiça Eleitoral.

Entre a sobremesa e o cafezinho desenhou-se num guardanapo a candidatura do intrépido repórter policial Wagner Montes, o melhor ibope do PDT do Rio. O vice seria indicado por Garotinho que se conformaria em disputar uma vaga de deputado federal. Marcelo Crivela (Universal) e Miro Teixeira (PDT) seriam candidatos ao Senado.

Para os preconceituosos, Wagner Montes é apenas uma espécie de Datena com sotaque carioca. Ocorre que o último IBOPE revelou que se ele for candidato poderá ser mais bem votado que o Gabeira e levará a disputa para o segundo turno. Até agora, acreditava-se que Cabral eliminaria a fatura no primeiro turno.

29-05-10

Tucanos ainda pensam em Aécio…
Mas como candidato a presidente

Com a notícia de que Dilma já está cinco pontos à frente na próxima pesquisa, o que parecia uma bravata ou sonho remoto (ver texto abaixo), adquiriu contornos de realidade. Serra pode estar literalmente na parede: renuncia ou enfrenta Aécio na convenção. Veja detalhes na coluna Coisas da Política.

Da mesma forma que em minha matéria de ontem (ver coluna Coisas da Política), inicio este texto com a advertência de que não acredito na viabilização do projeto que descreverei a seguir. Mas o descrevo porque ele realmente está rolando no arraial tucano: algumas das principais lideranças do PSDB e do DEM que sempre defenderam a candidatura de Aécio Neves no lugar da de José Serra, acreditam que ainda é possível lutar pela candidatura do herdeiro de Tancredo na convenção partidária do próximo dia 12 de junho.

O argumento singelo e verdadeiro é o de que, como há um nítido consenso de que a candidatura de Serra tem chances mínimas de vitória, não faz sentido, salvo em caso de masoquismo explícito, insistir com ela. E os mais velhos recordam uma histórica convenção da UDN no longínquo ano de 1959, quando Carlos Lacerda, com inacreditável audácia, mudou o rumo de uma convenção com cartas marcadas e em pleno curso.

A convenção era presidida pelo deputado banqueiro Herbet Levy e destinava-se a, burocraticamente, apenas homologar a candidatura de Juracy Magalhães que enfrentaria a favorita chapa Lott/Jango que reunia as forças majoritárias dos antigos PSD e PTB, dois partidos getulistas. Foi quando, num discurso fulminante, Lacerda virou o jogo e conseguiu sair da convenção com a indicação de Jânio Quadros. O resto da história, todos conhecem.

Os defensores desta operação que poderia ser batizada como “Carlos Lacerda”, bem como suas razões, estão descritos na referida matéria de ontem da coluna Coisas da Política. Mas vale repetir o argumento irrespondível: se os próprios serristas diziam que sem Aécio como vice a candidatura de Serra se inviabilizaria e chegaram a prever dores futuras na consciência do mineiro, como recusar seu nome para a presidência?

E vale acrescentar um argumento suplementar: por que, já que são tucanos, não copiar o modelo americano, onde as convenções podem oferecer surpresas? Ali como aqui, predominam os que controlam a máquina partidária. Porém há brechas para o surgimento de um Obama da vida. Se fizerem uma convenção para valer, com chapa batendo contra chapa, o PSDB pode não vencer a próxima eleição marcada pela extrema popularidade de Lula e por seu desinibido engajamento na campanha. Mas promoverão um fortificante arejamento interno e darão exemplo de exercício democrático.

Só fica faltando alguém com a audácia e o talento do Lacerda. Se Ciro Gomes não estivesse amarrado ao PSB, ele talvez fosse este elemento.

27-05-10

Dilma ultrapassa Serra em Brasília. Marina chega aos 16%

O especialistas em pesquisas eleitorais dão excepcional importância aos resultados do Rio de Janeiro e Brasília. Como ex-capital e capital, as duas grades cidades, mais do que qualquer outra, expressam, na vontade de seu eleitorado, uma tendência nacional. Se for assim, há más notícias para José Serra.

Vejamos os números divulgados por Cesar Maia, esta manhã , atribuídos a “ O&P-panor.político-globo”: Dilma 33,7%, Serra 29,6, Marina 16. Para governador: Joaquim Roriz 40,9% , Agnelo Queroz 28,4%.

No Rio (ver matéria logo aí baixo) Dilma está 5 pontos à frente de Serra, na média das pesquisas. Marina já chegou aos 18%. E é aí que mora o perigo para o tucano: o crescimento da candidata verde que divide com ele os votos da classe média conservadora. Na média nacional, ela já está com 12% (Datafolha) da semana passada. Na verdade, ela já deve estar perto dos 15%.

Esse é o dado que o Globo, o manipulador mor da mídia brasileira, procura ocultar. A famosa bipolarização Dilma/Serra já foi para o espaço. Isto pode ser ruim para a petista, mas é mortal para o pupilo de FHC.

23-05-10

Pela tendência, pode haver segundo turno entre
Dilma e Marina. José Serra faz último apelo a Aécio

Rejeições de Dilma e Marina caem. A de Serra aumenta.

Há três fatores importantes a serem extraídos da pesquisa Datafolha: a – A tendência de Serra é de queda inexorável; b – Dilma disparou porque o eleitor das classes econômicas inferiores (que representam 50% dos votantes e onde Lula obtém 80% de aprovação) começam a perceber que ela é a candidata do presidente e c – Marina Silva que já herdara a maioria dos votos de Ciro Gomes, agora avança sobre os votos de Serra, fazendo um discurso tão conservador quanto o dele.

Vejamos item por item:

a – A tendência de queda de José Serra está escancarada pelos próprios números: Entre dezembro e o presente mês ele escorregou de 40 % para 37% e em nenhum momento, neste período, ultrapassou os 42%. Para piorar, sua rejeição cresceu de 24% para 27% e, pela primeira vez, Dilma o ultrapassa num simulado para o segundo turno, 46% a 45%. Finalmente, ele só vence folgadamente em São Paulo. Até nos três estados do Sul, onde sempre foi mais forte, sua vantagem não chega a três pontos.

b – Dilma Rousseff ainda não provou que tem luz própria, mas já demonstrou que se não é uma Brastemp, está longe de ser um poste. A transferência dos votos de Lula para ela está sendo mais fácil e mais rápida do que os próprios petistas previam. Entretanto, não se podo negar o fato de que o presidente é, como ele diria, o maior cabo eleitoral da história deste País. Sua popularidade, jamais foi alcançada por nenhum outro presidente, nem por Getúlio. E Lula leva a vantagem de não ter sido tisnado pelo lado obscuro do autoritarismo.

c – Marina chegou aos 12% segundo o Datafolha, mas eu arriscaria dizer que ela já deve estar mais próxima dos 15%. A começar pelo Rio de Janeiro onde já é a segunda colocada com 18% (sua média nacional é de 10 %), é bem possível que ela vá comendo pelas beiradas os votos de classe média, principal reduto de Serra. Mas esta é uma faca de dois gumes: para conseguir isso, ela teve que degradar sua própria biografia e misturar defesa da Natureza com promoção da Natura e seus cosméticos. Além disso, não há uma boa razão para que o eleitorado lulista deixe de votar na Dilma para votar nela.

O sonho de Serra e o pesadelo de Aécio

Como informamos neste blog (ver matéria logo aí abaixo), a novela Serra/Aécio ainda não terminou. O ex-governador mineiro está voltando de suas férias na Europa e, ainda no Rio de Janeiro, ouvirá o último e desesperado apelo de José Serra para que ambos componham a chapa presidêncial tucana.

Ninguém mais duvida que sem Aécio (os votos de Minas podem fazer a diferença nestas eleições), as chances de Serra ficam praticamente reduzidas a zero. E este é o infernal dilema do herdeiro de Tancredo: se recusar, terá que carregar o peso de ter sido o responsável pela derrota tucana, mas se aceita e ainda assim Serra perder, a carreira dele (Aécio) vaia para as cucuias.

20-05-10

O Globo descola-se de Serra e começa a namorar Marina

E Serra, acreditem, ainda pensa em Aécio.

Um dia ainda hei de escrever um manual para a leitura das entrelinhas dos jornais picaretas da nossa grande mídia. Com ele, além de não se deixar enganar, o leitor poderia se distrair com o contorcionismo mental (e moral) a que são obrigados os infelizes coleguinhas condenados a trabalhar nestes serralhos para garantir o uisquinho das crianças.

Se o manual já existisse, o leitor sacaria logo que, no espaço de apenas uma semana, o Globo mudou da água para o vinho. Ele que só tinha olhos para o Serra e destacava todos os seus feitos na primeira página ou nas principais páginas internas (da 2 à 5), agora já dá ao infausto tucano um destaque menor do que o dispensado a Marina Silva. E ela, que eu não relutaria em chamar de a mais nova Cinderela da política nacional, foi resgatada lá das pequenas notas, ao pé das páginas menos importante, para o centro da ribalta.

As explicações para este portentoso fenômeno até que são simples:

As últimas pesquisas que o jornal calhorda fez questão de sonegar aos leitores, inclusive a do Sensus de três dias atrás e a do Vox Populi de hoje, mostram claramente que Dilma começa a disparar, que Serra começa a despencar e que Marina Silva, esperta, segue na mesma trilha e na mesma batida do tucano, recolhendo, no chão, os votos que vão-se despregando da comitiva trôpega do ex-líder neoliberal.

Em outra coluna deste blog, se houver tempo, comentaremos ainda hoje, estas pesquisas. Mas há dois dados que precisam ser assinalados desde já: no Rio, onde Dilma deve vencer com folga, Marina, com 18% do eleitorado, já ameaça o segundo lugar de Serra que, aliás, ficou sem palanque no estado. Em Minas (e este é o dado mais importante) Dilma e Serra estão empatados.

Nos cálculos de quem entende de política e do próprio Serra (que ganha de São Paulo para o Sul, mas perde no Nordeste e no Rio) ele só teria alguma chance se saísse de Minas com uma vantagem de pelo menos três milhões de votos. Daí a insistência melodramática de ter Aécio como vice. Os tucanos paulistas ainda sonham com isso e aguardam ansiosos o retorno de Aécio que não tem pressa para deixar a Europa. Seu retorno está previsto só para o dia 24, se não sofrer novo adiamento.

Milagres acontecem. Mas as chances de Aécio ser vice de Serra podem ser medidas por estas palavras do presidente do PSDB mineiro, Nárcio Rodrigues, homem de confiança do ex-governador: “ O Aécio não vai ser vice, continua candidato ao Senado, mas está fechado com o Serra. Aliás ele até ligou para o Serra pedindo que ele não viesse a Minas enquanto ele (Aécio) está na Europa, para não dar a impressão de que ele não está engajado na campanha”. Só para lembrar: Nárcio foi quem comandou a estrepitosa vaia sofria por Serra em Belo Horizonte, há três meses, quando Aécio ainda brigava para ser candidato à presidência.

Em tão temos que: a- Dilma, brizolou (como registramos há dois meses) e, com isso, tornou-se herdeira do populismo lulista (70 % dos votos) e não apenas do sectarismo petista (25% dos votos); b- Marina tucanou e adotou um discurso cada vez mais parecido com o de Serra para continuar recolhendo, no chão, os votos que vão-se despencando da sacolejante carroça tucana, e c – Serra continua evitando bater em Lula e tentando demonstrar que nunca foi neoliberal (eu é que fui).

Como resultado, o Globo de hoje estampa, na página 3, os três candidatos em pé de igualdade (em termos de espaço), mas sem esconder suas simpatias pela candidata da Natura.

E, como este jornal não tem absolutamente nenhuma vergonha na cara, continua não dizendo uma única palavra sobre Plínio de Arruda Sampaio, o candidato ficha-limpa do PSOL. PSOL este que, apesar do nome, vive no Mundo da Lua.

Veja mais sobre o mesmo tema na coluna Coisas da Política.

14-05-10

Sérgio Guerra, nordestino e ex-brizolista será o vice de José Serra

Está praticamente confirmada a notícia dada por este blog em primeiríssima mão há um mês: o presidente nacional do PSDB, senador pernambucano Sérgio Guerra deverá ser o vice de José Serra. Só falta o último não de Aécio.

Como já havíamos informado, Guerra estava na mira de Serra, no caso de ficar definitivamente estabelecido que ele não poderia contar com Aécio Neves, o candidato de seus sonhos. A razões para a escolha de senador pernambucano são as seguintes:

Não podendo contar com o mineiro, Serra, como antecipamos, se voltaria para o Nordeste onde ele está cerca de 10 milhões de votos atrás de Dilma.

Guerra foi o primeiro tucano a, juntamente com o Aécio, tentar se livrar do discurso neoliberal considerado fatal nestas eleições. Há três meses, quando Aécio ainda lutava para ser candidato à presidência, ele (Guerra) visitou o então governador mineiro e saiu de lá dizendo que era “nacionalista e estatista”. Esta declaração inusitada mereceu do impagável Merval Pereira, porta-voz oficial da Família Marinho (O Globo) uma admoestação pública. Merval comparou a nova posição do tucano ao “samba do crioulo doido”.

Agora quem quer desvencilhar-se da pecha de neoliberal é o próprio Serra. Por isso, o indefectível Merval e a fessora Míriam Leitão não largam de seu pé. Ocorre que Guerra tem um passado precioso para quem, como Serra, quer ser mais lulista que o próprio Lula: ele foi filiado ao PDT de Brizola e por duas vezes foi secretário nos governos de Miguel Arraes.

Finalmente uma razão de ordem local. O senador e ex-governado de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos (PMDB) estava sendo pressionado por Serra, seu aliado, para ser candidato novamente ao governo do Estado. Mas resistia, exigindo que Guerra fosse candidato a reeleição para o Senado. Isto porque ele verificou que parte dos tucanos do interior do estado, sentindo-se deserdados, estavam se bandeando para o lado do atual governador, o socialista, Eduardo Campos que está firme com Lula.

Entretanto, Guerra não queria ser candidato por simples receio de não vencer. Moral da história: como candidato a vice, Guerra injeta ânimo nos tucanos locais e no próprio Jarbas que, depois desse rolo todo, resolveu ser candidato.

Veja mais sobre o mesmo tema na matéria logo aí abaixo.

11-05-10

Nem o Serra agüenta mais a Míriam Leitão

São uns pândegos. A Míriam Leitão, professora primária de economia e Merval Pereira, porta-voz oficial dos Marinhos caíram de pau em cima do Serra, só porque ele disse que o Banco Central não é a Santa Sé. Creio já ter dito neste blog que o Globo não quer apenas eleger o tucano, quer governar por ele. E um governo do Globo é algo subordinado aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Míriam e Merval não dizem uma palavra que não possa ser assinada por Hillary Clinton.

Ontem, na CBN, Serra (apresentado pelo âncora Barbeiro como “nosso candidato”) até que se saiu bem. Quando Míriam, dedo em riste, o acusou de não respeitar a autonomia do Banco Central, ele perdeu a paciência: Desculpe, Míriam, mas você está dizendo uma grande bobagem”.

Hoje, em sua coluna Merval Pereira, impagável, saiu em defesa da coleguinha. Disse que “Serra saiu-se mal na primeira polêmica da campanha, mostrando-se irritadiço com as desconfianças do mercado”.

E aqui ficamos sabendo que o mercado desconfia de Serra. É no que dá esta tentativa tortuosa de apresentar-se, em linhas gerais, como mais lulista que o próprio Lula. Há poucos dias o Panorama Político, também do Globo, informou que a bancada ruralista já está olhando de um jeito meio esquisito para o tucano.

Eu não entendo nada de política, mas me parece óbvio que quando o eleitorado for convocado para votar em alguém à imagem e semelhança do Lula, ele votará em quem o Lula indicar. Se for assim, o equívoco dos marqueteiros tucanos é tentar fantasiar o Serra de sapo barbudo, para evitar a tal eleição plebiscitária. Não se ganha eleição apenas embaralhando as cartas.

A sedimentação da consciência do eleitorado vai ocorrendo aos poucos e nestas eleições, especialmente, ela obedecerá ao eixo ideológico. Eixo este que se deslocou para a esquerda, não por um a manobra habilidosa do presidente, mas porque ninguém agüenta mais o papo neoliberal do estado mínimo e da vontade soberana do mercado , esta besta fera.

Nem o Serra agüenta mais a Míriam Leitão.

09-05-10

Novela : José Serra pede pela milésima vez e
Aécio, pela milésima vez, recusa ser seu vice

Enganou-se quem pensava que Serra e os tucanos paulistas desistiram da chamada chapa puro sangue, tendo Aécio Neves como vice. Nos últimos dias o próprio Serra, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra e, principalmente, o presidente do PPS (ex-comunista) Roberto Freire, concentraram esforços na última tentativa para convencer o governador mineiro a emprestar seu prestígio à causa tucana. Todos acreditam que esta guerra, digo eleição, será resolvida em Minas.

Nos cálculos de Serra, ele precisa de uma vantagem de três milhões de votos em Minas para, somada com sua vantagem em São Paulo, compensar a enorme dianteira de Dilma no Nordeste. Daí a mobilização geral. Consta que até o ex-governador pernambucano, Jarbas Vasconcelos (PMDB), andou ligando para Aécio. É que ele (Vasconcelos) tenta retornar ao poder e aliou-se a Serra, mas não quer embarcar numa canoa furada.

O último capítulo desta novela, só veremos na primeira semana de junho, quando se realizam as convenções partidárias que indicam oficialmente os candidatos. Por enquanto, Aécio segue irredutível. Nem se deu ao trabalho de responder pessoalmente à artilharia de torpedos que vem recebendo. A todos, respondeu de forma genérica, através do presidente do PSDB mineiro, Nárcio Rodrigues, que emitiu uma espécie der comunicado geral: “Com a estatura que adquiriu depois de sete anos de um governo impecável em Minas, Aécio Neves não pode ser apenas uma filial do projeto Serra” .

Aliás, os tucanos paulistas ficam arrepiados toda vez que Nárcio Rodrigues, homem de confiança de Aécio, entra em cena. Atribui-se a ele a estrepitosa vaia que Serra sofreu, mês passado, durante visita a Belo Horizonte para participar da inauguração do novo centro administrativo do governo mineiro. Na ocasião centenas de filiados ao PSDB, exigiam que Aécio fosse o candidato presidencial.

Agora teme-se que a exemplo do que aconteceu em 2002 com o próprio Serra e em 2006 com Alckmin, os mineiros “cristianizem” Serra e dêem apoio velado a Dilma. Do ponto de vista estritamente prático, Serra na presidência e Alckmin no governo de São Paulo representam dois obstáculos ao projeto pessoal de Aécio.

Não deixem de ler a matéria sobre manipulação das pesquisas, coluna Última Hora, que complementa as informações desta.

06-05-10

O Globo mentiu ontem e mente hoje sobre a aliança PT/PMDB em Minas

O Globo mentiu ontem ao informar que a eleição do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, nas previas do PT mineiro, representava um obstáculo à composição com o PMDB para a formação de uma palanque único em torno da campanha de Hélio Costa ao governo de Minas. O próprio Pimentel já havia comunicado a assessor direto de Lula que compreendia as razões estratégicas (prioridade para a eleição de Dilma) que desaconselhavam o lançamento da candidatura petista à sucessão de Aécio Neves.

Hoje, o Globo continua mentindo (mas que mania) ao informar que Pimentel ainda sonha com sua candidatura ao governo e espera viabilizá-la até o início de junho, quando ocorrem as convenções partidárias. Na verdade, o ex-prefeito reuniu-se com Hélio Costa ontem mesmo e garantiu que haverá palanque único no Estado. Nessa mesma reunião, o presidente do PT mineiro, deputado Reginaldo Lopes, oficializou o apoio ao candidato do PMDB.

O curioso é que, na aflição de servir a Serra, o Globo vê fogo onde há fumaça e não vê fumaça onde há fogo. Não vê, por exemplo, que no Interior do Estado, corre solta a dobradinha pirata que reúne partidários de Dilma Rousseff e Antônio Anastásia, candidato tucano ao governo, por indicação e com apoio de Aécio. Anastásia, que está atrás de Hélio Costa nas pesquisas, diz abertamente não ser contra a dobradinha Dilmasia.

2-05-10

Dilma Rousseff prepara nova fase
da campanha, propondo uma
revolução no ensino fundamental

Os coordenadores da campanha de Dilma Rousseff e ela mesma, após uma semana de reuniões para avaliação de resultados, propostas próprio presidente Lula, consideraram que está concluída a fase “plebiscitária pautada pelo diferencial ideológico”. E acreditam que esta etapa foi bem sucedida, na medida em que marcou, sobretudo para os formadores de opinião, a noção de que a candidata, além de representar a continuidade do lulismo, simboliza o Brasil progressista, orgulhos de seus feitos e que pensa grande.

Representa, também, ao contrário do modelo neoliberal, a opção por um estado suficientemente musculoso para atuar como agente de fomento do desenvolvimento e não apenas como regulador e fiscalizador. Isto teria sido o suficiente para diferenciar Dilma dos demais candidatos, tese que tem comprovação no engajamento da militância petista (outro fator diferencial) como há muito tempo não se via.

Entretanto e mais uma vez por cobrança de Lula, os coordenadores decidiram antecipar algumas etapas e peças da campanha que estavam reservadas para a fase final e para o horário gratuito de TV. Os temas deste seguimento são óbvios: segurança, ecologia, saúde e educação. Mas não nessa ordem. Ao contrário, inspirada, talvez em sua passado brizolista, Dilma, decidiu que o carro chefe desta fase da campanha será a convocação para uma verdadeira revolução do ensino, a partir de suas bases.

Como queriam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, o País e sobretudo o governo federal, devem multiplicar seus investimentos no ensino elementar. O diagnóstico é o de que aí se encontra o verdadeiro gargalo do sistema, embora isto seja mais visível no afunilamento final do ingresso nas faculdades. Então, adotando parcialmente o modelo da Bolsa Família com sua transferência de recursos para os municípios, o que se pretende é assegurar ensino em tempo integral e de real qualidade para os milhões de crianças que ingressam anualmente no sistema e que atualmente estão condenadas à semi-alfabetização. É exatamente aqui, que as famílias de menor renda começam perder a corrida diante daquelas que podem matricular seus filhos em escoas particulares.

Esta é a filosofia dos Cieps implantados por Brizola há vinte anos e, depois, criminosamente sucateados por seus sucessores. A melhor formação e remuneração dos professores do primeiro grau é outra prioridade óbvia já que eles são estrategicamente tão ou mais importantes que os professores universitários.

27-04-10

Com medo de Marina, tucanos e sua mídia agora querem eleição plebiscitária

A vida dá muitas voltas: até há pouco tempo, os tucanos e sua mídia cínica eram radicalmente contra a fórmula plebiscitária que o presidente Lula imprimiu à sua sucessão. Era, segundo eles, pouco democrática porque oferecia poucas opções aos eleitores. Agora que Ciro Gomes foi expelido do processo, os estrategistas de Serra passaram a imaginar que ele poderia herdar os votos do ex-governador cearense e apresentar-se como única alternativa oposicionista ”pero no mucho”.

A longo prazo, esta tática é suicida porque, cedo ou tarde, o eleitorado (majoritariamente lulista) perceberá que terá que escolher entre mais do mesmo (Dilma) ou algo que poderia representar uma volta ao passado de apagão do desenvolvimento e da oferta de emprego. No curto prazo, porém, o viés plebiscitário contribuiria para consolidar a candidatura de Serra como uma opção de melhoria da gerência, sem alterar a essência do projeto. Difícil de engolir, mas é o que eles querem vender.

Para que esta tática de curto prazo dê certo é preciso, no entanto, trabalhar com a noção do voto útil: com a saída de Ciro, quem seria a única alternativa de mudança do comportamento ético e dos métodos gerenciais. A resposta seria Serra? Para os setores da classe média histericamente anti-lulista talvez fosse, mas aí surge a candidatura de Marina Silva, como a verdadeira herdeira dos votos de Ciro.

Então, se você fosse marqueteiro ou jornalista engajado na campanha de Serra o que você faria? Tentaria minimizar ou ignorar Marina, não é verdade?

Agora vejamos o que o impagável Merval Pereira, porta-voz das Organizações Globo , tenta impingir aos leitores na sua coluna desta terça-feira: primeiro ele lamenta , como sendo “um golpe na democracia”, a “ retirada forçada “ da candidatura de Ciro Gomes. Fica parecendo que ele é contra o esquema plebiscitário da eleição. Em seguida, porém, ele gasta todo o seu latim tentando injetar ânimo nos partidários de Serra, invocando vitórias de Fernando Henrique, no passado.

Mas o que quero salientar é que Marina Silva, a principal herdeira dos votos Ciro, não merece uma única palavra do articulista. Não seria lógico para quem lamenta a saída do cearense, o que fez com que a “democracia ficasse reduzida”, saudasse a possibilidade de Marina vir a ocupar o espaço vazio, salvando assim a campanha eleitoral da desertificação plebiscitária? Mas sobre Marina ele não disse uma única palavra.

Na mesma página ao lado da coluna de Merval, o Globo fornece as notícias sobre o dia de Serra e de Marina. O espaço dedicado ao tucano, no alto da página, é exatamente dez vezes maior que o destinado a Marina que ficou espremida em uma pequena coluna no pé da página.

Não é só isso. Na página anterior (coluna Informe Político), Ilmar Franco, sob o título Plebiscito, diz com todas as letras que esta idéia, lançada por Lula, passou a agradar aos tucanos: “sem Ciro, Serra deve cresce no Sudeste”.

É claro que tudo isto é inútil e tanto Serra como Marina estão embarcando na canoa furada de um lacerdismo de segunda mão, exatamente no momento em que a grande maioria da população cuja memória afetiva é nacionalista e se ufana de suas grandes estatais, se deixa seduzir pelo neogetulismo adotado por Lula e por Dilma.

Mas fiz questão de mostrar, mais uma vez, como funciona esta mídia que desinforma deliberadamente e que, com hipocrisia e cinismo, trata seus leitores como um bando de cordeirinhos ingênuos.

24-04-10

Um pote de mágoas : Ciro critica Lula e Dilma,
mas diz que não apóia Serra de jeito nenhum

Com a saída de Ciro, Serra e Dilma crescerão um pouco nas pesquisas. Mas quem herdará a maioria dos votos será Marina Silva.

Se você fosse definir o comportamento de Ciro Gomes nos últimos dias, diria que é o de uma metralhadora giratória, de uma biruta de aeroporto ou de um pote até aqui de mágoa? Acertou quem disse: tudo isso junto.
A pretensão do ex-governador cearense e socialista improvisado é legítima. Ele tem todo o direito e até muitos títulos e qualidades que o credenciam a ser candidato à presidência. O que não está direito, ele que nos desculpe, é querer que o presidente Lula apóie esta candidatura. Não consigo encontrar uma boa razão para que o presidente faça uma doidera dessas, já que ele escolheu sua candidata e pretende elegê-la. É verdade que lá atrás, há seis meses, fazia sentido “inflar”a candidatura Ciro para impedir que Serra deslanchasse. Mas isto foi há seis meses.
Agora, Lula está convencido de que, graças a ao debate ideológico e a bipolarização da campanha, é perfeitamente possível eleger Dilma já no primeiro turno. Ciro acha que isto é um equívoco. Eu também acharia se fosse candidato e pretendesse me abastecer tanto as águas do lulismo quanto das fornecidas pelo conservadorismo de setores da classe média. Aliás, até o Serra quer isto, tanto que evita bater no presidente.
Como a vida não é feita apenas de coisas que a gente quer, resta a Ciro definir seu real posicionamento. Ele é um socialista convicto ou apenas um tucano envergonhado?
Mas este é um problema íntimo de Ciro. Cá fora, a campanha eleitoral continua. Como sempre dissemos neste blog, Ciro subtrai mais votos de Serra do que de Dilma. Isto não quer dizer que ele retira votos apenas de Serra. É uma questão de proporção. Assim, com sua saída , tanto Serra quanto Dilma deverão crescer nas pesquisas. Mas nada que faça o tucano ir muito além dos 40 %.
A razão do crescimento modesto do tucano, com a saída de Ciro é simples. E esta antecipação damos de graça para os estrategistas das duas campanhas: quem herdará a maior parte dos votos do socialista arrependido é Marina Silva.
Dizem que “todo serrista envergonhado mente que vai votar em Marina e todo petista arrependido vota dela mesmo”. É uma frase gaiata e inspirada, mas não é uma análise correta. O eleitorado de Marina consiste nos que perceberam que o discurso neoliberal de Serra está completamente obsoleto , mas não quer ir tão longe quanto o lulismo pode nos levar, nem perdoa certos deslizes, um fenômeno típico de classe media “esclarecida”.
Então, e mais uma vez, veremos que assim como Ciro, Marina tira mais votos de Serra do que de Dilma. Aliás, a candidata verde já vinha crescendo nas pesquisas, na medida em que ia ficando claro que Ciro não conseguiria sustentar sua candidatura. Persiste o dilema da mídia serrista: e agora gente, inflamos ou destruímos Marina?
Na matéria logo aí abaixo há mais informações sobre o desenlace da candidatura Ciro e de sua amizade com o presidente Lula.

21-04-10

A indefinição de Ciro começa a preocupar o presidente Lula

O presidente Lula já adiou duas vezes a reunião que teria com seu amigo e ex-colaborador Ciro Gomes. Além do que possa sobrar, em termos de prejuízos, para a candidatura de Dilma Rousseff, o chefe do governo teme o constrangimento da ruptura de uma amizade que ele considera sincera. Muitas vezes um líder político, mesmo sem querer, é levado a manipular as pessoas. Mas ninguém gosta de ser manipulado, muito menos o orgulhoso e imprevisível ex-governador do Ceará.
Ciro queixa-se de que o presidente e seu bem comportado PT agem num misto de Centralismo Democrático com Monarquia Absoluta: fixam uma estratégia e o resto que se dane. E, de fato, Ciro já foi visto por Lula de várias maneiras, conforme foram mudando as nuvens do céu.
Há seis meses a candidatura de Ciro à presidência chegou a ser vista com bons olhos, pois era a forma de evitar que Serra pudesse vencer já no primeiro turno. Ao contrário dos arrogantes e incompetentes comentaristas e editorialistas da grande mídia, Lula sempre soube ( e os leitores deste blog também) que o cearense subtrai muito mais votos de Serra do que de Dilma.
Quando ficou claro que dificilmente Serra passaria dois 40% dos votos e a candidatura Dilma mostrou crescimento rápido e consistente, Ciro passou a ser interessante como candidato ao governo de São Paulo, onde provocaria um estrago na votação presidencial de Serra e impediria que Alckmin vencesse no primeiro turno.
Finalmente, como Ciro recusou candidatar-se ao governo de São Paulo, Lula o viu como vice ideal de Dilma, pelas razões supostas nos parágrafos acima. Neste ponto, porém, surge uma enorme pedra no caminho, o PMDB. Como se sabe, o vice na chapa de Dilma está prometido, desde novembro, ao partido que já foi do Dr. Ulisses e hoje é do Sarney e do Delfim Neto.
Então, o tempo começa a ficar curto: o pragmático Partido Socialista Brasileiro, ao qual Ciro inadvertidamente se filiou, reúne sua direção este fim de semana para “decidir formalmente” sobre o destino da candidatura de Ciro. Mentira. Esta direção já decidiu que não terá candidato próprio, por falta de recurso materiais, de tempo na TV e, principalmente , pela ausência de apoio de Lula. A reunião destina-se apenas a comunicar a Ciro, da forma mais honrosa e indolor possível, que ele está a pé. O problema é que ninguém sabe qual será a reação do ex-tucano e hoje socialista torto.
Ao mesmo tempo, o PMDB acelera o seu calendário, antecipando sua convenção para o início do próximo mês. No evento deverá ser escolhido o candidato a vice na chapa de Dilma, provavelmente Michel Temer, apesar dos reiterados e sutis avisos de Lula de que este não é considerado o candidato ideal.

14-04-10

Antes do fim do mês, Dilma completa a ultrapassagem sobre Serra

Veja também como Elio Gaspari está pensando e escrevendo cada vez mais parecido com o Merval Pereira, porta-voz dos Marinhos.

A pesquisa Sensus divulgada ontem apenas confirma o empate técnico entre Dilma Rousseff e José Serra, já apontado por outros institutos. Registre-se, porém, que esta é a primeira consulta realizada já sob o efeito do lançamento formal da candidatura tucana que recebeu generosa cobertura da mídia. Portanto, ficou a sensação de que Serra protelou tanto este lançamento que, quando o fez, já era tarde demais.
Os números de todas as pesquisas mostram que em dezembro último, a diferença a favor de Serra era de 15%, na média dos institutos. De lá para cá, sempre na média dos institutos, a vantagem do tucano foi caindo continuamente, até chegarmos ao atual empate de 32% para cada candidato.
O mais importante, contudo, é analisar ( como insistimos sempre neste blog) a tendência e a dinâmica das duas candidaturas. Se fizermos isso, veremos que Serra tende à estabilização, com ligeiro viés de queda. Dilma, por seu lado, mostra tendência inequívoca de crescimento, com velocidade (dinâmica) que já foi muito rápida e agora é moderada. O que parece fora de dúvida é que Serra tem mínimas possibilidade de sair da vaga de estacionamento entre as casas dos 30% e 40%. Ele está parado aí há exatos dois anos. Com base, portanto, nestes dois fatores, fica fácil prever que antes de fim do mês, Dilma já estará na dianteira.
E aqui vai um comentário extra-pesquisas: O Elio Gaspari, tem uma boa margem de acerto em suas análises, mas na última (O Globo de hoje, 14 de abril), ele equivoca-se redondamente ao supor que Serra conseguira desvencilhar-se da eleição plebiscitária que já está posta e que coloca o lulismo confrontando o neoliberalismo representado pelo próprio candidato tucano que não consegue ficar livre de FHC. Muitos poderão argumentar que é forçar a barra dizer que o lulismo, este herdeiro torto do getulismo, é o avesso do neoliberalismo. Mas é que ficou constando e é o que está valendo. E passa a valer muito mais, toda vez que o Fernando Henrique, este herdeiro nem tão torto do lacerdismo, abre a boca para “ajudar” Serra.
Seja como for, estas questões já ganharam as ruas e fazem lembrar os velhos tempos do Getúlio e do Lacerda. O Elio não viu que está é a primeira eleição pós Grande Crise Norteamericana. Tampouco percebeu que Dilma promoveu uma simbiose entre o PT e o brizolismo, fato eleitoralmente explosivo.
Engana-se o Elio e engana-se o próprio Serra, quando imaginam que basta adotar, como única e precária estratégia eleitoral o sair por aí vendendo a idéia de que ele (Serra) é melhor gerente do que Dilma. Não é assim que a banda toca, primeiro porque há controvérsias, segundo porque não é este o grande eixo da discussão. Como o próprio Elio diz em seu artigo, esqueceram-se de combinar com os russos. Sendo assim, não adianta Serra evitar bater no Lula ou mencionar o nome de FHC, para fugir das comparações entre os dois governos. Porque os adversários farão isto de cinco em cinco minutos.
De qualquer forma, de hoje até novembro, Serra terá que responder a uma infinidade de perguntinhas chatas como esta: o que o levou a ser um dos mais fervorosos defensores da privatização da Vale, um dos maiores crimes contra o patrimônio público brasileiro?

11-04-10

Serra e Aécio. Depois do beijo e das juras, o amargo dia seguinte

O leitor amigo que teve a bondade de ler nossa matéria de ontem, sabe que há pouco a acrescentar sobre o lançamento da candidatura de Serra, as juras de amor e fidelidade entre ele e Aécio Neves e o amargo dia seguinte, que é hoje. Mas houve um inusitado beijo real, diferente do virtual que anunciamos ontem. Por isso, resolvemos voltar ao teclado.
E voltamos para lembrar que, com a exclusão do beijo de ontem, este filme é velho e já passou várias vezes na Sessão de Gala. A primeira foi em 2002, quando trocaram todos os afagos e todas as promessas que já conhecemos. Depois Aécio embarcou no Lulaécio e elegeu-se governador. A segunda foi em 2006, quando as palavras e os carinhos foram os mesmos, só que o protagonista Serra foi substituído pelo canastrão Alckmin. Resultado: Aécio embarcou novamente no Lulaécio e reelegeu-se governador.
E não pensem que terminou por aí: em junho do ano passado (exatamente no dia 5), Serra e Aécio apareceram juntos em duas solenidades, uma em Minas outra no Paraná. Em ambas, trocaram afagos e juras, como ontem, e garantiram que estariam juntos para sempre, que combateriam sempre o governo Lula e jamais pensariam numa chapa puro-sangue (Serra presidente e Aécio vice). Agora, como todos sabem, Serra, por estratégia eleitoral, recusa-se a bater em Lula e até recentemente implorava para que Aécio fosse seu vice. É ou não é um casal sem vergonha? No sentido figurado, é claro.
Enfim, estamos no dia seguinte, quando eles almoçarão cardápios diferentes. Aécio comerá o prato frio e indigesto da vingança. Serra se servirá do prato quente e bem condimentado da ilusão. Depois cada um seguirá o seu caminho.

10-04-10

Tapas e beijos: Hoje Serra e Aécio trocarão
muitas juras. Depois se trairão furiosamente

Confesso que sou meio folgado e dado a fazer previsões. Mas esta é tão mole que nem precisam me dar o crédito: hoje à tarde em Brasília, durante o solene lançamento da candidatura tucana à presidência, José Serra e Aécio Neves só falarão em coerência, fidelidade e união. Amanhã de manhã, antes mesmo do café, volta tudo ao normal e eles continuarão se engalfinhando, que é tudo o que fizeram nos últimos oito anos.
Serra (podem me cobrar depois) dará ênfase à administração, para mostrar que é melhor gerente do que Dilma, o mote principal de sua campanha. Depois, baterá forte do PT, mas não dará nem um beliscão em Lula. Não bater no presidente faz parte da estratégia central de seus marqueteiros. Nas entrelinhas, mandará recado para os “traíras”, falando em unidade e compromissos de honra. Finalmente, duas, talvez três, palavras para FHC que estará presente. A cortesia exige. No mais, o tom será de estadista que pensa projetos futuros, sem descontinuidade ( está é outra palavra chave).
Quanto a Aécio que de todos é o que comparecerá de saia mais justa, toda sua preocupação será apagar a imagem de “traíra” que pode grudar dele, depois que Dilma Rousseff, durante sua recente visita a Minas, ao ser provocada, mencionou imprudentemente a palavra Dilmasia, alusão a uma cooperação secreta entre seus partidários e o de Antonio Anastasia, candidato tucano ( lançado por Aécio) ao governo do Estado.
É claro que o Dilmasia vai funcionar a todo vapor de forma não oficial, mas quase às claras, assim como funcionam os camelôs que vendem CDs piratas. Compra quem quer. Aliás, foi assim nas eleições de 2002 e de 2006, quando Aécio elegeu-se duas vezes governador a bordo do Lulaécio, enquanto tanto Serra quando Alckmin perdiam as eleições em Minas. O resto é pura hipocrisia. Mas como sem ela ao se faz política, vou adiantar o que Aécio dirá. E isto não é uma dedução, mas uma informação precisa:
Ele dirá, muitas vezes com aquela voz rouca com a qual Tancredo injetava emoção em sua discursos, que “tem orgulho de ser tucano e das administrações do PDDB”, sem poupar elogios (este será momento mais habilidoso de seu pronunciamento) a FHC. Para Serra, a menção a FHC prejudica, porque estabelece uma comparação com Lula, algo que ele tenta evitar a todo custo. Mas para Aécio, é indiferente. Ele disputa uma eleição fácil para o Senado e é julgado por sua administração em Minas.
Mas Aécio não dirá uma palavra contra Dilma. E este será um dos aspectos curiosos de seu pronunciamento. Porque, enquanto Serra pode bater em Dilma, mas não em Lula, Aécio prefere não atacar a candidata que é mineira e, na semana passada, homenageou Tancredo Neves junto a seu túmulo. De mais a mais, Aécio já fez suas contas e concluiu que sem essa aliança espúria Dilma/Anastasia, quem vence em Minas e o Hélio Costa, do PMDB e da TV Globo.
Finalmente, não da para eliminar, como quem espana o giz, o fato recente de que criou-se em Minas, desde novembro de do ano passado, um clima anti-Serra que culminou, há um mês, com a estrepitosa vaia recebida pelo então governador paulista, em Belo Horizonte, durante uma solenidade presidida e organizada pelo próprio Aécio.
Umas das frases de efeito que Aécio usará em seu discurso de hoje: “Tenho compromisso como o País e com o partido, quero encerrar o ciclo petista”. Então, querido leitor, acredite se quiser, ou como diria Pirandello, “assim é se assim lhe parece”.
Leia mais sobre o mesmo tema, na matéria logo aí abaixo.

08-04-10

Verdade simples: Serra ainda espera apoio
de Aécio, mas este já embarcou no Lulécio

Os tucanos paulistas ainda esperam uma manifestação clara de apoio à candidatura de Serra, por parte de Aécio Neves. Eu confesso que não sei se é ingenuidade ou falsa esperança (fruto da ansiedade) ou ainda um simples jogo de cena. Porque é impossível não ver que há muito tempo o governador mineiro abandonou o “colega” paulista e, como candidato ao Senado, viaja em faixa própria o que implica em aliança velada com a candidatura de Dilma Rousseff, exatamente como ele fez em 2002 e 2006 em relação a Lula.
A nova versão desse jogo ambíguo da política brasileira já tem, em Minas, o nome de Dilmasia: a aliança subterrânea dos cabos eleitorais, principalmente do Interior do Estado, entre adeptos do Dilma Roussef e do candidato tucano (portanto de Aécio) a governador, Antônio Anastasia. O fenômeno mais amplo, como já dissemos neste blog, recebe o nome genérico de cristianização e remonta ao tempo em que o velho PSD abandou seu candidato à presidência, Cristiano Machado (por sinal um mineiro), para apoiar Getúlio Vargas.
E já dissemos também que se houver a cristianização de Serra (o que é provável em Minas e no Nordeste) sua candidatura dança de uma vez. Daí a marcação serrada do staff paulista em cima de Aécio Neves. Este, de sua parte já informou que comparecerá ao lançamento da candidatura de Serra, dia 10 em Brasília. Depois “desparecerá” por 15 dias. Aos íntimos tem dito que se nem o Serra quer bater no Lula, por que é que ele tem que bater?
E a isso tudo, acrescentamos que ele não baterá tampouco em Dilma, mineira de nascimento e que vai concentrar o início de sua campanha justamente nas Alterosas. Aliás, um exemplo desta convivência harmoniosa entre a candidata e o ex-governador, ocorreu recentemente, quando Dilma homenageou Tancredo, visitando seu túmulo. Os tucanos mineiros responderam ao gesto com um calor que foi além da simples cortesia. E dona Inês Maria, irmã de Tancredo e mãe de Aécio, fez questão de enviar mensagem de agradecimento.

04-04-10

Vox Populi exibe a grande mentira da
Datafolha e a ultrapassagem de Dilma

Nada como uma pesquisa após a outra. A Vox Populi de sábado (3-4) exibe com todo a nitidez, a manipulação descarada realizada pela Datafolha da semana passada que apresentava José Serra nove pontos na frente de Dilma. Tudo foi armado para que o tucano “crescesse” simultaneamente com o lançamento de sua candidatura pelo impagável José Luiz Datena.
Como insisto sempre aqui deste blog, os dois quesitos essenciais (não únicos evidentemente) para a boa leitura de qualquer pesquisa são: tendência e dinâmica. Então se analisarmos a tendência de Serra tanto nos últimos 24 meses como nas últimas oito semanas, veremos que sua tendência é de estagnação com leve queda. Em novembro ele tinha 38%, em janeiro 36% e agora aparece com 34%. Há dois anos ele tinha 37%.
Dilma , por seu lado, apresenta tendência de crescimento com forte aceleração (dinâmica). Ela tinha 19% em novembro, 27% em janeiro agora, 31%. É natural, por circunstâncias matemáticas, que o crescimento da candidata, muito forte no início, tenda a evoluir mais moderadamente. É fácil entender que passamos de um para dois num piscar de olhos. Mas podemos levar semanas para avançar de dez para vinte.
Com tudo isto, fica claro que mantida a atual tendência (e não há razão para supor mudanças substanciais), na próxima pesquisa Dilma já deverá aparecer na dianteira. Neste exato momento, ela esta realizando a ultrapassagem, Il sorpasso.
E não custa lembrar que, como sempre dissemos neste blog, Ciro Gomes subtrai mais votos de Serra do que de Dilma. Num panorama sem Ciro como candidato, Serra sobe de 34% para 38 %.

Veja também matéria logo abaixo.

31-03-10 Atualizada em 2-04-10

Sem esperanças de ser vice de Dilma, Meirelles fica
no BC. Caminho aberto para Ciro e Roberto Requião


Sem Meirelles no páreo, ficam mais fortes as candidaturas de Ciro Gomes e Roberto Requião.

Só na última terça-feira, Henrique Meirelles conseguiu conversar com o presidente Lula, para poder decidir sobre seu destino político. Saiu da reunião decepcionado e convencido de que não seria o vice de Dilma Rousseff, o seu projeto mais acalentado. O presidente pediu para ele continuar à frente do Banco Central. Meirelles ficou de dar uma resposta em 24 horas. E ontem, quinta-feira, ele decidiu permanecer no BC, atendendo, assim, a uma das principais necessidades do Planalto: exibi-lo ao Mercado como penhor de que Dilma não é mais esquerdista do que o razoável, nem vai mudar a política econômica.
Esse, aliás, é o jeito peculiar de que o presidente se utilizar quando quer dizer não a um amigo ou colaborador. Ao receber o “pedido” para que continue à frente do BC, Meirelles percebeu logo que não seria o vice da chapa oficial. Agora lhe resta manter-se no cargo, com a promessa, talvez, de que continuará nele durante o próximo governo. Melhor isto do que lançar-se numa prosaica candidatura ao Senado pelo PMDB de Goiás.
Com Meirelles abandonando o páreo, estreita-se mais o leque de opções para a escolha do noivo, digo vice, de Dilma. Se prevalecer o critério de que terá que ser preferencialmente alguém do PMDB, do Sudeste ou do Sul, sobram apenas os nomes de Michel Temer e Roberto Requião, já que Hélio Costa foi encaminhado para a disputa do governo de Minas e Sérgio Cabral (Rio) surfou mal a onda do pré-sal e incompatibilizou-se com 24 estados brasileiros.
Michel Temer (São Paulo) presidente da Câmara dos Deputados foi descartado há meses, por falta de votos e liderança em seu próprio estado. Além disso, haveria razões nebulosas que remontam à “Crise do Arruda” eclodida em novembro. Requião apesar da recente aproximação com o governo e com a própria candidata, sofre importante resistência por parte do PT paranaense.
Agora, se o presidente Lula conseguir convencer o PMDB a trocar a vaga de vice por, digamos, mais um ministério e duas estatais poposudas, então o candidato natural passa a ser Ciro Gomes, um “socialista” que consegue tira votos de Serra no Sudeste e no Sul.
Veja também matéria logo aí embaixo.



27-03-10

Depois de muitas voltas, Ciro agora quer ser vice Dilma

Ciro Gomes, o eclético socialista, desde que, em meados do ano passado, transferiu seu título do Ceará para São Paulo foi a peça que mais se mexeu no tabuleiro sucessório. Lástima que tenha avançado tão pouco. Neste período, alternadamente, ele foi candidato ao governo de São Paulo, a vice de Aécio Neves, caso este fosse candidato à presidência, e candidato a presidente.
Sua candidatura à presidência dependia do apoio do presidente Lula e chegou a ser admitida no Planalto quando o ibop de Dilma era muito baixo e temia-se uma eventual vitória de Serra no primeiro turno. Nesse caso, a candidatura de Ciro era garantia de que haveria o segundo turno. Hoje, inverteu-se a coisa e quem corre o risco de eleger-se de primeira é a candidata oficial.
Além disso, Ciro jamais conseguiu convencer seu próprio partido, o pragmático Partido Socialista Brasileiro que, à sua revelia, fechou acordo com o Planalto (apoio a Dilma) e com a FIESP, apoio ao inacreditável Paulo Skaf e sua ridícula (embora milionária!) candidatura ao governo de São Paulo.
Ciro repete sempre que há anos vem se preparando para ser presidente da República. Eu também. O problema é que ele, assim como Serra, não tem discurso. Não tem o que dizer ao seu principal reduto eleitoral, a classe média (exceto no Ceará). Uma classe média orientada por pasquins de luxo tipo Globo e Folha de São Paulo, os quais tampouco despertaram para a nova realidade criada com a Grande Crise Norteamericana e, sem senso de ridículo, continuam falando em Estado Mínimo e outras baboseiras neoliberais.
Ocorre que, como Ciro é um homem de sorte, sua candidatura a vice passou a ser tentadora justamente por causa de sua insipidez ideológica. Como este blog vem dizendo há meses, Ciro sempre foi uma opção de voto da classe média, na eventual desistência de Serra. Então é só juntar as duas pontas do raciocínio: com Ciro a seu lado, Dilma neutralizaria, em alguns seguimentos, os temores de que ela é esquerdista em demasia.
Mas nada é perfeito nesta vida: para que seu sonho se realize, Ciro tem que convencer o presidente Lula a romper acordo com o PMDB que, segundo o combinado, indica o vice. Enfim, como nesse mundinho podre e hipócrita da política burguesa o que conta mesmo é o poder e a grana, pode ser que o PMDB, este misto de latifúndio e balcão, aceite trocar o vice por dois ministérios e uma estatal.

19-03-10

PMDB , indignado, avisa que não
aceita prato feito. Só se for caviar

Agora que as pesquisas apontam o favoritismo de Dilma Rousseff, o Comitê Central do PMDB ( leia-se Sarney, Jucá e Calheiros) resolveu agir. A primeira providência foi a de promover , dentro de um mês, um Congresso Nacional para discutir um programa de governo que será apresentado como subsídio ao seu parceiro PT. “Nossa união – diz o presidente da Câmara, Michel Temer, como improvisado porta-voz – deve consolidar-se em torno de programas e idéias, jamais em torno de nomes”.
Encenação pura. O que há é que as velhas raposas temem perder relevância na campanha presidêncial que, graças ao viés ideológico e plebiscitário imposto por Lula, está dando mais certo do que os próprios petistas esperavam. Na mesma declaração, Temer informa que o PMDB “não aceita prato feito”, numa clara alusão às intromissões de Lula na escolha do nome que o PMDB deverá indicar para vice de Dilma. E se você notou nestas palavras uma ponta de mágoa, acertou. O presidente da Câmara, tido durante algum tempo como noivo preferencial, sabe que não será o vice de Dilma. Lula prefere alguém de Minas ou do Sul.
Na verdade, este colegiado de espertos caciques ficou preocupado quando percebeu que Lula esta escolhendo ostensivamente o candidato a vice que deveria ser indicado obviamente pelo próprio PMDB. Depois de pedir uma listra tríplice, uma forma heterodoxa de fritar o Temer, o presidente lança balões de ensaio. Meirelles, por exemplo, não é de Minas, mas é e a caução que o PT oferece como garantia ao mercado financeiro.
O PMDB alega que o presidente do BC é apenas um tucano fora do ninho, mas Lula não tá nem aí. Quanto a Roberto Requião (governador do Paraná), a melhor solução do ponto de vista estratégico, já que sua candidatura abalaria o forte predomínio de Serra nos estados do Sul, o argumento é o de que ele “é personalista e desagregador”. Ao que Lula retruca mentalmente: “desagrega quem, companheiro?”
Enfim, até as convenções de junho, há muito tempo para regateios e negociações. Entretanto, o PMDB já avisou que não abre mão dos ministérios das Minas e Energia, das Comunicações e da Defesa que , por tradição e uso, foram incorporados aos bens da família. Já o Temer parece que passou a sonhar com o Ministério da Justiça, passaporte para uma futura aposentadoria em algum tribunal superior. Mas é apenas sonho.
Se é para comer prato feito que seja caviar, é a máxima recém descoberta pelo fisiologismo nacional.

04-03-10

A visita da velha senhora
Parte II

Como este blog informou ontem, o objetivo central da visita da secretária de estado Hillary Clinton ao Brasil era o de declarar formalmente ao governo Lula que os EUA não tolerarão a existência de um Irã dotado de armas atômicas. É a sobrevivência de Israel que está em jogo e, por razões internas, os norte-americanos jamais abandonarão este seu aliado mais íntimo. Esta é, aliás, a raiz de toda a crise do Oriente Médio que entra em sua oitava década e tem como principal marca o martírio do povo palestino.
Na linguagem diplomática, o governo brasileiro “anotou” as ponderações norte-americanas, mas não recuou um milímetro em sua posição de manter relação não só de amizade como de cooperação com o regime iraniano dos aiatolás. Seja com for, o critério da avaliação democrática deve ser descartado por inválido, já que ambas as partes, quando conveniente, sempre mantiveram relações estreitas com todo tipo de ditadura. A China é exemplo mais que suficiente para calar qualquer argumentação hipócrita a esse respeito.
Restam, então, os motivos econômicos e estratégicos que compete a cada país selecionar com independência; sendo certo que brasileiros e norte-americanos, tem razões e motivos totalmente discrepantes, o que é absolutamente normal .
Entretanto, estas discrepâncias podem conduzir a atritos, sobretudo no caso presente, onde uma das partes, os EUA, habituou-se ao longo da História a ver seu interlocutor, no caso o Brasil, como um aliado incondicional, obediente e calado.
É isto o que mudou nos últimos sete anos e é esta, talvez, a principal marca ( para a História) do Governo Lula. É claro que a Globo, com seus Alexandres Garcias e Willians Waacks, jamais entenderá esta realidade simples, dada sua submissão atávica aos interesses estratégicos dos EUA que sãos os mesmos do Capital Financeiro Internacional. Capital bandido e pai da atual grande crise econômica que assola o mundo e arrebenta com os paradigmas neoliberais. Graças a Deus.
Na matéria abaixo editada ontem e que é a primeira parte desta, você terá mais detalhes sobre o acordo nuclear do Brasil com o Irã e outros lances do contencioso diplomático entre os governos Lula e Obama.

0 3-03-10

A visita da velha senhora
Parte I

A última vez que Madame Hillary Clinton veio ao Brasil, seu marido Bill era o incontestado dono do mundo. Elegante e, principalmente simpático, o casal possuía aquele dom especial que deixa os vassalos a vontade. Tanto que os mais ingênuos sentiam-se como se fossem iguais ao senhor do Castelo. Creio que foi isso o que mais seduziu ao nosso Fernando Henrique que pagou o gesto elegante dos Clinton com lealdade absoluta. Lealdade esta que no mundo desigual dos negócios e do poder é normalmente entendida como submissão.
Nesta nova visita, a velha senhora vai encontrar interlocutores rústicos, talvez até mais sinceros, porém nem um pouco vassalos. Lula e seu chanceler Amorim (sem falar no Garcia) são indelicados o suficiente para lembrar a todo instante que o Castelo está em ruínas, carecendo de amplas reformas e até de aulas práticas de como gerir sua combalida economia doméstica. Enfim, toda nobreza arruinada já passou por estes constrangimentos. E quem imagina que exagero, leia, por favor, nos jornais de hoje, o conselho de Lula a Obama: Você precisa criar um banco estatal como este nosso aqui do Brasil.
Entretanto, tirando a questão iraniana, a visita de Hillary é meramente protocolar. Cedo ou tarde ela teria que realizar este périplo pelo Continente e fará isto, talvez, com o olhar nostálgico de quem visita antigas propriedades. Para cumprir o enrolation diplomático, a secretária de Estado e nosso chanceler assinarão documentos que falam de livre comércio e especificam questões como a do algodão e do suco de laranja. Nada que não pudesse ser discutido a nível de embaixadores ou até por telefone.
Mas a questão iraniana é séria. Obama já engoliu uns duzentos sapos desde o dia em que caiu na besteira de consagrar Lula como “o Cara”, porém fará o possível para demover o brasileiro da posição “extravagante” de não só exigir que o Irã desenvolva com liberdade seu programa de pesquisas atômicas, como inclui a ousadia de anunciar a assinatura, em maio, de um acordo de cooperação nuclear com aquele pais.
A este respeito Hillary dará alguns recados duros que provavelmente serão ouvidos em silêncio por Lula e Amorim. Eles sabem que os poderosos (e os EUA ainda o são) aturam algumas desobediências menores e ingênuas irreverências, Mas “ainda não dá pra bater de frente com eles”.
Para provar que fala sério, a secretária de Estado desembarca em Brasília com antecedência de apenas alguns dias em relação a outra visita. A do japonês Yukiya Amano que dirige a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão ostensivamente manipulado pelos EUA e que tem como missão concreta impedir a proliferação de armas nucleares.
A AIEA tem feito novas e maiores exigência de inspeção às indústrias e laboratórios de pesquisas atômicas do Brasil. Este pode ser um aviso de que a aproximação com o Irã pode custar uma escalda de constrangimentos em relação ao nosso programa nuclear que é pacífico. O problema é que cientistas e militares brasileiros envolvidos com energia atômica, estão convencidos de que, com Irã ou sem Irã, as seis potências que controlam o ciclo completo do enriquecimento do urânio não querem é novos concorrentes comerciais nesta área altamente lucrativa. O Brasil está a um passo de ingressar neste seleto clube.
É possível que meus queridos leitores mais afeitos às novidades da campanha eleitoral, não tenham notado a matéria que encontrarão logo aí abaixo e que editei há cinco dias neste blog. Ela explica com mais detalhes este triângulo desamoroso entre Brasil, EUA e Irã. Creio que vale a pena dar uma olhada nela.

27-02-10

Mais detalhes sobre o acordo nuclear Brasil/Irã

Durante sua vista a Teerã, em maio, o presidente Lula assinará com seu colega Mahmoud Ahmadinejad, um documento que estabelece uma série de posições comuns e um rol de intenções na direção da cooperação entre Brasil e Irã. Entre os itens desta cooperação constará o da pesquisa nuclear para fins pacíficos. Para simplificar , nós jornalistas (no caso o Merval Pereira e eu que fomos os únicos a tratar do assunto) demos ao referido item, o nome pomposo de Acordo Nuclear. Digamos, então, que é quase isso.
Mas leve o nome que levar, este item é a forma encontrada pelo Itamaraty para alcançar três objetivos; a- realizar um movimento diplomático que represente, a quem possa interessar, uma aviso de que o Brasil não aceitará ingerências indevidas ( maiores dos que as tecnicamente necessárias) no nosso programa nuclear por parte da Agência Internacional de Energia Atômica, encarregada de inspecionar o desenvolvimento do dito programa, b- despoluir a visão preconceituosa do Ocidente em relação ao desenvolvimento do programa nuclear iraniano que se encontra em estágio semelhante ao do Brasil, e c- aproveitar o embalo para assinalar , mais uma vez a insatisfação do Brasil em relação a atual ordem mundial “congelada” desde o fim da Segunda Grande Guerra.
Quanto ao item a, como mostrei na matéria de ontem ( ver logo ai abaixo desta), o governo brasileiro suspeita que a Agência Internacional de Energia Nuclear esteja sendo usada menos no interesse da não proliferação de armas atômicas e mais na da defesa de privilégios oligopolizados dos atuais detentores de tecnologias neste setor. O Brasil está próximo de juntar-se aos sete países atualmente únicos donos dos “segredos” do ciclo completo do enriquecimento do urânio.
Quanto ao item b, a diplomacia brasileira chama a atenção para o fato de que todo país tem direito a desenvolver livremente sua pesquisa científicas e não pode ser tolhido só porque há suspeitas subjetivas sobre suas verdadeiras intenções. E lembra, a propósito, que não houve o mesmo cuidado com relação à Índia, ao Paquistão e a Israel aos quais foi permitido construir o seu arsenal atômico, quando isso parecia compatível com os interesses estratégicos do Ocidente.
Quanto ao item c, não é novidade para ninguém que a linha mestra da diplomacia brasileira, durante o Governo Lula tem sido a de abrir caminho (reconhecidamente árduo) para o “descongelamento” do atual Poder Mundial, o que passa por uma reforma da Carta da ONU e pela ampliação do seu Conselho de Segurança com a inclusão do Brasil e pelo mais seis países.
Como se nota, o Itamaraty não improvisa, como também não é novidade que a mídia brasileira sempre se exalte quando o País adota uma posição digna e soberana. Isto porque ela está atavicamente subordinada aos interesses estratégicos norte-americanos e do capital financeiro internacional.

Não deixe de ler a matéria logo aí abaixo. Ela é complemento desta e com esta se complementa.

26-02-10

O acordo nuclear Brasil/Irã e a
sintonia da mídia brasileira com
os objetivos estratégicos dos EUA

O Brasil poderá assinar, em maio durante visita do presidente Lula a Teerã, um acordo nuclear com o Irã, o país de Ahmadinejad, o mais novo diabo adotado pela mídia internacional. Isto significará o clímax da tensão nas relações Brasil/EUA que deixaram de ser boas desde o primeiro governo Lula e vem se agravando quase que de forma programada. Os pontos de atrito vão-se multiplicando: Venezuela, bases militares na Colômbia, Honduras, Haiti , etc.
A opinião pública brasileira está como que sendo pega de surpresa, pela razão de que não foi informada, ou antes, foi deliberadamente desinformada sobre este assunto pela nossa mídia inteiramente subordinada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Neste sentido, uma a uma, todas as posições da diplomacia brasileira na direção de um posicionamento independente foram minimizadas, criticadas ou ridicularizadas.
Ocorre que, de forma bem visível a partir da crise de Honduras, a posição do Itamaraty está deixando de ser meramente de afirmação e independência para representar uma contestação e mesmo um confronto à política externa americana que é a de preservar a hegemonia mundial obtida ao longo do século passado.
No quadro restrito da política continental, a vitória da diplomacia brasileira foi completa e apenas a mídia brasileira ainda não viu que não só na America do Sul, (onde a vantagem brasileira é absoluta) estamos nos saindo bem no Caribe e América Central, onde o Itamaraty disputa influência, palmo a palmo, com o Departamento de Estado.
E Obama não pode fazer nada a não ser engolir sapos em série, por uma razão simples: no atual quadro da política norte-americana para o Continente, desmontada por Bush, qualquer coisa é pior do que romper com O Brasil. Com outras palavras: ruim com o Brasil, pior sem ele. Isto porque, habilmente, o Itamaraty embora parta para o confronto estratégico de longo prazo, procura manter, no dia a dia, uma posição mais moderada e de conciliação. Comparado com outros países, o Brasil fica parecendo um inocente bombeiro.
Quanto à questão nuclear, o acordo com o Irã não é apenas um ponto de afirmação brasileira como potência emergente protagonista da cena mundial. É, principalmente, um instrumento de auto-defesa: nos últimos tempos a Agência Intencional de Energia Atômica que fiscaliza e coíbe as políticas nacionais de enriquecimento de urânio, vem apertando o cerco contra o Brasil exigindo inspeção in loco de instalações brasileiras onde são desenvolvidas tecnologias diferenciadas e que, por isso, representam segredo industrial. Tanto cientistas como militares envolvidos no nosso programa nuclear denunciam que o Brasil está sendo indevida e injustamente tolhido em sua política de desenvolvimento tecnológico com autonomia.
E registre-se que o Brasil é dos poucos países que dominam a tecnologia do enriquecimento do urânio, ao lado de EUA, Rússia, China, França, Alemanha, Holanda e Inglaterra. Sendo que trabalhamos em cima do que são consideradas as maiores reservas deste mineral no mundo. Suspeita-se, por isso, que a ação da Agência Internacional de Energia Atômica (no caso brasileiro) esteja mais voltada para a defesa do atual oligopólio mundial da indústria de energia atômica do que propriamente no sentido de evitar a proliferação de armas nucleares.
Quanto ao Ahmadinejad, eu não sou nenhum maluco para sair por aí defendendo suas extrapolações e as bobagens que diz sobre o Holocausto. Mas tenho certeza de que ele é apenas um projeto inviável de diabo perto dos falcões americanos que defendem a política continuada de agressão e expansão em nome da “missão civilizadora” dos EUA. Sem falar nos animalescos e fanáticos ortodoxos israelenses que trucidam metodicamente o povo palestino, contrariando mil e uma resoluções e advertências da ONU.

25-02-10

Por que a mídia torce tanto contra o Brasil
e alinha-se com o Departamento de Estado

O objetivo deste texto é o de esclarecer por que a mídia brasileira abriu tão pouco espaço e tratou com tanta má vontade a criação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos, da qual ficam excluídos os Estados Unidos e o Canadá. Trata-se de um marco histórico que assinala a desativação de fato da OEA que, durante mais de um século, foi usada como instrumento de imposição da hegemonia norte-americana no Continente. Cuba que fora excluída da OEA por ordem dos EUA, retorna agora, meio século depois , ao convívio da comunidade latino-americana.

Algumas vezes tenho que ser repetitivo, pela boa razão de que tanto no Twitter como no blog estão sempre chegando novos olhares. É um freguesia crescente graças a Deus. Os leitores mais antigos terão que me perdoar.
Digo isso por que mais de uma vez já denunciei aqui a pérfida posição de nossa mídia, sempre alinhada com os objetivos estratégicos dos Estados Unidos que não são, obviamente, os mesmos do Brasil. Na verdade – e este talvez seja o mérito histórico do Governo Lula – pela primeira vez, o Itamaraty conseguiu traçar e dar conseqüência a uma política externa absolutamente independente. E não só independente como conflitante com o projeto hegemônico dos Estados Unidos.
Mas é preciso examinar tudo isto mais de perto: a hegemonia norte-americana global e continental que é a que mais nos incomoda , está – ou esteve até a eclosão da atual crise econômica – inteiramente articulada com a hegemonia do capital global de corte financeiro e especulativo que é o mais bandido e destrutivo de todos os capitais.
Esta hegemonia dupla e ao mesmo tempo unipolar ( sem contestação) foi obtida a partir dos anos 80 (queda do Muro de Berlin e derrocada soviética) com a implantação dos paradigmas neoliberais que estabeleceram que era crime contra a inteligência e a boa fluidez dos negócios permitir que o estado interviesse de alguma forma na plena liberdade de ação e na soberana vontade do Mercado. Deu no que deu: os EUA de pires na mão junto ao enigmático estado chinês ao qual deve mais de um trilhão de dólares (um Brasil inteiro) e de cuja boa vontade dependente absolutamente.
É o Mundo Neoliberal que literalmente veio abaixo e está aí, no chão, à vista de todos, menos da idiota e idiotizante mídia brasileira. E aqui chegamos ao ponto: esta mídia medularmente corrupta foi a primeira a ser cooptada pela grana e pelas idéias neoliberais. Por isso é pertinente dizer que ela é estruturalmente dependente daquele capital a que nos referimos, o financeiro.
Vai daí que toda mídia tem seus expoentes e estes, se quiserem usufruir os benefícios deste status, devem servir como cães pastores aos seus patrões que não sabem escrever mas sabem o que querem. Temos aí, então, um plêiade de beletristas absolutamente sintonizados com o pensamento da “direção” da casa que, por sua vez esta sintonizada, no nível da vassalagem, com o Capital Financeiro e com o Departamento de Estado. Então, esta sintonia é tão fina que se pegarmos um texto do Merval Pereira, por exemplo, que é o escriba-mor do Globo, teremos a sensação de estarmos lendo um release (texto de divulgação) da Hillary Clinton.
Já que citamos Merval, merecem ser citados também Augusto Nunes, Diogo Mainardi, José Nêumanni Pinto, Antônio Calos Sardenberg, Willian Waack , Míriam Leitão e Alexandre Garcia entre outros menos votados. Não sei quanto a você caro leitor, mas eu pessoalmente concedo a todos estes exímios jornalistas o benefício da dúvida. É possível que eles estejam realmente convencidos do acerto daquilo que escrevem. Menos o Jabor. Deste emana um forte ranço de picaretagem porque está muito na cara que ele se faz de porralouca para dizer com liberdade poética o que nem os donos dos jornais tem coragem de dizer.

22-02-10

Serra, o calculista, está agora na mão de
Deus e do IBOP, até o Globo o ambandou

Cansado de brigar com a notícia, Ricardo Noblat fornece finalmente a seus leitores do Globo algo que se aproxima da verdade. Afirma em seu coluna de hoje que diante do “elefante Lula”, às “formiguinhas PSDB, DEM e PPS em fase terminal” (!) só resta assistir à vitória tranquila de Dilma Rousseff. Serras só ganha esta eleição diz o colunista global se “ Dilma perder a eleição para ela mesma”.
É inacreditável, mas Noblal parece mesmo disposto a reconciliar-se com a evidência dos fatos. Chegou até a revelar algo que repetimos há dois meses neste blog: Serra vai oferecer mais uma vez a vice-presidência a Aécio Neves que, mais uma vez, vai recusar.
Faltou apenas que este portento do jornalismo político dissesse que o principal problema das “formiguinhas” PSDB, DEM , PPS e do próprio Serra é a obsolescência do seu discurso neoliberal. Seria pedir demais.
Eis, porém, a pergunta que não quer calar: Noblat só descobriu estas verdades elementares agora e todas juntas, ou ele já as conhecia, mas matreiramente as sonegava de seus incautos leitores?
É importante que os desamparados leitores do Globo examinem bem o pãozinho e o jornal que levam todas as manhãs para suas casas. Ambos podem estar adulterados. O jornal certamente está.

O que Noblat ainda não disse

Poucos adjetivos dizem tanto de uma pessoa do que frio e calculista dizem de José Serra. Se não é, pelo menos até agora ele vinha se comportando como senhor de seu destino. Auto-confiante – “eu tenho nervos de aço” – nos últimos seis meses ele rejeitou todas as propostas honestas e todos os conselhos sensatos para que decidisse logo se seria ou não candidato à presidência . “Nada feito – dizia ele – só vamos resolver isto em março. “Mas a campanha da Dilma já está nas ruas há meses, já podemos vê-la pelo retrovisor” insistiam seus correligionários aflitos. “Nada feito”, repetia ele, impávido.
Quando consentia em discutir o assunto, o submerso governador bandeirante apresentava o argumento tão impecável quanto óbvio: para quê nos expormos antecipadamente? Não precisamos virar vidraça antes do tempo.
Tudo mentira. O que Serra tinha e tem é uma coisa simples chamada medo. Não queria trocar a reeleição certa para governador pelas incertezas de uma travessia difícil até Brasília, enfrentando o vento lulista pela proa. Queria deixar uma ponte intacta para um possível recuo, caso as pesquisas de março lhe fossem adversas.
Quando criança, na Mooca, ele deve ter ouvido o conselho sábio de alguma tia velha. Desses conselhos que estragam nossa vida até o último dia: mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.
Pois agora quem não deseja mais vê-lo candidato sãos seus próprios correligionários, uma boa parte deles, pelo menos. Quando chegarem as pesquisas de março fechando o verão, é possível que algumas delas já apontem um empate técnico entre ele e Dilma, a desajeitada e pouco íntima dos palanques.
Se ainda houvesse tempo para uma manobra radical que juntasse na mesma chapa o come quieto Aécio Neves e o eclético socialista Ciro Gomes, talvez ainda fosse possível mudar o enredo deste samba, o que , na minha opinião não seria bom para o Pais. Mesmo muito bem maquiada e mesmo que signifique um avanço em relação a Serra, esta dupla ainda representa, na essência, o modelo neoliberal.
Mas é fato que há três meses, quando ainda havia tempo, Ciro declarou com todas as letras que só abandonaria sua candidatura à presidência para ser vice do governador mineiro. Ninguém (exceto, talvez, este blog) o levou a sério. A mídia fingiu que não viu, Serra e a tucanagem paulista fingiram que não ouviram e o trem seguiu pelo ramal que conduz ao fim da linha. Os leitores do Globo, evidentemente, não foram informados de nada disso.
Seja como for, não há mais tempo. A mesma candidatura de Serra também já está nas ruas. Virou vidraça sem se beneficiar do foguetório que a mídia lhe teria proporcionado se tivesse ocorrido o lançamento formal. E o pior é que, mesmo que o malandro Montenegro manipule e distorça o IBOP que é seu, se as outras pesquisas revelarem no próximo mês que suas chances são mínimas, o infausto governador paulista será abandonado por boa parte de seus correligionários. Correligionários estes que insistirão para que ele ceda a vez ao Aécio, como já cedeu há quatro anos para o Alckmin, quando temeu enfrentar Lula. O problema é que ele agora já não tem condições morais para jogar a toalha. Seria a desmoralização total. Então, é possível que ele fique sem o pássaro na mão enquanto os outros dois continuam a voar.
Há outros adjetivos que também ornam Serra. Tíbio e insípido, por exemplo. Talvez tenha faltado ao menino lá dos tempos da Mooca, um tio boêmio, meio poeta e meio louco que lhe dissesse: Navegar é preciso, chegar não é preciso Ou então: Deus não pediu para você vencer, pediu para você lutar.

Mais textos sobre o mesmo tema nas colunas Última Hora e Coisas da Política, neste blog.

1-02-10

A prova da mentira covarde e descarada do Globo

Eles não cansam de mentir e desrespeitar seus leitores. Usam como armas principais a omissão e a distorção. Quando passa na padaria e na banca, logo de manhã, o freguês incauto imagina estar levando para casa um produto íntegro. No caso do jornal, se for O Globo, está levando veneno puro.
O jornalão dos Marinhos, detentor virtual do monopólio da faixa de leitores de classe média no Rio, trata seus leitores como massa de manobra e moeda de troca. Não há o mais mínimo respeito à verdade e aos códigos elementares da profissão de jornalista. Os delitos vão do desrespeito ao consumidor à conspiração política, aquela que é tramada pelas costas e não no debate aberto e honesto, a ação política legítima.
Agora vejamos como, sofisticados e exímios, a direção e os empregados do jornal, conseguem praticar todos os delitos mencionados acima no exíguo espaço de algumas poucas linhas. Vamos ler a frase colhida da edição de hoje (1-02-010) na página 21. Ela vem embutida numa matéria contra Chávez que não é objeto de notícia , mas de campanha feroz por parte do diário:
“Depois de tirar do ar cinco canais de TV a cabo do país – desencadeando uma onda de manifestações estudantis que tomou as ruas de várias cidades e deixou dois estudantes mortos em choque com a polícia na semana passada – o presidente Chávez anunciou que vai pedir uma punição ao jornal “Tal Cual” alinhado à oposição.
Primeira parte da mentira: qualquer pessoa desprevenida ao ler estas quatro linhas chegará à conclusão automática de que as ruas das cidades venezuelanas foram tomada por um multidão indignada de estudantes que combatem um homem mau. Releiam, por favor, a frase e digam que exagero ou distorço.
Agora a versão verdadeira, publicada por jornais do mundo todo que ainda preservam um mínimo de dignidade: as ruas de Caracas foram tomadas por uma multidão de estudantes que, divididos em partes iguais, atacam e defendem o presidente Chávez. Um deles, de apenas quinze anos, era chavista. Foi abatido por um tiro desferido da janela de um edifício.
Nem é preciso dizer que o enunciado da notícia também é falso: as emissoras de TV a cabo não foram retiradas do ar de forma definitiva como o texto dá a entender. Elas foram suspensas, por poucas horas, como punição prevista na Constituição ( assim como no Brasil) a um desacato ostensivo e ensaiado às autoridades. O objetivo era este mesmo, provocar uma comoção e levar os estudantes às ruas.
Esta é a radiografia, leitor amigo, de como você é iludido, traído na sua confiança se, por infelicidade, adquiriu o hábito de só ler o Globo.

25-12-09

Se pedirmos para os outros, Deus dará para todos.

Recebi a incumbência de difundir, neste dia de Natal, a oração que você lerá logo abaixo. Se, ao lê-la, você sentir que isto fará bem ao seu coração, como ocorreu comigo, então passe adiante. É, ceio eu , uma boa forma de comemorar esta data e ingressar bem no Ano Novo

22-01-10

Pela segunda vez,
sempre delicadamente,
Lula tenta fritar Temer

Presidente pede novamente uma lista tríplice para escolher quem o PMDB “indicará” como vice de Dilma. Ressurgem os nomes de Hélio Costa. Henrique Meirelles e Sérgio Cabral.

Como todos (pelo menos os que lêem este blog) sabem, o presidente da Câmara Michel Temer (PMDB) foi abatido por uma bala perdida, há pouco mais de um mês, durante o tiroteio que se seguiu ao Escândalo Arruda. Nesta ocasião, o presidente Lula fez uma proposta esdrúxula, sugerindo que o PMDB oferecesse uma lista tríplice para que ele e Dilma escolhessem o candidato a vice da chapa governista.
Esta foi a forma educada que o presidente encontrou para fritar Temer a quem o lugar já havia sido prometido. A desculpa, fornecida nos bastidores, era a de que o noivo tinha pouco voto e pouca máquina até mesmo em sua terra, São Paulo, onde Quércia, insaciável, já grudou em Serra de uma tal forma que ninguém consegue desgrudar.
Mesmo sendo de bastidor, a versão é falsa. A verdadeira (daí a bala perdida) é que Temer , de alguma forma foi alcançado pelas investigações da Polícia Federal que culminaram com o Escândalo do Panetone. Entretanto, Temer cujo rosto é tão duro quanto o de uma estátua de Júlio César, não precisou nem fazer cara de paisagem e continuou candidato como se na tivesse acontecido.
Isto obrigou o presidente a repetir a proposta esdrúxula e pedir, novamente, uma lista tríplice. Então, agora, como da primeira vez, afloraram os nomes de Hélio Costa, que tem como alternativa ser candidato ao governo de Minas e Meirelles que tem como alternativa continuar sendo o presidente do BC no governo Dilma. Um terceiro nome, guardado com o maior carinho no bolso do colete presidencial, é o de Sérgio Cabral. Com este , matam-se dois coelhos: Dilma dispara no Rio e o PT, finalmente, poderá lançar candidato próprio no estado.
Seja como for, as negociações são difíceis porque o PMDB sabe que Lula precisa dele, o que é muito perigoso. E, realmente, o presidente precisa do partido, primeiro para garantir a governabilidade até o fim de seu mandato; segundo por causa da grande máquina da velha agremiação, sobretudo na capilaridade dos municípios. Finalmente, em função do precioso tempo de TV.
Entretanto, o PMDB são três, todos fisiológicos. Um é o dos senadores, que pensam no longo prazo e no poder e seus cargos; segundo, o dos deputados que sabem que período eleitoral é época de se faturar alto e, por último, as lideranças regionais que não estão nem aí para a Dilma. Só raciocinam em termos de composição para as eleições em seus estados.

21-12-09

Será que até O Globo está lulando?

_ Se o clima fosse um banco eles já o teriam salvo (Hugo Chávez, presidente da Venezuela, sobre a reunião de Copenhague)

A frase que o amigo acabou de ler aí em cima não foi pinçada pelo autor deste texto. Creiam que ela foi escolhida por Ricardo Noblat para abrir sua coluna no Globo, esta segunda-feira. E é ainda mais curioso o fato de o dito do presidente venezuelano ter sido colocado ali de forma gratuita. Na seqüência, o colunista trata de assunto totalmente diverso, o desempenho ruim de Dilma Rousseff como candidata, embora Noblat admita seu favoritismo em função da transferência da popularidade do presidente para ela.

Este é um fato entre muitos outros que podem ser alinhados, indicando uma clara amenização da postura do jornalão em relação a Lula e até à sua política externa que, há poucas semanas, era o principal alvo da fuzilaria da Maison Marinho. O que há então?

Há dois fatos principais. O primeiro é estratégico, porém meramente comercial ou empresarial: um passarinho que freqüenta as varandas da Aldeia Global me contou que as vendas em banca do jornal estão caindo verticalmente. E pesquisas encomendadas indicam que isto não se deve às mídias alternativas (principalmente a internética) que proliferam nos últimos anos. Na verdade, ao assumir o monopólio virtual da informação impressa para a classe media no Rio (o último concorrente, o Jornal do Brasil, está em coma induzido há mais de um ano), o Globo negligenciou um tipo de leitor que ocupa fatia importantíssima do mercado e, sendo de esquerda ou de centro-esquerda, com foco para os setores intelectuais, tem importância capital para a chamada “formação de opinião. Embora ocorra também em capitais como Porto Alegre e Recife, o fenômeno é um característica histórica do carioca. Por isto o Brizola se deu bem aqui.

Enfim, além de comprar menos jornal, este tipo de clientela que estamos analisando, mesmo quando insiste em ler o Globo, inunda a redação (da TV também) com cartas e e-mails de pura espinafração. Ora, nem mesmo um Martinho consegue trabalhar com desenvoltura diante deste tipo de pressão.

A outra razão é também estratégica, mas de longo alcance político: cansados de tentar, com o fôlego de seus próprios pulmões, inflar o balão apagado da candidatura Serra, os Marinhos teriam resolvido manter uma espécie de convivência pacífica com os fatos, deixando de omiti-los ou distorcê-los na tradicional forma drástica. Assim, em relação a Lula e à candidatura Dilma, o jornalão teria revisado sua posição radical, para ficar mais próximo da contemporização.

Tudo para salvar pelo menos os dedos, como é o caso da linha macroeconômica seguida pelo governo. Daí o entusiasmo com a candidatura de Meirelles como vice de Dilma. O mesmo vale para Sérgio Cabral adotado ostensivamente pelo Globo. Quanto ao terceiro possível candidato a vice na chapa governista, o ministro Hélio Costa, das Comunicações, apesar dos recentes desencontros por conta da discussão sobre a liberdade de informação em todos os níveis, é bom lembrar que ele (o Hélio) além de forte candidato ao governo de Minas, já trabalhou na casa e, segundo as más línguas , ainda trabalha.

Mais informações sobre este tema na coluna Coisas da Política deste blog.

27-10-09

Quando o peão vira torre

Ignorado pela mídia do Sul, o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, é figura essencial na sucessão de Lula.

Jornalismo diário exige objetividade que requer foco. Foco em alguns aspectos ou nomes essenciais, os que contam. Na sucessão presidencial, por isso, tudo gira em tono de Lula, Serra, Dilma, Ciro, Aécio e Marina. Mas jornalismo político requer também perspicácia. Qualidade que permite, por exemplo, desvendar o que está por detrás da noticia ou detectar a ação de uma eminência parda. Tudo isto para dizer que na dança sucessória rumo ao Planalto, esta faltando o nome de Eduardo Campos, jovem (46 anos) governador pernambucano e ex-presidente (mas controlador de fato) do PSB, Partido Socialista Brasileiro.

Ancorado na aprovação de sua administração e na habilidade sertaneja herdada de Arraes, o pernambucano detém hoje, temporariamente é verdade, os barbantes que amarram ou conduzem os destinos de todos aqueles que disputam a presidência. Vejamos:

1- Ele está por trás de todo este reboliço em tono do pré-sal e, à distância, torpedeia o esforço desesperado do governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, que não quer perder um tostão dos royalties do petróleo. Campos age em nome de governadores nordestinos e mais aqueles que também estão de olho no pré-sal. Com isso, ele racha o PMDB de alto a baixo e cria dificuldades para a manutenção do acordo mediante o qual este partido indicaria o vice na chapa de Dilma Roussef. Como se sabe este vice seria Michel Temer, presidente da Câmara e (licenciado) do PMDB. Neste exato momento, a partilha do petróleo está sedo votada na Câmara.

2- Ciro Gomes também tem seu destino nas mãos de Campos que pode decidir ou influenciar fortemente sobre suas candidaturas (de Ciro) ao governo de São Paulo, à presidência ou como vice de Aécio. Qualquer uma destas hipóteses mexe, evidentemente, com o assim chamado quadro sucessório.

3- Por enquanto tudo são hipóteses. Há tempo para grandes quinadas até março quando haverá um afunilamento e as candidaturas começam a ser definidas para, finalmente, serem oficializadas nas convenções partidárias ainda no primeiro semestre.

No xadrez, peão vale quase nada. Mas há raros momentos em que esta peça simples pode comer a rainha ou até o rei, atrás da torre. Nesta especial ocasião ela vale tanto quanto a própria torre. Quando isto acontece, reza a lenda, o anônimo peão é promovido a bispo. Este é o momento de Eduardo Campos. Prestem atenção nele.

De uns dias para cá Ciro Gomes está meio chagado a metáforas e profecias. Ele tem dito que será traído antes que o galo cante três vezes. É claro que se trata de mera coincidência, mas não deixa de ser curioso lembrar que o Galo da Madrugada é um fenômeno essencialmente pernambucano.

Veja também matéria na coluna Última Hora.

24-11-09

Fim de linha para Serra e
sinal amarelo para Dilma

Pesquisa mostra que Aécio e Ciro formam dubla do barulho.

Não tenho como não dizer que bem que avisei: há exatos três meses disse aqui neste blog que a candidatura Serra era um balão apagado em função da obsolescência de seu discurso neoliberal e atrelado à figura de FHC. E há três dias, para espanto de leitores incautos de classe que ainda acreditam em uma mídia (cuja função essencial é jogar área em seus olhos), levantei a hipótese difícil, mas não impossível, da formação de uma chapa Aécio/Ciro Pois a pesquisa CNT-Sensus, divulgada ontem, mostra que se a eleição fosse hoje, esta combinação seria imbatível. E esta é a luz amarela que acaba de acender no painel dos estrategistas do Planto. Tudo ia bem enquanto a situação se encaminhava para uma bem planejada bipolarização entre o lulismo de recém adquirido aroma getulista, de um lado, contra o evanescente neoliberalismo (Serra-FHC) de ranço lacerdista. Era o “efeito plebiscitário” acalentado por Lula e que agora está ameaçado pela ação da dupla dinâmica Ciro/Aécio.

Os tucanos paulistas (Serra inclusive) foram os últimos a perceber isto, porque a memória afetiva e/ou inconsciente coletivo da terra dos bandeirantes, um estado de elite intelectual historicamente anti-getulista, possui esta peculiaridade que a diferencia do resto do país. Não por outra razão, aliás, foi ali o berço do PT e o túmulo eleitoral do Brizola.

Quanto à pesquisa em si, é possível destrinchá-la em poucos tópicos:

1- A queda anunciada de Serra ( de 7,7 pontos em relação a pesquisa anterior, para 31,8 %, só surpreende porque foi ainda maior do que a esperada. Além disso, 49,3% dos entrevistados declaram que não votam em ninguém apoiado por FHC.

2- O crescimento de Dilma para 21,3 % é lento, porém consistente, sobretudo se consideramos que ainda não ficou claro ao eleitorado (por enquanto desmobilizado) que ela representa a continuidade - sem restrições – do governo Lula.

3- O crescimento de Ciro para 17,5 e de Aécio para 14,7%, já esperado, surpreende, no entanto, pela quantidade e a velocidade com que ocorreu. Isto deve ser debitado à bem articulada ação de ambos que, nas últimas semanas, conseguiram atrair para eles os holofotes midiáticos.

4- O fato mais relevante demonstrado pela pesquisa e exaustivamente antecipado por este blog é o de que, dependendo da composição dos nomes submetidos aos pesquisados, fica claro que Ciro apesar de pertencer à base governista, subtrai muito mais votos de Serra do que de Dilma. A proporção e de oito para um. Isto explica por que Lula colocava tanto gás no balão de Ciro. O complicador, para Lula é – como já vimos – a possibilidade da aliança Ciro/Aécio, o que rompe a tão desejada bipolarização plebiscitária.

Não deixe de ler as duas matérias logo aí abaixo desta. Elas complementam os raciocínios aqui expostos.

21-11-09

Ciro pode ser vice de Aécio

Ciro Gomes apresenta-se como alternativa para compor a chapa de Aécio e este retribui a gentileza, podendo apoiá-lo, liderando uma dissedência do PSDB.

Eles só não anunciaram ontem, após almoço no Palácio das Magabeiras em Belo Horizonte, por uma questão de timing. Mas, com certeza, Ciro Gomes e Aécio Neves farão isto antes de março, prazo final para a formalização de candidaturas, desincompatibilizações, etc. E anunciarão que há uma forte possibilidade de Ciro vir a ser o vice de Aécio. Porém, dependendo de quem estiver mais bem posicionado nas pesquisas, em março, é Aécio que apoiará Ciro. Este plano vem amadurecendo há meses, desde que os dois amigos (e eles realmente se dão bem desde os tempos em que Ciro era uma da principais lideranças do PSDB) resolveram deixar de ser coadjuvantes. O objetivo é desconcertantemente simples: a- romper a camisa de força a que ambos estavam submetidos, Ciro dependente da simpática compreensão do presidente Lula e Aécio subordinado à errática estratégia do tucanato paulista comprometido com a candidatura Será; b- tomar um banho de holofotes midiáticos até então voltados apenas para Serra, Dilma e Marina e c -levar o projeto até as vias de fato, por que não?

Nas entrevistas de ontem em Belo Horizonte os dois pré-candidatos deixaram clara a intenção de caminharem juntos até a eleição do próximo ano. Palavras de Ciro: ”Se Aécio for candidato, minha candidatura não será mais necessária”. Palavras de Aécio: “É uma amizade de toda a vida, seria extraordinário se pudéssemos caminhar juntos”.

Os jornalões brasileiros não informam isto corretamente, porque perderam definitivamente a compostura e assumiram sua função de meros manipuladores da opinião pública. É a isto que eles chamam de liberdade de imprensa. Seja como for e como este blog vem registrando há semanas, há na área governista ( mais precisamente na petista) um sério desconforto em relação a Ciro. Na vertente oposicionista a situação é mais grave: há um racha declarado e já se partiu para o desaforo tanto em reação a Ciro como a Aécio. Algumas declarações: “Este encontro foi uma provocação”, resume Gustavo Fruet, uma das principais lideranças tucanas. “Ele (Ciro) é um desafeto do PSDB, diz que representamos o atraso”, desabafa a senadora Marisa Serrano, vice-presidente da legenda. Finalmente, Sérgio Guerra, o presidente do partido afirma, conciliador, que “Aécio tem o apoio do PSDB de Minas e acho natural que, como pré-candidato, procure apoio em todo lugar”. Há uma semana, Guerra dissera que Aécio (na comparação com Serra) “é mais abrangente”, o que foi percebido por uns como uma gafe e, por outros, como um recado enviado ao governador paulista. Este, aliás, é chamado pelos desafetos como o Coiso. E foi assim que Ciro referiu-se a ele, ontem, após a reunião com Aécio.

Agora um breve retrospecto:

1-A candidatura Serra começou a fazer água, há meses, (fato registrado por este blog), torpedeada que foi por um fator externo: a Grande Crise Norte-Americana fez com que o tucanato ficassem sem discurso, já que o usual, a defesa do estado mínimo e do Mercado liberado, tornou-se escancaradamente obsoleto.

2-Percebendo isto, Aécio saiu na frente e atualizou seu discurso que adquiriu alguma conotação nacionalista, estatizante e até de compreensão em relação aos movimentos sociais. Para ele isto não foi difícil, sendo como é, neto de Tancredo Neves, conservador e getulista ao mesmo tempo.

3- Um dos principais mentores da nova postura de Aécio é César Maia que controla virtualmente o DEM, mas não conseguirá que este partido também rache de alto a baixo.

Para que este artigo não se alongue a ponto de começar a aborrecer os leitores, deixaremos para amanhã a repercussões, não pequenas, nos arranjos , já em andamento, nas sucessões estaduais.

Mais sobre este assunto na matéria logo aí abaixo.

17-11-09

Aécio é tratado como a
novidade da sucessão

O encontro, hoje (17), entre Aécio e Ciro Gomes (como este blog antecipou com exclusividade, há uma semana) pode mudar os rumos da sucessão. Aguardem.

Tucanos já sabem que Dilma alcançará Serra até março do próximo ano.

A direção nacional do PSDB está trabalhando com analises (não estamos falando de pesquisas) fornecidas pelos institutos – inclusive o IBOP de Montenegro – indicando que, se mantidas as atuais e respectivas altitudes e velocidades de cruzeiro, Dilma e Serra estarão empatados já no primeiro trimestre do próximo ano. São estes dados que entravam o lançamento da candidatura do governador paulista que prefere tentar um reeleição considerada fácil.

Entretanto, há um fato novo que complica ainda mais a situação. Ele é resultado da recente ação rebelde do governador Aécio Neves (a Inconfidência Mineira) que confrontou com a alta hierarquia tucana, controlada por São Paulo, e sua estratégia para a sucessão. Basicamente o governador mineiro proclamou que não se submete aos prazos de Serra e propôs um discurso mais amplo. Leia-se menos anti-Lula. Como resultado, tucanos de outros estados, aliados do DEM e do PPS, bem como empresários e até parte da mídia passaram a fazer o raciocínio caviloso mediante o qual Aécio tem um tripla vantagem em relação a Serra: a- rompe com a camisa de força do discurso neoliberal e pró estado mínimo que degrada irremediavelmente a candidatura do governador paulista; b- facilita composições estaduais (informais e no nível municipal) com o PMDB, a começar por Minas, e c- pode dar zebra.

Ainda que tratada como zebra, a possibilidade de vitória é extremante otimista, até para Aécio que prefere candidatar-se ao Senado. Seja como for, ele exulta silenciosamente como geralmente ocorre em Minas, pelo fato de não ser mais “o ilustre desconhecido das Alterosas” como era tratado com sarcasmo e truculência pelos caciques do tucanato paulista. Com sua nova postura, Aécio pavimenta a estrada para sua candidatura em 20014 quando Serra terá 72 anos e Alkmin não é considerado ameaça.

Além disso, se Aécio mantiver sua promessa da candidatar-se ao Senado, ele fica livre para ajudar, informalmente, a candidatura de seu amigo Ciro Gomes, com quem toca figurinhas desde sempre. Lembremos que há poucas semanas Ciro disse que se Aécio for candidato ele deixa de sê-lo. Mesmo que se trate de puro jogo de cena, fica evidente que eles estão combinados. Em resumo, tudo favorece a candidatura do ex-governador cearense que , sendo lulista por adoção, nem por isso deixa de recolher votos à direita (votos serristas) incrustados, basicamente na “ pequena burguesia” como se dizia antigamente. Não se deve subestimar esta parcela do eleitorado e seu efeito sanfona: quando incha ela chega a ser chamada de maioria silenciosa, quando míngua, ainda assim é considerada o fiel da balança. É composta basicamente por pessoas que não gostam de política, muito menos de políticos e, desinformada e moralista, vota por impulso ou na primeira novidade bem marqueteada que aparecer. Foi ela quem elegeu Collor em 89 e poderia ter dado a vitória a Ciro em 2002 se a candidatura do cearense não tivesse sido administrada por amadores e se o PT não tivesse abdicado da revolução a tempo.

Registre-se, por fim, que um dos principais conselheiros e estimuladores de Aécio é César Maia (comandante de fato do DEM) que já foi subversivo, exilado, brizolista e, atualmente, procura desvencilhar-se da pecha de neoliberal. Tudo porque voltou a sonhar com o governo do Estado, espera herdar os votos de Gabeira (que prefere candidatar-se ao Senado), mas não quer ficar à direita de Cabral.

14-11-09

Com Aécio, PSDB e DEM tentam
salvar-se do naufrágio de Serra

O dia em que Aécio foi dormir Erasmo Carlos e acordou Júlio César.

Esta matéria pode ser considerada uma continuação da de ontem. O problema, querido leitor, é que nos habituamos a não suportar a leitura de mais que vinte linhas de cada vez. Então, que assim seja.

O jovem e insuficientemente conhecido governador Aécio Neves está assuntado. Ao rebelar-se contra a “ditadura” do PSDB paulista e sua incompreensível estratégia de protelação do lançamento da candidatura Serra, Aécio queria apenas deixa de ser o eterno coadjuvante. Queria apenas dizer que, como bom mineiro, não gosta de ir na garupa. Ou só desejou, como Erasmo Carlos, gritar na beira da estrada: Eu existo!

Entretanto, após o grito, ele verificou apreensivo, que um bando de gente corria em sua direção. Pensou em fugir supondo que seria linchado por uma turba de serristas indignados com sua ousadia. Mas, não: eram tão somente antigos serritas, em debandada, que vinham para ele como quem corre para os braços do Salvador. O jovem Aécio cruzara o Rubicão meio que sem o saber. Agora, queira ou não, terá que ser general.

Político, já de sua natureza, não gosta de ficar muito tempo na oposição. E menos ainda quando todos estão vendo que seu discurso oposicionista está completamente furado ou obsoleto, para fazermos uma concessão aos acadêmicos. Tucanos e demos sabem que, mesmo com Aécio, a possibilidade de derrotar Dilma ou Ciro é bem remota. Entretanto, pelo menos ficam livres do tal discurso obsoleto.

Mas que obsolescência é esta? É a que advêm dos seguintes três fatos simples: a- a Crise Norte-Americana demonstrou que os paradigmas neoliberais eram uma tremenda furada e que estados razoavelmente musculosos são imprescindíveis para consertar a esquizofrenia cíclica do Mercado; b- os brasileiro médio ( e Lula o “analfabeto” viu isto antes que todos) é no fundo um nacionalista, orgulha-se de suas estatais e lastima suas recentes privatizações, e c- assim como Getúlio, como Jango, como Perón e, se quiserem como Chávez e como Obama, Lula é populista sim, o que faz com que as elites torçam o nariz, mas não impede que ele vença eleições com os pés nas costas.

E foi assim que Aécio foi dormir Erasmo Carlos e acordou Júlio César. Aliás, para os que gostam de analogias e uma pitada de erudição, informamos que Aécio foi o general romano que derrotou Átila.

Veja, logo aí em baixo, a matéria da qual esta é continuação.

13-11-09

Se só tem tu…

A mídia, Globo à frente, começa a namorar Aécio. Poucos ainda acreditam na viabilidade da candidatura Serra.

Se quiserem, podem dizer que é a vitória da matreirice mineira contra a arrogância e auto-suficiência paulista. E, em parte, é mesmo. Mas insisto em dizer que o que faltou a Serra foi perceber a tempo que seu discurso, muito colado ao de FHC – que virou marco histórico do pensamento neoliberal brasileiro -, é um perfeito desastre eleitoral, nestes tempos bicudos (para os cara pálidas), quando estamos ainda na vigência da grande Crise Norte-Americana. Crise esta que , na verdade, é a falência do modelo que privilegiava o Mercado em detrimento do Estado.

Seja com for, o governador Aécio Neves percebeu isto antes, pulou na frente antes e tirou Serra da pista na primeira curva. O golpe de misericórdia pode estar sendo dado agora por atores coadjuvantes: setores do próprio PSDB, Brasil afora, cansados de servir de manobra para projetos estratégicos emanados de São Paulo; a parte majoritária do DEM, que vai de César Maia ao governador José Roberto Arruda, de Brasília e, finalmente, a grande mídia que, a começar pelo Globo, já está paquerando Aécio. Sentindo o cheiro do milho, os empresários vem atrás.

E se matei a cobra, vejam o pau: em sua coluna de ontem, Merval Pereira, escriba-mor da família Marinho (até a semana passada ele ainda defendia Serra) comenta a pesquisa Vox Populi que mostra a queda de Serra combinada com a ascensão de Aécio e reproduz frase do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, para quem “a candidatura do governador mineiro “é mais ampla”, na comparação com a do paulista, evidentemente. Merval conclui afirmando que estas palavras do chefe tucano “ podem indicar novos ventos”.

Em sua edição de hoje o noticiário político do Globo é farto em elogios a Aécio e culmina, dando destaque, na coluna de Ilmar Franco, à tese defendida por Aécio , de que o PSDB deve aproximar-se dos movimentos sociais (MST incluso) como forma de quebrar o monopólio do governo desta área. “O PSDB não pode – diz o candidato – alimentar uma relação de ódio com estes setores”.

Veja, também,matéria logo aí abaixo.

12-11-09

O apagão do discurso tucano

Por que Serra começa a despencar nas pesquisas. A cúpula do PSDB está consciente de que se cair mais 5 pontos, o governador não lança sua candidatura. E está provado que Ciro retira muito mais votos de Serra do que de Dilma.

É ponto pacífico, para os dirigentes do PSDB, para o governador Aécio Neves e para a ala do DEM comandada por César Maia, que José Serra não se lançará candidato à presidência se chegar a janeiro com menos de 35 por centos na média das pesquisas. Só Fernando Henrique Cardoso, inconformado, argumenta que não faz sentido jogar a toalha quando se é líder nestas mesmas pesquisas. Ninguém consegue convencer o ex-presidente de que 35 por cento ou um pouco mais é o limite máximo previsto para qualquer candidatura oposicionista (não apenas a de Serra) diante de uma eleição que, por malícia do presidente Lula, já se tornou plebiscitária. O que estará em julgamento é o modelo lulista (não confundir com petista), com aroma getulista contra o modelo tucano, leia-se neoliberal, com desagradável cheiro lacerdista.

Compreende-se o inconformismo de FHC: inteligente, ele suspeita que seu governo ou seu estilo de governar, ou ainda sua ideologia (a dos tempos recentes em que ele esqueceu o que escreveu nos tempos remotos) sejam julgados não só no escrutínio das urnas, mas no da História, o que é desconfortável, insuportável mesmo, para quem aproxima-se dos oitenta anos muito diferente do que era aos quarenta, exceto no quesito vaidade.

Há meses venho insistindo neste blog que a grande crise norte-americana deserdou tucanos, tanto políticos como intelectuais, da medula de seu discurso: a idéia do Estado mínimo e de todo o poder ao Mercado. Tudo isto desmoronou junto com os bancos do “Primeiro Mundo” e a General Motors encampada por Obama. Só FHC e o Jabor não vêm isto.

E por falar em Jabor, vale lembrar que neste naufrágio neoliberal de tucanos e aliados, restam os escolhos da nossa galharda grande mídia acostumada a dar pito a todos os que não rezassem pela cartilha do Consenso de Washington ( todo a liberdade para os capitais financeiros) o que, aliás, está na raiz da grande crise norte-americana. E os escolhos? O problema é que de tanto inculcar, na parte incauta (alienada) da classe média brasileira, a noção de que qualquer desvio nacionalista ou estatizante coloca em risco suas compras e a Civilização Ocidental, ela, (a grande mídia) acabou pensando como sua vítima e não consegue articular-se para dar respaldo a uma candidatura que não seja cem por cento neoliberal. Tornou-se, assim, um obstáculo para políticos aliados, mas que desejam modernizar seus discursos.

Segundo o Vox Populi divulgado segunda-feira, Serra caiu quatro pontos (em relação à última pesquisa), para 36 por cento e Dilma, em ascensão, aparece com 19 por cento (mais 4 pontos). Ciro Gomes, cuja candidatura ainda não está definida, aparece em terceiro, com 13 por cento. O importante, porém, é registrar que quando se substitui Serra por Aécio Neves, este aparece com 18 por cento e Ciro pula para 20 por cento, o que comprova a tese que este blog defende, também há meses, de que Ciro retira muito mais votos de Serra do que de Dilma. Por isso, Lula tem boa vontade em relação a candidatura do ex-governador cearense.

Leia, também, matéria logo aí em baixo.

10-11-09

E agora José?

Aécio Neves anuncia que não será o vice de Serra. Já a queda do paulista (- 4 % no Vox Popoli, para 36%), apenas confirma tendência. Dilma sobe 4 pontos, para 19%. A rejeição da candidata, maior do que a dos concorrentes, tem explicação singela: quem não gosta de Lula ( 30 % do eleitorado) não vota nela de jeito nenhum.

É dura a vida do político. Ele não pode ser afoito, tem que comer o mingau pelas beiradas, na manha. Mas também não pode ser frouxo e não pode amarelar quando o dever ou a boa oportunidade o chamam. A primeira parte da receita, o governador José Serra vinha cumprindo bem. A segunda nem tanto: não são poucos os tucanos que lamentam a claudicação de seu candidato preferencial à presidência que não sabe se tenta conquistar o Planalto ou se garante uma reeleição fácil ao governo de São Paulo. Sem falar na irritação da facção dos Democratas, liderada por César Maia, que se prepara para abandonar o barco, desmanchando tradicional parceria com o PSDB.

Para sermos justos, é preciso atribuir o mau momento de Serra mais à fatalidade do que à covardia. Fatalidade que o pega sem discurso adequado no momento em que o presidente mais popular da História, impõem uma eleição plebiscitária que, como no passado, confronta o populismo de aroma getulista com o moralismo fariseu de sabor lacerdista. O próprio FHC percebeu isso, mas, com total inabilidade aprofunda este viés ideológico da questão. Sua última mancada foi comparar Lula a Perón, outro campeão de votos, assim como Getúlio.

Tudo isso, no momento em que pesquisas idôneas e uma profusão de teses acadêmicas dão conta de que a grande maioria do povo brasileiro é nacionalista, tem orgulho de suas estatais, lastima as privatizações de passado recente e prefere a mão visível do Estado à mão invisível do Mercado como forma de administrar a economia e evitar crises brutais. Tão brutais como a atual que assola os Estados Unidos, a Europa e o Japão, onde teve vigência, durante três longas décadas, o fundamentalismo liberal que chegou a merecer o sugestivo apodo de A Vingança do Capital. São estes raciocínios elementares que explicam o fato de José Serra estar há um ano patinando na média de 37 por cento da preferência popular e fazem supor e que este é seu teto máximo, eleitoralmente falando.

O governador Aécio Neves percebeu isto a tempo e, se não saiu à francesa, pulou fora à mineira - como, aliás, este blog antecipou há 15 dias -, enterrando definitivamente o sonho do tucanato paulista de tê-lo como vice na chapa de Serra. Entretanto, Aécio fez mais: deixou claro que o atual discurso do PSDB (leia-se de Serra) é um passaporte carimbado para derrota eleitoral. E, com elegância, lastimou que o partido não tenha examinado seriamente a alternativa de sua candidatura que, segundo ele, por não estar contamina pelo excesso neoliberal, seria imune à “armadilha” plebiscitária armada por Lula.

A este respeito, a mídia controlada por Serra, fingiu só ter visto a parte em que Aécio critica Lula, com muita parcimônia, diga-se, e ignorou solenemente a essência do episódio: Aécio largou a alça do caixão.

4-11-09

Com atraso, Noblat confirma: Serra pode não ser candidato.

Quando quer, Ricardo Noblat ainda consegue ser jornalista e transmitir a verdade a seus leitores. Em seu blog de hoje, embora repetindo, com outra arrumação de palavras, tudo o que dissemos aqui neste blog, ontem, o porta-voz global do neoliberalismo cumpre o dever elementar de informar que entre reeleger-se com suposta facilidade para o governo de São Paulo e correr o risco de ser derrotado na campanha presidencial ( por Dilma ou por Ciro), Serra fica com a primeira opção.

O experiente jornalista só não disse, mas nós dizemos por ele que a- agindo assim, Serra escancaradamente coloca seu interesse pessoal acima, já não direi dos interesses do país, mas pelo menos do seu partido que está a deriva em função de sua hesitação ou, se quiserem, covardia; b- Serra não teme tanto a máquina do governo na eleição (ele também conta com portentosa máquina (Governo de São Paulo somado à grande mídia, aos grandes bancos e ao agronegócio): o que ele teme realmente é o embate ideológico reavivado pela Crise Americana – que restabelece a importância do papel do Estado para consertar a esquizofrenia do Mercado -, sabendo que seu discurso neoliberal, herdado de FHC, está em franca obsolescência.

Nobala não explicou, também, por que razão Aécio, o candidato natural para substituir Serra, aceitaria ser derrotado em seu lugar.

Compare os textos de Noblat http://twurl.nl/ocaeif , de hoje, com o de nosso blog, de ontem http://bit.ly/1SuYMG . Leia também matéria da coluna Última Hora.

2-11-09

O pesadelo chinês

Este artigo foi escrito em abril, mas continua válido para explicar por que os chineses querem livrar-se de seus dólares em queda livre. E há também o Impasse Ecológico em que eles se meteram. Para melhor compreensão leia também “O dólar furado”, na coluna Última Hora.

No artigo “O dólar furado” de 6-4, eu afirmava que os chineses estão empenhados em convencer seus principais parceiros comerciais a criarem uma nova moeda (cujo peso corresponderia à média dos valores das principais moedas conversíveis), com o objetivo de substituir o dólar na sua função de principal instrumento das trocas internacionais de mercadorias. Uma nova moeda de aceitação internacional, portanto. Isso porque os chineses têm fortes razões para suspeitar que o dólar, cedo ou tarde, perderá a qualidade de “ moeda padrão “, como se tivesse valor invariável. Tudo, em virtude da monumental crise americana, o que faz com que suas dívidas externa e interna atinjam patamares altamente preocupantes, mesmo em se tratando do maior sistema econômico do planeta. Enfim, como notou recentemente o presidente Lula, todos continuam correndo para as letras do Tesouro americano, como se esta fosse a aplicação mais segura do universo. Será? Se não houvesse nenhuma dúvida sobre isto, os chineses não estariam preocupados. Mas eles estão.

Em todo o caso, os americanos acusaram o golpe chinês e contra-atacaram. No último dia 23, o Washington Post publicou um anúncio de página inteira, onde o U.S. Business and Industry Council ( espécie de Confederação das Indústrias), exige que Obama denuncie a China como manipuladora de taxas de câmbio.

O problema é que os norte-americanos já devem aos chineses em torno de US$ 1,trilhão e a dívida cresce ao ritmo vertiginoso de 50 bilhões de dólares por trimestre. Que ela terá que ser paga, não há dúvida. Mas é importante lembrar que os chineses mantêm sua moeda artificialmente desvalorizada e, com isto, conseguem inundar o mundo com suas mercadorias. Assim, eles vão acumulando saldos fantásticos em sua balança comercial e ficam abarrotados de moedas estrangeiras, principalmente dólares que, por sua vez, são aplicados em letras do Tesouro americano. E Washington vai respirando. Enfim, tudo vai bem enquanto tudo vai bem. Mas esta máxima dos arautos do livre mercado transforma-se em uma bobagem como outra qualquer, quando o próprio mercado inverte os sinais e em mais um de seus sucessivos efeitos manada, torna-se fortemente vendedor. É o momento, como o presente, em que as notas verdes, tão desejadas até a véspera, transforma-se em batatas quentes nas mãos dos chineses e outros credores. Todos gostariam de se desfazer dos incômodos dólares, mas falam baixam e andam pisando em ovos, para evitar que a tempestade vire dilúvio. Em todo o caso, é preciso esclarecer que no Brasil o enfraquecimento do dólar é menos sentido, porque, por razões locais e muito particulares – o fluxo e refluxo de aplicações especulativas -, a moeda americana valoriza-se diante do real, sempre que a Bolsa cai.
Quanto aos chineses, é preciso dizer ainda, que a barateza de suas mercadorias deve-se também à bagatelização de sua mão-de-obra. Na verdade, o país de Mao é hoje o maior quadrilátero de extração de mais-valia do planeta.

Mais-valia, esta palavra esquecida na poeira do tempo, mas que continua significando a forma pela qual extrai-se do trabalhador um excedente de trabalho que não lhe é restituído em forma de salário ou outro benefício qualquer. O excedente é, por assim dizer, plasmando na mercadoria produzida e que não pertence ao trabalhador , seu produtor ,mas ao capital que assim – e só assim – acumula. Já para os trabalhadores chineses não há alternativa para seus ínfimos salários, posto que a outra saída seria permanecer no campo, onde a remuneração mal ultrapassa o nível da subsistência elementar. Em outro contexto valeria a pena levantar e estudar melhor a questão do Impasse Ecológico, em cuja direção a China caminha com determinação oriental. Este impasse se instalaria, quando os setecentos milhões de chineses que ainda vivem no campo fossem transferidos para as cidades, como aconteceu com toda sociedade industrialmente avançada, e começassem a sonhar com um carro (por que não dois?) na garagem.

18-9-09

Como conhecer um analfabeto político

Este texto deve ser lido de forma combinada com o que vem imediatamente abaixo dele.

Iniciamos hoje a série Como Conhecer um Analfabeto Político que compõe o perfil desta figura muitas vezes simpática e com a qual convivemos diariamente no lar, no trabalho e no bar. Envie sua colaboração.

1- O analfabeto político não se cansa de dar “uma cervejinha” pro guarda, depois se indigna com a corrupção policial.

2- Na fila, ele amaldiçoa o caixa lerdo, mas em nenhum instante supõe que os banqueiros colocam à sua disposição um número insuficiente de caixas.

3- Se grisalho, ele com certeza foi defensor da ditadura, mas permite que apenas o Bolsonaro confesse isto por ele.

4- É contra o aumento do salário dos trabalhadores, porque eleva a inflação e o Custo Brasil, mas também é contra a Bolsa Família, porque é populismo, paternalismo ou é dar a vara ao invés de ensinar a pescar . Quer que o povo se exploda.

5- É contra as cotas, mas descobre-se negro quando seu filho vai prestar vestibular.

6- Barbeia-se diariamente ao espelho supondo estar barbeando um Kennedy e morre de ódio, quando, num lampejo de lucidez, vê apenas um Lula.

7- Não está preparado psicologicamente para suportar o sucesso, um novo patamar na sua vida e na do País. Tem um pacto secreto com o fracasso ou simplesmente teme uma situação nova. Por isso, o Brasil protagonista da cena mundial o assusta e o irrita. Faz com que ele torça contra.

8- Manda aumentar o muro de seu condomínio e em nenhum momento estabelece uma relação de causa e efeito entre a violência urbana, o inchaço da cidade e a ausência secular de uma política consistente de reforma agrária, de fixação do homem à terra, como os franceses fazem desde Napoleão.

9- Adora caçar políticos, sem perceber que estes, em matéria de gatunagem, são fichinhas perto do banqueiros.

10- Só se lembra da saúde pública quando é traído pelos planos particulares.

18-9-09

Por que os analfabetos políticos
pensam que Lula é analfabeto

A figura do analfabeto político foi criada por Bertold Brecht para exprimir o burguês letrado, por vezes erudito, que absolutamente não consegue compreender a realidade que o cerca. Não confunda com o alienado que, eventualmente, pode ser analfabeto de fato. Estamos lidando com uma figura que exprime muito bem, por vezes em várias línguas, a total insipidez de seus raciocínios.

Vejamos dois casos específicos: Ricardo Noblat e Diogo Mainardi, dois festejados profissionais da mídia que pensam exatamente como pensam seus patrões, proprietários de vetustos veículos de imprensa. Ambos, com suas tiradas, levam a burguesia brasileira ao delírio. Não cuidemos de suas personalidades, para poupar o leitor mais apressado. Avancemos diretamente para seus pensamentos sínteses garimpados por nossa equipe após exaustiva pesquisa. De Noblat recolhemos esta pérola com a qual ele retrata, com traços de artista e observado atento, a atual realidade brasileira que provoca tanto espanto aqui e tanta admiração lá fora: O presidente da República é um “trapalhão”. Mainardi foi mais específico ao dizer que “o Brasil tem este efeito: nunca consegue inspirar algo que preste”.|

Nelson Rodrigues criou a frase lapidar ao dizer que “brasileiro tem complexo de vira-lata”. Pensamento que reflete do ponto de vista sociológico e amplo ( coletivo), algo que os analistas, definem (no âmbito individual) como o pacto secreto com o fracasso. O equívoco de mestre Nelson, no entanto, foi o de supor que estava se referindo ao conjunto do povo brasileiro (cuja profissão é a esperança) quando na realidade exprimia um sentimento específico (negativista) das assim chamadas classes dominantes. Classes estas às quais ele pertencia e que jamais suportaram ter que ver ao espelho , no ato diário de barbear-se, não um europeu refinado de olhos azuis, mas “um mulato tacanho”, como elas definem pejorativamente o povo, sem perceber, porque são analfabetas políticas, que estão se auto-definindo. Noblat e Mainardi gostariam de ver ao espelho todas as manhãs o Ted Kennedy. Mas ficam possessos por que vêem o Lula.

30-10-09

País ultrapassa marco um histórico
A Direita/Jabor chora de esguicho

Com a adesão da Venezuela, MERCOSUL e UNASUL tornam-se irreversíveis.

Como é comum na História, os contemporâneos muitas vezes não percebem que em determinado dia viveram uma situação histórica. No entanto viveram. Machado narra que no dia 15 de novembro de 1889, o conselheiro Aires, como de hábito, passeou pela Rua do Ouvidor até o Largo de São Francisco. Dalí, ele percebeu que a uns duzentos metros, lá pelos lados do Campo de Santana, um turba agitava-se. Não deu importância e, como de hábito, votou para casa , no Cosme Velho, onde almoçou tranquilamente. Depois, como de hábito dormiu. Só acordou, duas horas depois quando o mordomo, agitado, veio dizer que a República tinha sido proclamada.

Ontem nasceu a União das Nações Sulamericanas, UNASUL (conseqüência natural e inevitável da consolidação, viabilização material, do MERCOSUL. Isto foi possível com a adesão da Venezuela (praticamente garantida ontem pelo Senado brasileiro) ao mercado comum até agora composto apenas por Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Com o ingresso do país de Chávez, constrói-se o pilar central de sustentação do bloco econômico que já nasce ostentando títulos importantes: campeão absoluto na produção de combustíveis fósseis e renováveis, bem como na produção de proteínas tanto vegetais como animais. As duas principais moedas de troca deste Século

A partir de agora a adesão dos demais países do Continente, 12 ao todo, torna-se uma conseqüência natural como ocorre com os afluentes menores que, por declive, acorrem para o leito principal. Quando este ciclo se completar teremos uma formidável potência (reconhecida por toda a mídia mundial à exceção da brasileira), com 17 milhões de quilômetros quadrados e mais de 400 milhões de habitantes. É um porte suficiente para confrontar, sim, com os outros principais pólos de poder mundial: EUA, China e União Européia. Foi pensando disso que há um mês, Sarkozy e Lula assinaram acordo estratégico de cooperação mútua França/Brasil, Nossos jornais, como sempre, não viram, neste episódio, nada além da “polêmica” compra dos caças franceses. No entanto, perceber isto, não requer nenhuma acuidade especial ou visão histórica estratégica, basta não ser tão alienado ou distraído quanto o conselheiro Aires.

Na seqüência de matérias logo aí em baixo, você terá estes temas melhor destrinchados. Veja também a coluna Pátria Grande. Antes, porém, lembremos que neste momento a Direta urra de raiva por não suportar a evidência de que finalmente o Brasil deu certo. Então, ontem, Jabor, esta instigante simbiose de Nelson Rodrigues com Carlos Lacerda disse literalmente, na Globo, que diante da derrota representada pela adesão da Venezuela, “só nos resta sentar na calçada e chorar de esguicho”. Que não seja por falta de lenço.

20-10-09

Uma visão nacionalista para a América do Sul e para a Amazônia

Veja quem é e o que pensa o novo ministro de Assuntos Estratégicos que toma posse hoje.

Há uma semana anunciamos neste blog, cremos que em primeira mão, a nomeação do novo ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto. Repetimos a matéria, logo aí abaixo, para que o leitor tome conhecimento dos novos rumos, nacionalistas, desta importante pasta.

A estratégia do País em mãos nacionalistas

Conheça a doutrina do futuro ministro de Assuntos Estratégicos

O futuro ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (ele foi convidado há três dias pelo presidente Lula), pertence a uma antiga linhagem de profissionais do Itamaraty considerada nacionalista ou antiamericana para os desafetos. Como secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores é o principal formulador teórico da política externa implantada desde o primeiro mandato de Lula e que substitui a política de FHC comandada pela turma do “alinhamento automático” ou pró-americana idealizada pelo ex-chanceler Celso Lafer. O comando da nova política, ficou, evidentemente, a cargo de Celso Amorim hoje consagrado internacionalmente e admirado até pela mídia norte-americana. Quanto ao cargo de ministro de Assuntos Estratégicos, ele está vago há quase 90 dias, desde a renúncia de Mangabeira Unger, aquele do sotaque engraçado, que deixou o assento para voltar a lecionar em Harvard, não sem antes ter um desentendimento amazônico com Marina Silva.

Na verdade, esta vertente nacionalista de nossa política externa só feio à luz em 2005 quando Lula, durante reunião em Buenos Aires com o então presidente Néstor Kirschner, realizou importante inflexão nas relações com os EUA e declarou inesperada e unilateralmente que “retiramos da nossa agenda essa questão da ALCA”. Essa questão da ALCA era nada menos que um projeto longamente acalentado por Washington que pretendia implantar um formidável mercado comum que, sob sua tutela, iria do Alasca à Patagônia. Entretanto, desde a declaração de Buenos Aires, a prioridade absoluta do Itamaraty passou a ser o fortalecimento do MERCOSUL, como passo necessário para a constituição efetiva da união sul-americana, a UNASUL.

De resto, o desdém e a forma negativa e grosseira com que a mídia brasileira trata questões relacionadas com a integração da America do Sul decorre do despeito de seus patrões externos inconformados com a frustração da ALCA. Sem ela, os EUA limitam-se a garimpar poucos e avulsos acordos bilaterais de livre comércio, como os que engatinham no Peru e na Colômbia. E não é por acaso que esta mesma mídia ataca ferozmente aos aliados do Brasil e poupa covardemente o colombiano Uribe que marcha para seu terceiro mandato e o peruano Alan Garcia que permite uma desvairada devastação da parte amazônica de seu país. Devastação esta promovida por madeireiras norte-americanas.

Há 30 dias publicamos neste blog trechos de um documento do Itamaraty até então inédito e assinado pelo embaixador Pinheiro Guimarães. Vamos publicá-los novamente (veja logo aí abaixo) em consideração aos novos leitores que a cada dia afluem ao Twitter e ao blog. Estes textos revelam de forma sintética o pensamento central do futuro ministro de Assuntos Estratégicos.

Eis o documento:

Para o embaixador Pinheiro Guimarães, “o MERCOSUL (a Argentina e o Brasil em particular) enfrentam três desafios de curto prazo no processo de articulação de um papel autônomo no sistema mundial, multipolar, em gestação: A – Resistir a uma absorção na economia e no bloco político norte-americano, que está avançando rapidamente, de maneira disfarçada, por meio de negociações da ALCA e dos TLCs (tratados de livre comércio) e da dolarização gradual. B – enfrentar uma possível intervenção militar externa na Colômbia e eventualmente em toda a região amazônica. C – Recuperar o controle sobre as políticas, doméstica e externa, no momento sob controle do FMI (e da Organização Mundial do Comércio)”.

Segundo o embaixador, a construção “paciente, persistente e gradual da união política da América do Sul e uma recusa firme e serena de políticas que submetam a região aos interesses estratégicos dos Estados Unidos tem que ser objetivo da nossa política externa e o MERCOSUL é um instrumento essencial para atingir esse objetivo”. E Pinheiro Guimarães ressalta que “MERCOSUL significa Brasil e Argentina, da mesma forma que União Européia Alemanha e França e Nafta (Mercado Comum Norte-Americano) significa Estados Unidos e Canadá”, para acrescentar “que sem uma cooperação próxima entre Brasil e Argentina, a ação coordenada no MERCOSUL seria uma total impossibilidade”.

Uma visão nacionalista para a América do Sul e para a Amazônia

Veja quem é e o que pensa o novo ministro de Assuntos Estratégicos que toma posse hoje.

Há dez dias anunciamos neste blog, cremos que em primeira mão, a nomeação do novo ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto. Repetimos a matéria, logo aí abaixo, para que o leitor tome conhecimento dos novos rumos, nacionalistas, desta importante pasta.

10-10-09

A estratégia do País em mãos nacionalistas

Conheça a doutrina do futuro ministro de Assuntos Estratégicos

O futuro ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (ele foi convidado há três dias pelo presidente Lula), pertence a uma antiga linhagem de profissionais do Itamaraty considerada nacionalista ou antiamericana para os desafetos. Como secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores é o principal formulador teórico da política externa implantada desde o primeiro mandato de Lula e que substitui a política de FHC comandada pela turma do “alinhamento automático” ou pró-americana idealizada pelo ex-chanceler Celso Lafer. O comando da nova política, ficou, evidentemente, a cargo de Celso Amorim hoje consagrado internacionalmente e admirado até pela mídia norte-americana. Quanto ao cargo de ministro de Assuntos Estratégicos, ele está vago há quase 90 dias, desde a renúncia de Mangabeira Unger, aquele do sotaque engraçado, que deixou o assento para voltar a lecionar em Harvard, não sem antes ter um desentendimento amazônico com Marina Silva.

Na verdade, esta vertente nacionalista de nossa política externa só feio à luz em 2005 quando Lula, durante reunião em Buenos Aires com o então presidente Néstor Kirschner, realizou importante inflexão nas relações com os EUA e declarou inesperada e unilateralmente que “retiramos da nossa agenda essa questão da ALCA”. Essa questão da ALCA era nada menos que um projeto longamente acalentado por Washington que pretendia implantar um formidável mercado comum que, sob sua tutela, iria do Alasca à Patagônia. Entretanto, desde a declaração de Buenos Aires, a prioridade absoluta do Itamaraty passou a ser o fortalecimento do MERCOSUL, como passo necessário para a constituição efetiva da união sul-americana, a UNASUL.

De resto, o desdém e a forma negativa e grosseira com que a mídia brasileira trata questões relacionadas com a integração da America do Sul decorre do despeito de seus patrões externos inconformados com a frustração da ALCA. Sem ela, os EUA limitam-se a garimpar poucos e avulsos acordos bilaterais de livre comércio, como os que engatinham no Peru e na Colômbia. E não é por acaso que esta mesma mídia ataca ferozmente aos aliados do Brasil e poupa covardemente o colombiano Uribe que marcha para seu terceiro mandato e o peruano Alan Garcia que permite uma desvairada devastação da parte amazônica de seu país. Devastação esta promovida por madeireiras norte-americanas.

Há 30 dias publicamos neste blog trechos de um documento do Itamaraty até então inédito e assinado pelo embaixador Pinheiro Guimarães. Vamos publicá-los novamente (veja logo aí abaixo) em consideração aos novos leitores que a cada dia afluem ao Twitter e ao blog. Estes textos revelam de forma sintética o pensamento central do futuro ministro de Assuntos Estratégicos.

Eis o documento:

Para o embaixador Pinheiro Guimarães, “o MERCOSUL (a Argentina e o Brasil em particular) enfrentam três desafios de curto prazo no processo de articulação de um papel autônomo no sistema mundial, multipolar, em gestação: A – Resistir a uma absorção na economia e no bloco político norte-americano, que está avançando rapidamente, de maneira disfarçada, por meio de negociações da ALCA e dos TLCs (tratados de livre comércio) e da dolarização gradual. B – enfrentar uma possível intervenção militar externa na Colômbia e eventualmente em toda a região amazônica. C – Recuperar o controle sobre as políticas, doméstica e externa, no momento sob controle do FMI (e da Organização Mundial do Comércio)”.

Segundo o embaixador, a construção “paciente, persistente e gradual da união política da América do Sul e uma recusa firme e serena de políticas que submetam a região aos interesses estratégicos dos Estados Unidos tem que ser objetivo da nossa política externa e o MERCOSUL é um instrumento essencial para atingir esse objetivo”. E Pinheiro Guimarães ressalta que “MERCOSUL significa Brasil e Argentina, da mesma forma que União Européia Alemanha e França e Nafta (Mercado Comum Norte-Americano) significa Estados Unidos e Canadá”, para acrescentar “que sem uma cooperação próxima entre Brasil e Argentina, a ação coordenada no MERCOSUL seria uma total impossibilidade”.

10-9-09

Sarney e Chávez

Como conhecer um analfabeto político

Iniciamos hoje a série Como Conhecer um Analfabeto Político que compõe o perfil desta figura muitas vezes simpática e com a qual convivemos diariamente no lar, no trabalho e no bar. Envie sua colaboração.

1- O analfabeto político não se cansa de dar “uma cervejinha” pro guarda, depois se indigna com a corrupção policial.

2- Na fila, ele amaldiçoa o caixa lerdo, mas em nenhum instante supõe que os banqueiros colocam à sua disposição um número insuficiente de caixas.

3- Se grisalho, ele com certeza foi defensor da ditadura, mas permite que apenas o Bolsonaro confesse isto por ele.

4- É contra o aumento do salário dos trabalhadores, porque eleva a inflação e o Custo Brasil, mas também é contra a Bolsa Família, porque é populismo, paternalismo ou é dar a vara ao invés de ensinar a pescar . Quer que o povo se exploda.

5- É contra as cotas, mas descobre-se negro quando seu filho vai prestar vestibular.

6- Barbeia-se diariamente ao espelho supondo estar barbeando um Kennedy e morre de ódio, quando, num lampejo de lucidez, vê apenas um Lula.

7- Não está preparado psicologicamente para suportar o sucesso, um novo patamar na sua vida e na do País. Tem um pacto secreto com o fracasso ou simplesmente teme uma situação nova. Por isso, o Brasil protagonista da cena mundial o assusta e o irrita. Faz com que ele torça contra.

8- Manda aumentar o muro de seu condomínio e em nenhum momento estabelece uma relação de causa e efeito entre a violência urbana, o inchaço da cidade e a ausência secular de uma política consistente de reforma agrária, de fixação do homem à terra, como os franceses fazem desde Napoleão.

9- Adora caçar políticos, sem perceber que estes, em matéria de gatunagem, são fichinhas perto do banqueiros.

10- Só se lembra da saúde pública quando é traído pelos planos particulares.

8-10-09

Real valorizado e queda livre do dólar furado

Endividados até o pescoço, os EUA convivem com déficits fatais.

Parece um cenário de sonhos: o Brasil dá adeus à crise e poderá crescer, ano que vem, a níveis chineses de 7%, a BOVESPA bombando e servindo de referência para as suas congêneres do Primeiro Mundo. Por fim, capitais tanto especulativos com produtivos “fugindo” para esta parte abaixo do Equador em busca de um porto a salvo das ventanias que varrem a Europa e os EUA. Meus amigos lulistas dirão que tudo isto é mérito do presidente-torneiro que, a seu modo, vai alçando o País a alturas nunca antes imaginadas. Tudo isto é verdade, mas apenas pela metade. O dólar despenca não só por nossos méritos, mas principalmente pelos defeitos americanos, tanto que despenca no mundo todo.

Ao mesmo tempo, temos que aturar os especialistas burgueses que erram com especial contumácia , mas não perdem a pose e insistem em seus palpites, sempre superficiais. Seus dilemas, agora, consistem em saber se o atual e fantástico fluxo de dólares para o Brasil (o que provoca a valorização do real) vai criar as bases de um desenvolvimento sustentado ou se estamos apenas inflando uma perigosa bolha especulativa. Todos acertarão e errarão um pouco, porque estes dois ingredientes estão atuando no fenômeno .

Para irmos ao fundo da verdade teríamos que dizer e sustentar que estamos vivendo o que chamo de crepúsculo do modo de produção capitalista. Mas este tema não cabe neste espaço nem neste momento e, de resto, ele é tratado em vários artigos, que podem ser encontrados na coluna Para Entender a Crise. Então, fiquemos com a parte mais superficial, sendo certo que nem ela chega a ser tocada pelos “especialistas”, a de que estamos assistindo à deterioração do modelo norte-americano de desenvolvimento, paradigma do neoliberalismo e templo do consumismo desvairado articulado com a destruição ciclópica da Natureza. A verdade simples é que endividados até o pescoço, os EUA convivem com três doenças cuja combinação é fatal: déficit na balança comercial, déficit orçamentário e endividamento vertiginoso do tesouro nacional que já alcançou os 12 trilhões de dólares, oito vezes o tamanho do PIB brasileiro. Com poucas palavras, digamos que eles não estão fazendo o dever de casa e ainda não entenderam o que tanto ensinaram ao resto do mundo: em economia não há almoço grátis.

Para quem quiser aprofundar um pouco mais estas questões há um artigo logo aí abaixo, O dólar furado que escrevi em abril, a propósito da reunião dos G-20 em Londres, quando pela primeira vez foi ventilada a idéia de se substituir o dólar como moeda de conversão universal por outra mais confiável. O artigo, me parece, continua atual.

O Dólar Furado

Quem leu minha coluna do último dia 2 de abril, há de lembrar que a conclui dizendo que Obama foi discretamente instado por seus colegas do G-20 , durante a reunião de Londres, a primeiro fazer a lição de casa e consertar a economia norte-americana para, só depois, tentar liderar a arrumação da economia mundial. Este fato, aliás, foi solenemente ignorado pela nossa grande mídia.
Entretanto, os grandes jornais brasileiros não puderam deixar de noticiar , ainda que às escondidas nas páginas internas, que , no dia seguinte à reunião, o presidente Lula proporia ao presidente chinês, Hu Jintao, a adoção de um mecanismo que permitisse a utilização das moedas de seus países no seu comercio bilateral. A proposta traz, implícita, a ideia de destronar o dólar como moeda irrestritamente aceita no comercio internacional. O mais surpreendente, porém, foi a pronta adesão de Jintao ao projeto, tanto que ele e Lula agendaram para as próximas semanas uma reunião entre seus respectivos ministros da fazenda, para tratar do assunto, em Pequim. Recorde-se que desde o ano passado Brasil e Argentina já haviam oficializado este mecanismo bilateral.
Em circunstâncias normais, a proposta de Lula aos chineses não seria levada muito a sério e receberia de seu interlocutor um sorriso oriental com o seguinte significado: será que você está com esta bola toda? Mas o chinês tem fortes razões para agarrar-se a propostas desse tipo. A primeira delas é a de que guarda em seus cofres uma quantidade exagerada de títulos tóxicos norte-americanos. Algo que se aproxima do trilhão de dólares. A segunda razão é ainda mais angustiante: as reservas chinesas em moeda americana já bateram na casa dos 2 trilhões de dólares e cresce à razão de 50 bilhões por trimestre, já que os Estados Unidos são , de longe, os maiores compradores de suas mercadorias. Por tudo isso, ainda em Londres, o presidemte do Banco Central chinês, Zhou Xiaochang, diria que seu país contribuiria para o fortalecimento do FMI (anabolizado na reunião do G-20, com uma injeção de um trilhão de dólares para fazer frente à crise mundial), com a condição de que as obrigações do Fundo fossem denominadas em uma nova moeda internacional. Esta nova moeda seria baseada nos Direitos Especiais de Saque do fundo, tradicionalmente garantidos por títulos do Tesouro americano, agora considerados insuficientes. Na verdade, os norte-americanos vinham bancando o Fundo, desde 1944, quando de sua criação em Bretton Wood e, por esta razão, sempre mandaram e desmandaram nele. O acordo de Bretton Wood pode ser descrito como uma reunião semelhante a esta do G-20 agora realizada em Londres. Com ela instalou-se uma nova ordem econômica mundial que garantiu, no Ocidente e sob a hegemonia americana, três décadas de forte crescimento econômico , dando início aos “anos dourados” do pós-guerra , sendo que, tanto naquela época, como se espera agora, a superação da crise inicial foi obtida graças a uma pesada intervenção estatal, inspirada em Lord Keynes, aquele brilhante economista inglês que ensinou aos burgueses de todo o mundo como consertar com a mão visível do estado, os estragos provocados pela mão invisível do mercado. Mas voltemos ao drama chinês.

“Quem amarra, amarrado está”, dizem os mestres de capoeira e a teoria cabe como uma luva nas relações entre credores e devedores. Há três semanas o presidente chinês já havia proposto a criação de uma nova moeda internacional, em substituição ao dólar. Este tema, com certeza, foi discretamente tratado nos bastidores da reunião do G-20. Tratar do assunto em público, mais do que uma gafe, seria uma catástrofe. Seja como for, Hu Jintao está tentando levar sua ideia adiante, já que as batatas estão cada vez mais quentes em suas mãos. Tudo porque os incautos chineses, abandonando milenar sabedoria, deixaram-se encantar pelo principal símbolo do poderio ocidental, um pedaço de papel tingido de verde.

Quanto a transformação do real em moeda conversível, isto soaria, num primeiro momento, como uma típica” malandragem carioca”, o famoso 171, imortalizado pela antiga lenda da venda de bondes a caipiras paulistas e mineiros. Mas o mundo está, digamos, de cabeça para baixo… Além disso, é preciso reconhecer que a moeda brasileira vem mantendo uma suficiente estabilidade, desde sua criação há quatorze anos pela dupla FHC-Malan. Também não há como ignorar as estatísticas que descrevem apenas oscilações suportáveis da moeda desde 1998, quando foi descongelada. Desde então , ela só uma vez bateu nas três unidades por dólar e raramente veio abaixo de 1,5 unidade. Com a inflação brasileira reconhecidamente sob controle, com confortáveis reservas em moedas estrangeiras e com uma balança comercial que ainda não compromete, parece ser esta a hora de os brasileiros começarem a levar a sério a sua própria moeda.
Mas a proposta de Lula a seu colega chinês não deixa de ser mais uma de suas espertezas. Afinal, ninguém pode dizer com segurança qual será o ritmo e a intensidade das oscilações da nossa moeda nos próximos meses. Enquanto isso, os especialistas são unânimes em afirmar que, cedo ou tarde , a China terá que permitir a valorização de sua moeda, mantida artificialmente abaixo de seu verdadeiro peso, para garantir o estupendo desempenho das exportações chinesas. Quem amarra, amarrado está.

1-10-09

Ciro semeia na terra de Serra

Há dias comentei neste blog que o bom desempenho de Ciro nas pesquisas ( empate com Dilma), praticamente soterrava as aspirações presidenciais de Serra. Aí sobreveio a crise de Honduras e o assunto foi deixado lado. Vamos retomá-lo agora, em tópicos que é uma forma de exercitarmos a capacidade de síntese:

1- Os últimos investimentos, em São Paulo, de Ciro, o Eclético, e de seu eclético PSB denunciam sua estratégia. Estamos falando da atração de Paulo Skaf (FIESP) e de Gabriel Chalita que sai diretamente do PSDB para o partido de Arraes. Um será candidato ao governo do Estado outro ao Senado. O partido fica contaminado e numa posição contraditória, mas a contradição e da vida e ainda mais da política, a vida vista por uma lupa. E a estratégia? A estratégia é comer na horta do Serra.

2- Vai daí que, como dissemos há dias, Ciro, pelo menos neste primeiro momento, retira muito mais votos de Serra do que de Dilma. Mais lá na frente é possível que ele subtraia mais votos de Dilma, principalmente no Nordeste. Mas o fundamental ele já terá feito: inviabilizou Serra, cujo limite é o de 35% do eleitorado, o que corresponde ao teto dos votos francamente oposicionistas.

3- Neste quadro evidentemente hipotético poderá ocorrer, então, que o eleitorado lulista, muito mais amplo que o eleitorado petista, tenha que escolher entre Serra e Dilma. Um luxo.

4- Tanto Serra como Dilma e não esqueçamos de Marina, vão aprestar-se ao eleitorado como continuadores de Lula, sem os defeitos deste.

5- No caso específico de Ciro, com seu ecletismo funcional, ele recolhe contribuições de afluentes à esquerda e à direita. É evidente que, se eleito, ele não cruzará o Rubicão com destino ao socialismo. Mas isto o presidente Lula Vagas da Silva também não fez.

21-9-09

Os analfabetos políticos atacam de novo

Não conheço este advogado Toffoli. Então, prefiro imaginar que ele seja tão bom ou tão mau jurista, tão honesto ou tão desonesto quanto, digamos, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo. Mas é preciso registrar que ele foi escolhido pela grande mídia (esta fantástica usina de analfabetismo político), como a bola da vez. Cansados de direcionar a parte alienada da classe média para a caça ao Sarney o que , afinal, rendeu tão poucos dividendos políticos, os vetustos jornalões nacionais apontam agora para Toffoli. O modo como ele reparte os cabelos passou a ser relevante. A intenção evidente é ganhar mais alguns pontinhos no IBOP para a candidatura Serra. Existem mil e uma maneiras de se ganhar ou perder uma eleição. A máfia das sete famílias que monopoliza a informação formal, preferiu esta. Vai perder.

E vai perder, apesar do brilhantismo de alguns de seus profissionais que, vítimas do próprio veneno, tornam-se eles também analfabetos políticos. É o caso de Ricardo Noblat e Diogo Mainardi, dentre muitos outros. Seus olhos não são mais olhos de ver. São olhos de distorcer. E quando se sentem impotentes, raivosos, insultam até o presidente.

Sobre o analfabeto político vou dizer ainda que uma das suas características é a absoluta incapacidade de ver o conjunto das coisas: ele contempla uma única árvore, sem perceber que esta perdido na floresta. A outra característica é a falta de senso de proporção. Ele embaralha mi, com bi e com tri. Não vê, por exemplo, que os Sarneys da vida – uma penca deles -, por mais ladrões que sejam (e são), jamais roubarão tanto quanto um único banqueiro.

Logo aí em baixo, o querido leitor encontrará outra matéria sobre o analfabeto político. A que deu origem à série.

17-9-09

Por que os analfabetos políticos
pensam que Lula é analfabeto

A figura do analfabeto político foi criada por Bertold Brecht para exprimir o burguês letrado, por vezes erudito, que absolutamente não consegue compreender a realidade que o cerca. Não confunda com o alienado que, eventualmente, pode ser analfabeto de fato. Estamos lidando com uma figura que exprime muito bem, por vezes em várias línguas, a total insipidez de seus raciocínios.

Vejamos dois casos específicos: Ricardo Noblat e Diogo Mainardi, dois festejados profissionais da mídia que pensam exatamente como pensam seus patrões, proprietários de vetustos veículos de imprensa. Ambos, com suas tiradas, levam a burguesia brasileira ao delírio. Não cuidemos de suas personalidades, para poupar o leitor mais apressado. Avancemos diretamente para seus pensamentos sínteses garimpados por nossa equipe após exaustiva pesquisa. De Noblat recolhemos esta pérola com a qual ele retrata, com traços de artista e observado atento, a atual realidade brasileira que provoca tanto espanto aqui e tanta admiração lá fora: O presidente da República é um “trapalhão”. Mainardi foi mais específico ao dizer que “o Brasil tem este efeito: nunca consegue inspirar algo que preste”.|

Nelson Rodrigues criou a frase lapidar ao dizer que “brasileiro tem complexo de vira-lata”. Pensamento que reflete do ponto de vista sociológico e amplo ( coletivo), algo que os analistas, definem (no âmbito individual) como o pacto secreto com o fracasso. O equívoco de mestre Nelson, no entanto, foi o de supor que estava se referindo ao conjunto do povo brasileiro (cuja profissão é a esperança) quando na realidade exprimia um sentimento específico (negativista) das assim chamadas classes dominantes. Classes estas às quais ele pertencia e que jamais suportaram ter que ver ao espelho , no ato diário de barbear-se, não um europeu refinado de olhos azuis, mas “um mulato tacanho”, como elas definem pejorativamente o povo, sem perceber, porque são analfabetas políticas, que estão se auto-definindo. Noblat e Mainardi gostariam de ver ao espelho todas as manhãs o Ted Kennedy. Mas ficam possessos por que vêem o Lula.

10-9-09

Pré-sal arruína aliança a

entre Lula e Sérgio Cabral

Lula retira pedido de urgência, mas fica magoado.

Uma das alianças políticas mais bem costuradas e frutíferas da política brasileira está sendo rompida por causa do Pré-sal. Mais precisamente por causa da redistribuição dos royalties do petróleo que a partir dos novos marcos regulatórios propostos por Brasília, contemplarão também os demais estados e não apenas os estados produtores, embora estes mantenham uma situação privilegiada. Os primeiros sintomas da crise ocorreram segunda-feira quando alguns assessores diretos do presidente começaram a dizer, em tom jocoso, que “o Cabral quer transformar o Rio num emirado árabe”. A resposta de Cabral foi aparentemente desproporcional. Passou a articular, abertamente, uma rebelião da bancada do PMDB na Câmara contra o pedido de urgência. Entre seus assessores, o governador diz que os novos marcos regulatórios são nacionalismo barato.

Ontem à tarde (como este blog informou ontem mesmo) após várias trocas de telefonemas entre os dois gabinetes, Lula parece ter decidido, então, retirar o pedido de urgência para a tramitação do projeto de criação do marco regulatório do pré-sal, convencido de que o PMDB estava dividido sobre a questão. Mas exigiu do presidente da Câmara, Michel Temer, que o assunto seja resolvido ainda este ano, a partir de novembro. Ao mesmo tempo a direção nacional do PT decidiu iniciar imediatamente a campanha de mobilização popular pela aprovação do projeto, nos moldes da campanha do “Petróleo é Nosso” dos tempos de Getúlio. Na verdade ao fazer o pedido de urgência, Lula havia corrido um risco calculado. Sabia que de uma forma ou de outra a campanha do pré-sal ganharia as ruas.

Quem fica em posição delicada é o governador Sérgio Cabral a quem caberá o ônus pelos contratempos sofridos pelo governo federal. Como primeiro resultado, haverá o fortalecimento da candidatura de Lindberg Farias, prefeito petista de Nova Iguaçu ao governo do estado. Dificilmente o PT fluminense concordará em retirar esta candidatura, um exigência de Cabral.

O passo em falso do governador do Rio parece ter sido dado terça-feira, quando, aconselhado por seu secretário da Fazenda, Joaquim Levy resolveu posicionar-se contra o próprio conteúdo do projeto federal. Ou seja, Cabral é a favor do atual modelo de exploração do petróleo que, entre outras coisas, não prevê a obrigatoriedade da presença da Petrobras nas jazidas do pré-sal. Foi a gota d’água.

7-9-09

Como o Pré-sal

soterrou Serra

Se os quarenta anos de análise política me autorizam a dizer alguma coisa, direi que são pequenas as chances de José Serra chegar como protagonista ao final desta novela eleitoral. Foi soterrado pela camada do pré-sal. Ele, sua mídia irada e obsoleta e seus institutos de pesquisa subornados falsificaram tanto os fatos que perderam, eles próprios, o contato com a realidade. Perderam, sobretudo, a sensibilidade para perceber que nestes tempos de crise braba, caíram por terra, um a um, os principais paradigmas neoliberais que pareciam indicar o fim das ideologias (uma bobagem cantada aos quatro ventos) e a noção de que estado bom é estado pequeno.

Quando percebeu que a discussão sobre o pré-sal assinalava uma inflexão importante da verdadeira opinião pública (não a publicada pela máfia das 7 famílias) em direção ao velho e bom nacionalismo brasileiro e o orgulho ingênuo mas consistente pelas realizações nacionais, Serra tentou uma jogada audaz ( mais ridícula que audaz) e apresentou-se como favorável ao pré-sal, estatista e esquerdista. Haja cara-de-pau. Mas já era tarde. Como anunciei há poucos dias e comentei ainda ontem nas matérias que o leitor poderá ler logo aí em baixo, o eixo eleitoral gira, agora, em torno de Dilma e Marina com uma incógnita chamada Ciro Gomes. Se for assim, o mote da campanha girará em torno de quem dará melhor continuidade ao lulismo (não disse petismo). Marina, hábil, assinada em todos seus pronunciamentos seu respeito, quase amor, pelo presidente e pelo seu ex-partido. A única discrepância seria a questão ecológica. E sua estratégia é clara: mostrar-se como um Lula de saias e sem vícios. Dilma terá como única mas não pequena tarefa a de ir tocando o PAC e mostrar que tem luz própria. Ciro, o Eclético, fará um pouco de tudo isto, sem tirar o olho do eleitorado conservador de Serra. Quanto ao lulismo, ele representa 80 por cento do mercado eleitoral e ninguém vai querer largar este osso.

6-9-09

Ciro Gomes entre

Dilma e Marina

Ciro Gomes garante que “mesmo constrangido” pelos apelos de Lula (que o quer candidato ao governo de SP), será candidato à presidência. Neste caso ele poderá evitar a polarização entre Dilma e Marina. Como este blog informou há três dias, as próximas pesquisas já apontariam um empate técnico entre Serra e Dilma o que deverá ocorrer ainda este mês. A partir daí, até pelo efeito do voto útil, haverá a tendência do crescimento das duas candidatas e o esvaziamento de Serra. Consciente disso, o tucano mudou radicalmente sua estratégia, declarou-se a favor do pré-sal e tenta vender-se ( ver coluna de Merval Pereira no Globo do dia 2), como “candidato de esquerda”. É ridículo, mas é verdade. Tudo isto, como comentei neste blog também há três dias, porque o lançamento da Pré-sal reintroduziu a questão ideológica na campanha eleitoral A coisa ficou tão feia para os tucanos que até o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, declarou-se estatista!

4-9-09

Oposição aturdida

Tudo o que Lula quer quer é que se crie, no Congresso, um impasse em torno da Petro-sal. Com isso ele evita que aflorem temas menos simpáticos ao governo. Entretanto, a oposição está tão atordoada que, sem perceber, vai fazendo o jogo do presidente. Isto vem acontecendo, aliás, desde a instalação da CPI da Petrobras, em maio. Tanto esta CPI como a aprovação da Petro-sal mexem com o inconsciente coletivo do povo brasileiro e seu viés nacionalista. Insensíveis a isto, a mídia e o tucanos vão ajudado o governo quando pensam que o atrapalham. Tudo, enfim, se resume no fato de que a mídia alienada e alienante, supõe que é opinião publica a opinião por ela publicada.

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