sábado, 29 de maio de 2010

A Agricultura e coletas

Durante muito tempo, os historiadores colocaram a coleta e a agricultura como duas experiências que marcam uma completa ruptura na civilização. Contudo, novas pesquisas apontam que essas duas atividades conviveram durante muito tempo na história do homem. A princípio, a agricultura ocupava uma função complementar na alimentação, sendo assim colocada como outra via de sobrevivência paralela à caça e a busca de frutos ou plantas.

Sendo assim, não podemos dizer que a descoberta da agricultura foi um avanço que fatalmente determinou o abandono das antigas formas de obtenção dos alimentos. Vale aqui destacar que a caça envolvia toda uma preparação onde os caçadores se encontravam promovendo a interação entre os grupos e o desenvolvimento de hábitos culturais diversos. Não é possível, assim, sugerir que a busca por alimentos se dava em função apenas da urgente necessidade de sobrevivência.

Só após a última glaciação, por volta de 10000 anos a.C., foi que as alterações do clima foram dando maior espaço para o desenvolvimento da técnica agrícola. Com o passar do tempo, a vida sedentária permitiu que casas e povoados tivessem cada vez mais destaque entre as comunidades humanas. Ao mesmo tempo, as trocas comerciais e a domesticação de animais passavam também a incorporar a construção desse novo cotidiano responsável pelo aparecimento das primeiras civilizações.

Observando essa nova realidade, muitos leigos e especialistas detectaram o alcance de uma melhora qualitativa no estilo de vida do homem. Afinal de contas, a agricultura permitia a estocagem de alimentos e o planejamento das colheitas em função das transformações climáticas decorridas ao longo de um tempo. A sobrevivência deixava de lado uma série de riscos para então se transformar em uma ação planejada com base na capacidade intelectual do homem.

Apesar de tais justificativas, existem aqueles que discordam desse ponto de vista ao acreditar que a opção pela agricultura foi uma das piores escolhas realizadas pela civilização. O biólogo Jared Diamod, por exemplo, acredita que a sedentarização pela agricultura minou o desenvolvimento do tom igualitário que permeava as sociedades coletoras. A agricultura seria a grande responsável pelo desmatamento, a superpopulação, os conflitos militares e a constituição das diferenças sociais.

Para muitos, é quase impossível imaginar a viabilidade da vida humana sem a utilização das técnicas agrícolas. Por outro lado, vemos que a atualidade tem a expressa preocupação em repensar os seus paradigmas de desenvolvimento e consumo. Não seria esse um indício de que a simples ampliação do domínio sobre a natureza não garante a sustentação da vida na Terra? Essa é uma resposta que apenas o futuro tem a competência de nos fornecer.

Pré-História

A África do Sul dividida

A África do Sul dividida

A África do Sul dividida

Devido a suas riquezas como o ouro e o diamante, a África do Sul foi o destino de inúmeros colonizadores europeus, como os ingleses e holandeses. Os descendentes desses povos, apoiados na irreal idéia de superioridade do homem branco, criaram no século XX uma política de discriminação racial chamada Apartheid, que significa separação.

Em 1948, o apartheid foi oficializado na África do Sul. Criaram-se leis que discriminavam os negros em locais de trabalho, escolas, igrejas, esportes e transportes públicos. Mesmo constituindo uma população quatro vezes maior que a população branca, os negros foram proibidos de possuir terras em 87% do território sul-africano. Através dos lucros com a mineração, a elite branca conseguiu armar as forças policias que garantiam a manutenção do apartheid.

A partir daí, os negros que constituíam a maior parte dos trabalhadores sul-africanos, reagiram à exploração econômica e ao racismo, realizando diversas manifestações contra o regime.

O CNA (Congresso Nacional Africano), representante dos negros, começou a intensificar os protestos. A luta contra o apartheid foi ganhando intensidade e destaque internacional, depois do massacre no bairro negro de Soweto. Com a instabilidade civil e econômica, o governo sul-africano cedeu em alguns pontos. Permitiu o acesso dos negros ao transporte público e aos centros de lazer, acabou com as leis que privilegiavam os brancos na posse de terras.

O fim do apartheid se deu em 1990 por Frederik de Klerk, e em 1994 Nelson Mandela, importante figura de oposição ao apartheid, líder dos negros e do CNA foi eleito presidente da República Sul-Africana através de eleições livres.

Vem aí o vale tudo?

A estabilidade democrática e o aperfeiçoamento institucional são grandes conquistas nacionais, desde a Constituição de 1988.

As eleições de 2010 serão um momento importante para a renovação do pacto republicano brasileiro, hoje temperado pela certeza de que o país tem tudo para vivenciar prolongado ciclo de desenvolvimento econômico e social nas próximas décadas.

O crescimento econômico e o desenvolvimento social permitirão ao Brasil melhorar, a um só tempo, o seu Índice de Desenvolvimento Humano e a qualidade de suas instituições.
Nesse processo, é natural e desejável que haja um governo com voto e base parlamentar bem assentada, assim como uma oposição fiscalizadora e construtiva. É indispensável também a existência de instituições sociais e organizações não governamentais fortes, independentes e capazes de fazer o contrapeso institucional.

Esse amadurecimento do Brasil e o aumento de seu peso relativo no mundo tem sido reconhecido de forma crescente. Na semana passada, o presidente Lula foi agraciado em Londres com um importante prêmio por sua contribuição "à estabilidade e à integração na América Latina" e por seu papel na "resolução de crises regionais". Reconheça-se aí uma significativa premiação ao país, além da distinção ao presidente.

Se cabe aqui a paráfrase de um antigo teórico militar, no sentido de que o reconhecimento externo é a extensão do êxito interno por outros meios, não é demais registrar que tem sido muito difícil, para uma parte da elite política e midiática brasileira, conviver com o reconhecimento internacional e a popularidade interna do presidente Lula.

Em recente artigo dominical, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso termina sua peroração contra o presidente Lula tentando oferecer uma resposta para sua pergunta "Para onde vamos?". Sem saber ele próprio oferecer qualquer caminho, limita-se a dizer que "é mais do que tempo dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde".

O tempo passa, mas os atos falhos ficam. Em tentativa de continuísmo o ex-presidente tem doutorado. Releve-se ser ele o autor da extensão do mandato presidencial de quatro para oito anos.

Vem à mente a euforia tucana expressa pelo ex-ministro Sergio Motta, já falecido, de que o primeiro governo Fernando Henrique moldaria um projeto para durar 20 anos, pelo menos. Não se recorda, na época, de nenhum pedido de moderação aos exageros verbais dos seus.

Afinal, o próprio FHC tratava de dividir o mundo em mocinhos e bandidos, entre justos e fracassomaníacos.

Agora, o ex-presidente volta a um velho e ineficiente expediente usado nos últimos sete anos -o de tentar grudar rótulos desqualificantes no governo do presidente Lula.

É triste, mas o ex-presidente resolveu partir para um autêntico vale-tudo verbal em sua busca de tanger a oposição para a disputa de 2010. Antes, houve várias teorias, como a de um suposto aparelhamento do Estado pelo PT. Tentaram também carimbar o rótulo de "governo corrupto".

Nada colou. Mas agora vêm com uma nova teoria, a de um certo "autoritarismo popular" que ressuscitaria formas políticas do autoritarismo militar, segundo o ex-presidente.

Com a muleta sociológica fora de prumo, Fernando Henrique tenta explicar. Diz tratar-se de um conluio entre sindicatos, burocracia partidária alojada no governo, fundos de pensão de origem estatal e empresários escolhidos para receber benesses. Não importa que essa salada intelectual do ex-presidente seja das mais indigestas. Releve-se a sua própria manipulação dos fundos de pensão no processo de privatizações, "no limite da irresponsabilidade", como disseram alguns dos seus na época.

Nessa nova tentativa de tentar grudar um rótulo desqualificante ao governo Lula, Fernando Henrique e outros usam e abusam daquilo que tanto acusam o PT: empregar quaisquer meios para atingir o fim de perpetuar-se no poder.

Esse vale-tudo não lhes cai bem.

Comparar o governo Lula com formas políticas do regime militar é, além de falsear grosseiramente a história, usar qualquer meio para buscar o fim almejado: voltar ao poder. Seria apenas triste se não fosse desonesto.

É duvidoso que tal tipo de argumento seja compartilhado por membros de seu próprio partido que vão à disputa de 2010. Por isso mesmo, há uma chance de que o debate se concentre em projetos para o país.

A seu tempo, em 2002, o voto popular deu um basta ao projeto de tintura neoliberal de FHC, "antes que fosse tarde". Por isso, com o governo Lula, o país teve capacidade de resistência na recente crise global e pôde se projetar como uma das economias que mais crescem no mundo.

Não temos o monopólio da verdade, mas acreditamos que nosso projeto merece continuar. Vamos lutar por isso limpamente. Esperamos que os outros também assim procedam. Quem ganhará com isso é o país.

Cândido Vaccarezza, 54, médico, é deputado federal pelo PT-SP e líder do partido na Câmara dos Deputados.

Marco Aurélio Garcia diz que Serra é o exterminador do futuro da política externa

assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, rebateu hoje (27) as críticas do pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, à relação do Brasil com a Bolívia, classificando o tucano como "o exterminador do futuro da política externa" do país.

Ontem (26), Serra disse que o governo boliviano, de Evo Morales, "é cúmplice" do tráfico de cocaína para o Brasil. O tucano fez a declaração em entrevista a um programa de rádio, quando falava sobre a ideia de criar um Ministério da Segurança Pública caso ele seja eleito.

"O Serra está tentando ser o exterminador do futuro da política externa. Ele quis destruir o Mercosul. Agora, quer destruir nossa relação com a Bolívia. O Mahmoud Ahmadinejad virou Hitler. Eu acho que talvez ele esteja pensando, na política de corte de despesas, em fechar umas 20 ou 30 embaixadas nos países nos quais ele está insultando neste momento", afirmou Garcia.

Marco Aurélio Garcia ressaltou ainda que Serra "deveria ser mais prudente" em suas declarações, que não são compatíveis com as suas "aspirações" ao cargo de presidente.

Com informações do Uol

Plano de Banda Larga amplia cidadania e fortalece economia, diz líder do PT

O líder do PT na Câmara, Fernando Ferro (PE), ressaltou hoje (28) a importância do Plano Nacional de Banda Larga do governo Lula.

O PNBL vai assegurar a inclusão digital, com acesso rápido e barato em milhares de municípios brasileiros. Milhões de pessoas terão acesso à rede mundial de computadores, quebrando a resistências das operadoras privadas à expansão do serviço e à diminuição das tarifas, que está entre as mais caras do planeta.

A participação do estado no setor vai fortalecer a economia brasileira e ampliar a cidadania, disse Ferro. Conforme o líder, em razão do modelo ainda herdado do governo FHC, que privatizou as telecomunicações do País e instituiu um sistema oligopolizado com as tarifas estratosféricas, criou-se uma espécie de muro entre a população e a banda larga. No Brasil, como porcentagem da renda familiar, banda larga custa dez vezes mais do que nos países mais conectados. Além disso, o Brasil só vem regredindo no tocante à conectividade.

" Nos últimos 10 anos, perdemos 20 posições entre as nações com maior conectividade e acessibilidade às mídias digitais", disse o líder. Ele insistiu que as operadoras privadas têm culpa no atraso tecnológico no setor, uma vez que não respeitaram os contratos relativos à expansão do sistema. "As operadoras fixas de telecomunicação não responderam, não se interessaram em promover um programa de acesso à banda larga para a população. Mais da metade dos nossos municípios não têm banda larga, e somente 20% dos nossos lares conseguem acesso a ela".

Velocidade

Na avaliação de Ferro, os dados mostram claramente a importância da participação do Estado no setor, pois evidenciam que os interesses de mercado são insuficientes para tratar do tema. "Além disso-- acrescentou - uma boa parte da internet que temos é de qualidade e velocidade baixas, consequentemente, de eficiência duvidosa. Nós estamos, portanto, atrasados. Outros países evoluíram muito nesse processo e, quinze anos depois da privatização, não temos nada a comemorar nessa área, porque estamos engatinhando no acesso a essa capacidade".

O líder observou que o Plano Nacional de Banda Larga vai prover, até o fim do ano, o acesso ao serviço de conectividade de alta velocidade a cerca de 65 mil escolas públicas. "Nós integraremos alunos e professores para qualificar os jovens nos seus estudos e nos processos de melhoria de requalificação dos nossos professores", completou Ferro.

O líder citou um artigo de Sílvio Meira, um dos maiores especialistas brasileiros do setor, no qual mostra que desde os primórdios da internet antevia-se a necessidade de impulsionar ao máximo a quantidade e a qualidade da infraestrutura digital. O mundo conectado vive, intensamente, a sociedade e a economia da informação e do conhecimento, e estar fora da rede significa estar fora do mundo, diz Meira. No Brasil, desde a década de 90, previa-se- mas a universalização do acesso e sabia-se que a rede tornar-se-ia uma infraestrutura básica, essencial á população. Mas nada disso ocorreu.

Como lembrou Ferro, as empresas do setor concentraram-se em municípios mais lucrativos, conforme estudos de uma das operadoras da área. Segundo o estudo, a banda larga só gera lucro para as companhias privadas em 184 dos 5.564 municípios brasileiros. Nesses 184 municípios vivem 83 milhões de brasileiros, menos da metade da população do país. A banda larga só existe em cerca de 21% dos lares. Como se não bastasse, mais de 54% das conexões "de banda larga" do País têm velocidades nominais abaixo de um megabit por segundo.

Sílvio Meira observa que o conceito -hoje universal- de tratar telefonia e telefones como apenas mais uma aplicação sobre uma infraestrutura (servidores, roteadores, satélites...) e serviços (os protocolos da rede) padrão da internet tem quase década e meia. Mas o Brasil ainda está no estágio de penetração e uso de banda larga . "A razão fundamental é que o Brasil não teve, na última década e meia, políticas públicas que cuidassem de conectar o país na quantidade e na qualidade que precisamos", daí a importância do PNBL.

Ferro assinalou, ainda com base no artigo de Meira, que o estágio atual torna muito difícil educação, saúde e negócios pela rede, entre outras tantas coisas que existem e são usadas, como fato consumado, mundo afora. O PNBL, na prática, pode se tornar um novo "plano de integração nacional" e seu papel pode ser muito parecido ao das estradas e TVs no passado, ao trazer para a rede mais da metade dos municípios e 70%, 80% das casas. Um recente estudo do Banco Mundial, feito em 120 países durante os anos de 1980 a 2006, mostrou que a cada 10% de expansão da banda larga, o PIB cresce 1,4%.

Liderança do PT / Câmara (www.ptnacamara.org.br)

Serra acusa Bolivia de ser connivente com as drogas

(www.cartamaior.com.br):

“A questão”, ponderou Alice, “é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem tantas coisas diferentes”.

“A questão”, replicou Humpty Dumpty, “é saber quem é que manda. É só isso”.
Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas (cap.6).

As declarações do ex-governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, acusando o governo boliviano de ser “cúmplice de traficantes”, além de levianas e irresponsáveis, podem acabar se voltando contra o próprio autor. Pela lógica da argumentação de Serra, não seria possível a exportação de cocaína a partir da Bolívia sem a conivência e/ou participação das autoridades daquele país. Bem, se é assim, alguém poderia dizer também que Serra é cúmplice do PCC (Primeiro Comando da Capital), da violência e do tráfico de drogas em São Paulo. “Você acha que toda violência e tráfico de drogas em São Paulo seria possível se o governo de lá não fosse cúmplice?” – poderia perguntar alguém, parafraseando Serra.

Neste mesmo contexto, cabe lembrar ainda as declarações do traficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadia, preso em 2007 no Brasil, que, em um depoimento à Justiça Federal em São Paulo, disse: “Para acabar com o tráfico de drogas em São Paulo, basta fechar o Denarc (Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos)”. As denúncias de um traficante valem o que ele vale. Neste caso valeram, ao menos, o interesse da Justiça Federal em investigar a possibilidade de ligação entre o tráfico de drogas e a corrupção policial, possibilidade esta que parece não habitar o horizonte de Serra. O pré-candidato foi governador de São Paulo, mas afirma não ter nada a ver com isso. A culpa é da Bolívia.

Há método na aparente loucura do pré-candidato do PSDB. O fato de ter repetido as acusações levianas contra o governo de um país vizinho – e amigo, sim – do Brasil mostra que Serra acredita que pode ganhar votos com elas. Trata-se de um comportamento que revela traços interessantes da personalidade do pré-candidato e da estratégia de sua candidatura. Em primeiro lugar, mostra uma curiosa seletividade geográfica: em sua diatribe contra governos latino-americanos, Serra esqueceu de acusar a Colômbia como “cúmplice do narcotráfico”. Esquecimento, na verdade, que expõe mais ainda o caráter leviano da estratégia. Trata-se, simplesmente, de atacar governos considerados “amigos” do governo brasileiro.

Em segundo lugar, mostra uma postura irresponsável do pré-candidato, tomando a palavra aí em seu sentido literal, a saber, aquele que não responde por seus atos. Antes de apontar o dedo acusador para o governo de um país vizinho, Serra poderia visitar algumas ruas localizadas no centro velho de São Paulo que foram tomadas por traficantes e dependentes de drogas. Serra já ouviu falar da Cracolândia? Junto com a administração Kassab, um governo amigo como gosta de dizer, fez alguma coisa para resolver o problema? Imagine, Sr. Serra, 200 pessoas sob o efeito do crack gritando sob a sua janela, numa madrugada interminável … Surreal? Na Cracolância é normal. E isso ocorre na sua cidade, não na Bolívia. Ocorre na capital do Estado onde o senhor foi eleito para governar e trabalhar para resolver, entre outros, esse tipo de problema. Mas é mais fácil, claro, acusar outro país pelo problema, ainda mais se esse outro país for governado por um índio.

E aí aparece o terceiro e mais perverso traço da estratégia de Serra: um racismo mal dissimulado. Quem decide apostar na estratégia do vale-tudo para ganhar um voto não hesita em dialogar com toda sorte de preconceito existente em nossa sociedade. Acusar o governo de Evo Morales de ser cúmplice do tráfico, além de ignorar criminosamente os esforços feitos atualmente pelo governo boliviano para combater o tráfico, aposta na força do preconceito contra Evo Morales, que já se manifestou várias vezes na imprensa brasileira por ocasião das disputas envolvendo o gás boliviano. Apostando neste imaginário perverso, acusar um índio boliviano de ser cúmplice do tráfico de drogas parece ser “mais negócio” do que acusar um branco de classe média que sabe usar boas gravatas. Alguém com Álvaro Uribe, por exemplo…

E, em quarto, mas não menos importante lugar, as declarações do pré-candidato tucano indicam um retrocesso de proporções gigantescas na política externa brasileira, caso fosse eleito presidente da República. Mais uma vez aqui, há método na loucura tucana. Não é por acaso que essas declarações surgem no exato momento em que o Brasil desponta como um ator de peso na política global, defendendo o caminho do diálogo e da negociação ao invés da via das armas, da destruição e da morte. Como assinala José Luís Fiori em artigo publicado nesta página:

A mensagem foi clara: o Brasil quer ser uma potencia global e usará sua influência para ajudar a moldar o mundo, além de suas fronteiras. E o sucesso do Acordo já consagrou uma nova posição de autonomia do Brasil, com relação aos Estados Unidos, Inglaterra e França (…) O jornal O Globo foi quem acertou em cheio, ao prever – com perfeita lucidez – na véspera do Acordo, que o sucesso da mediação do presidente Lula com o Irã projetaria o Brasil, definitivamente, no cenário mundial. O que de fato aconteceu, estabelecendo uma descontinuidade definitiva com relação à política externa do governo FHC, que foi, ao mesmo tempo, provinciana e deslumbrada, e submissa aos juízos e decisões estratégicas das grandes potências.

As últimas linhas do texto de Fiori resumem o que está por trás da estratégia de Serra de chamar o Mercosul de “farsa”, de acusar o governo da Bolívia de cumplicidade com o tráfico, de criticar a iniciativa do governo brasileiro em ajudar a evitar uma nova guerra no Oriente Médio. Curiosa e tristemente, essa estratégia, entre outros lamentáveis problemas, sofre de um atraso histórico dramático. Para azar de Serra e sorte do Brasil e do mundo, a doutrina Bush chegou ao fim. No dia 27 de maio, o governo dos EUA anunciou sua nova doutrina de segurança nacional que abandonou o conceito de “guerra preventiva” como elemento definidor da estratégia da política externa norte-americana. Algum assessor com um mínimo de lucidez e informação bem que poderia avisar ao pré-candidato tucano das
mudanças que estão em curso no mundo, especialmente do final da era Bush. Mas se ele decidiu abraçar por inteiro a agenda da direita no Brasil, na América Latina e nos Estados Unidos, faz sentido lutar pela restauração da velha ordem. Pode-se dizer, então, que, enfim, a direita achou um candidato à presidência do Brasil.