sábado, 19 de junho de 2010

O Globo joga a toalha. Admite de cada 10 politico 8 acreditam que Dilma não perde mais

O Globo joga a toalha. Noblat diz que 8 de cada
10 políticos admitem que Dilma não perde mais

O fato de um jornalista consagrado, no caso o nosso bom Ricardo Noblat, revelar uma verdade simples como a que vai dita aí no título desta matéria, não deveria merecer destaque ou qualquer comentário. Mas merece, pela boa razão de que isto é absolutamente incomum no Globo, especializado em camuflar, omitir e distorcer as notícias que deveria fornecer de forma lisa e clara a seus leitores.

As razões desse inusitado e gradual reencontro com a verdade dos fatos, veremos mais adiante. Porque, antes, é preciso dizer que Noblat enxergou a realidade, mas não a entendeu. Ele atribui a inevitável vitória de Dilma, que só não ocorrerá se houver “um imprevisto ou clamoroso erro”, à extraordinária popularidade do presidente Lula, associada a suas não menores ousada e “falta de escrúpulo”.

Mas é só isso? Não passa pela cabeça do experiente colunista que José Serra é responsável por pelo menos cinquenta por cento do sucesso da adversária? Se formos por esse caminho, é possível que Noblat concorde que Serra é antipático, especialista nas baixarias de campanha, truculento até com seus companheiros (?) de partido e de jornada, além de espantosamente inábil. Mas ainda assim, nossos emérito colunista passaria longe do fato essencial: o discurso obsoleto do tucano.

A própria alma de Noblat não permite que ele veja isso, porque seu próprio discurso é idêntico ao de Serra. Mas que discurso é esse? É o discurso que impôs seus paradigmas Mundo fora, a partir da queda do Muro de Berlin e da derrocada do Sistema Soviético. Levantando a bandeira correta das liberdades individuais, os neoliberais (tentei evitar essa denominação, mas não foi possível) empurraram, de contrabando, a noção de que as liberdades do cidadão estão engatadas com a liberdade do Capital cada vez menos produtivo e mais agiota. Este bicho feio se esconde por trás dos nossos direitos legítimos para impor a Ditadura do Mercado. Ditadura que, excludente na sua essência, é absolutamente incompatível com tais direitos e, de quebra, destrói a Natureza de forma vertiginosa e incontrolável.

Há dois anos a Grande Crise Norteamericana devasta um a um todos os paradigmas neoliberais. Só os alucinados da Globo e da CBN não vêem isso. Mas para a anônima maioria dos cidadãos vai ficando cada vez mais claro que nossos direitos e liberdades essenciais só estarão a salvo quando passarmos uma coleira pelo pescoço do mercado insano que produz apenas por produzir (acumular) sem levar em mínima consideração as reais necessidades do homem, como indivíduo e como Humanidade.

A chamada A Maioria Silenciosa, que medeia a Esquerda e a Direita declaradas, age por intuição e de forma muitas vezes insuspeitadas. Não raro ela pende para a direita, como foi o caso da eleição do Collor. Outras ocasiões, como agora, ela dá importante inflexão à esquerda. E não só no Brasil como no Mundo.

Só um desinformado em último grau não percebe que não sãos os governos, mas o Sistema que está sendo contestado em Atenas, em Madri, em Budapeste ou em São Francisco da Califórnia. E não se requer um grande QI para notar que há semelhança entre estes movimentos atuais e os que ocorreram nos anos 60 e 70 do século passado. Na época, houve fantástica liberação dos costumes e emancipação de grandes seguimentos sociais. Agora, talvez, a tônica seja pela abolição da escravidão assalariada.

Faltou fazer uma referência às razões desse aparente e gradual reencontro da Globo com a verdade. É que eles não são bestas e sabem até onde podem ir. Em 89, depois da manipulação criminosa do último e fatídico debate entre Lula e Collor, a Direção da empresa chamou o petista para conversar. Foi uma conversa que entrou pela madrugada, durante a qual foram derrubadas algumas garrafas de uísque. Lula é um negociador nato, meio abusado, mas tem o coração mole. A verdade é que eu não consigo imaginar a turma da Globo bebendo uísque com a Dilma.

11-06-10

Marina já arrumou um vice de 2 bilhões de dólares.
Agora é a nova queridinha da mídia. Te cuida Serra

Os especialistas em marketing eleitoral que me corrijam, mas ouso dizer que nem o Serra e nem mesmo o FHC, em seus bons tempos, foram contemplados com uma centimetragem tão grande nos jornais e com tantos minutos no horário nobre da TV, como Marina Silva o foi no lançamento de sua modesta candidatura pelo humilde e pobretão PV. Desculpem a ironia.
A verdade é que Martina e o PV não têm nada de pobres. Para bancá-la , ela arrumou um vice de dois bilhões de dólares, Guilherme Leal, o homem dos cosméticos que, em menos de uma década, desbancou a Avon no Brasil.
De sua parte, o partido já levantou confessados 90 milhões de reais para as despesas de campanha, mais do que os 80 milhões confessados pelo PT na vitoriosa campanha de 2002.
Tudo isso para dizer que não há mais a menor dúvida. A mídia e porventura a classe média “politizada”, que recorre à ecologia para não precisar falar de reforma agrária, encontraram em Marina a alternativa ideal para o caso do provável naufrágio da candidatura Serra.
O discurso da candidata não poderia ser mais vago e ambíguo: não só poupa como sempre que pode elogia tanto Lula como FHC e defende um bem bolado “estado mobilizador” que pode não dizer nada como conceito, mas é bom estribo para que ela trepe no muro e fique eqüidistante do “estado mínimo” dos tucanos e do “estado anabolizado” dos PT neogetulista.
Marina, no Datafolha de vinte dias atrás, já estava com 12%. Avalio que ela deve estar agora com 15%, bem mais do que os 9% do IBOPE, com os quais o alucinado Montenegro pretendeu contê-la, só para não desmentir a bobagem que ele vem repetindo há um ano: “não haverá segundo turno”. Pois não só haverá esse segundo turno como ele pode ser disputado por duas mulheres.

07-06-10

O Efeito Aécio. A eleição será decidida
em Minas, onde o carro de Serra atolou

Os analistas isentos (ver blog de Cesar Maia) concordam que o quadro eleitoral, no momento, pode ser definido desta forma simplificada: a vantagem de Serra em São Paulo e no Sul é compensada pela vantagem de Dilma do Rio, no Nordeste e no Norte. Se considerarmos a situação do Centro-Oeste como de empate, fica nítido, então, que a eleição pode ser decidida em Minas, o segundo maior colégio eleitoral e governada por tucanos há oito anos.

Se for assim (com alguns reparos que farei ao final), a situação de Serra é muito complicada, porque o último IBOPE, de uma semana atrás, revela que, em Minas, Dilma está entre 1,5 e 2 milhões de votos à frente do tucano e em plena expansão. Tudo dependeria de um esforço supremo do o ex-governador Aécio Neves para reverter esse quadro.

Mesmo que Aécio estivesse disposto a isso (há controvérsias) ele simplesmente não tem capacidade para tanto, pelo boa razão de que sua base de sustentação, sobretudo no Interior, depende de vários partidos médios e pequenos, muitos dos quais, por sua direção ou através de seus prefeitos, já declararam apoio a Dilma. O próprio candidato de Aécio, Antonio Anastasia (PSDB), não esconde que não tem como ou não quer coibir a dobradinha pirata Dilmasia (Dilma mais Anastasia) que prolifera no Estado.

Estes fatos estão de tal forma escancarados, que a Folha de hoje apresenta uma estatística minuciosa informando que até no núcleo fechado com Serra (PSDB, DEM e PPS) que controla 264 município – de um total de 853 -, 79 prefeitos declaram-se indecisos ou a favor de Dilma. Além disso, o PMDB é o partido que controla o maior número de cidades. Nelas, Aécio pode até (como candidato ao Sendo) ser bem votado, mas não pode dizer faça isso ou faça aquilo.

É nesse brejo de incertezas que o carro de Serra atolou. Hoje ele estará novamente em Minas (Montes Claros) para, mais uma vez, ao lado do paciente Aécio, tentar reverter esse quadro. É muito difícil, a julgar pelas declarações dos prefeitos entrevistados pela Folha. A maioria acha que Dilma e mais simpática (!) além de serem gratos a Lula e à sua farta distribuição de verbas. E o mais importante: os principais adversários de Serra são justamente os filiados ao PSDB. Eles não perdoam a forma como Aécio foi tratado pelos tucanos paulistas (a lances até de arapongagem), na fase de definição das candidaturas para a presidência.

As ressalvas que anunciei acima: a vantagem de Serra sobre Dilma é verdadeira e muito grande em São Paulo (9 milhões de votos). Mas, no Rio Grande do Sul, por exemplo, há empate técnico e Dilma avança. O mesmo ocorre no Centro-Oeste, onde Dilma já assumiu a dianteira em Brasília.

06-06-10

Ciro Gomes estará com Dilma ainda no primeiro turno

O ex-candidato à presidência já concordou em encontrar-se com a petista, talvez ainda este mês.

Nós sabemos que o presidente Lula detesta perder amigos e despontar pessoas. Quando ele sente que pisou na bola, digamos assim, não sossega enquanto não conserta o mal feito. É o que está acontecendo em relação a seu amigo Ciro Gomes. Ele sabe que teve que sacrificar o ex-ministro que sempre lhe foi leal, num momento de incertezas quando ainda não se sabia que rumo tomariam as pesquisas e a candidatura de Dilma Rousseff.

Isto foi há dois, quando o presidente pediu a cabeça de Ciro ao governador pernambucano Eduardo Campos que é também presidente Partido Socialista Brasileiro, ao qual Ciro é filiado e com o qual pretendia chegar à presidência da República. Um direito seu.

Campos, habilidoso, conseguiu sair dessa sinuca de bico, “fritando” a candidatura de Ciro dentro do próprio partido e obtendo do presidente a promessa de um esforço redobrado para reelegê-lo governador do Estado que é o do nascimento de Lula e onde ele bate recordes de popularidade. Mesmo assim, Campos enfrenta uma parada duríssima contra o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) que governou Pernambuco durante oito anos e agora tenta voltar em aliança com o PSDB e o DEM.

É claro que Ciro sentiu-se traído, tanto que despediu-se da campanha presidencial atirando para todos os lados, até no próprio pé. Mas parece que, com a cabeça fria, já perdoou o presidente e o governador. E fez isso, apesar de haver um mal estar no Ceará, onde o atual governador, seu irmão Cid, também filiado ao PSB (vejam como é dura a vida) desdobra-se para proteger o ultra oposicionista senador tucano Tasso Jereissati, a quem ele e Ciro devem o início de suas carreiras políticas.

Seja como for, cobrado quase que diariamente por Lula (“Você já falou com o Ciro?”), Eduardo Campos obteve, finalmente, a anuência do candidato excluído para um encontro com Dilma Rousseff. Será o reatamento de uma velha amizade e do fio partido da própria carreira de Crio que poderia escorregar para o ostracismo.

Como sempre garantiu (e é verdade) que jamais apoiaria Serra ou Marina, é possível que Ciro suba ao palanque de Dilma ainda no primeiro turno. Para Lula é o alívio da consciência e para Ciro a certeza de que, se quiser, poderá reiniciar sua caminhada como um super ministro de Dilma.

A politica de Hugo Chaves que o mundo não ver

19-06-10

Venezuela na rota do socialismo

Chávez venceu todas as eleições sem esconder sua admiração por Fidel.

Muito poucos no Brasil levam o presidente Hugo Chávez a sério. A mídia, mero eco do Departamento de Estado, habituou-se a tratá-lo com um boquirroto inconseqüente com o agravante de ser autoritário. E a maior parte das esquerdas, por puro preconceito e ignorância, torce o nariz para o que imagina ser apenas mais um episódio populista e caudilhesco, com tintura nacionalista, tão comum na História do Continente.

É possível encontrar algumas dessas características no líder venezuelano. Mas isso não impede que ele esteja empreendendo uma aventura inédita neste canto do Mundo, desde a Revolução Cubana. Aventura esta que está-se tornando irreversível e que possui ineditismo também no fato de ter chegado até onde chegou, sem desrespeitar uma vírgula dos chamados preceitos democráticos e da própria Constituição do País. Nada do que Chávez fez até agora foi feito através de atos discricionários ou desrespeitando o Legislativo e o Judiciário.

Há, ainda, uma remota analogia entre a situação venezuelana e as da Hungria e da Tchecoslováquia nos anos 40 do século passado, quando governos provenientes de eleições legítimas, segundo os critérios da democracia burguesa, evoluíram para o socialismo revolucionário. Mas estes países, destruídos pela guerra, contaram com o apoio material, próximo e imediato, da União Soviética. Chávez conta apenas com os petrodólares.

A mídia brasileira, cada vez mais retardada se limitará a denunciar”, como num disco riscado, “as ameaças de Chávez à democracia. Nesse sentido a matéria de Veja, desta semana, é um resumo do pensamento dos grandes jornais e revistas brasileiros. A conclusão da matéria:

Com a intervenção no Banco Federal, Chávez passa a controlar 26% do setor bancário do país. Há dois anos, a participação era de 10,9%. “A política de desapropriações fere os princípios basilares da economia de mercado e do estado democrático de direito. Os empresários saem, o Estado assume, entra gente que não está preparada e, com isso, o país perde”, afirma Alberto Pfeifer, membro do Conselho Empresarial da América Latina”. (?)

26% é menos do que o Governo do Brasil ocupa no setor bancário e a metade do que ocupava até os anos 90 quando FHC promoveu sua privatização e a internacionalização. Como se vê, nesta área, a Revolução Brasileira está bem mais aditada que a de Chávez

Enfim, depois de convencer seis leitores de que Chávez é uma ameaça ao Capitalismo a revista (e esta é uma tendência geral da mídia) passam a enumerar os passos do presidente venezuelano de forma cronológica, como se lê abaixo::

11/6 - Autoridades decretam a prisão do empresário Guillermo Zuloaga, principal acionista da emissora de TV Globovisión, sob acusação de crimes financeiros.

13/6 - Chávez propõe mudar o nome de uma das maiores companhias de petróleo do mundo e uma das maiores fornecedoras de petróleo bruto aos Estados Unidos. A estatal venezuelana PDVSA passaria a se chamar Petróleos da Venezuela Socialista.

14/6 - Chávez nacionaliza o Banco Federal, pertencente a um dos sócios da Globovisión, citando problemas de liquidez e risco de fraude. Esse banco é responsável pela folha de pagamentos emissora, o que deixa os funcionários preocupados com o recebimento dos salários.

15/6 - A Assembléia Nacional aprovou a Lei de Terras, que condena o latifúndio e dá ao Estado um papel determinante no controle do setor alimentício. A medida cria uma empresa pública para a produção, fabricação, distribuição, comercialização e marketing, em nível nacional e internacional, de produtos agrícolas e alimentares.

17/6 - Chávez anuncia a desapropriação da empresa de autopeças Autoseat da Venezuela, que mudará de nome e ficará sob “controle operário”.

17/6 - O presidente avisa que o governo pode estatizar parte da Globovisión, última rede de televisão que faz oposição à sua administração.

Há muito primarismo e muita precariedade jornalística nisso tudo, além das habituais mentiras e omissões como por, exemplo, dizer vagamente que “autoridades decretam a prisão do empresário”, quando a iniciativa foi do Poder Judiciário, com base em um processo legal sobre corrupção e lavagem de dinheiro.

Mas o absolutamente inacreditável é que , sem querer, esses focas de luxo acertaram: Chávez (na verdade um Comando Revolucionário Informal do qual ele é parte) decidiu, sim, acelerar o passo da Revolução Socialista.

E fez isso, parcialmente, em função da crise mundial e da queda dos preços do petróleo. Pesou também o fato de a popularidade de Chávez que há um ano mantinha-se em torno de lulísiticos 70% de aprovação, ter caído para a faixa dos 50% em função, sobretudo, das crises de energia e do abastecimento, fatores circunstanciais e parcialmente superados. Seja como for, o Comando decidiu acelerar o passo, até porque há um fato concreto muito mais importante: a inflexão, para esquerda, da opinião pública mundial, em função do desmonte dos paradigmas neoliberais que predominaram durante 30 anos.

Em outros artigos desta coluna (que leitor poderá pesquisar, bem como os da coluna Para Entender a Crise) já falei da irreversibilidade da Revolução Venezuela. Como não cabem, neste blog, matérias muito longas, por hoje, vou repetir apenas duas informações que postei há cinco meses, quando houve intensa movimentação no ministério e nos bastidores do governo venezuelano. Na ocasião, assumiram os novos vice-presidente e ministro da Defesa. Quanto ao vice presidente, Elias Jaua Milano, basta dizer que ele é apontado pela Oposição como o membro do governo mais próximo de Fidel Castro. E quanto ao ministro da Defesa, general Juan Carlos Mata Figueroa, basta reler esta frase do seu discurso de posse: “Daqui para a frente a única direção é a Revolução”.

Muito bem: torço pela Revolução Bolivariana, mas temo que ainda falte a ela certa consistência teórica necessária para sua sustentação e continuidade. Me parece ser indispensável, nestes sentido, algo mais do que raciocínios esquematizados que datam das revoluções soviética e cubana. Elas são exemplo, mas não são cartilha, nem poderiam sê-lo, no momento em que há uma vertiginosa transformação no modo de produção globalizado, razão pela qual o Imperialismo “evolui” para sua etapa superior que chamo de Neofeudalismo. Neufeudalismo este que se caracteriza pelo monopólio das tecnologias (saberes) e pela terceirização da produção nas suas esferas inferiores.

A imprensa burguesa e venal, não me incomoda. Ela morrerá pela boca. Mas me inquieta ver a pasmaceira dos “intelectuais de esquerda”. Eles se arvoram em ditadores de regra e querem ser respeitados como “formuladores” (?). Mas em nenhum momento cogitam de baixar o queixo nos livros, não para extrair deles citações centenárias, mas para tentar atualizar textos fundamentais, porém inaplicáveis sem essa devida reciclagem.

E são esses intelectuais meia bomba que torcem o nariz para Chávez e Evo Morales, sem perceber que, empiricamente, embora, esses dois líderes, dão os primeiros passos, sim, na direção do Socialismo do Século XXI.

12-6-10

Brasileiro é porta-voz do
Departamento de Estado

Vejamos este texto de Hillary Clinton:
“Apoiar o Irã, uma ditadura teocrática completamente fora das leis internacionais e do respeito aos direitos humanos é um absurdo, ainda mais quando todo o Ocidente está trabalhando em conjunto para tentar controlar (…). Nem mesmo um pragmatismo comercial justificaria tamanho comprometimento. O Brasil não tem nenhuma razão para sair do bloco ocidental, especialmente por uma causa tão ruim para a Humanidade.”
Queiram perdoar. Este texto não é da Hillary Clinton e sim de Merval Pereira, colunista do Globo. Mas ela não o assinaria tranquilamente?
Agora vejamos as razões que este blog entende sejam as do governo brasileiro:
O Brasil não apóia qualquer tipo de ditadura, mas mantém relações diplomáticas e comerciais com todos os países com assento na ONU e é fiel ao princípio de não intervenção nos assuntos internos desses países.
O Conselho de Segurança da ONU e o privilégio de veto concedido a cinco países tornou-se, no seu atual formato, totalmente anacrônico. Esse formato é resultado do armistício da Segunda Grande Guerra (1945) e foi desenhado para acomodar uma situação geopolítica e geoeconômica absolutamente diferentes das que vivemos hoje. É preciso pelo menos ampliar o número dos países com a assento permanete no Conselho para eliminar o absurdo, por exemplo, de não haver ali nenhum representante da África e da América Latina.
O que desestabiliza o Oriente Médio e o transforma em fonte crônica de tensão é um mal de raiz: a não existência de um estado que conviva pacificamente com Israel e que abrigue os seis milhões de cidadãos, o povo palestino, que ocupa esta área há mais de dois mil anos e que vive, há seis décadas, a tenebrosa experiência de estar sem pátria dentro de sua própria terra, sem outra alternativa que a de buscar o exílio em terras alheias.
A questão do desarmamento, inclusive e principalmente o nuclear, passa por uma oxigenação do tema, e uma assepsia da brutal hipocrisia com que vem sendo tratado: aqueles que já estão armados querem manter os incabíveis privilégios decorrentes tão somente disso, do fato e de já estarem armados. Acresce que esses privilégios não ensejam apenas a chantagem atômica como também os altos lucros provenientes do diferencial tecnológico. Diferencial este que se perpetua quando se nega aos países emergentes o direito ao desenvolvimento autônomo de novas tecnologias.
Ninguém é, isoladamente, guardião da paz ou de qualquer tipo de civilização. Muito menos podem sê-lo aqueles países que já demonstraram, na prática, serem capazes de utilizar, no seu interesse particular, as armas mais covardes e brutalmente mortais e que sacrificam indistintamente militares ou civis indefesos de todas as idades.

04-06-10

A nova doutrina da política externa brasileira

No fundo, Lula defende o óbvio: a igualdade democrática entre todos os países membros da ONU. Mas o luminares da mídia fazem questão de não ver ou de ocultar isso de seus leitores.

Não sei o que está havendo com o Elio Gaspari: ele parecia tão articulado. Agora, em mal disfarçada defesa do terrorismo de estado de Israel, resolveu remeter para a lata de lixo toda a política externa do Brasil, fazendo da ditadura iraniana um cavalo de batalha. Não sou dos que, por conveniência, finge não ver os crimes do regime dos aiatolás e o monte de bobagens sobre o Holocausto que o Ahmadinejad vem dizendo há anos. Mas alguém precisa avisar ao Elio que o Brasil manteve e mantém estreitas relações comerciais e de amizade com ditaduras e ditadores bem piores.

O que está havendo então? Parece que o príncipe do colunismo de dois dos jornais brasileiros mais velhacos, o Globo e a Folha, está fazendo o pagamento semestral do aluguel que paga pelo espaço nestes dois latifúndios de nossa mídia. Durante cinco meses e 29 dias, Helio banca o independente e o irreverente (sempre petulante) capaz de dizer o que bem entende seja para quem for. Mas na véspera do pagamento ele acerta as contas e se alinha à doutrina destes dois veículos antinacionais e alinhados automaticamente com os interesses estratégicos, permanentes, dos Estados Unidos.

Em sua último artigo, Elio acusa o Irã de uma série de barbaridades não maiores do que as praticadas habitualmente pelos serviços secretos dos Estados de Israel. E nos brinda com esta pérola: “Lula argumenta que exerce no Oriente Médio uma função pacificadora, porque o Brasil “cansou de ser tratado como segunda classe”. Expandindo contenciosos e impondo conflitos que pouco têm a ver com o interesse brasileiro, pratica uma agenda de terceira”.

Agora vejamos outro texto publicado no dia seguinte, na mesma página 4 da Folha de S. Paulo e sobre o mesmo tema, com a diferença de que escrito por um homem sério, Janio de Freias: “Israel é uma população dividida em relação ao que faz, mas é um país de mãos livres para fazer o que quiser. E faz, implícita e explicitamente autorizado pela asseguradora cobertura da maior potência mundial”.

Finalmente, digamos com poucas palavras que não é difícil entender as linhas gerais da nova política externa brasileira, a primeira independente deste Getúlio e Jango:

1- Consolidar, tendo como alicerce o MERCOSUL, a integração economia e política da América do Sul .

2- Conter e/ou reverter a indevida e humilhante hegemonia norte-americana na América Latina.

3- Alçar o País no cenário mundial como interlocutor respeitado, compatível com sua grandeza física e coerente com sua imagem de nação pacífica e tolerante, através de um diálogo renovado, sem hipocrisias e imposições.

Só a ridícula e tacanha mídia local, agora com o reforço essencial do Super Gasperi, faz questão de não ver e o possível para que seu leitores não vejam que estes objetivos estão sendo plenamente alcançados. Dito assim parece simples, mas por sua complexidade e ações bem o concatenadas, este conjunto de políticas será estudado, em breve, como a nova doutrina da política externa brasileira.

28-05-10
A resposta da Bolívia ao destrambelhado Serra

O Itamaraty tem infomações de que nas próximas horas todos os países da América do Sul, exceto Peru e Colômbia, vão se solidarizar com a Bolívia. Com Serra na presidência, Brasil ficaria isolado.

Confirmando matéria postada hoje pela manhã (veja logo abaixo) neste blog, o Governo da Bolívia respondeu de forma dura às ofensas de José Serra cometidas na quarta-feira (26) durante entrevista à Rádio Globo. O teor da resposta mostra que a eventual eleição do tucano daria início a um clima de discórdia e desconfiança no Continente, colocando em risco a atual política de entendimento e cooperação que permite ao Brasil exercer uma liderança natural, sem pretensões hegemônicas.

Veja o trecho principal da resposta boliviana divulgada esta tarde pela Agência Estado:

“Irresponsáveis” e “político-eleitorais” foram as expressões utilizadas hoje pelo Ministério da Relações Exteriores da Bolívia para definir as declarações dadas pelo candidato do PSDB à Presidência, José Serra, que afirmou nesta semana que o governo boliviano era cúmplice do contrabando de cocaína para o Brasil. Segundo a chancelaria boliviana, as declarações do tucano foram “desaprensivas” (palavra usada para ”irresponsáveis”, ”imorais” ou ”inescrupulosas”)”.

28-05-10

Bolívia responderá hoje à agressão de Serra.

E Parlamento Sulamericano também falará

O Itamaraty foi informado ontem à noite que o governo boliviano prepara uma dura resposta à “agressão brutal e gratuita” sofrida pelo país, por parte do candidato José Serra. A avaliação da diplomacia brasileira é a de que serão inevitáveis manifestações de solidariedade à Bolívia por parte de quase todos os países do Continente, exceto Colômbia e Peru, subordinados à esfera de influência norteamericana.

O assunto será tratado também pelo Parlamento Sulamericano e pela Cúpula da UNASUL União das Nações Sulamericanas. Entretanto, o Itamaraty recebeu recomendações expressas do presidente Lula no sentido de evitar qualquer radicalização. O objetivo é evitar que a emoção predomine nesta questão delicada, o que poria em risco a própria unidade continental, conquistada a duras penas nos últimos oito aos e que fez tão bem à imagem do Brasil no cenário mundial.

Na mesma linha, Dilma Rousseff não deverá explorar o episódio durante a campanha até para não contribuir para o surgimento de um sentimento chovinista e fascistóide já notado em seguimentos da pequena burguesia européia. A candidata já deu seu recado dizendo que a Bolívia, por ser um vizinho mais frágil, deve ser tratada com carinho. No mais será explorado apenas o lado da personalidade do candidato tucano que revela total destempero quando atua sob pressão.

O mais interessante é que as lideranças mais sensatas do próprio PSDB, a partir de seu presidente senador Sérgio Guerra, já advertiram Serra de que ele deve baixar o tom. Tudo bem quando se trata de combater a violência e o tráfico ou mesmo quando se defende o interesse econômico do país, como é o caso do gás boliviano. Mas eles consideram que Serra errou no tom. E para que não digam que este blog é tendencioso, reproduzimos, abaixo, pequena nota encontrada ao pé da coluna Panorama Político do Globo de hoje:

“ESCORREGA . Embora concordem com no mérito com a crítica de Serra à Bolívia, tucanos acham que ele errou no tom, principalmente ao usar o termo “cúmplice” ao se referir à relação entre o governo daquele país e traficantes de cocaína”

A matéria logo abaixo é complemtno desta.

27-04-10

Na agenda de Serra, a destuição do MERCOSUL

Já sabíamos que José Serra não tem nervos de aço coisa nenhuma e que, destemperado, diz e faz as maiores asneiras. Mas ontem (quarta-26) ele passou dos limites e descredenciou-se como candidato à presidência, ao referir-se de forma grosseira e torpe ao povo boliviano e a seu presidente Evo Morales. Em declarações à Rádio Globo (só podia ser) ele responsabilizou o país vizinho por nossas mazelas em termos de violência e consumo de drogas. E fez isso usando argumentos falsos e palavras incompatíveis com os de um chefe de estado.

Este blog foi informado, ontem mesmo, que a UNASUL, União das Nações Sulamericanas, que reúne todos países do Continente, vai solicitar, formalmente, explicações do transtornado candidato tucano. Em verdade, nem mesmo o mais energúmeno dos direitistas norte-americanos refere-se de forma tão baixa a um país amigo e vizinho.

Eis as palavras textuais do candidato desastrado: “ Você acha que a Bolívia ia exportar 80% a 90% da cocaína consumida no Brasil se o governo de lá não fosse cúmplice”. Em seguida ironizou a amizade entre os presidentes Lula e Evo Morales: “essa coca vem da Bolívia onde há um governo amigo com quem se fala muito”.

Não é verdade que a cocaína que entra no Brasil seja proveniente da Bolívia nas proporções chutadas por Serra. O grande e tradicional fornecedor para o Brasil e para o Mundo é a Colômbia governada por Álvaro Uribe. Ali se localizam os grandes cartéis do crime organizado. Quanto a Uribe, um aliado dos Estados Unidos e ideologicamente afinado com os tucanos, há farta documentação comprovando as ligações de sua família (inclusive seu pai) com os chefões do narcotráfico. Sobre ele, Serra se cala.

Entretanto este é apenas o enredo policial da questão. O mais importante é registrar que o PSDB tem uma longa tradição de má vontade em relação ao MERCOSUL. No final dos anos 90 do século passado, Fernando Henrique quase detonou este mercado comum, no episódio da brusca desvalorização do real, o que colocou nossas relações com a Argentina em seu nível mais baixo.

Para ser ter uma idéia da importância do MERCOSUL diga-se que ele é hoje um dos nosso três principais parceiros comerciais (um terço do nosso comercio exterior), com a vantagem de que ao contrário do que acontece com a Europa e a China, vendemos para nossos vizinhos produtos industrializados, principalmente.

O mais importante, porém, é que o Brasil só alçou a condição de protagonista da cena mundial , plenamente aceito pelas grandes potências, graças ao fato de , antes, como primeiro degrau, ter alcançado a posição de líder natural da América do Sul, sendo, inclusive o idealizador da implantação da UNASUL que só existe, porque, com paciência , habilidade e generosidade, não permitimos que o MERCOSUL fosse fragilizado, um dos objetivos estratégicos dos Estados Unidos. Objetivo este notoriamente compartilhado pelos tucanos e pelas Organizações Globo.

15-01-2009
A integração sulamericana não pode ser
um acerto de elites, mas uma
legítima união a partir das bases populares

Comecei a sonhar com a integração sulamericana, há trinta anos, quando era correspondente da Folha de São Paulo em Buenos Aires. Ali, vasculhando a biografia de Juan Perón, topei pela primeira vez com este nome forte, Pátria Grande, idealizado pelo velho caudilho para sintetizar seu projeto de união continental. Nunca mais deixei de pensar no assunto e, há uns dez anos me transformei num decidido batalhador pela construção desta que será, mais rapidamente do que se imagina, uma das quatro maiores potências mundiais. Enfim, isto explica a existência desta coluna.

Durante toda esta luta, o que mais tem me inquietado é o misto de cegueira e ambigüidade com que as diversas elites nacionais do Continente lidam com este assunto. De um lado, elas perceberam, finalmente, que só tem a lucrar com a integração, mas isto faz com que elas pensem apenas nas vantagens aduaneiras do livre mercado, o MERCOSUL. Fica faltando ainda a visão estratégica e generosa de um pátria comum que, preservando as características individuais de cada república, não deixe de cimentar um pacto federativo, única forma de fazer frente às investidas das grandes potências de outros continentes
Em meio a essas considerações fui procurado por um grupo de jovens que me fizeram enxergar o óbvio: a construção da Pátria Grande é assunto sério demais para ser deixado nas mãos das elites. Com outras palavras: a União Sulamericana será construída a partir de suas bases populares ou será apenas um colcha de retalhos sem a unidade e consistência compatíveis com a ambição do projeto.
E é pela soma de todas estas razões que resolvi transformar esta coluna em espaço de divulgação a disposição da Ação Patriótica (da qual faço parte) e da Juventude Patriótica que adotaram como símbolo a figura emblemática de Tupac Amaru que, como nosso Zumbi dos Palmares, encarna o espírito libertário e verdadeiramente solidário dos povos da América do Sul.
Se você quer aderir ao projeto ou apenas colher mais informações, mande sua mensagem para este blog.

ORGANIZE EM SUA CIDADE, SEU BAIRRO, SINDICATO OU LOCAL DE TRABALHO UM NÚCLEO DA AÇÃO PATRIÓTICA E JUVENTUDE PATRIÓTICA.

30-09-09
Missão cumprida

Está aberto o diálogo democrático em Honduras, o que só foi possível em função da Operação Tgucigalpa, inciativa do Brasil. Com a chegada, hoje, dos representantes da ONU e da OEA, o golpe militar fica praticamene anulado. Para desespero da mídia brasileira vendida e dos analfabetos políticos, com seus xingamentos e ironias baratas. Veja foto da reunião em @AntonioVM

O fator Chávez

15/05/2009

Este blog recebeu no último dia 14 a correspondência enviada pelo senador Eduardo Suplicy a qual o leitor lerá logo abaixo e que me apresso em publicar porque, de forma brilhante, o texto elimina um falso problema, na verdade um quiproquó que poderá levar os senadores da República a cometerem um erro histórico de grandes proporções, talvez o maior de toda uma geração, caso venham a negar o ingresso da Venezuela no Mercosul. Dizendo de forma simplificada, tudo consiste em se compreender que não se estará votando o ingresso do presidente Chávez no Mercosul, mas o ingresso de seu país. País este que, sendo a terceira maior economia do continente, comporá, com o Brasil e a Argentina , a espinha dorsal da União Sul-americana que, assim como a União Européia, representa, nesta fase de intensa globalização ,a única forma de fazer valer, frente às demais potências mundiais, os interesses estratégicos, permanentes, dos países desta parte das Américas até aqui tão menosprezada. Seja como for, a verdade é que o presidente Hugo Chávez não está fazendo nada que vá contra o desejo da maioria do povo venezuelano.

A seguir o texto do senador Suplicy:

Na análise da permissão para a Venezuela ingressar no MERCOSUL é necessário considerar, em primeiro lugar, que acordos internacionais são celebrados por Estados com fundamento em seus interesses de longo prazo. Nesse processo de natureza estratégica e diplomática, governos são circunstanciais. Os compromissos de política externa constituem-se, por definição, em compromissos de países. Portanto, quem está aderindo ao MERCOSUL não é o atual governo venezuelano, mas sim a Venezuela, país vizinho com o qual o Brasil sempre manteve boas relações.

Não obstante essas constatações, é necessário reconhecer que o debate sobre a entrada da Venezuela no MERCOSUL, sempre oportuno numa democracia, ultimamente está um tanto distorcido. Com efeito, esse debate, que deveria ter como parâmetro essencial os interesses estratégicos dos Estados Partes e do próprio bloco, vem sendo conduzido, por vezes, com base em posições ideológicas, não raro marcadas pelo emocionalismo e o desconhecimento.

Assim sendo, parece essencial recolocar essa importante questão nos seus devidos parâmetros e eliminar do debate idiossincrasias políticas que não contribuem para o exame objetivo e amplo deste compromisso internacional de longo alcance.

Em parecer apresentado pelo Deputado Dr. Rosinha sobre esta mesma matéria na Comissão de Relações e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, ele efetua uma pormenorizada análise histórica dos vetores econômicos, comerciais, estratégicos e diplomáticos que, nos últimos 15 anos, adensaram significativamente as relações bilaterais Brasil/Venezuela e pavimentaram o ingresso desse nosso vizinho no MERCOSUL. Cabe recordar os principais dados e argumentos utilizados pelo ilustre parlamentar com o intuito de inserir a discussão da presente matéria em seu apropriado contexto histórico.

Até o final da década de 80 do século passado, a Venezuela estava relativamente isolada do seu entorno regional na América do Sul. A prioridade absoluta da sua política externa eram as “relações privilegiadas” com os EUA, grande comprador do petróleo venezuelano, seguida da sua projeção estratégica no Caribe, mar que a liga à América do Norte. Esse isolacionismo parcial da Venezuela, que aderiu tardiamente ao GATT e à Comunidade Andina, só começou a ser efetivamente revisto quando a relativa abundância de petróleo no mercado internacional, que fez diminuir o preço dessa commmodity, somada à crise da dívida, que viria a atingir fortemente aquele país ao final daquele decênio, produziu uma mudança na estratégia de sua política externa. De fato, a política externa regionalmente isolacionanista, baseada na noção de uma suposta superioridade político-democrática, na afluência econômica do petróleo e nas relações privilegiadas com os EUA, principal comprador dessa commodity, passou a ser substituída progressivamente por uma estratégia de inserção no cenário externo mais realista, na qual a América do Sul passou a ter lugar de destaque.

Em relação especificamente ao Brasil, a progressiva aproximação foi facilitada por fatores históricos e geográficos. Em primeiro lugar, a fronteira da Venezuela com o Brasil, a mais extensa daquele país (2.199 km), foi estabelecida definitivamente por um tratado de 1859. Assim, ao contrário do que ocorreu com seus outros vizinhos, Colômbia e Guiana, a Venezuela nunca teve disputas territoriais com o Brasil. Em segundo, as relações bilaterais, foram, em geral, cordiais, embora pouco densas para a sua potencialidade.

Entretanto, o fator desencadeador do adensamento das relações bilaterais Brasil/Venezuela foi a necessidade conjunta de desenvolver e povoar a região amazônica, compartilhada por ambos os paises. De um lado, o Brasil tinha o programa da Calha Norte, que seria posteriormente complementado pelo SIPAM e pelo SIVAM. De outro, a Venezuela tinha o PRODESSUR, com os mesmo objetivos estratégicos. Essa necessidade estratégica compartilhada por Brasil e Venezuela fez surgir planos bilaterais de integração energética, com o intuito de enfrentar os gargalos de infra-estrutura para o desenvolvimento de suas fronteiras amazônicas. Dessa forma, as estatais EDELCA e ELETROBRAS passaram negociar contratos, em 1993, com base em estudos feitos por um Grupo de Trabalho sobre Energia. Verificou-se que os rios amazônicos da Venezuela, com quedas d’água de potencial hidroelétrico superior, dada à presença próxima do planalto venezuelano, permitiriam fornecimento de energia venezuelana para o norte brasileiro, como de fato foi feito posteriormente.

Também no mesmo ano (1993), a Fundação Alexandre Gusmão FUNAG e o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais-IPRI, órgãos pertencentes ao Itamaraty, elaboraram, com a colaboração de especialistas de ambos os países, um diagnóstico bastante aprofundado das potencialidades da cooperação bilateral Brasil/Venezuela. Os resultados desse diagnóstico foram muito encorajadores, face à complementaridade das economias daquele país e do Brasil. Com efeito, a Venezuela, embora tenha abundância de petróleo e gás natural, tem uma economia pouco desenvolvida em certos setores industriais importantes, como máquinas e equipamentos, automóveis e bens de capital, setores nos quais a economia brasileira é bem mais competitiva.

Do ponto de vista do Brasil, a integração com a Venezuela permitiria o equacionamento de suas necessidades energéticas, facilitaria o desenvolvimento da região amazônica, de grande interesse estratégico, e criaria um corredor de exportação para o Caribe. Sob a ótica da Venezuela, a integração com o Brasil ensejaria a diversificação da sua estrutura produtiva, diminuindo a sua dependência econômica das exportações de petróleo e sua dependência política dos EUA. Desse modo, foram feitos planos para a integração da Petrobrás e PDVSA, a comunicação física de linhas de transmissão de energia elétrica (Manaus-Elétrica Del Guri) e a construção de estradas e pontes para conectar ambas as nações.

Vislumbrava-se, portanto, já naquela época, que a aproximação entre essas nações era inteiramente conveniente aos seus interesses maiores e que a cooperação poderia estar solidamente alicerçada em projetos econômicos, comerciais, de integração energética, de transportes e mesmo geoestratégicos.

O ponto de inflexão dessa aproximação foi a celebração do Protocolo de la Guzmania, firmado pelos presidentes Rafael Caldera e Itamar Franco, em 1994. Mediante tal protocolo, formulou-se uma tríplice estratégia de concertação entre ambos os países. Previa-se o desenvolvimento de ações na zona de fronteira, com o intuito de assegurar a ocupação e o desenvolvimento da região amazônica, o estímulo ao comércio e aos investimentos, assim como ações comuns destinadas à criação de uma zona de livre comércio na América do Sul.

A partir desse marco histórico, houve considerável adensamento das relações bilaterais Brasil/Venezuela. Entre 1995 e 2002, construiu-se uma agenda ampla e diversificada, na qual se destacaram as iniciativas em matéria de integração física e energética, o desenvolvimento fronteiriço e a cooperação em meio ambiente. Além disso, ampliou-se o intercâmbio comercial, com destaque para as compras de petróleo venezuelano, que passaram a situar a Venezuela como um dos principais fornecedores ao Brasil, e concluiu-se a construção das linhas de transmissão de energia elétrica entre a Venezuela e o Estado de Roraima. Também pavimentou-se a BR-174, que liga Manaus ao Caribe, possibilitando a criação de um corredor de exportação de grande relevância para a Região Norte do País.

Do mesmo período datam as tratativas para a criação de uma área de livre comércio entre a Comunidade Andina e o MERCOSUL e as primeiras manifestações oficiais favoráveis à entrada da Venezuela no Mercado Comum do Sul. Desse modo, cumpre destacar que já em sua primeira viagem como mandatário supremo à Venezuela, em julho de 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, em discurso proferido no parlamento venezuelano, que:

O MERCOSUL começa a identificar novos parceiros na América do Sul, onde estamos negociando formas de aproximação com a Venezuela, o Chile e a Bolívia, além do conjunto inteiro do Pacto Andino.Entre essas áreas, com sentido de prioridade (grifo nosso) dada pela vizinhança e pela intensidade da agenda, a aproximação com a Venezuela é natural. De sua parte, a Venezuela também manifestou, no mesmo ano (1995), seu interesse de aproximar-se ao MERCOSUL e formar uma estratégia dirigida a construir um mercado comum sul-americano, “antes do prazo estabelecido para a construção da área de Livre Comércio das Américas (ALCA), ou seja, antes de 2005”.

Vê-se, por conseguinte, que houve uma paciente construção histórica de interesses econômicos, comerciais e geopolíticos comuns, que perpassou governos de diferentes matizes políticos e ideológicos, tanto na Venezuela como no Brasil, e criou sólidas condições objetivas para a entrada desse nosso vizinho no MERCOSUL.

Assim sendo, pode-se dizer que a inclusão da Venezuela no MERCOSUL é, sob a ótica dos interesses brasileiros, apenas a culminação de um longo processo de adensamento das relações bilaterais Brasil/Venezuela iniciado no governo Itamar Franco, consolidado no governo Fernando Henrique Cardoso e concluído na administração de Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, a adesão da Venezuela ao MERCOSUL não tem nada de intempestiva e tampouco resulta de uma decisão política sem substrato econômico, comercial e histórico, como afirmaram alguns.

Nos últimos anos, o incrível crescimento da corrente de comércio Brasil/Venezuela, bem como dos investimentos públicos e privados efetuados em âmbito bilateral, tornam a entrada daquele país no MERCOSUL algo praticamente inelutável. Entre 2003 e 2008, as exortações brasileiras para a Venezuela passaram de US$ 608 milhões para 5,15 bilhões, um crescimento de 758% em apenas 5 anos. O mais interessante para os interesses brasileiros, contudo, não é esse extraordinário aumento, mas a qualidade de nossas exportações e o grande saldo comercial positivo que temos nesse âmbito bilateral específico.

Com efeito, cerca de 72% das nossas exportações para a Venezuela são de produtos industrializados (manufaturados e semimanufaturados), justamente os produtos que têm maior valor agregado e que geram mais empregos. Ademais, temos com a Venezuela um vultoso superávit comercial. Em 2008, obtivemos com esse vizinho do Norte um saldo positivo de US$ 4,6 bilhões. Mencione-se, para efeitos de comparação, que, no mesmo período, tivemos um superávit comercial com os EUA de apenas US$ 1,8 bilhão e, com o conjunto dos 27 países da União Européia, US$ 10,2 bilhões. Na realidade, só um país supera a Venezuela, no que tange à geração de saldos comerciais positivos para o Brasil. Trata-se da Holanda (Países Baixos), com o qual obtivemos, em 2008, US$ 9 bilhões de superávit. Não obstante, esse número extraordinário não foi obtido tanto em razão do dinamismo das relações comerciais bilaterais Brasil/Holanda, mas sim graças à importância do porto de Roterdã, que concentra boa parte da movimentação portuária de toda a Europa.

No campo dos investimentos, há projetos bilaterais de enorme vulto em execução, como o da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco e o da construção do metrô de Caracas, que poderão ser significativamente robustecidos. De fato, nos últimos anos houve aumento considerável de investimentos diretos bilaterais, seja através de empresas privadas, seja através dos fluxos gerados por mecanismos governamentais, como o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR) da Associação Latino-americana de Integração (ALADI). Destaque-se que, em 2007, a Venezuela concentrou cerca de 93% dos investimentos diretos efetuados com base nesse convênio, o que beneficiou várias empresas brasileiras que prestam serviços na região.

Obviamente, a entrada da Venezuela no MERCOSUL deverá aumentar substancialmente esses números já bastante significativos, uma vez que o potencial econômico-comercial da relação Venezuela/ Brasil e Venezuela/ MERCOSUL apenas começou a ser explorado. Face à complementaridade das duas economias, não há dúvida de que, no longo prazo, independentemente da evolução da crise mundial, a Venezuela deverá se converter, caso ingresse no MERCOSUL, num dos maiores parceiros econômicos e comerciais do Brasil.

Independentemente desses sólidos vetores históricos, econômicos, comerciais e geoestratégicos, que recomendam o célere ingresso da Venezuela no MERCOSUL, há aqueles que manifestam sua oposição ao protocolo em apreço.

Os argumentos dos opositores da inclusão da Venezuela no MERCOSUL cingem-se, em geral, a críticas ao regime do presidente Hugo Chávez. O principal deles tange à suposta incompatibilidade entre o atual regime político da Venezuela e o compromisso democrático do MERCOSUL, inscrito no Protocolo de Ushuaia, firmado em 1998. Porém, tal instrumento prevê a possível retirada de um Estado Parte apenas no caso em que haja ruptura da ordem democrática. De fato, o artigo 2 do Protocolo de Ushuaia reza que:

O presente Protocolo se aplicará às relações que decorram dos respectivos Acordos de Integração vigentes entre os Estados Partes do presente Protocolo, no caso de ruptura da ordem democrática (grifo nosso) em algum deles.

Fica claro, por conseguinte, que o Protocolo de Ushuaia só pode ser acionado em caso estrito de fratura severa na ordem democrática. O mesmo vale para a Carta Democrática da OEA, aprovada em 2001, que também tem cláusula semelhante (artigo 19). Assim, a questão que se coloca é se há atualmente na Venezuela uma efetiva ruptura da ordem democrática.

Embora considere que a opinião dos que se opõem ao ingresso da Venezuela no MERCOSUL deve ser respeitada deve-se considerar que não há fatos que consubstanciem essa tese. Apesar dos questionamentos relativos à não-renovação da licença do canal RCTV, feita ao abrigo da lei venezuelana sobre o tema, editada em 1996, a Venezuela tem uma imprensa bastante atuante que faz oposição ferrenha ao governo Chávez, o que assegura a divulgação livre de informações própria dos regimes democráticos. Há também partidos contrários ao regime chavista, como o COPEI e a Ação Democrática, de histórico enraizamento na sociedade venezuelana, que oferecem, quando decidem participar de eleições, alternativas de poder aos cidadãos da Venezuela.

Assinale-se que, nos últimos anos, houve crescimento significativo da oposição venezuelana. Em dezembro de 2007, a oposição ao governo Chávez foi vitoriosa no referendo relativo à reforma da Constituição da Venezuela, o que parece demonstrar que a tese da ausência de limites para reeleições não tem apoio político suficiente para prosperar, no próximo referendo constitucional. Nas eleições provinciais de novembro de 2008, embora o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), chavista, tenha obtido a maior parte dos votos no cômputo geral, a oposição conseguiu importantes vitórias nos estados mais populosos e economicamente dinâmicos (Carabobo, Táchira, Nueva Esparta e Miranda), bem como na capital, Caracas, e na cidade de Maracaibo.

Observe-se, além disso, que em todos os pleitos eleitorais realizados ao longo do governo Chávez, acompanhados por inúmeros observadores internacionais, não houve denúncias comprovadas de fraudes e vícios que tivessem comprometido os resultados, o que poderia ter afetado, de fato, a ordem democrática venezuelana.

A bem da verdade, a última vez que houve ruptura da ordem democrática na Venezuela foi quando setores militares venezuelanos deram um golpe contra o governo Chávez, em março de 2002. Tanto é assim, que, à época do golpe, o Conselho Permanente da OEA foi acionado e chegou a um consenso sobre a necessidade de intervenção com base na Carta Democrática. Só não foram tomadas medidas efetivas, como a suspensão da Venezuela da OEA, porque o golpe foi prontamente revertido.

Em relação ao argumento de que o governo Chávez poderia “perturbar” o MERCOSUL, deve-se observar que as decisões nesse bloco econômico têm de ser tomadas por consenso. Ademais, ante o enorme peso específico econômico, demográfico, territorial e político que o Brasil tem no MERCOSUL, parece-nos impossível que isso venha a acontecer. De outro lado, abstraindo os arroubos retóricos do presidente Hugo Chávez, é do interesse objetivo e estratégico da Venezuela que o MERCOSUL se consolide de forma racional e pragmática para melhor projetar as reivindicações dos Países Membros no cenário internacional. Nenhum Estado Parte tem interesse num MERCOSUL dividido e conturbado.

Há, ainda, o argumento de que o Protocolo de Adesão da Venezuela ao MERCOSUL só poderia ser aprovado pelo Congresso Nacional, quando as negociações técnicas do Grupo de Trabalho criado por seu Artigo 11 estejam concluídas. Ora, se tivermos de esperar pela resolução definitiva de pendências técnicas para aprovarmos os atos internacionais do MERCOSUL, teríamos de rever até mesmo o Tratado de Assunção, pois ainda não conseguimos finalizar a união aduaneira e eliminar a dupla cobrança da TEC, entre várias outras questões operacionais e jurídicas que afetam o processo de integração. Mas, em referencia especificamente às negociações técnicas criadas pelo Artigo 11 do Protocolo, é preciso assinalar que sua primeira fase foi concluída com êxito em março de 2007, sendo que o Conselho do Mercado Comum, através da Decisão nº 12/2007, prorrogou-as para que algumas questões pudessem ser resolvidas. Entre essas, destaca-se o cronograma de liberação comercial Brasil/Venezuela, o qual está, hoje, praticamente acordado, faltando somente o acerto de alguns detalhes que deverá estar concluído nos próximos meses.

Temos de ter, no MERCOSUL, a mesma tolerância e visão estratégica que nortearam a integração da União Européia, a qual soube consolidar-se apesar de notáveis diferenças políticas conjunturais e de retrocessos eventuais. Processos de integração nunca são harmônicos. Há sempre conflitos e assimetrias a serem resolvidos, especialmente quando eles ainda estão em fase de consolidação. Por isso, diferenças políticas entre governos não devem ser encaradas como obstáculos insuperáveis à integração, mas sim como desafios naturais do longo e complexo processo de construção de um mercado comum.

É necessário ponderar também se o isolamento político-diplomático da Venezuela, que a rejeição deste ato internacional inevitavelmente acarretaria, convém aos interesses do Brasil, do MERCOSUL e da América do Sul. Acreditamos que não.

Com a adesão da Venezuela, o MERCOSUL passa a constituir um bloco com mais de 250 milhões de habitantes, área de 12,7 milhões de km², PIB superior a um trilhão de dólares (aproximadamente 76% do PIB da América do Sul) e comércio superior global superior a US$ 300 bilhões. Nesta nova configuração, o Mercado Comum do Sul torna-se um dos mais significativos produtores mundiais de alimentos, energia e manufaturados.

Por conseguinte, trata-se, aqui, de consolidar e ampliar o MERCOSUL, objetivo estratégico de todos os Estados Partes que o compõem e da própria Venezuela. Esse processo de consolidação e ampliação do MERCOSUL, do qual o presente protocolo é um instrumento, vem sendo impulsionado por políticas de Estado dos signatários do Tratado de Assunção, e não por idiossincrasias de governos específicos.

Essa consolidação e ampliação do MERCOSUL, da qual a adesão da Venezuela é uma das vertentes, torna-se emergencial nessa conjuntura de grave crise mundial. A inevitável redução dos fluxos mundiais de comércio e de investimentos que a crise já vem acarretando, demandará medidas fortes de estímulo ao comércio regional e aos investimentos intrabloco. Por isso, o próprio Parlamento do Mercosul aprovou Recomendação ao Conselho do Mercado Comum, na qual coloca-se ênfase na necessidade de promover os fluxos comerciais e de investimentos regionais e de ampliar e consolidar do processo de integração.

Face essa argumentação do Deputado Dr. Rosinha, bem como a de muitos especialistas em relações internacionais creio que a adesão da Venezuela ao MERCOSUL vai ao encontro dos interesses de seus Estados Partes, especialmente nesta conjuntura de grave recessão mundial.

Cordialmente,

Senador Eduardo Matarazzo Suplicy

E os palestinos?

30/04/2009

Mesmo que não tenha ligação direta com os temas deste blog, não posso deixar de comentar a campanha movida contra a visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil. O movimento foi bem revelado na coluna de Merval Pereira do dia 29 de abril, onde é reproduzida a argumentação do ex-chanceler Celso Lafer, ao que parece, um dos líderes do boicote pouco diplomático ao presidente eleito de uma nação amiga e convidado do governo brasileiro.

Os argumentos do diplomata: a Constituição brasileira fala na prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais. Por conta disso (estou transcrevendo trecho da coluna do Merval), no correr dos tempos, o governo brasileiro tem assinado diversos tratados sobre o assunto.

“ A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi concebida como um caminho para se atingir uma relação amistosa entre os povos, e favorecendo a paz, lembra Lafer (continuamos transcrevendo a coluna), e em decorrência dela nasceu o Pacto dos Direitos e Políticos, que o Brasil assinou, além de um tratado regional, o Pacto de São José. Os dois documentos afirmam basicamente a mesma coisa: caberá aos países signatários proibir a propaganda em favor da guerra e toda a apologia ao ódio nacional, racial ou religioso e o incitamento à violência e ao crime”.

O discurso de Lafer, visto de forma genérica é irretorquível, mas eu não quero nem pensar no que ele seria capaz de dizer e fazer às vésperas, por exemplo, de uma visita do presidente chinês Hu Jintao ao nosso país. Mas a questão é outra: como ficam, nesta discussão, os palestinos ? Um povo numericamente superior aos judeus que vivem em Israel, e que ,desde 1949, vem sendo sistematicamente expulso,segregado ,humilhado, esmagado e, por fim, chacinado dentro dos limites do território onde vive há mais de dois mil anos. Há pouco mais de três meses,milhares de civis palestinos foram agredidos e mortos pelas tropas israelenses num brutal e escancarado crime de guerra denunciado por altos dirigentes da própria ONU. Quem poderá convencer a estas vítimas brutalizadas e a seus parentes e a seus patrícios que os israelenses são mais humanos e que seus direitos são mais direitos?

Até a próxima

Alfonsín, Sarney e a mídia idiotizada

02/04/2009

Cheguei a supor que não me surpreenderia mais com a crescente idiotice da grande mídia nacional. Mas ela , imbatível, se supera a cada dia e esta acometida de uma verdadeira doença que decorre do alto grau de alienação obtido através de uma perfeita interação neurótica com a nossa alta classe média. Elas interagem para protegerem-se, talvez, de notícias ruins que eventualmente contrariem seus interesses. Seja como for, elas estão inabilitadas para lidar com a realidade. Realidade da qual elas passaram a ter uma visão distorcida, o que não impede que, em alguns casos, a distorção seja deliberada.

Vejamos um caso concreto e imediato: a morte do ex-presidente argentino Raúl Alfonsín que é apontado por nossos vetustos jornais como uma dos campeões da redemocratização de seu país, o que é verdade. Ele assumiu a presidência em 1983, sucedendo ao último general de uma linhagem que a partir de 1976 notabilizou-se por uma ditadura das mais sanguinárias do continente.

Até aqui tudo bem, mas começamos a pisar no terreno da ficção maldosa quando nossa mídia acrescenta que Alfonsín não conseguiu concluir o seu mandato porque foi vítima de incidiosa campanha movida pelos peronistas, estes populistas irresponsáveis o descontentamento popular às greves, às ruas e à baderna, só porque a taxa de desemprego atingira a taxa record de

8,4 %. Neste ponto, é preciso que Alfonsín e seu Partido Radical (liberal apesar do nome) não estavam sozinhos quando destronaram os militares. Na verdade, foi preciso que os peronistas

fossem mais uma vez às ruas , exatamente como em 1973, quando outra ditadura militar foi derrubada, propiciando o retorno de Perón. Aliás, durante a luta os peronistas não se limitaram aos protestos ditos civilizados e recorreram à luta armada. Nesta época, eles mereceram da mídia brasileira adjetivos que iam de baderneiros a terroristas. Em todo caso, não se pode omitir que o sucessor de Alfonsín, Carlos Menen, um peronista histórico, também deixou-se enredar pela ortodoxia do Fundo Monetário Internacional e pela conversa do Consenso de Washington. Como resultado, literalmente, quebrou a Argentina.

Entretanto, à medida em que escrevo estas linhas, vou despertando a memória que viaja para o longinquo ano de 1957, quando Juscelino profetizou que Frondize outro presidente argentino ligado ao Partido Radical seria deposto porque cedera às exigências do FMI. “Eu não me submeti e transmitirei o cargo para meu sucessor legitimante eleito”, concluiu ele.

Mas voltemos à nossa mídia. Na cobertura da morte de Alfonsín, só de relance ela lembrou que o presidente argentino e seu colega brasileiro, José Sarney, comportaram-se como verdadeiros estadistas ao removerem todos os obstáculos diplomáticos, para, em seguida assinarem o Tratado de Assunção que daria origem ao Mercosul – versão modesta do Mercado Comum Europeu -, que, no entanto, assim como lá, pode ser embrião de uma federação, a União das Nações Sul-americanas, que questão de desacreditar.

Nossos jornalistas, sempre que podem, procuram ignorar esta nova entidade que, apesar deles, já atua e começa a pavimentar o caminho a construção de um poderosos bloco econômico, política e militarmente integrado, sendo provável que nos próximos anos se apresente ao mundo como uma potência emergente de importância capital, dentro da nova geopolítica global que começa, na presente década a ser desenhada. Esta é a realidade que provoca agonias, tanto na mídia e nas elites brasileiras, como em seus patrões de olhos azuis.

Não é para menos: a União Sul-americana é a única entre as grandes potências que pode ostentar auto-suficiência em energias de todos os tipos, bem como em proteínas animais e vegetais, fator de incomparável importância estratégica.

Confesso que recordo com nostalgia a velha imprensa que deu cartas no meio seculo que medeia os anos 40 e 90 nos brindou com personagens antológicas como, só para citar alguns, Carlos Lacerda , Samuel Wainer, Cláudio Abramo e Mino Carta, este, o último moicano de uma tribo que não cabe mais no atual formado medíocre e estéril que, aliás, está sendo siderado pela Internet, este monstro a ser decifrado. A velha mídia não atendia por este nome, era – se isso for possível- romanticamente corrupta, políticamente incorreta, mentia e chutava com grandeza, mas não era idiota.

Ainda neste semestre, o Senado brasileiro deverá dizer sim ou não ao ingresso da Venezuela no Mercosul. Esta adesão é de radical importância para a consolidação da União Sul-americana, porque, se o tripé Brasil-Argentina-Venezuela for solidamente fincado no continente estará da a condição de irreversibilidade ao projeto da Pátria Grande Sul-americana, como Juan Perón a chamou um dia. Tudo isto, independente das extrapolações de lideranças polêmicas porém transitórias.

A grande mídia insensata e seus anões alienados então assetando suas baterias de ódios, preconceitos e desinformações deliberadas , na tentativa de barrar o ingresso venezuelano. Se eles vencerem, estaremos assistindo a um desastre histórico de proporções gigantescas.

Até a próxima

terça-feira, 15 de junho de 2010

Proposta nuclear apoiada por Brasil e Turquia continua de pé

Proposta nuclear apoiada por Brasil e Turquia continua de pé

Ahmadinejad: proposta nuclear apoiada por Brasil e Turquia continua de pé Imagem: Philippe Lopez/AFP Photo
Imagem: Philippe Lopez/AFP Photo

A proposta iraniana, promovida pelo Brasil e pela Turquia, de trocar combustível nuclear iraniano com as grandes potências em território turco, continua vigente, afirmou o presidente Mahmud Ahmadinejad, citado nesta terça-feira pela televisão estatal.

"A declaração de Teerã continua tendo validade", afirmou Ahmadinejad ao receber o presidente do Parlamento turco, Mehmet Ali Shahin. Essa proposta constitui "um novo modelo de gestão dos assuntos mundiais, baseado na justiça e na lógica", acrescentou.

Na declaração de Teerã, assinada em 17 de maio com o Brasil e a Turquia, a República Islâmica aceitou trocar, em território turco, 1.200 kg de urânio levemente enriquecido (a 3,5%) por 120 kg de combustível enriquecido a 20%, para alimentar seu reator de pesquisa médica de Teerã.

Mas depois de assinar o odcumento, o Irã anunciou que continuará enriquecendo urânio a 20% por conta própria.

As grandes potências acolheram com ceticismo a iniciativa por achar que as autoridades iranianas estavam apenas ganhando tempo.

E, em 9 de junho, o Conselho de Segurança da ONU votou uma resolução impondon novas sanções ao Irã por sua política nuclear.


Da AFP Paris

Colômbia propõe acordo com as Farc para que guerrilheiros se entreguem em troca de garantias

O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, propôs hoje (15) que os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) abandonem as atividades ilegais em troca de garantias constitucionais. Segundo o presidente, o governo assegurará meios aos guerrilheiros para que refaçam suas vidas. A proposta foi feita em entrevista coletiva às emissoras de rádio e reproduzida no site da Presidência da República.

“[Eu proponho] que os guerrilheiros abandonem as fardas, desmobilizem-se e liberem os sequestrados que o governo se comprometerá a dar garantias para que refaçam suas vidas”, disse Uribe, na entrevista coletiva. Mas ele não detalhou que garantias seriam essas.

A proposta de Uribe é apresentada logo depois do resgate de mais quatro militares que eram mantidos como reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Nos últimos dois dias, foram libertados o general Luis Mendieta, os coronéis Enrique Murillo e William Donato, além do sargento Arbey Delgado.

A cinco dias do segundo turno das eleições presidenciais, Uribe afirmou que as operações de resgate devem ser mantidas de forma contínua até que todos os reféns estejam em liberdade. “É uma tarefa que se deve manter que é para resgatar os compatriotas que seguem sob poder dos guerrilheiros”, disse. Segundo ele, é um “exercício humanitário”.

O presidedente afirmou que as operações de resgate foram intensificadas. A expectativa, de acordo com ele, é resgatar nos próximos dias três engenheiros que estão sob poder das Farc. Mas não estabeleceu prazo nem data exata.

Há três meses, o governo do Brasil cooperou no resgate de reféns das Farc ao enviar dois helicópteros para a Colômbia. Na ocasião foram libertados o cabo do Exército Pablo Emilio Moncayo e o soldado Josué Daniel Calvo Nuñez.

As Farc, criadas na década de 1960, afirmam que defendem a adoção do regime socialista na Colômbia. Porém, para especialistas, a guerrilha mantém o controle de parte do refino e da distribuição de cocaína na Colômbia.

Da Agência Brasil

Brasil e sua Agricultura


O Brasil terá a maior produção agrícola do mundo na próxima década. É o que prevê o relatório anual Perspectivas Agrícolas 2010- 2019, publicado hoje (15) pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

De acordo com a publicação, a produção agrícola brasileira aumentará 40% de 2010 a 2019 – crescimento superior ao da Rússia, Ucrânia, China e Índia, que devem registrar percentual médio superior a 20% no mesmo período.

O informe aponta os setores de etanol e oleaginosas como alguns dos destaques da agricultura brasileira. A produção de álcool combustível deve crescer 7,5% ao ano até 2019, segundo a agência de notícias da BBC. No setor das oleaginosas, o Brasil deve se tornar o maior exportador mundial em 2018, superando os Estados Unidos. A tendência é de que a produção brasileira passe dos atuais 26% da produção mundial este ano para 35% em 2019.

Para a FAO e a OCDE, o ritmo do crescimento agrícola será mais lento na próxima década em relação aos últimos dez anos, mas atingirá a meta de 70% de aumento estimada para atender a demanda mundial por alimentos prevista para 2050.

Da Agência Brasil

domingo, 13 de junho de 2010

Fatos e possibilidades Eleitorais para 2010

E Serra, quem diria, pode perder a eleição em São Paulo

Na verdade, ele vence em seu Estado, mas não com a diferença necessária para compensar a vantagem de Dilma no Rio e no Nordeste. Além de Quércia que começou a afastar-se na semana passada, agora é Geraldo Alckmin que fecha os olhos para abertura de comitês Dilmin (Dilma/Alckmin).

Na série de análises que tenho feito sobre pesquisas e tendências, sempre raciocinando junto com o leitor, já afirmei que a eleição pode ser decidida em Minas. O balanço simplificado é o seguinte: Serra sairia de São Paulo com uma vantagem entre seis e oito milhões de votos. Nos estados do Sul, somados, ele já foi mais forte, mas ainda tem uma sobra de cerca de dois milhões, graças principalmente, ao Paraná. Este é o seu saldo.

Dilma Roussef vence Serra por larga margem no Norte e Nordeste e no Estado do Rio com um saldo em torno de dez milhões de votos. No Sudeste e em Minas, a petista leva pequena vantagem, em torno de dois milhões de votos.

Quem duvidar de todos estes números que consulte o blog do Cesar Maia (dos políticos na ativa, o mais bem informado) e a coluna do Merval Pereira (Globo) que quando não resolve ser faccioso mostra que conhece bem as tendências eleitorais, até porque ele tem aceso ao “porão” das pesquisas, aqueles relatórios que o IBOPE, por exemplo, fornece a clientes especiais, com números que não chegam ao grande público.

Sendo assim, os dois principais candidatos, por enquanto, já traçaram suas estratégias e seus roteiros de viagem. Dilma se concentra mais em Minas e em São Paulo. Serra dará prioridade a Minas, Paraná – que ele considera uma extensão do eleitorado paulista – e Rio. Entre os cariocas ele quer pegar carona na razoável popularidade de Fenando Gabeira que terá que se desdobrar, em seu palanque multi-uso, para servir ao tucano e à Marina ao mesmo tempo.

Em Minas, a candidata de Lula que é mineira de nascimento, aposta nas defecções entre os tucanos. Todos sabem que Aécio elegeu-se duas vezes governador permitindo a combinação de seu nome com o de Lula que venceu ali nas duas últimas eleições.

E como todos também sabem, a prioridade de Aécio é eleger-se senador e fazer Antônio Anastasia seu sucessor. Dentro deste espírito, ele fechará os olhos para a dobradinha pirata Dilmaia (Dilma/Anastasia) que já corre solta pelo Interior do Estado. Além disso, numa obra prima de mineirice, já enviou telegrama cifrado para Fernando Pimentel, candidato ao Senado pelo PT. Como este ano serão eleitos dois senadores, é possível antever a dobradinha Aécio/Pimentel. Nesse caso quem pode dançar é Itamar Franco, candidato a senador pelo PPS.

Mas é São Paulo que nos reserva a grande surpresa. Além de Quércia que desde a semana passada começou a afastar-se de Serra, permitido a abertura de comitês Dilma-Mercadante-Quércia, agora é nada menos que Geraldo Alckmin quem fecha os olhos para os comitês Dilmin (Dilma/Alckmin) que começam a pipocar no interior do Estado, numa iniciativa de prefeitos do PMDB, do próprio PSDB e de partidos menores. Neste caso, além de Serra, Mercadante (candidato petista ao governo do Estado) também fica no prejuízo.

O jogo pesado

O leitor não deve estranhar todas estas aparentes extravagâncias que são, entretanto, comuns na política. E, no caso especifico de Serra, há uma explicação razoável: desde os longínquos tempos em que presidiu a UNE, ele sempre foi conhecido por “jorgar pesado”. Jogar pesado quer dizer, nos bastidores políticos, uma forma fria e inescrupulosa de tratar como inimigos a adversários eventuais, muitos dos quais eram parceiros até à véspera.

Neste jogo, Serra não vacila em usar instrumentos perigosos como seria o caso de se recorrer ao aparelho policial (federal ou estadual) ainda hoje majoritariamente tucano. Para eliminar dúvidas, perguntem para a Roseana Sarney, para o Aécio Neves, o Tasso Jereissati e até o Geraldo Alckmin, porque eles odeiam tanto o Serra.

Finalmente, uma curiosidade. Embora eu sempre valorize em minhas analises a questão do eixo ideológico, sempre negligenciado pelos marqueteiros (em sua maioria analfabetos políticos), não ignoro as peculiaridades regionais e estaduais do eleitorado. Aqui, como nos Estados onde há estados republicanos e, outros, democratas, existem os estados tucanos e os lulistas. Eu não disse petistas que é um fenômeno bem mais restrito.

10-06-10

Até Quércia, que parecia uma craca, já
está abandonado barco de José Serra

As pesquisas negativas fizeram com que Serra perdesse, na reta final para as convenções, uma série de aliados importantes na maioria dos estados. E isto, apesar de o Globo ter omitido dados essenciais do último IBOPE. No Interior de São Paulo já estão proliferando comitês eleitorais Dilma-Mercadante-Quércia.

Só na última terça-feira o IBOPE divulgou o relatório completo da pesquisa presidencial realizada na semana anterior. E aí aparecem dois dados essenciais que o Instituto e o Globo pretenderam ocultar: o primeiro, mal divulgado, é o da pesquisa espontânea, quando não é apresentado nenhum nome ao entrevistado. Nele, Dilma aparece pela primeira vez na frente de Serra, (dois pontos) E isto é crucial, porque este é o tipo de voto que revela uma tendência definitiva. Só em situações excepcionais (grandes escândalos), o voto espontâneo é revertido.
O mais importante, porém, é o dado da votação por sexo. E este foi totalmente omitido pelo Globo. Entre os homens, Dilma tem 24% contra 15% de Serra, uma diferença enorme. Entre as mulheres, Dilma tem 16 contra 14%. Para explicar esses números, sempre haverá teorias infantis dizendo que no Brasil, mulher não vota em mulher.
Mas não é nada disso. Os especialistas sabem que o que há é que no País, infelizmente, as mulheres só se interessam e se informam sobre política, muito tempo depois dos homens. E há um consenso no sentido de que, aos poucos, vai havendo uma homogeneização dos votos entre os dois sexos, com a aproximação do voto feminino aos números do masculino. Disso resulta que a vantagem de quase 10 pontos obtida por Dilma entre os homens revela, também, uma tendência de difícil reversão.

Trair e coçar…

Com base na leitura do último IBOPE, por assessores especializados, o partidos promovem uma espécie de realinhamento, agora, às vésperas de suas convenções. Como resultado, a candidatura de Serra sofre pesadas baixas.
Não há espaço, aqui, para verificar a situação de cada estado, mas merecem menção os seguintes movimentos ocorridos nos últimos sete dias: o PMDB do Rio Grande do Sul, simpático a Serra, “evoluiu” para uma posição de neutralidade e o de Santa Cantarina, antes serrista, fechou com Dilma. O PP da dupla Maluf/Dornelles está evoluindo da “neutralidade” para o apoio à petista. Já o PDT do Paraná, com seu candidato ao governo, Osmar Dias, finalmente chegou a um acordo com o PT.
Das seções do “PMDB dissidente” que namorava Serra, parece que só as de Pernambuco e do Mato Grossodo Sul não abandonaram o tucano. O mais extraordinário, contudo, está ocorrendo em São Paulo, onde o chefe local do PMDB, Orestes Quércia (candidato ao Senado) que estava grudado a Serra como uma craca a um casco de navio, já permite que seu nome seja usado numa aliança com Dilma Rousseff. É assim que o presidente nacional do partido, Michel Temer (o vice de Dilma), foi autorizado e já está montando pelo Interior do Estado, comitês eleitorais com os nomes de Dilma, Mercadante ( candidato do PT ao governo) e Quércia.

08-06-10

Serra vai à convenção sem vice. Será que ainda espera por Aécio?

Coincidência ou não, assim que José Serra encerou, ontem, sua viagem a Minas, onde fez campanha ao lado de Aécio Neves, o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra, informou que o tucano irá para a convenção do partido, sem vice. A lei permite isso, mas não é natural que um candidato à presidência compareça à festa de homologação de seu nome, sem um companheiro de chapa. A convenção será agora, no próximo sábado e a data limite para o registro da chapa completa é 30 de junho.

De qualquer forma, bastou esta informação para que reacendessem as especulações sobre a possibilidade de Aécio vir a ser o vice. Bobagem. Aécio já foi mais do que claro na sua recusa e insistir no assunto só serve para fragilizar ainda mais a candidatura de Serra. Passa a impressão de que sem Aécio não há possibilidade de vitória e, pior: revelaria que ninguém quer ser o companheiro do paulista.

De Minas veio outra notícia ruim para Serra: o PT local oficializou seu apoio a candidatura de Hélio Costa (PMDB) ao goveno do Estado, abrindo mão da candidatura própria, a do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Na verdade, tudo não passou de jogo de cena A direção mineira do PT e o próprio Pimentel precisavam dar uma satisfação ao eleitorado e à militância, fazendo parecer que lutou-se bravamente pela candidatura própria, até ceder às pressões da direção nacional do partido e do próprio Lula. Pura encenação. Pimentel é íntimo de Dilma Rousseff e dirigiu a campanha dela até dois dias atrás. Em todo caso, com o fim das especulações, o PMDB mineiro não precisa mais ameaçar fazer corpo mole em relação à candidata petista.

E como desgraça pouca é bobagem, de Santa Catarina veio outra noticia ruim para Serra. O PMDB local, tradicional aliado dos tucanos, fechou acordo com o PT. O candidato a governador, Eduardo Moreira, já ofereceu seu palanque para Dilma.

05-06-10

A manipulação chegou ao limite.
Agora IBOPE e Globo terão que
confessar a vantagem de Dilma

Não dá mais para esconde: Dilma e Serra estariam empatados em 37% na pesquisa IBOPE/Globo finalmente divulgada. Isto quer dizer que, pela margem de erro, Dilma pode estar com 39% e Serra com 35%. Ou vice-versa. A lógica, entretanto, mostra que a primeira hipótese é a mais provável. Isto porque, como tenho dito sempre neste blog, é preciso estar atento para o fator tendência. Então vejamos: em fevereiro Serra estava com 41%, Dilma com 28. Há 30 dias, Serra estava com 40% e Dilma com 32. Agora, o IBOPE esconde-se atrás da margem de erro e nos apresenta este empate improvável. É como se a TV mostrasse o momento da ultrapassagem e congelasse a imagem.

Na verdade, Dilma já deve estar de 4 a 5 pontos à frente, como dissemos em matéria de três dias atrás. Veja coluna Coisas da Política deste blog. Mas deixemos pelo mais barato e fiquemos com este empate fajuto de 37%. De acordo com a nítida tendência confessada pelo próprio IBOPE é fácil imaginar que daqui a trinta dias não haverá mais manipulação possível.

Por esta mesma última pesquisa Marina está com 9%. Na margem de erro, poderia estar com 11%. Aqui, novamente pode ser detectado o vírus da manipulação. Como informei na matéria referida acima, eles farão o possível para “segurar” a candidata verde na casa dos 10%. Isto porque sabem que se ela superar essa casa, o “voto útil” vai começar a agir em seu favor e ela avançará ainda mais rapidamente sobre o eleitorado de Serra.

Finalmente, registre-se que a rejeição de Serra, 21%, já superou a das concorrentes, ambas com 15%. Se continuar com seu discurso ultra direitista a rejeição tende a crescer ainda mais rapidamente.

05-06-10 (postada pela manhã)

Fim da picada. Serra começa a derreter também no Sul

Suspense! O Globo já recebeu (há 24 horas)o último IBOPE das eleições presidenciais. Por que não divulga o resultado?

Já sabemos que, segundo o IBOPE (que o Globo não divulgou), Dilma está 19 pontos à frente Serra no Rio e 5% em Minas. Em São Paulo o tucano ainda vence com folga, vantagem de 9 milhões de votos. E no Sul? No Sul havia empate técnico até a semana passada. Não há mais. Dilma já está na frente entre o eleitorado gaúcho.

O extraordinário é que as organizações Globo têm todos esses dados à sua disposição. Montenegro, o dono do IBOPE, trabalha na casa, é uma espécie de agregado da Família Marinho. Mas eles não fornecem estas informações ao seus eleitores, obrigação elementar que covardemente não cumprem.

Querem um exemplo: há três dias informamos neste blog que, segundo o IBOPE, Dilma está na dianteira em Minas. Informamos também que para o governo do Estado havia empate técnico entre Antônio Anastasia, candidato de Aécio Neves, e Hélio Costa (PMDB ), apoiado pelo PT. O embate persiste se no lugar de Hélio entrar o petista Fernando Pimentel. Pois, bem. Hoje, sábado, na coluna Panorama Político, o Globo dá essa informação atrasada, a do empate. Mas da forma mais leviana omite o principal, os tais cinco pontos que Dilma tem sobre Serra no Estado.

É o exemplo clássico de manipulação e desrespeito ao leitor. Omite-se o mais importante e se oferta o secundário. Esse jornalismo do Globo realmente não vale nada.

Quanto à vantagem (pequena) de Dilma no Rio Grande, ela se deve à virada de mão do PMDB local: José Fogaça, prefeito de Porto Alegre e o ético senador Pedro Simon, quase sempre aliados dos tucanos do Estado, inclusive da super-ética governadora Ieda Crusius, fizeram uma prudente escalada do muro e declararam sua neutralidade.

04-06-10

Wagner Montes, PDT, pode garantir
segundo palanque para Dilma no Rio

Um almoço inocente degustado, hoje, no centro do Rio, pode resultar em mais um palanque para Dilma Rousseff no estado. Cansado de ser apenas coadjuvante, o pessoal do PDT fluminense decidiu não depender apenas do governador Sérgio Cabral e articulou-se com o ex-governador Antony Garotinho atualmente impugnado pela Justiça Eleitoral.

Entre a sobremesa e o cafezinho desenhou-se num guardanapo a candidatura do intrépido repórter policial Wagner Montes, o melhor ibope do PDT do Rio. O vice seria indicado por Garotinho que se conformaria em disputar uma vaga de deputado federal. Marcelo Crivela (Universal) e Miro Teixeira (PDT) seriam candidatos ao Senado.

Para os preconceituosos, Wagner Montes é apenas uma espécie de Datena com sotaque carioca. Ocorre que o último IBOPE revelou que se ele for candidato poderá ser mais bem votado que o Gabeira e levará a disputa para o segundo turno. Até agora, acreditava-se que Cabral eliminaria a fatura no primeiro turno.

29-05-10

Tucanos ainda pensam em Aécio…
Mas como candidato a presidente

Com a notícia de que Dilma já está cinco pontos à frente na próxima pesquisa, o que parecia uma bravata ou sonho remoto (ver texto abaixo), adquiriu contornos de realidade. Serra pode estar literalmente na parede: renuncia ou enfrenta Aécio na convenção. Veja detalhes na coluna Coisas da Política.

Da mesma forma que em minha matéria de ontem (ver coluna Coisas da Política), inicio este texto com a advertência de que não acredito na viabilização do projeto que descreverei a seguir. Mas o descrevo porque ele realmente está rolando no arraial tucano: algumas das principais lideranças do PSDB e do DEM que sempre defenderam a candidatura de Aécio Neves no lugar da de José Serra, acreditam que ainda é possível lutar pela candidatura do herdeiro de Tancredo na convenção partidária do próximo dia 12 de junho.

O argumento singelo e verdadeiro é o de que, como há um nítido consenso de que a candidatura de Serra tem chances mínimas de vitória, não faz sentido, salvo em caso de masoquismo explícito, insistir com ela. E os mais velhos recordam uma histórica convenção da UDN no longínquo ano de 1959, quando Carlos Lacerda, com inacreditável audácia, mudou o rumo de uma convenção com cartas marcadas e em pleno curso.

A convenção era presidida pelo deputado banqueiro Herbet Levy e destinava-se a, burocraticamente, apenas homologar a candidatura de Juracy Magalhães que enfrentaria a favorita chapa Lott/Jango que reunia as forças majoritárias dos antigos PSD e PTB, dois partidos getulistas. Foi quando, num discurso fulminante, Lacerda virou o jogo e conseguiu sair da convenção com a indicação de Jânio Quadros. O resto da história, todos conhecem.

Os defensores desta operação que poderia ser batizada como “Carlos Lacerda”, bem como suas razões, estão descritos na referida matéria de ontem da coluna Coisas da Política. Mas vale repetir o argumento irrespondível: se os próprios serristas diziam que sem Aécio como vice a candidatura de Serra se inviabilizaria e chegaram a prever dores futuras na consciência do mineiro, como recusar seu nome para a presidência?

E vale acrescentar um argumento suplementar: por que, já que são tucanos, não copiar o modelo americano, onde as convenções podem oferecer surpresas? Ali como aqui, predominam os que controlam a máquina partidária. Porém há brechas para o surgimento de um Obama da vida. Se fizerem uma convenção para valer, com chapa batendo contra chapa, o PSDB pode não vencer a próxima eleição marcada pela extrema popularidade de Lula e por seu desinibido engajamento na campanha. Mas promoverão um fortificante arejamento interno e darão exemplo de exercício democrático.

Só fica faltando alguém com a audácia e o talento do Lacerda. Se Ciro Gomes não estivesse amarrado ao PSB, ele talvez fosse este elemento.

27-05-10

Dilma ultrapassa Serra em Brasília. Marina chega aos 16%

O especialistas em pesquisas eleitorais dão excepcional importância aos resultados do Rio de Janeiro e Brasília. Como ex-capital e capital, as duas grades cidades, mais do que qualquer outra, expressam, na vontade de seu eleitorado, uma tendência nacional. Se for assim, há más notícias para José Serra.

Vejamos os números divulgados por Cesar Maia, esta manhã , atribuídos a “ O&P-panor.político-globo”: Dilma 33,7%, Serra 29,6, Marina 16. Para governador: Joaquim Roriz 40,9% , Agnelo Queroz 28,4%.

No Rio (ver matéria logo aí baixo) Dilma está 5 pontos à frente de Serra, na média das pesquisas. Marina já chegou aos 18%. E é aí que mora o perigo para o tucano: o crescimento da candidata verde que divide com ele os votos da classe média conservadora. Na média nacional, ela já está com 12% (Datafolha) da semana passada. Na verdade, ela já deve estar perto dos 15%.

Esse é o dado que o Globo, o manipulador mor da mídia brasileira, procura ocultar. A famosa bipolarização Dilma/Serra já foi para o espaço. Isto pode ser ruim para a petista, mas é mortal para o pupilo de FHC.

23-05-10

Pela tendência, pode haver segundo turno entre
Dilma e Marina. José Serra faz último apelo a Aécio

Rejeições de Dilma e Marina caem. A de Serra aumenta.

Há três fatores importantes a serem extraídos da pesquisa Datafolha: a – A tendência de Serra é de queda inexorável; b – Dilma disparou porque o eleitor das classes econômicas inferiores (que representam 50% dos votantes e onde Lula obtém 80% de aprovação) começam a perceber que ela é a candidata do presidente e c – Marina Silva que já herdara a maioria dos votos de Ciro Gomes, agora avança sobre os votos de Serra, fazendo um discurso tão conservador quanto o dele.

Vejamos item por item:

a – A tendência de queda de José Serra está escancarada pelos próprios números: Entre dezembro e o presente mês ele escorregou de 40 % para 37% e em nenhum momento, neste período, ultrapassou os 42%. Para piorar, sua rejeição cresceu de 24% para 27% e, pela primeira vez, Dilma o ultrapassa num simulado para o segundo turno, 46% a 45%. Finalmente, ele só vence folgadamente em São Paulo. Até nos três estados do Sul, onde sempre foi mais forte, sua vantagem não chega a três pontos.

b – Dilma Rousseff ainda não provou que tem luz própria, mas já demonstrou que se não é uma Brastemp, está longe de ser um poste. A transferência dos votos de Lula para ela está sendo mais fácil e mais rápida do que os próprios petistas previam. Entretanto, não se podo negar o fato de que o presidente é, como ele diria, o maior cabo eleitoral da história deste País. Sua popularidade, jamais foi alcançada por nenhum outro presidente, nem por Getúlio. E Lula leva a vantagem de não ter sido tisnado pelo lado obscuro do autoritarismo.

c – Marina chegou aos 12% segundo o Datafolha, mas eu arriscaria dizer que ela já deve estar mais próxima dos 15%. A começar pelo Rio de Janeiro onde já é a segunda colocada com 18% (sua média nacional é de 10 %), é bem possível que ela vá comendo pelas beiradas os votos de classe média, principal reduto de Serra. Mas esta é uma faca de dois gumes: para conseguir isso, ela teve que degradar sua própria biografia e misturar defesa da Natureza com promoção da Natura e seus cosméticos. Além disso, não há uma boa razão para que o eleitorado lulista deixe de votar na Dilma para votar nela.

O sonho de Serra e o pesadelo de Aécio

Como informamos neste blog (ver matéria logo aí abaixo), a novela Serra/Aécio ainda não terminou. O ex-governador mineiro está voltando de suas férias na Europa e, ainda no Rio de Janeiro, ouvirá o último e desesperado apelo de José Serra para que ambos componham a chapa presidêncial tucana.

Ninguém mais duvida que sem Aécio (os votos de Minas podem fazer a diferença nestas eleições), as chances de Serra ficam praticamente reduzidas a zero. E este é o infernal dilema do herdeiro de Tancredo: se recusar, terá que carregar o peso de ter sido o responsável pela derrota tucana, mas se aceita e ainda assim Serra perder, a carreira dele (Aécio) vaia para as cucuias.

20-05-10

O Globo descola-se de Serra e começa a namorar Marina

E Serra, acreditem, ainda pensa em Aécio.

Um dia ainda hei de escrever um manual para a leitura das entrelinhas dos jornais picaretas da nossa grande mídia. Com ele, além de não se deixar enganar, o leitor poderia se distrair com o contorcionismo mental (e moral) a que são obrigados os infelizes coleguinhas condenados a trabalhar nestes serralhos para garantir o uisquinho das crianças.

Se o manual já existisse, o leitor sacaria logo que, no espaço de apenas uma semana, o Globo mudou da água para o vinho. Ele que só tinha olhos para o Serra e destacava todos os seus feitos na primeira página ou nas principais páginas internas (da 2 à 5), agora já dá ao infausto tucano um destaque menor do que o dispensado a Marina Silva. E ela, que eu não relutaria em chamar de a mais nova Cinderela da política nacional, foi resgatada lá das pequenas notas, ao pé das páginas menos importante, para o centro da ribalta.

As explicações para este portentoso fenômeno até que são simples:

As últimas pesquisas que o jornal calhorda fez questão de sonegar aos leitores, inclusive a do Sensus de três dias atrás e a do Vox Populi de hoje, mostram claramente que Dilma começa a disparar, que Serra começa a despencar e que Marina Silva, esperta, segue na mesma trilha e na mesma batida do tucano, recolhendo, no chão, os votos que vão-se despregando da comitiva trôpega do ex-líder neoliberal.

Em outra coluna deste blog, se houver tempo, comentaremos ainda hoje, estas pesquisas. Mas há dois dados que precisam ser assinalados desde já: no Rio, onde Dilma deve vencer com folga, Marina, com 18% do eleitorado, já ameaça o segundo lugar de Serra que, aliás, ficou sem palanque no estado. Em Minas (e este é o dado mais importante) Dilma e Serra estão empatados.

Nos cálculos de quem entende de política e do próprio Serra (que ganha de São Paulo para o Sul, mas perde no Nordeste e no Rio) ele só teria alguma chance se saísse de Minas com uma vantagem de pelo menos três milhões de votos. Daí a insistência melodramática de ter Aécio como vice. Os tucanos paulistas ainda sonham com isso e aguardam ansiosos o retorno de Aécio que não tem pressa para deixar a Europa. Seu retorno está previsto só para o dia 24, se não sofrer novo adiamento.

Milagres acontecem. Mas as chances de Aécio ser vice de Serra podem ser medidas por estas palavras do presidente do PSDB mineiro, Nárcio Rodrigues, homem de confiança do ex-governador: “ O Aécio não vai ser vice, continua candidato ao Senado, mas está fechado com o Serra. Aliás ele até ligou para o Serra pedindo que ele não viesse a Minas enquanto ele (Aécio) está na Europa, para não dar a impressão de que ele não está engajado na campanha”. Só para lembrar: Nárcio foi quem comandou a estrepitosa vaia sofria por Serra em Belo Horizonte, há três meses, quando Aécio ainda brigava para ser candidato à presidência.

Em tão temos que: a- Dilma, brizolou (como registramos há dois meses) e, com isso, tornou-se herdeira do populismo lulista (70 % dos votos) e não apenas do sectarismo petista (25% dos votos); b- Marina tucanou e adotou um discurso cada vez mais parecido com o de Serra para continuar recolhendo, no chão, os votos que vão-se despencando da sacolejante carroça tucana, e c – Serra continua evitando bater em Lula e tentando demonstrar que nunca foi neoliberal (eu é que fui).

Como resultado, o Globo de hoje estampa, na página 3, os três candidatos em pé de igualdade (em termos de espaço), mas sem esconder suas simpatias pela candidata da Natura.

E, como este jornal não tem absolutamente nenhuma vergonha na cara, continua não dizendo uma única palavra sobre Plínio de Arruda Sampaio, o candidato ficha-limpa do PSOL. PSOL este que, apesar do nome, vive no Mundo da Lua.

Veja mais sobre o mesmo tema na coluna Coisas da Política.

14-05-10

Sérgio Guerra, nordestino e ex-brizolista será o vice de José Serra

Está praticamente confirmada a notícia dada por este blog em primeiríssima mão há um mês: o presidente nacional do PSDB, senador pernambucano Sérgio Guerra deverá ser o vice de José Serra. Só falta o último não de Aécio.

Como já havíamos informado, Guerra estava na mira de Serra, no caso de ficar definitivamente estabelecido que ele não poderia contar com Aécio Neves, o candidato de seus sonhos. A razões para a escolha de senador pernambucano são as seguintes:

Não podendo contar com o mineiro, Serra, como antecipamos, se voltaria para o Nordeste onde ele está cerca de 10 milhões de votos atrás de Dilma.

Guerra foi o primeiro tucano a, juntamente com o Aécio, tentar se livrar do discurso neoliberal considerado fatal nestas eleições. Há três meses, quando Aécio ainda lutava para ser candidato à presidência, ele (Guerra) visitou o então governador mineiro e saiu de lá dizendo que era “nacionalista e estatista”. Esta declaração inusitada mereceu do impagável Merval Pereira, porta-voz oficial da Família Marinho (O Globo) uma admoestação pública. Merval comparou a nova posição do tucano ao “samba do crioulo doido”.

Agora quem quer desvencilhar-se da pecha de neoliberal é o próprio Serra. Por isso, o indefectível Merval e a fessora Míriam Leitão não largam de seu pé. Ocorre que Guerra tem um passado precioso para quem, como Serra, quer ser mais lulista que o próprio Lula: ele foi filiado ao PDT de Brizola e por duas vezes foi secretário nos governos de Miguel Arraes.

Finalmente uma razão de ordem local. O senador e ex-governado de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos (PMDB) estava sendo pressionado por Serra, seu aliado, para ser candidato novamente ao governo do Estado. Mas resistia, exigindo que Guerra fosse candidato a reeleição para o Senado. Isto porque ele verificou que parte dos tucanos do interior do estado, sentindo-se deserdados, estavam se bandeando para o lado do atual governador, o socialista, Eduardo Campos que está firme com Lula.

Entretanto, Guerra não queria ser candidato por simples receio de não vencer. Moral da história: como candidato a vice, Guerra injeta ânimo nos tucanos locais e no próprio Jarbas que, depois desse rolo todo, resolveu ser candidato.

Veja mais sobre o mesmo tema na matéria logo aí abaixo.

11-05-10

Nem o Serra agüenta mais a Míriam Leitão

São uns pândegos. A Míriam Leitão, professora primária de economia e Merval Pereira, porta-voz oficial dos Marinhos caíram de pau em cima do Serra, só porque ele disse que o Banco Central não é a Santa Sé. Creio já ter dito neste blog que o Globo não quer apenas eleger o tucano, quer governar por ele. E um governo do Globo é algo subordinado aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Míriam e Merval não dizem uma palavra que não possa ser assinada por Hillary Clinton.

Ontem, na CBN, Serra (apresentado pelo âncora Barbeiro como “nosso candidato”) até que se saiu bem. Quando Míriam, dedo em riste, o acusou de não respeitar a autonomia do Banco Central, ele perdeu a paciência: Desculpe, Míriam, mas você está dizendo uma grande bobagem”.

Hoje, em sua coluna Merval Pereira, impagável, saiu em defesa da coleguinha. Disse que “Serra saiu-se mal na primeira polêmica da campanha, mostrando-se irritadiço com as desconfianças do mercado”.

E aqui ficamos sabendo que o mercado desconfia de Serra. É no que dá esta tentativa tortuosa de apresentar-se, em linhas gerais, como mais lulista que o próprio Lula. Há poucos dias o Panorama Político, também do Globo, informou que a bancada ruralista já está olhando de um jeito meio esquisito para o tucano.

Eu não entendo nada de política, mas me parece óbvio que quando o eleitorado for convocado para votar em alguém à imagem e semelhança do Lula, ele votará em quem o Lula indicar. Se for assim, o equívoco dos marqueteiros tucanos é tentar fantasiar o Serra de sapo barbudo, para evitar a tal eleição plebiscitária. Não se ganha eleição apenas embaralhando as cartas.

A sedimentação da consciência do eleitorado vai ocorrendo aos poucos e nestas eleições, especialmente, ela obedecerá ao eixo ideológico. Eixo este que se deslocou para a esquerda, não por um a manobra habilidosa do presidente, mas porque ninguém agüenta mais o papo neoliberal do estado mínimo e da vontade soberana do mercado , esta besta fera.

Nem o Serra agüenta mais a Míriam Leitão.

09-05-10

Novela : José Serra pede pela milésima vez e
Aécio, pela milésima vez, recusa ser seu vice

Enganou-se quem pensava que Serra e os tucanos paulistas desistiram da chamada chapa puro sangue, tendo Aécio Neves como vice. Nos últimos dias o próprio Serra, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra e, principalmente, o presidente do PPS (ex-comunista) Roberto Freire, concentraram esforços na última tentativa para convencer o governador mineiro a emprestar seu prestígio à causa tucana. Todos acreditam que esta guerra, digo eleição, será resolvida em Minas.

Nos cálculos de Serra, ele precisa de uma vantagem de três milhões de votos em Minas para, somada com sua vantagem em São Paulo, compensar a enorme dianteira de Dilma no Nordeste. Daí a mobilização geral. Consta que até o ex-governador pernambucano, Jarbas Vasconcelos (PMDB), andou ligando para Aécio. É que ele (Vasconcelos) tenta retornar ao poder e aliou-se a Serra, mas não quer embarcar numa canoa furada.

O último capítulo desta novela, só veremos na primeira semana de junho, quando se realizam as convenções partidárias que indicam oficialmente os candidatos. Por enquanto, Aécio segue irredutível. Nem se deu ao trabalho de responder pessoalmente à artilharia de torpedos que vem recebendo. A todos, respondeu de forma genérica, através do presidente do PSDB mineiro, Nárcio Rodrigues, que emitiu uma espécie der comunicado geral: “Com a estatura que adquiriu depois de sete anos de um governo impecável em Minas, Aécio Neves não pode ser apenas uma filial do projeto Serra” .

Aliás, os tucanos paulistas ficam arrepiados toda vez que Nárcio Rodrigues, homem de confiança de Aécio, entra em cena. Atribui-se a ele a estrepitosa vaia que Serra sofreu, mês passado, durante visita a Belo Horizonte para participar da inauguração do novo centro administrativo do governo mineiro. Na ocasião centenas de filiados ao PSDB, exigiam que Aécio fosse o candidato presidencial.

Agora teme-se que a exemplo do que aconteceu em 2002 com o próprio Serra e em 2006 com Alckmin, os mineiros “cristianizem” Serra e dêem apoio velado a Dilma. Do ponto de vista estritamente prático, Serra na presidência e Alckmin no governo de São Paulo representam dois obstáculos ao projeto pessoal de Aécio.

Não deixem de ler a matéria sobre manipulação das pesquisas, coluna Última Hora, que complementa as informações desta.

06-05-10

O Globo mentiu ontem e mente hoje sobre a aliança PT/PMDB em Minas

O Globo mentiu ontem ao informar que a eleição do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, nas previas do PT mineiro, representava um obstáculo à composição com o PMDB para a formação de uma palanque único em torno da campanha de Hélio Costa ao governo de Minas. O próprio Pimentel já havia comunicado a assessor direto de Lula que compreendia as razões estratégicas (prioridade para a eleição de Dilma) que desaconselhavam o lançamento da candidatura petista à sucessão de Aécio Neves.

Hoje, o Globo continua mentindo (mas que mania) ao informar que Pimentel ainda sonha com sua candidatura ao governo e espera viabilizá-la até o início de junho, quando ocorrem as convenções partidárias. Na verdade, o ex-prefeito reuniu-se com Hélio Costa ontem mesmo e garantiu que haverá palanque único no Estado. Nessa mesma reunião, o presidente do PT mineiro, deputado Reginaldo Lopes, oficializou o apoio ao candidato do PMDB.

O curioso é que, na aflição de servir a Serra, o Globo vê fogo onde há fumaça e não vê fumaça onde há fogo. Não vê, por exemplo, que no Interior do Estado, corre solta a dobradinha pirata que reúne partidários de Dilma Rousseff e Antônio Anastásia, candidato tucano ao governo, por indicação e com apoio de Aécio. Anastásia, que está atrás de Hélio Costa nas pesquisas, diz abertamente não ser contra a dobradinha Dilmasia.

2-05-10

Dilma Rousseff prepara nova fase
da campanha, propondo uma
revolução no ensino fundamental

Os coordenadores da campanha de Dilma Rousseff e ela mesma, após uma semana de reuniões para avaliação de resultados, propostas próprio presidente Lula, consideraram que está concluída a fase “plebiscitária pautada pelo diferencial ideológico”. E acreditam que esta etapa foi bem sucedida, na medida em que marcou, sobretudo para os formadores de opinião, a noção de que a candidata, além de representar a continuidade do lulismo, simboliza o Brasil progressista, orgulhos de seus feitos e que pensa grande.

Representa, também, ao contrário do modelo neoliberal, a opção por um estado suficientemente musculoso para atuar como agente de fomento do desenvolvimento e não apenas como regulador e fiscalizador. Isto teria sido o suficiente para diferenciar Dilma dos demais candidatos, tese que tem comprovação no engajamento da militância petista (outro fator diferencial) como há muito tempo não se via.

Entretanto e mais uma vez por cobrança de Lula, os coordenadores decidiram antecipar algumas etapas e peças da campanha que estavam reservadas para a fase final e para o horário gratuito de TV. Os temas deste seguimento são óbvios: segurança, ecologia, saúde e educação. Mas não nessa ordem. Ao contrário, inspirada, talvez em sua passado brizolista, Dilma, decidiu que o carro chefe desta fase da campanha será a convocação para uma verdadeira revolução do ensino, a partir de suas bases.

Como queriam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, o País e sobretudo o governo federal, devem multiplicar seus investimentos no ensino elementar. O diagnóstico é o de que aí se encontra o verdadeiro gargalo do sistema, embora isto seja mais visível no afunilamento final do ingresso nas faculdades. Então, adotando parcialmente o modelo da Bolsa Família com sua transferência de recursos para os municípios, o que se pretende é assegurar ensino em tempo integral e de real qualidade para os milhões de crianças que ingressam anualmente no sistema e que atualmente estão condenadas à semi-alfabetização. É exatamente aqui, que as famílias de menor renda começam perder a corrida diante daquelas que podem matricular seus filhos em escoas particulares.

Esta é a filosofia dos Cieps implantados por Brizola há vinte anos e, depois, criminosamente sucateados por seus sucessores. A melhor formação e remuneração dos professores do primeiro grau é outra prioridade óbvia já que eles são estrategicamente tão ou mais importantes que os professores universitários.

27-04-10

Com medo de Marina, tucanos e sua mídia agora querem eleição plebiscitária

A vida dá muitas voltas: até há pouco tempo, os tucanos e sua mídia cínica eram radicalmente contra a fórmula plebiscitária que o presidente Lula imprimiu à sua sucessão. Era, segundo eles, pouco democrática porque oferecia poucas opções aos eleitores. Agora que Ciro Gomes foi expelido do processo, os estrategistas de Serra passaram a imaginar que ele poderia herdar os votos do ex-governador cearense e apresentar-se como única alternativa oposicionista ”pero no mucho”.

A longo prazo, esta tática é suicida porque, cedo ou tarde, o eleitorado (majoritariamente lulista) perceberá que terá que escolher entre mais do mesmo (Dilma) ou algo que poderia representar uma volta ao passado de apagão do desenvolvimento e da oferta de emprego. No curto prazo, porém, o viés plebiscitário contribuiria para consolidar a candidatura de Serra como uma opção de melhoria da gerência, sem alterar a essência do projeto. Difícil de engolir, mas é o que eles querem vender.

Para que esta tática de curto prazo dê certo é preciso, no entanto, trabalhar com a noção do voto útil: com a saída de Ciro, quem seria a única alternativa de mudança do comportamento ético e dos métodos gerenciais. A resposta seria Serra? Para os setores da classe média histericamente anti-lulista talvez fosse, mas aí surge a candidatura de Marina Silva, como a verdadeira herdeira dos votos de Ciro.

Então, se você fosse marqueteiro ou jornalista engajado na campanha de Serra o que você faria? Tentaria minimizar ou ignorar Marina, não é verdade?

Agora vejamos o que o impagável Merval Pereira, porta-voz das Organizações Globo , tenta impingir aos leitores na sua coluna desta terça-feira: primeiro ele lamenta , como sendo “um golpe na democracia”, a “ retirada forçada “ da candidatura de Ciro Gomes. Fica parecendo que ele é contra o esquema plebiscitário da eleição. Em seguida, porém, ele gasta todo o seu latim tentando injetar ânimo nos partidários de Serra, invocando vitórias de Fernando Henrique, no passado.

Mas o que quero salientar é que Marina Silva, a principal herdeira dos votos Ciro, não merece uma única palavra do articulista. Não seria lógico para quem lamenta a saída do cearense, o que fez com que a “democracia ficasse reduzida”, saudasse a possibilidade de Marina vir a ocupar o espaço vazio, salvando assim a campanha eleitoral da desertificação plebiscitária? Mas sobre Marina ele não disse uma única palavra.

Na mesma página ao lado da coluna de Merval, o Globo fornece as notícias sobre o dia de Serra e de Marina. O espaço dedicado ao tucano, no alto da página, é exatamente dez vezes maior que o destinado a Marina que ficou espremida em uma pequena coluna no pé da página.

Não é só isso. Na página anterior (coluna Informe Político), Ilmar Franco, sob o título Plebiscito, diz com todas as letras que esta idéia, lançada por Lula, passou a agradar aos tucanos: “sem Ciro, Serra deve cresce no Sudeste”.

É claro que tudo isto é inútil e tanto Serra como Marina estão embarcando na canoa furada de um lacerdismo de segunda mão, exatamente no momento em que a grande maioria da população cuja memória afetiva é nacionalista e se ufana de suas grandes estatais, se deixa seduzir pelo neogetulismo adotado por Lula e por Dilma.

Mas fiz questão de mostrar, mais uma vez, como funciona esta mídia que desinforma deliberadamente e que, com hipocrisia e cinismo, trata seus leitores como um bando de cordeirinhos ingênuos.

24-04-10

Um pote de mágoas : Ciro critica Lula e Dilma,
mas diz que não apóia Serra de jeito nenhum

Com a saída de Ciro, Serra e Dilma crescerão um pouco nas pesquisas. Mas quem herdará a maioria dos votos será Marina Silva.

Se você fosse definir o comportamento de Ciro Gomes nos últimos dias, diria que é o de uma metralhadora giratória, de uma biruta de aeroporto ou de um pote até aqui de mágoa? Acertou quem disse: tudo isso junto.
A pretensão do ex-governador cearense e socialista improvisado é legítima. Ele tem todo o direito e até muitos títulos e qualidades que o credenciam a ser candidato à presidência. O que não está direito, ele que nos desculpe, é querer que o presidente Lula apóie esta candidatura. Não consigo encontrar uma boa razão para que o presidente faça uma doidera dessas, já que ele escolheu sua candidata e pretende elegê-la. É verdade que lá atrás, há seis meses, fazia sentido “inflar”a candidatura Ciro para impedir que Serra deslanchasse. Mas isto foi há seis meses.
Agora, Lula está convencido de que, graças a ao debate ideológico e a bipolarização da campanha, é perfeitamente possível eleger Dilma já no primeiro turno. Ciro acha que isto é um equívoco. Eu também acharia se fosse candidato e pretendesse me abastecer tanto as águas do lulismo quanto das fornecidas pelo conservadorismo de setores da classe média. Aliás, até o Serra quer isto, tanto que evita bater no presidente.
Como a vida não é feita apenas de coisas que a gente quer, resta a Ciro definir seu real posicionamento. Ele é um socialista convicto ou apenas um tucano envergonhado?
Mas este é um problema íntimo de Ciro. Cá fora, a campanha eleitoral continua. Como sempre dissemos neste blog, Ciro subtrai mais votos de Serra do que de Dilma. Isto não quer dizer que ele retira votos apenas de Serra. É uma questão de proporção. Assim, com sua saída , tanto Serra quanto Dilma deverão crescer nas pesquisas. Mas nada que faça o tucano ir muito além dos 40 %.
A razão do crescimento modesto do tucano, com a saída de Ciro é simples. E esta antecipação damos de graça para os estrategistas das duas campanhas: quem herdará a maior parte dos votos do socialista arrependido é Marina Silva.
Dizem que “todo serrista envergonhado mente que vai votar em Marina e todo petista arrependido vota dela mesmo”. É uma frase gaiata e inspirada, mas não é uma análise correta. O eleitorado de Marina consiste nos que perceberam que o discurso neoliberal de Serra está completamente obsoleto , mas não quer ir tão longe quanto o lulismo pode nos levar, nem perdoa certos deslizes, um fenômeno típico de classe media “esclarecida”.
Então, e mais uma vez, veremos que assim como Ciro, Marina tira mais votos de Serra do que de Dilma. Aliás, a candidata verde já vinha crescendo nas pesquisas, na medida em que ia ficando claro que Ciro não conseguiria sustentar sua candidatura. Persiste o dilema da mídia serrista: e agora gente, inflamos ou destruímos Marina?
Na matéria logo aí abaixo há mais informações sobre o desenlace da candidatura Ciro e de sua amizade com o presidente Lula.

21-04-10

A indefinição de Ciro começa a preocupar o presidente Lula

O presidente Lula já adiou duas vezes a reunião que teria com seu amigo e ex-colaborador Ciro Gomes. Além do que possa sobrar, em termos de prejuízos, para a candidatura de Dilma Rousseff, o chefe do governo teme o constrangimento da ruptura de uma amizade que ele considera sincera. Muitas vezes um líder político, mesmo sem querer, é levado a manipular as pessoas. Mas ninguém gosta de ser manipulado, muito menos o orgulhoso e imprevisível ex-governador do Ceará.
Ciro queixa-se de que o presidente e seu bem comportado PT agem num misto de Centralismo Democrático com Monarquia Absoluta: fixam uma estratégia e o resto que se dane. E, de fato, Ciro já foi visto por Lula de várias maneiras, conforme foram mudando as nuvens do céu.
Há seis meses a candidatura de Ciro à presidência chegou a ser vista com bons olhos, pois era a forma de evitar que Serra pudesse vencer já no primeiro turno. Ao contrário dos arrogantes e incompetentes comentaristas e editorialistas da grande mídia, Lula sempre soube ( e os leitores deste blog também) que o cearense subtrai muito mais votos de Serra do que de Dilma.
Quando ficou claro que dificilmente Serra passaria dois 40% dos votos e a candidatura Dilma mostrou crescimento rápido e consistente, Ciro passou a ser interessante como candidato ao governo de São Paulo, onde provocaria um estrago na votação presidencial de Serra e impediria que Alckmin vencesse no primeiro turno.
Finalmente, como Ciro recusou candidatar-se ao governo de São Paulo, Lula o viu como vice ideal de Dilma, pelas razões supostas nos parágrafos acima. Neste ponto, porém, surge uma enorme pedra no caminho, o PMDB. Como se sabe, o vice na chapa de Dilma está prometido, desde novembro, ao partido que já foi do Dr. Ulisses e hoje é do Sarney e do Delfim Neto.
Então, o tempo começa a ficar curto: o pragmático Partido Socialista Brasileiro, ao qual Ciro inadvertidamente se filiou, reúne sua direção este fim de semana para “decidir formalmente” sobre o destino da candidatura de Ciro. Mentira. Esta direção já decidiu que não terá candidato próprio, por falta de recurso materiais, de tempo na TV e, principalmente , pela ausência de apoio de Lula. A reunião destina-se apenas a comunicar a Ciro, da forma mais honrosa e indolor possível, que ele está a pé. O problema é que ninguém sabe qual será a reação do ex-tucano e hoje socialista torto.
Ao mesmo tempo, o PMDB acelera o seu calendário, antecipando sua convenção para o início do próximo mês. No evento deverá ser escolhido o candidato a vice na chapa de Dilma, provavelmente Michel Temer, apesar dos reiterados e sutis avisos de Lula de que este não é considerado o candidato ideal.

14-04-10

Antes do fim do mês, Dilma completa a ultrapassagem sobre Serra

Veja também como Elio Gaspari está pensando e escrevendo cada vez mais parecido com o Merval Pereira, porta-voz dos Marinhos.

A pesquisa Sensus divulgada ontem apenas confirma o empate técnico entre Dilma Rousseff e José Serra, já apontado por outros institutos. Registre-se, porém, que esta é a primeira consulta realizada já sob o efeito do lançamento formal da candidatura tucana que recebeu generosa cobertura da mídia. Portanto, ficou a sensação de que Serra protelou tanto este lançamento que, quando o fez, já era tarde demais.
Os números de todas as pesquisas mostram que em dezembro último, a diferença a favor de Serra era de 15%, na média dos institutos. De lá para cá, sempre na média dos institutos, a vantagem do tucano foi caindo continuamente, até chegarmos ao atual empate de 32% para cada candidato.
O mais importante, contudo, é analisar ( como insistimos sempre neste blog) a tendência e a dinâmica das duas candidaturas. Se fizermos isso, veremos que Serra tende à estabilização, com ligeiro viés de queda. Dilma, por seu lado, mostra tendência inequívoca de crescimento, com velocidade (dinâmica) que já foi muito rápida e agora é moderada. O que parece fora de dúvida é que Serra tem mínimas possibilidade de sair da vaga de estacionamento entre as casas dos 30% e 40%. Ele está parado aí há exatos dois anos. Com base, portanto, nestes dois fatores, fica fácil prever que antes de fim do mês, Dilma já estará na dianteira.
E aqui vai um comentário extra-pesquisas: O Elio Gaspari, tem uma boa margem de acerto em suas análises, mas na última (O Globo de hoje, 14 de abril), ele equivoca-se redondamente ao supor que Serra conseguira desvencilhar-se da eleição plebiscitária que já está posta e que coloca o lulismo confrontando o neoliberalismo representado pelo próprio candidato tucano que não consegue ficar livre de FHC. Muitos poderão argumentar que é forçar a barra dizer que o lulismo, este herdeiro torto do getulismo, é o avesso do neoliberalismo. Mas é que ficou constando e é o que está valendo. E passa a valer muito mais, toda vez que o Fernando Henrique, este herdeiro nem tão torto do lacerdismo, abre a boca para “ajudar” Serra.
Seja como for, estas questões já ganharam as ruas e fazem lembrar os velhos tempos do Getúlio e do Lacerda. O Elio não viu que está é a primeira eleição pós Grande Crise Norteamericana. Tampouco percebeu que Dilma promoveu uma simbiose entre o PT e o brizolismo, fato eleitoralmente explosivo.
Engana-se o Elio e engana-se o próprio Serra, quando imaginam que basta adotar, como única e precária estratégia eleitoral o sair por aí vendendo a idéia de que ele (Serra) é melhor gerente do que Dilma. Não é assim que a banda toca, primeiro porque há controvérsias, segundo porque não é este o grande eixo da discussão. Como o próprio Elio diz em seu artigo, esqueceram-se de combinar com os russos. Sendo assim, não adianta Serra evitar bater no Lula ou mencionar o nome de FHC, para fugir das comparações entre os dois governos. Porque os adversários farão isto de cinco em cinco minutos.
De qualquer forma, de hoje até novembro, Serra terá que responder a uma infinidade de perguntinhas chatas como esta: o que o levou a ser um dos mais fervorosos defensores da privatização da Vale, um dos maiores crimes contra o patrimônio público brasileiro?

11-04-10

Serra e Aécio. Depois do beijo e das juras, o amargo dia seguinte

O leitor amigo que teve a bondade de ler nossa matéria de ontem, sabe que há pouco a acrescentar sobre o lançamento da candidatura de Serra, as juras de amor e fidelidade entre ele e Aécio Neves e o amargo dia seguinte, que é hoje. Mas houve um inusitado beijo real, diferente do virtual que anunciamos ontem. Por isso, resolvemos voltar ao teclado.
E voltamos para lembrar que, com a exclusão do beijo de ontem, este filme é velho e já passou várias vezes na Sessão de Gala. A primeira foi em 2002, quando trocaram todos os afagos e todas as promessas que já conhecemos. Depois Aécio embarcou no Lulaécio e elegeu-se governador. A segunda foi em 2006, quando as palavras e os carinhos foram os mesmos, só que o protagonista Serra foi substituído pelo canastrão Alckmin. Resultado: Aécio embarcou novamente no Lulaécio e reelegeu-se governador.
E não pensem que terminou por aí: em junho do ano passado (exatamente no dia 5), Serra e Aécio apareceram juntos em duas solenidades, uma em Minas outra no Paraná. Em ambas, trocaram afagos e juras, como ontem, e garantiram que estariam juntos para sempre, que combateriam sempre o governo Lula e jamais pensariam numa chapa puro-sangue (Serra presidente e Aécio vice). Agora, como todos sabem, Serra, por estratégia eleitoral, recusa-se a bater em Lula e até recentemente implorava para que Aécio fosse seu vice. É ou não é um casal sem vergonha? No sentido figurado, é claro.
Enfim, estamos no dia seguinte, quando eles almoçarão cardápios diferentes. Aécio comerá o prato frio e indigesto da vingança. Serra se servirá do prato quente e bem condimentado da ilusão. Depois cada um seguirá o seu caminho.

10-04-10

Tapas e beijos: Hoje Serra e Aécio trocarão
muitas juras. Depois se trairão furiosamente

Confesso que sou meio folgado e dado a fazer previsões. Mas esta é tão mole que nem precisam me dar o crédito: hoje à tarde em Brasília, durante o solene lançamento da candidatura tucana à presidência, José Serra e Aécio Neves só falarão em coerência, fidelidade e união. Amanhã de manhã, antes mesmo do café, volta tudo ao normal e eles continuarão se engalfinhando, que é tudo o que fizeram nos últimos oito anos.
Serra (podem me cobrar depois) dará ênfase à administração, para mostrar que é melhor gerente do que Dilma, o mote principal de sua campanha. Depois, baterá forte do PT, mas não dará nem um beliscão em Lula. Não bater no presidente faz parte da estratégia central de seus marqueteiros. Nas entrelinhas, mandará recado para os “traíras”, falando em unidade e compromissos de honra. Finalmente, duas, talvez três, palavras para FHC que estará presente. A cortesia exige. No mais, o tom será de estadista que pensa projetos futuros, sem descontinuidade ( está é outra palavra chave).
Quanto a Aécio que de todos é o que comparecerá de saia mais justa, toda sua preocupação será apagar a imagem de “traíra” que pode grudar dele, depois que Dilma Rousseff, durante sua recente visita a Minas, ao ser provocada, mencionou imprudentemente a palavra Dilmasia, alusão a uma cooperação secreta entre seus partidários e o de Antonio Anastasia, candidato tucano ( lançado por Aécio) ao governo do Estado.
É claro que o Dilmasia vai funcionar a todo vapor de forma não oficial, mas quase às claras, assim como funcionam os camelôs que vendem CDs piratas. Compra quem quer. Aliás, foi assim nas eleições de 2002 e de 2006, quando Aécio elegeu-se duas vezes governador a bordo do Lulaécio, enquanto tanto Serra quando Alckmin perdiam as eleições em Minas. O resto é pura hipocrisia. Mas como sem ela ao se faz política, vou adiantar o que Aécio dirá. E isto não é uma dedução, mas uma informação precisa:
Ele dirá, muitas vezes com aquela voz rouca com a qual Tancredo injetava emoção em sua discursos, que “tem orgulho de ser tucano e das administrações do PDDB”, sem poupar elogios (este será momento mais habilidoso de seu pronunciamento) a FHC. Para Serra, a menção a FHC prejudica, porque estabelece uma comparação com Lula, algo que ele tenta evitar a todo custo. Mas para Aécio, é indiferente. Ele disputa uma eleição fácil para o Senado e é julgado por sua administração em Minas.
Mas Aécio não dirá uma palavra contra Dilma. E este será um dos aspectos curiosos de seu pronunciamento. Porque, enquanto Serra pode bater em Dilma, mas não em Lula, Aécio prefere não atacar a candidata que é mineira e, na semana passada, homenageou Tancredo Neves junto a seu túmulo. De mais a mais, Aécio já fez suas contas e concluiu que sem essa aliança espúria Dilma/Anastasia, quem vence em Minas e o Hélio Costa, do PMDB e da TV Globo.
Finalmente, não da para eliminar, como quem espana o giz, o fato recente de que criou-se em Minas, desde novembro de do ano passado, um clima anti-Serra que culminou, há um mês, com a estrepitosa vaia recebida pelo então governador paulista, em Belo Horizonte, durante uma solenidade presidida e organizada pelo próprio Aécio.
Umas das frases de efeito que Aécio usará em seu discurso de hoje: “Tenho compromisso como o País e com o partido, quero encerrar o ciclo petista”. Então, querido leitor, acredite se quiser, ou como diria Pirandello, “assim é se assim lhe parece”.
Leia mais sobre o mesmo tema, na matéria logo aí abaixo.

08-04-10

Verdade simples: Serra ainda espera apoio
de Aécio, mas este já embarcou no Lulécio

Os tucanos paulistas ainda esperam uma manifestação clara de apoio à candidatura de Serra, por parte de Aécio Neves. Eu confesso que não sei se é ingenuidade ou falsa esperança (fruto da ansiedade) ou ainda um simples jogo de cena. Porque é impossível não ver que há muito tempo o governador mineiro abandonou o “colega” paulista e, como candidato ao Senado, viaja em faixa própria o que implica em aliança velada com a candidatura de Dilma Rousseff, exatamente como ele fez em 2002 e 2006 em relação a Lula.
A nova versão desse jogo ambíguo da política brasileira já tem, em Minas, o nome de Dilmasia: a aliança subterrânea dos cabos eleitorais, principalmente do Interior do Estado, entre adeptos do Dilma Roussef e do candidato tucano (portanto de Aécio) a governador, Antônio Anastasia. O fenômeno mais amplo, como já dissemos neste blog, recebe o nome genérico de cristianização e remonta ao tempo em que o velho PSD abandou seu candidato à presidência, Cristiano Machado (por sinal um mineiro), para apoiar Getúlio Vargas.
E já dissemos também que se houver a cristianização de Serra (o que é provável em Minas e no Nordeste) sua candidatura dança de uma vez. Daí a marcação serrada do staff paulista em cima de Aécio Neves. Este, de sua parte já informou que comparecerá ao lançamento da candidatura de Serra, dia 10 em Brasília. Depois “desparecerá” por 15 dias. Aos íntimos tem dito que se nem o Serra quer bater no Lula, por que é que ele tem que bater?
E a isso tudo, acrescentamos que ele não baterá tampouco em Dilma, mineira de nascimento e que vai concentrar o início de sua campanha justamente nas Alterosas. Aliás, um exemplo desta convivência harmoniosa entre a candidata e o ex-governador, ocorreu recentemente, quando Dilma homenageou Tancredo, visitando seu túmulo. Os tucanos mineiros responderam ao gesto com um calor que foi além da simples cortesia. E dona Inês Maria, irmã de Tancredo e mãe de Aécio, fez questão de enviar mensagem de agradecimento.

04-04-10

Vox Populi exibe a grande mentira da
Datafolha e a ultrapassagem de Dilma

Nada como uma pesquisa após a outra. A Vox Populi de sábado (3-4) exibe com todo a nitidez, a manipulação descarada realizada pela Datafolha da semana passada que apresentava José Serra nove pontos na frente de Dilma. Tudo foi armado para que o tucano “crescesse” simultaneamente com o lançamento de sua candidatura pelo impagável José Luiz Datena.
Como insisto sempre aqui deste blog, os dois quesitos essenciais (não únicos evidentemente) para a boa leitura de qualquer pesquisa são: tendência e dinâmica. Então se analisarmos a tendência de Serra tanto nos últimos 24 meses como nas últimas oito semanas, veremos que sua tendência é de estagnação com leve queda. Em novembro ele tinha 38%, em janeiro 36% e agora aparece com 34%. Há dois anos ele tinha 37%.
Dilma , por seu lado, apresenta tendência de crescimento com forte aceleração (dinâmica). Ela tinha 19% em novembro, 27% em janeiro agora, 31%. É natural, por circunstâncias matemáticas, que o crescimento da candidata, muito forte no início, tenda a evoluir mais moderadamente. É fácil entender que passamos de um para dois num piscar de olhos. Mas podemos levar semanas para avançar de dez para vinte.
Com tudo isto, fica claro que mantida a atual tendência (e não há razão para supor mudanças substanciais), na próxima pesquisa Dilma já deverá aparecer na dianteira. Neste exato momento, ela esta realizando a ultrapassagem, Il sorpasso.
E não custa lembrar que, como sempre dissemos neste blog, Ciro Gomes subtrai mais votos de Serra do que de Dilma. Num panorama sem Ciro como candidato, Serra sobe de 34% para 38 %.

Veja também matéria logo abaixo.

31-03-10 Atualizada em 2-04-10

Sem esperanças de ser vice de Dilma, Meirelles fica
no BC. Caminho aberto para Ciro e Roberto Requião


Sem Meirelles no páreo, ficam mais fortes as candidaturas de Ciro Gomes e Roberto Requião.

Só na última terça-feira, Henrique Meirelles conseguiu conversar com o presidente Lula, para poder decidir sobre seu destino político. Saiu da reunião decepcionado e convencido de que não seria o vice de Dilma Rousseff, o seu projeto mais acalentado. O presidente pediu para ele continuar à frente do Banco Central. Meirelles ficou de dar uma resposta em 24 horas. E ontem, quinta-feira, ele decidiu permanecer no BC, atendendo, assim, a uma das principais necessidades do Planalto: exibi-lo ao Mercado como penhor de que Dilma não é mais esquerdista do que o razoável, nem vai mudar a política econômica.
Esse, aliás, é o jeito peculiar de que o presidente se utilizar quando quer dizer não a um amigo ou colaborador. Ao receber o “pedido” para que continue à frente do BC, Meirelles percebeu logo que não seria o vice da chapa oficial. Agora lhe resta manter-se no cargo, com a promessa, talvez, de que continuará nele durante o próximo governo. Melhor isto do que lançar-se numa prosaica candidatura ao Senado pelo PMDB de Goiás.
Com Meirelles abandonando o páreo, estreita-se mais o leque de opções para a escolha do noivo, digo vice, de Dilma. Se prevalecer o critério de que terá que ser preferencialmente alguém do PMDB, do Sudeste ou do Sul, sobram apenas os nomes de Michel Temer e Roberto Requião, já que Hélio Costa foi encaminhado para a disputa do governo de Minas e Sérgio Cabral (Rio) surfou mal a onda do pré-sal e incompatibilizou-se com 24 estados brasileiros.
Michel Temer (São Paulo) presidente da Câmara dos Deputados foi descartado há meses, por falta de votos e liderança em seu próprio estado. Além disso, haveria razões nebulosas que remontam à “Crise do Arruda” eclodida em novembro. Requião apesar da recente aproximação com o governo e com a própria candidata, sofre importante resistência por parte do PT paranaense.
Agora, se o presidente Lula conseguir convencer o PMDB a trocar a vaga de vice por, digamos, mais um ministério e duas estatais poposudas, então o candidato natural passa a ser Ciro Gomes, um “socialista” que consegue tira votos de Serra no Sudeste e no Sul.
Veja também matéria logo aí embaixo.



27-03-10

Depois de muitas voltas, Ciro agora quer ser vice Dilma

Ciro Gomes, o eclético socialista, desde que, em meados do ano passado, transferiu seu título do Ceará para São Paulo foi a peça que mais se mexeu no tabuleiro sucessório. Lástima que tenha avançado tão pouco. Neste período, alternadamente, ele foi candidato ao governo de São Paulo, a vice de Aécio Neves, caso este fosse candidato à presidência, e candidato a presidente.
Sua candidatura à presidência dependia do apoio do presidente Lula e chegou a ser admitida no Planalto quando o ibop de Dilma era muito baixo e temia-se uma eventual vitória de Serra no primeiro turno. Nesse caso, a candidatura de Ciro era garantia de que haveria o segundo turno. Hoje, inverteu-se a coisa e quem corre o risco de eleger-se de primeira é a candidata oficial.
Além disso, Ciro jamais conseguiu convencer seu próprio partido, o pragmático Partido Socialista Brasileiro que, à sua revelia, fechou acordo com o Planalto (apoio a Dilma) e com a FIESP, apoio ao inacreditável Paulo Skaf e sua ridícula (embora milionária!) candidatura ao governo de São Paulo.
Ciro repete sempre que há anos vem se preparando para ser presidente da República. Eu também. O problema é que ele, assim como Serra, não tem discurso. Não tem o que dizer ao seu principal reduto eleitoral, a classe média (exceto no Ceará). Uma classe média orientada por pasquins de luxo tipo Globo e Folha de São Paulo, os quais tampouco despertaram para a nova realidade criada com a Grande Crise Norteamericana e, sem senso de ridículo, continuam falando em Estado Mínimo e outras baboseiras neoliberais.
Ocorre que, como Ciro é um homem de sorte, sua candidatura a vice passou a ser tentadora justamente por causa de sua insipidez ideológica. Como este blog vem dizendo há meses, Ciro sempre foi uma opção de voto da classe média, na eventual desistência de Serra. Então é só juntar as duas pontas do raciocínio: com Ciro a seu lado, Dilma neutralizaria, em alguns seguimentos, os temores de que ela é esquerdista em demasia.
Mas nada é perfeito nesta vida: para que seu sonho se realize, Ciro tem que convencer o presidente Lula a romper acordo com o PMDB que, segundo o combinado, indica o vice. Enfim, como nesse mundinho podre e hipócrita da política burguesa o que conta mesmo é o poder e a grana, pode ser que o PMDB, este misto de latifúndio e balcão, aceite trocar o vice por dois ministérios e uma estatal.

19-03-10

PMDB , indignado, avisa que não
aceita prato feito. Só se for caviar

Agora que as pesquisas apontam o favoritismo de Dilma Rousseff, o Comitê Central do PMDB ( leia-se Sarney, Jucá e Calheiros) resolveu agir. A primeira providência foi a de promover , dentro de um mês, um Congresso Nacional para discutir um programa de governo que será apresentado como subsídio ao seu parceiro PT. “Nossa união – diz o presidente da Câmara, Michel Temer, como improvisado porta-voz – deve consolidar-se em torno de programas e idéias, jamais em torno de nomes”.
Encenação pura. O que há é que as velhas raposas temem perder relevância na campanha presidêncial que, graças ao viés ideológico e plebiscitário imposto por Lula, está dando mais certo do que os próprios petistas esperavam. Na mesma declaração, Temer informa que o PMDB “não aceita prato feito”, numa clara alusão às intromissões de Lula na escolha do nome que o PMDB deverá indicar para vice de Dilma. E se você notou nestas palavras uma ponta de mágoa, acertou. O presidente da Câmara, tido durante algum tempo como noivo preferencial, sabe que não será o vice de Dilma. Lula prefere alguém de Minas ou do Sul.
Na verdade, este colegiado de espertos caciques ficou preocupado quando percebeu que Lula esta escolhendo ostensivamente o candidato a vice que deveria ser indicado obviamente pelo próprio PMDB. Depois de pedir uma listra tríplice, uma forma heterodoxa de fritar o Temer, o presidente lança balões de ensaio. Meirelles, por exemplo, não é de Minas, mas é e a caução que o PT oferece como garantia ao mercado financeiro.
O PMDB alega que o presidente do BC é apenas um tucano fora do ninho, mas Lula não tá nem aí. Quanto a Roberto Requião (governador do Paraná), a melhor solução do ponto de vista estratégico, já que sua candidatura abalaria o forte predomínio de Serra nos estados do Sul, o argumento é o de que ele “é personalista e desagregador”. Ao que Lula retruca mentalmente: “desagrega quem, companheiro?”
Enfim, até as convenções de junho, há muito tempo para regateios e negociações. Entretanto, o PMDB já avisou que não abre mão dos ministérios das Minas e Energia, das Comunicações e da Defesa que , por tradição e uso, foram incorporados aos bens da família. Já o Temer parece que passou a sonhar com o Ministério da Justiça, passaporte para uma futura aposentadoria em algum tribunal superior. Mas é apenas sonho.
Se é para comer prato feito que seja caviar, é a máxima recém descoberta pelo fisiologismo nacional.

04-03-10

A visita da velha senhora
Parte II

Como este blog informou ontem, o objetivo central da visita da secretária de estado Hillary Clinton ao Brasil era o de declarar formalmente ao governo Lula que os EUA não tolerarão a existência de um Irã dotado de armas atômicas. É a sobrevivência de Israel que está em jogo e, por razões internas, os norte-americanos jamais abandonarão este seu aliado mais íntimo. Esta é, aliás, a raiz de toda a crise do Oriente Médio que entra em sua oitava década e tem como principal marca o martírio do povo palestino.
Na linguagem diplomática, o governo brasileiro “anotou” as ponderações norte-americanas, mas não recuou um milímetro em sua posição de manter relação não só de amizade como de cooperação com o regime iraniano dos aiatolás. Seja com for, o critério da avaliação democrática deve ser descartado por inválido, já que ambas as partes, quando conveniente, sempre mantiveram relações estreitas com todo tipo de ditadura. A China é exemplo mais que suficiente para calar qualquer argumentação hipócrita a esse respeito.
Restam, então, os motivos econômicos e estratégicos que compete a cada país selecionar com independência; sendo certo que brasileiros e norte-americanos, tem razões e motivos totalmente discrepantes, o que é absolutamente normal .
Entretanto, estas discrepâncias podem conduzir a atritos, sobretudo no caso presente, onde uma das partes, os EUA, habituou-se ao longo da História a ver seu interlocutor, no caso o Brasil, como um aliado incondicional, obediente e calado.
É isto o que mudou nos últimos sete anos e é esta, talvez, a principal marca ( para a História) do Governo Lula. É claro que a Globo, com seus Alexandres Garcias e Willians Waacks, jamais entenderá esta realidade simples, dada sua submissão atávica aos interesses estratégicos dos EUA que sãos os mesmos do Capital Financeiro Internacional. Capital bandido e pai da atual grande crise econômica que assola o mundo e arrebenta com os paradigmas neoliberais. Graças a Deus.
Na matéria abaixo editada ontem e que é a primeira parte desta, você terá mais detalhes sobre o acordo nuclear do Brasil com o Irã e outros lances do contencioso diplomático entre os governos Lula e Obama.

0 3-03-10

A visita da velha senhora
Parte I

A última vez que Madame Hillary Clinton veio ao Brasil, seu marido Bill era o incontestado dono do mundo. Elegante e, principalmente simpático, o casal possuía aquele dom especial que deixa os vassalos a vontade. Tanto que os mais ingênuos sentiam-se como se fossem iguais ao senhor do Castelo. Creio que foi isso o que mais seduziu ao nosso Fernando Henrique que pagou o gesto elegante dos Clinton com lealdade absoluta. Lealdade esta que no mundo desigual dos negócios e do poder é normalmente entendida como submissão.
Nesta nova visita, a velha senhora vai encontrar interlocutores rústicos, talvez até mais sinceros, porém nem um pouco vassalos. Lula e seu chanceler Amorim (sem falar no Garcia) são indelicados o suficiente para lembrar a todo instante que o Castelo está em ruínas, carecendo de amplas reformas e até de aulas práticas de como gerir sua combalida economia doméstica. Enfim, toda nobreza arruinada já passou por estes constrangimentos. E quem imagina que exagero, leia, por favor, nos jornais de hoje, o conselho de Lula a Obama: Você precisa criar um banco estatal como este nosso aqui do Brasil.
Entretanto, tirando a questão iraniana, a visita de Hillary é meramente protocolar. Cedo ou tarde ela teria que realizar este périplo pelo Continente e fará isto, talvez, com o olhar nostálgico de quem visita antigas propriedades. Para cumprir o enrolation diplomático, a secretária de Estado e nosso chanceler assinarão documentos que falam de livre comércio e especificam questões como a do algodão e do suco de laranja. Nada que não pudesse ser discutido a nível de embaixadores ou até por telefone.
Mas a questão iraniana é séria. Obama já engoliu uns duzentos sapos desde o dia em que caiu na besteira de consagrar Lula como “o Cara”, porém fará o possível para demover o brasileiro da posição “extravagante” de não só exigir que o Irã desenvolva com liberdade seu programa de pesquisas atômicas, como inclui a ousadia de anunciar a assinatura, em maio, de um acordo de cooperação nuclear com aquele pais.
A este respeito Hillary dará alguns recados duros que provavelmente serão ouvidos em silêncio por Lula e Amorim. Eles sabem que os poderosos (e os EUA ainda o são) aturam algumas desobediências menores e ingênuas irreverências, Mas “ainda não dá pra bater de frente com eles”.
Para provar que fala sério, a secretária de Estado desembarca em Brasília com antecedência de apenas alguns dias em relação a outra visita. A do japonês Yukiya Amano que dirige a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão ostensivamente manipulado pelos EUA e que tem como missão concreta impedir a proliferação de armas nucleares.
A AIEA tem feito novas e maiores exigência de inspeção às indústrias e laboratórios de pesquisas atômicas do Brasil. Este pode ser um aviso de que a aproximação com o Irã pode custar uma escalda de constrangimentos em relação ao nosso programa nuclear que é pacífico. O problema é que cientistas e militares brasileiros envolvidos com energia atômica, estão convencidos de que, com Irã ou sem Irã, as seis potências que controlam o ciclo completo do enriquecimento do urânio não querem é novos concorrentes comerciais nesta área altamente lucrativa. O Brasil está a um passo de ingressar neste seleto clube.
É possível que meus queridos leitores mais afeitos às novidades da campanha eleitoral, não tenham notado a matéria que encontrarão logo aí abaixo e que editei há cinco dias neste blog. Ela explica com mais detalhes este triângulo desamoroso entre Brasil, EUA e Irã. Creio que vale a pena dar uma olhada nela.

27-02-10

Mais detalhes sobre o acordo nuclear Brasil/Irã

Durante sua vista a Teerã, em maio, o presidente Lula assinará com seu colega Mahmoud Ahmadinejad, um documento que estabelece uma série de posições comuns e um rol de intenções na direção da cooperação entre Brasil e Irã. Entre os itens desta cooperação constará o da pesquisa nuclear para fins pacíficos. Para simplificar , nós jornalistas (no caso o Merval Pereira e eu que fomos os únicos a tratar do assunto) demos ao referido item, o nome pomposo de Acordo Nuclear. Digamos, então, que é quase isso.
Mas leve o nome que levar, este item é a forma encontrada pelo Itamaraty para alcançar três objetivos; a- realizar um movimento diplomático que represente, a quem possa interessar, uma aviso de que o Brasil não aceitará ingerências indevidas ( maiores dos que as tecnicamente necessárias) no nosso programa nuclear por parte da Agência Internacional de Energia Atômica, encarregada de inspecionar o desenvolvimento do dito programa, b- despoluir a visão preconceituosa do Ocidente em relação ao desenvolvimento do programa nuclear iraniano que se encontra em estágio semelhante ao do Brasil, e c- aproveitar o embalo para assinalar , mais uma vez a insatisfação do Brasil em relação a atual ordem mundial “congelada” desde o fim da Segunda Grande Guerra.
Quanto ao item a, como mostrei na matéria de ontem ( ver logo ai abaixo desta), o governo brasileiro suspeita que a Agência Internacional de Energia Nuclear esteja sendo usada menos no interesse da não proliferação de armas atômicas e mais na da defesa de privilégios oligopolizados dos atuais detentores de tecnologias neste setor. O Brasil está próximo de juntar-se aos sete países atualmente únicos donos dos “segredos” do ciclo completo do enriquecimento do urânio.
Quanto ao item b, a diplomacia brasileira chama a atenção para o fato de que todo país tem direito a desenvolver livremente sua pesquisa científicas e não pode ser tolhido só porque há suspeitas subjetivas sobre suas verdadeiras intenções. E lembra, a propósito, que não houve o mesmo cuidado com relação à Índia, ao Paquistão e a Israel aos quais foi permitido construir o seu arsenal atômico, quando isso parecia compatível com os interesses estratégicos do Ocidente.
Quanto ao item c, não é novidade para ninguém que a linha mestra da diplomacia brasileira, durante o Governo Lula tem sido a de abrir caminho (reconhecidamente árduo) para o “descongelamento” do atual Poder Mundial, o que passa por uma reforma da Carta da ONU e pela ampliação do seu Conselho de Segurança com a inclusão do Brasil e pelo mais seis países.
Como se nota, o Itamaraty não improvisa, como também não é novidade que a mídia brasileira sempre se exalte quando o País adota uma posição digna e soberana. Isto porque ela está atavicamente subordinada aos interesses estratégicos norte-americanos e do capital financeiro internacional.

Não deixe de ler a matéria logo aí abaixo. Ela é complemento desta e com esta se complementa.

26-02-10

O acordo nuclear Brasil/Irã e a
sintonia da mídia brasileira com
os objetivos estratégicos dos EUA

O Brasil poderá assinar, em maio durante visita do presidente Lula a Teerã, um acordo nuclear com o Irã, o país de Ahmadinejad, o mais novo diabo adotado pela mídia internacional. Isto significará o clímax da tensão nas relações Brasil/EUA que deixaram de ser boas desde o primeiro governo Lula e vem se agravando quase que de forma programada. Os pontos de atrito vão-se multiplicando: Venezuela, bases militares na Colômbia, Honduras, Haiti , etc.
A opinião pública brasileira está como que sendo pega de surpresa, pela razão de que não foi informada, ou antes, foi deliberadamente desinformada sobre este assunto pela nossa mídia inteiramente subordinada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Neste sentido, uma a uma, todas as posições da diplomacia brasileira na direção de um posicionamento independente foram minimizadas, criticadas ou ridicularizadas.
Ocorre que, de forma bem visível a partir da crise de Honduras, a posição do Itamaraty está deixando de ser meramente de afirmação e independência para representar uma contestação e mesmo um confronto à política externa americana que é a de preservar a hegemonia mundial obtida ao longo do século passado.
No quadro restrito da política continental, a vitória da diplomacia brasileira foi completa e apenas a mídia brasileira ainda não viu que não só na America do Sul, (onde a vantagem brasileira é absoluta) estamos nos saindo bem no Caribe e América Central, onde o Itamaraty disputa influência, palmo a palmo, com o Departamento de Estado.
E Obama não pode fazer nada a não ser engolir sapos em série, por uma razão simples: no atual quadro da política norte-americana para o Continente, desmontada por Bush, qualquer coisa é pior do que romper com O Brasil. Com outras palavras: ruim com o Brasil, pior sem ele. Isto porque, habilmente, o Itamaraty embora parta para o confronto estratégico de longo prazo, procura manter, no dia a dia, uma posição mais moderada e de conciliação. Comparado com outros países, o Brasil fica parecendo um inocente bombeiro.
Quanto à questão nuclear, o acordo com o Irã não é apenas um ponto de afirmação brasileira como potência emergente protagonista da cena mundial. É, principalmente, um instrumento de auto-defesa: nos últimos tempos a Agência Intencional de Energia Atômica que fiscaliza e coíbe as políticas nacionais de enriquecimento de urânio, vem apertando o cerco contra o Brasil exigindo inspeção in loco de instalações brasileiras onde são desenvolvidas tecnologias diferenciadas e que, por isso, representam segredo industrial. Tanto cientistas como militares envolvidos no nosso programa nuclear denunciam que o Brasil está sendo indevida e injustamente tolhido em sua política de desenvolvimento tecnológico com autonomia.
E registre-se que o Brasil é dos poucos países que dominam a tecnologia do enriquecimento do urânio, ao lado de EUA, Rússia, China, França, Alemanha, Holanda e Inglaterra. Sendo que trabalhamos em cima do que são consideradas as maiores reservas deste mineral no mundo. Suspeita-se, por isso, que a ação da Agência Internacional de Energia Atômica (no caso brasileiro) esteja mais voltada para a defesa do atual oligopólio mundial da indústria de energia atômica do que propriamente no sentido de evitar a proliferação de armas nucleares.
Quanto ao Ahmadinejad, eu não sou nenhum maluco para sair por aí defendendo suas extrapolações e as bobagens que diz sobre o Holocausto. Mas tenho certeza de que ele é apenas um projeto inviável de diabo perto dos falcões americanos que defendem a política continuada de agressão e expansão em nome da “missão civilizadora” dos EUA. Sem falar nos animalescos e fanáticos ortodoxos israelenses que trucidam metodicamente o povo palestino, contrariando mil e uma resoluções e advertências da ONU.

25-02-10

Por que a mídia torce tanto contra o Brasil
e alinha-se com o Departamento de Estado

O objetivo deste texto é o de esclarecer por que a mídia brasileira abriu tão pouco espaço e tratou com tanta má vontade a criação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos, da qual ficam excluídos os Estados Unidos e o Canadá. Trata-se de um marco histórico que assinala a desativação de fato da OEA que, durante mais de um século, foi usada como instrumento de imposição da hegemonia norte-americana no Continente. Cuba que fora excluída da OEA por ordem dos EUA, retorna agora, meio século depois , ao convívio da comunidade latino-americana.

Algumas vezes tenho que ser repetitivo, pela boa razão de que tanto no Twitter como no blog estão sempre chegando novos olhares. É um freguesia crescente graças a Deus. Os leitores mais antigos terão que me perdoar.
Digo isso por que mais de uma vez já denunciei aqui a pérfida posição de nossa mídia, sempre alinhada com os objetivos estratégicos dos Estados Unidos que não são, obviamente, os mesmos do Brasil. Na verdade – e este talvez seja o mérito histórico do Governo Lula – pela primeira vez, o Itamaraty conseguiu traçar e dar conseqüência a uma política externa absolutamente independente. E não só independente como conflitante com o projeto hegemônico dos Estados Unidos.
Mas é preciso examinar tudo isto mais de perto: a hegemonia norte-americana global e continental que é a que mais nos incomoda , está – ou esteve até a eclosão da atual crise econômica – inteiramente articulada com a hegemonia do capital global de corte financeiro e especulativo que é o mais bandido e destrutivo de todos os capitais.
Esta hegemonia dupla e ao mesmo tempo unipolar ( sem contestação) foi obtida a partir dos anos 80 (queda do Muro de Berlin e derrocada soviética) com a implantação dos paradigmas neoliberais que estabeleceram que era crime contra a inteligência e a boa fluidez dos negócios permitir que o estado interviesse de alguma forma na plena liberdade de ação e na soberana vontade do Mercado. Deu no que deu: os EUA de pires na mão junto ao enigmático estado chinês ao qual deve mais de um trilhão de dólares (um Brasil inteiro) e de cuja boa vontade dependente absolutamente.
É o Mundo Neoliberal que literalmente veio abaixo e está aí, no chão, à vista de todos, menos da idiota e idiotizante mídia brasileira. E aqui chegamos ao ponto: esta mídia medularmente corrupta foi a primeira a ser cooptada pela grana e pelas idéias neoliberais. Por isso é pertinente dizer que ela é estruturalmente dependente daquele capital a que nos referimos, o financeiro.
Vai daí que toda mídia tem seus expoentes e estes, se quiserem usufruir os benefícios deste status, devem servir como cães pastores aos seus patrões que não sabem escrever mas sabem o que querem. Temos aí, então, um plêiade de beletristas absolutamente sintonizados com o pensamento da “direção” da casa que, por sua vez esta sintonizada, no nível da vassalagem, com o Capital Financeiro e com o Departamento de Estado. Então, esta sintonia é tão fina que se pegarmos um texto do Merval Pereira, por exemplo, que é o escriba-mor do Globo, teremos a sensação de estarmos lendo um release (texto de divulgação) da Hillary Clinton.
Já que citamos Merval, merecem ser citados também Augusto Nunes, Diogo Mainardi, José Nêumanni Pinto, Antônio Calos Sardenberg, Willian Waack , Míriam Leitão e Alexandre Garcia entre outros menos votados. Não sei quanto a você caro leitor, mas eu pessoalmente concedo a todos estes exímios jornalistas o benefício da dúvida. É possível que eles estejam realmente convencidos do acerto daquilo que escrevem. Menos o Jabor. Deste emana um forte ranço de picaretagem porque está muito na cara que ele se faz de porralouca para dizer com liberdade poética o que nem os donos dos jornais tem coragem de dizer.

22-02-10

Serra, o calculista, está agora na mão de
Deus e do IBOP, até o Globo o ambandou

Cansado de brigar com a notícia, Ricardo Noblat fornece finalmente a seus leitores do Globo algo que se aproxima da verdade. Afirma em seu coluna de hoje que diante do “elefante Lula”, às “formiguinhas PSDB, DEM e PPS em fase terminal” (!) só resta assistir à vitória tranquila de Dilma Rousseff. Serras só ganha esta eleição diz o colunista global se “ Dilma perder a eleição para ela mesma”.
É inacreditável, mas Noblal parece mesmo disposto a reconciliar-se com a evidência dos fatos. Chegou até a revelar algo que repetimos há dois meses neste blog: Serra vai oferecer mais uma vez a vice-presidência a Aécio Neves que, mais uma vez, vai recusar.
Faltou apenas que este portento do jornalismo político dissesse que o principal problema das “formiguinhas” PSDB, DEM , PPS e do próprio Serra é a obsolescência do seu discurso neoliberal. Seria pedir demais.
Eis, porém, a pergunta que não quer calar: Noblat só descobriu estas verdades elementares agora e todas juntas, ou ele já as conhecia, mas matreiramente as sonegava de seus incautos leitores?
É importante que os desamparados leitores do Globo examinem bem o pãozinho e o jornal que levam todas as manhãs para suas casas. Ambos podem estar adulterados. O jornal certamente está.

O que Noblat ainda não disse

Poucos adjetivos dizem tanto de uma pessoa do que frio e calculista dizem de José Serra. Se não é, pelo menos até agora ele vinha se comportando como senhor de seu destino. Auto-confiante – “eu tenho nervos de aço” – nos últimos seis meses ele rejeitou todas as propostas honestas e todos os conselhos sensatos para que decidisse logo se seria ou não candidato à presidência . “Nada feito – dizia ele – só vamos resolver isto em março. “Mas a campanha da Dilma já está nas ruas há meses, já podemos vê-la pelo retrovisor” insistiam seus correligionários aflitos. “Nada feito”, repetia ele, impávido.
Quando consentia em discutir o assunto, o submerso governador bandeirante apresentava o argumento tão impecável quanto óbvio: para quê nos expormos antecipadamente? Não precisamos virar vidraça antes do tempo.
Tudo mentira. O que Serra tinha e tem é uma coisa simples chamada medo. Não queria trocar a reeleição certa para governador pelas incertezas de uma travessia difícil até Brasília, enfrentando o vento lulista pela proa. Queria deixar uma ponte intacta para um possível recuo, caso as pesquisas de março lhe fossem adversas.
Quando criança, na Mooca, ele deve ter ouvido o conselho sábio de alguma tia velha. Desses conselhos que estragam nossa vida até o último dia: mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.
Pois agora quem não deseja mais vê-lo candidato sãos seus próprios correligionários, uma boa parte deles, pelo menos. Quando chegarem as pesquisas de março fechando o verão, é possível que algumas delas já apontem um empate técnico entre ele e Dilma, a desajeitada e pouco íntima dos palanques.
Se ainda houvesse tempo para uma manobra radical que juntasse na mesma chapa o come quieto Aécio Neves e o eclético socialista Ciro Gomes, talvez ainda fosse possível mudar o enredo deste samba, o que , na minha opinião não seria bom para o Pais. Mesmo muito bem maquiada e mesmo que signifique um avanço em relação a Serra, esta dupla ainda representa, na essência, o modelo neoliberal.
Mas é fato que há três meses, quando ainda havia tempo, Ciro declarou com todas as letras que só abandonaria sua candidatura à presidência para ser vice do governador mineiro. Ninguém (exceto, talvez, este blog) o levou a sério. A mídia fingiu que não viu, Serra e a tucanagem paulista fingiram que não ouviram e o trem seguiu pelo ramal que conduz ao fim da linha. Os leitores do Globo, evidentemente, não foram informados de nada disso.
Seja como for, não há mais tempo. A mesma candidatura de Serra também já está nas ruas. Virou vidraça sem se beneficiar do foguetório que a mídia lhe teria proporcionado se tivesse ocorrido o lançamento formal. E o pior é que, mesmo que o malandro Montenegro manipule e distorça o IBOP que é seu, se as outras pesquisas revelarem no próximo mês que suas chances são mínimas, o infausto governador paulista será abandonado por boa parte de seus correligionários. Correligionários estes que insistirão para que ele ceda a vez ao Aécio, como já cedeu há quatro anos para o Alckmin, quando temeu enfrentar Lula. O problema é que ele agora já não tem condições morais para jogar a toalha. Seria a desmoralização total. Então, é possível que ele fique sem o pássaro na mão enquanto os outros dois continuam a voar.
Há outros adjetivos que também ornam Serra. Tíbio e insípido, por exemplo. Talvez tenha faltado ao menino lá dos tempos da Mooca, um tio boêmio, meio poeta e meio louco que lhe dissesse: Navegar é preciso, chegar não é preciso Ou então: Deus não pediu para você vencer, pediu para você lutar.

Mais textos sobre o mesmo tema nas colunas Última Hora e Coisas da Política, neste blog.

1-02-10

A prova da mentira covarde e descarada do Globo

Eles não cansam de mentir e desrespeitar seus leitores. Usam como armas principais a omissão e a distorção. Quando passa na padaria e na banca, logo de manhã, o freguês incauto imagina estar levando para casa um produto íntegro. No caso do jornal, se for O Globo, está levando veneno puro.
O jornalão dos Marinhos, detentor virtual do monopólio da faixa de leitores de classe média no Rio, trata seus leitores como massa de manobra e moeda de troca. Não há o mais mínimo respeito à verdade e aos códigos elementares da profissão de jornalista. Os delitos vão do desrespeito ao consumidor à conspiração política, aquela que é tramada pelas costas e não no debate aberto e honesto, a ação política legítima.
Agora vejamos como, sofisticados e exímios, a direção e os empregados do jornal, conseguem praticar todos os delitos mencionados acima no exíguo espaço de algumas poucas linhas. Vamos ler a frase colhida da edição de hoje (1-02-010) na página 21. Ela vem embutida numa matéria contra Chávez que não é objeto de notícia , mas de campanha feroz por parte do diário:
“Depois de tirar do ar cinco canais de TV a cabo do país – desencadeando uma onda de manifestações estudantis que tomou as ruas de várias cidades e deixou dois estudantes mortos em choque com a polícia na semana passada – o presidente Chávez anunciou que vai pedir uma punição ao jornal “Tal Cual” alinhado à oposição.
Primeira parte da mentira: qualquer pessoa desprevenida ao ler estas quatro linhas chegará à conclusão automática de que as ruas das cidades venezuelanas foram tomada por um multidão indignada de estudantes que combatem um homem mau. Releiam, por favor, a frase e digam que exagero ou distorço.
Agora a versão verdadeira, publicada por jornais do mundo todo que ainda preservam um mínimo de dignidade: as ruas de Caracas foram tomadas por uma multidão de estudantes que, divididos em partes iguais, atacam e defendem o presidente Chávez. Um deles, de apenas quinze anos, era chavista. Foi abatido por um tiro desferido da janela de um edifício.
Nem é preciso dizer que o enunciado da notícia também é falso: as emissoras de TV a cabo não foram retiradas do ar de forma definitiva como o texto dá a entender. Elas foram suspensas, por poucas horas, como punição prevista na Constituição ( assim como no Brasil) a um desacato ostensivo e ensaiado às autoridades. O objetivo era este mesmo, provocar uma comoção e levar os estudantes às ruas.
Esta é a radiografia, leitor amigo, de como você é iludido, traído na sua confiança se, por infelicidade, adquiriu o hábito de só ler o Globo.

25-12-09

Se pedirmos para os outros, Deus dará para todos.

Recebi a incumbência de difundir, neste dia de Natal, a oração que você lerá logo abaixo. Se, ao lê-la, você sentir que isto fará bem ao seu coração, como ocorreu comigo, então passe adiante. É, ceio eu , uma boa forma de comemorar esta data e ingressar bem no Ano Novo

22-01-10

Pela segunda vez,
sempre delicadamente,
Lula tenta fritar Temer

Presidente pede novamente uma lista tríplice para escolher quem o PMDB “indicará” como vice de Dilma. Ressurgem os nomes de Hélio Costa. Henrique Meirelles e Sérgio Cabral.

Como todos (pelo menos os que lêem este blog) sabem, o presidente da Câmara Michel Temer (PMDB) foi abatido por uma bala perdida, há pouco mais de um mês, durante o tiroteio que se seguiu ao Escândalo Arruda. Nesta ocasião, o presidente Lula fez uma proposta esdrúxula, sugerindo que o PMDB oferecesse uma lista tríplice para que ele e Dilma escolhessem o candidato a vice da chapa governista.
Esta foi a forma educada que o presidente encontrou para fritar Temer a quem o lugar já havia sido prometido. A desculpa, fornecida nos bastidores, era a de que o noivo tinha pouco voto e pouca máquina até mesmo em sua terra, São Paulo, onde Quércia, insaciável, já grudou em Serra de uma tal forma que ninguém consegue desgrudar.
Mesmo sendo de bastidor, a versão é falsa. A verdadeira (daí a bala perdida) é que Temer , de alguma forma foi alcançado pelas investigações da Polícia Federal que culminaram com o Escândalo do Panetone. Entretanto, Temer cujo rosto é tão duro quanto o de uma estátua de Júlio César, não precisou nem fazer cara de paisagem e continuou candidato como se na tivesse acontecido.
Isto obrigou o presidente a repetir a proposta esdrúxula e pedir, novamente, uma lista tríplice. Então, agora, como da primeira vez, afloraram os nomes de Hélio Costa, que tem como alternativa ser candidato ao governo de Minas e Meirelles que tem como alternativa continuar sendo o presidente do BC no governo Dilma. Um terceiro nome, guardado com o maior carinho no bolso do colete presidencial, é o de Sérgio Cabral. Com este , matam-se dois coelhos: Dilma dispara no Rio e o PT, finalmente, poderá lançar candidato próprio no estado.
Seja como for, as negociações são difíceis porque o PMDB sabe que Lula precisa dele, o que é muito perigoso. E, realmente, o presidente precisa do partido, primeiro para garantir a governabilidade até o fim de seu mandato; segundo por causa da grande máquina da velha agremiação, sobretudo na capilaridade dos municípios. Finalmente, em função do precioso tempo de TV.
Entretanto, o PMDB são três, todos fisiológicos. Um é o dos senadores, que pensam no longo prazo e no poder e seus cargos; segundo, o dos deputados que sabem que período eleitoral é época de se faturar alto e, por último, as lideranças regionais que não estão nem aí para a Dilma. Só raciocinam em termos de composição para as eleições em seus estados.

21-12-09

Será que até O Globo está lulando?

_ Se o clima fosse um banco eles já o teriam salvo (Hugo Chávez, presidente da Venezuela, sobre a reunião de Copenhague)

A frase que o amigo acabou de ler aí em cima não foi pinçada pelo autor deste texto. Creiam que ela foi escolhida por Ricardo Noblat para abrir sua coluna no Globo, esta segunda-feira. E é ainda mais curioso o fato de o dito do presidente venezuelano ter sido colocado ali de forma gratuita. Na seqüência, o colunista trata de assunto totalmente diverso, o desempenho ruim de Dilma Rousseff como candidata, embora Noblat admita seu favoritismo em função da transferência da popularidade do presidente para ela.

Este é um fato entre muitos outros que podem ser alinhados, indicando uma clara amenização da postura do jornalão em relação a Lula e até à sua política externa que, há poucas semanas, era o principal alvo da fuzilaria da Maison Marinho. O que há então?

Há dois fatos principais. O primeiro é estratégico, porém meramente comercial ou empresarial: um passarinho que freqüenta as varandas da Aldeia Global me contou que as vendas em banca do jornal estão caindo verticalmente. E pesquisas encomendadas indicam que isto não se deve às mídias alternativas (principalmente a internética) que proliferam nos últimos anos. Na verdade, ao assumir o monopólio virtual da informação impressa para a classe media no Rio (o último concorrente, o Jornal do Brasil, está em coma induzido há mais de um ano), o Globo negligenciou um tipo de leitor que ocupa fatia importantíssima do mercado e, sendo de esquerda ou de centro-esquerda, com foco para os setores intelectuais, tem importância capital para a chamada “formação de opinião. Embora ocorra também em capitais como Porto Alegre e Recife, o fenômeno é um característica histórica do carioca. Por isto o Brizola se deu bem aqui.

Enfim, além de comprar menos jornal, este tipo de clientela que estamos analisando, mesmo quando insiste em ler o Globo, inunda a redação (da TV também) com cartas e e-mails de pura espinafração. Ora, nem mesmo um Martinho consegue trabalhar com desenvoltura diante deste tipo de pressão.

A outra razão é também estratégica, mas de longo alcance político: cansados de tentar, com o fôlego de seus próprios pulmões, inflar o balão apagado da candidatura Serra, os Marinhos teriam resolvido manter uma espécie de convivência pacífica com os fatos, deixando de omiti-los ou distorcê-los na tradicional forma drástica. Assim, em relação a Lula e à candidatura Dilma, o jornalão teria revisado sua posição radical, para ficar mais próximo da contemporização.

Tudo para salvar pelo menos os dedos, como é o caso da linha macroeconômica seguida pelo governo. Daí o entusiasmo com a candidatura de Meirelles como vice de Dilma. O mesmo vale para Sérgio Cabral adotado ostensivamente pelo Globo. Quanto ao terceiro possível candidato a vice na chapa governista, o ministro Hélio Costa, das Comunicações, apesar dos recentes desencontros por conta da discussão sobre a liberdade de informação em todos os níveis, é bom lembrar que ele (o Hélio) além de forte candidato ao governo de Minas, já trabalhou na casa e, segundo as más línguas , ainda trabalha.

Mais informações sobre este tema na coluna Coisas da Política deste blog.

27-10-09

Quando o peão vira torre

Ignorado pela mídia do Sul, o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, é figura essencial na sucessão de Lula.

Jornalismo diário exige objetividade que requer foco. Foco em alguns aspectos ou nomes essenciais, os que contam. Na sucessão presidencial, por isso, tudo gira em tono de Lula, Serra, Dilma, Ciro, Aécio e Marina. Mas jornalismo político requer também perspicácia. Qualidade que permite, por exemplo, desvendar o que está por detrás da noticia ou detectar a ação de uma eminência parda. Tudo isto para dizer que na dança sucessória rumo ao Planalto, esta faltando o nome de Eduardo Campos, jovem (46 anos) governador pernambucano e ex-presidente (mas controlador de fato) do PSB, Partido Socialista Brasileiro.

Ancorado na aprovação de sua administração e na habilidade sertaneja herdada de Arraes, o pernambucano detém hoje, temporariamente é verdade, os barbantes que amarram ou conduzem os destinos de todos aqueles que disputam a presidência. Vejamos:

1- Ele está por trás de todo este reboliço em tono do pré-sal e, à distância, torpedeia o esforço desesperado do governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, que não quer perder um tostão dos royalties do petróleo. Campos age em nome de governadores nordestinos e mais aqueles que também estão de olho no pré-sal. Com isso, ele racha o PMDB de alto a baixo e cria dificuldades para a manutenção do acordo mediante o qual este partido indicaria o vice na chapa de Dilma Roussef. Como se sabe este vice seria Michel Temer, presidente da Câmara e (licenciado) do PMDB. Neste exato momento, a partilha do petróleo está sedo votada na Câmara.

2- Ciro Gomes também tem seu destino nas mãos de Campos que pode decidir ou influenciar fortemente sobre suas candidaturas (de Ciro) ao governo de São Paulo, à presidência ou como vice de Aécio. Qualquer uma destas hipóteses mexe, evidentemente, com o assim chamado quadro sucessório.

3- Por enquanto tudo são hipóteses. Há tempo para grandes quinadas até março quando haverá um afunilamento e as candidaturas começam a ser definidas para, finalmente, serem oficializadas nas convenções partidárias ainda no primeiro semestre.

No xadrez, peão vale quase nada. Mas há raros momentos em que esta peça simples pode comer a rainha ou até o rei, atrás da torre. Nesta especial ocasião ela vale tanto quanto a própria torre. Quando isto acontece, reza a lenda, o anônimo peão é promovido a bispo. Este é o momento de Eduardo Campos. Prestem atenção nele.

De uns dias para cá Ciro Gomes está meio chagado a metáforas e profecias. Ele tem dito que será traído antes que o galo cante três vezes. É claro que se trata de mera coincidência, mas não deixa de ser curioso lembrar que o Galo da Madrugada é um fenômeno essencialmente pernambucano.

Veja também matéria na coluna Última Hora.

24-11-09

Fim de linha para Serra e
sinal amarelo para Dilma

Pesquisa mostra que Aécio e Ciro formam dubla do barulho.

Não tenho como não dizer que bem que avisei: há exatos três meses disse aqui neste blog que a candidatura Serra era um balão apagado em função da obsolescência de seu discurso neoliberal e atrelado à figura de FHC. E há três dias, para espanto de leitores incautos de classe que ainda acreditam em uma mídia (cuja função essencial é jogar área em seus olhos), levantei a hipótese difícil, mas não impossível, da formação de uma chapa Aécio/Ciro Pois a pesquisa CNT-Sensus, divulgada ontem, mostra que se a eleição fosse hoje, esta combinação seria imbatível. E esta é a luz amarela que acaba de acender no painel dos estrategistas do Planto. Tudo ia bem enquanto a situação se encaminhava para uma bem planejada bipolarização entre o lulismo de recém adquirido aroma getulista, de um lado, contra o evanescente neoliberalismo (Serra-FHC) de ranço lacerdista. Era o “efeito plebiscitário” acalentado por Lula e que agora está ameaçado pela ação da dupla dinâmica Ciro/Aécio.

Os tucanos paulistas (Serra inclusive) foram os últimos a perceber isto, porque a memória afetiva e/ou inconsciente coletivo da terra dos bandeirantes, um estado de elite intelectual historicamente anti-getulista, possui esta peculiaridade que a diferencia do resto do país. Não por outra razão, aliás, foi ali o berço do PT e o túmulo eleitoral do Brizola.

Quanto à pesquisa em si, é possível destrinchá-la em poucos tópicos:

1- A queda anunciada de Serra ( de 7,7 pontos em relação a pesquisa anterior, para 31,8 %, só surpreende porque foi ainda maior do que a esperada. Além disso, 49,3% dos entrevistados declaram que não votam em ninguém apoiado por FHC.

2- O crescimento de Dilma para 21,3 % é lento, porém consistente, sobretudo se consideramos que ainda não ficou claro ao eleitorado (por enquanto desmobilizado) que ela representa a continuidade - sem restrições – do governo Lula.

3- O crescimento de Ciro para 17,5 e de Aécio para 14,7%, já esperado, surpreende, no entanto, pela quantidade e a velocidade com que ocorreu. Isto deve ser debitado à bem articulada ação de ambos que, nas últimas semanas, conseguiram atrair para eles os holofotes midiáticos.

4- O fato mais relevante demonstrado pela pesquisa e exaustivamente antecipado por este blog é o de que, dependendo da composição dos nomes submetidos aos pesquisados, fica claro que Ciro apesar de pertencer à base governista, subtrai muito mais votos de Serra do que de Dilma. A proporção e de oito para um. Isto explica por que Lula colocava tanto gás no balão de Ciro. O complicador, para Lula é – como já vimos – a possibilidade da aliança Ciro/Aécio, o que rompe a tão desejada bipolarização plebiscitária.

Não deixe de ler as duas matérias logo aí abaixo desta. Elas complementam os raciocínios aqui expostos.

21-11-09

Ciro pode ser vice de Aécio

Ciro Gomes apresenta-se como alternativa para compor a chapa de Aécio e este retribui a gentileza, podendo apoiá-lo, liderando uma dissedência do PSDB.

Eles só não anunciaram ontem, após almoço no Palácio das Magabeiras em Belo Horizonte, por uma questão de timing. Mas, com certeza, Ciro Gomes e Aécio Neves farão isto antes de março, prazo final para a formalização de candidaturas, desincompatibilizações, etc. E anunciarão que há uma forte possibilidade de Ciro vir a ser o vice de Aécio. Porém, dependendo de quem estiver mais bem posicionado nas pesquisas, em março, é Aécio que apoiará Ciro. Este plano vem amadurecendo há meses, desde que os dois amigos (e eles realmente se dão bem desde os tempos em que Ciro era uma da principais lideranças do PSDB) resolveram deixar de ser coadjuvantes. O objetivo é desconcertantemente simples: a- romper a camisa de força a que ambos estavam submetidos, Ciro dependente da simpática compreensão do presidente Lula e Aécio subordinado à errática estratégia do tucanato paulista comprometido com a candidatura Será; b- tomar um banho de holofotes midiáticos até então voltados apenas para Serra, Dilma e Marina e c -levar o projeto até as vias de fato, por que não?

Nas entrevistas de ontem em Belo Horizonte os dois pré-candidatos deixaram clara a intenção de caminharem juntos até a eleição do próximo ano. Palavras de Ciro: ”Se Aécio for candidato, minha candidatura não será mais necessária”. Palavras de Aécio: “É uma amizade de toda a vida, seria extraordinário se pudéssemos caminhar juntos”.

Os jornalões brasileiros não informam isto corretamente, porque perderam definitivamente a compostura e assumiram sua função de meros manipuladores da opinião pública. É a isto que eles chamam de liberdade de imprensa. Seja como for e como este blog vem registrando há semanas, há na área governista ( mais precisamente na petista) um sério desconforto em relação a Ciro. Na vertente oposicionista a situação é mais grave: há um racha declarado e já se partiu para o desaforo tanto em reação a Ciro como a Aécio. Algumas declarações: “Este encontro foi uma provocação”, resume Gustavo Fruet, uma das principais lideranças tucanas. “Ele (Ciro) é um desafeto do PSDB, diz que representamos o atraso”, desabafa a senadora Marisa Serrano, vice-presidente da legenda. Finalmente, Sérgio Guerra, o presidente do partido afirma, conciliador, que “Aécio tem o apoio do PSDB de Minas e acho natural que, como pré-candidato, procure apoio em todo lugar”. Há uma semana, Guerra dissera que Aécio (na comparação com Serra) “é mais abrangente”, o que foi percebido por uns como uma gafe e, por outros, como um recado enviado ao governador paulista. Este, aliás, é chamado pelos desafetos como o Coiso. E foi assim que Ciro referiu-se a ele, ontem, após a reunião com Aécio.

Agora um breve retrospecto:

1-A candidatura Serra começou a fazer água, há meses, (fato registrado por este blog), torpedeada que foi por um fator externo: a Grande Crise Norte-Americana fez com que o tucanato ficassem sem discurso, já que o usual, a defesa do estado mínimo e do Mercado liberado, tornou-se escancaradamente obsoleto.

2-Percebendo isto, Aécio saiu na frente e atualizou seu discurso que adquiriu alguma conotação nacionalista, estatizante e até de compreensão em relação aos movimentos sociais. Para ele isto não foi difícil, sendo como é, neto de Tancredo Neves, conservador e getulista ao mesmo tempo.

3- Um dos principais mentores da nova postura de Aécio é César Maia que controla virtualmente o DEM, mas não conseguirá que este partido também rache de alto a baixo.

Para que este artigo não se alongue a ponto de começar a aborrecer os leitores, deixaremos para amanhã a repercussões, não pequenas, nos arranjos , já em andamento, nas sucessões estaduais.

Mais sobre este assunto na matéria logo aí abaixo.

17-11-09

Aécio é tratado como a
novidade da sucessão

O encontro, hoje (17), entre Aécio e Ciro Gomes (como este blog antecipou com exclusividade, há uma semana) pode mudar os rumos da sucessão. Aguardem.

Tucanos já sabem que Dilma alcançará Serra até março do próximo ano.

A direção nacional do PSDB está trabalhando com analises (não estamos falando de pesquisas) fornecidas pelos institutos – inclusive o IBOP de Montenegro – indicando que, se mantidas as atuais e respectivas altitudes e velocidades de cruzeiro, Dilma e Serra estarão empatados já no primeiro trimestre do próximo ano. São estes dados que entravam o lançamento da candidatura do governador paulista que prefere tentar um reeleição considerada fácil.

Entretanto, há um fato novo que complica ainda mais a situação. Ele é resultado da recente ação rebelde do governador Aécio Neves (a Inconfidência Mineira) que confrontou com a alta hierarquia tucana, controlada por São Paulo, e sua estratégia para a sucessão. Basicamente o governador mineiro proclamou que não se submete aos prazos de Serra e propôs um discurso mais amplo. Leia-se menos anti-Lula. Como resultado, tucanos de outros estados, aliados do DEM e do PPS, bem como empresários e até parte da mídia passaram a fazer o raciocínio caviloso mediante o qual Aécio tem um tripla vantagem em relação a Serra: a- rompe com a camisa de força do discurso neoliberal e pró estado mínimo que degrada irremediavelmente a candidatura do governador paulista; b- facilita composições estaduais (informais e no nível municipal) com o PMDB, a começar por Minas, e c- pode dar zebra.

Ainda que tratada como zebra, a possibilidade de vitória é extremante otimista, até para Aécio que prefere candidatar-se ao Senado. Seja como for, ele exulta silenciosamente como geralmente ocorre em Minas, pelo fato de não ser mais “o ilustre desconhecido das Alterosas” como era tratado com sarcasmo e truculência pelos caciques do tucanato paulista. Com sua nova postura, Aécio pavimenta a estrada para sua candidatura em 20014 quando Serra terá 72 anos e Alkmin não é considerado ameaça.

Além disso, se Aécio mantiver sua promessa da candidatar-se ao Senado, ele fica livre para ajudar, informalmente, a candidatura de seu amigo Ciro Gomes, com quem toca figurinhas desde sempre. Lembremos que há poucas semanas Ciro disse que se Aécio for candidato ele deixa de sê-lo. Mesmo que se trate de puro jogo de cena, fica evidente que eles estão combinados. Em resumo, tudo favorece a candidatura do ex-governador cearense que , sendo lulista por adoção, nem por isso deixa de recolher votos à direita (votos serristas) incrustados, basicamente na “ pequena burguesia” como se dizia antigamente. Não se deve subestimar esta parcela do eleitorado e seu efeito sanfona: quando incha ela chega a ser chamada de maioria silenciosa, quando míngua, ainda assim é considerada o fiel da balança. É composta basicamente por pessoas que não gostam de política, muito menos de políticos e, desinformada e moralista, vota por impulso ou na primeira novidade bem marqueteada que aparecer. Foi ela quem elegeu Collor em 89 e poderia ter dado a vitória a Ciro em 2002 se a candidatura do cearense não tivesse sido administrada por amadores e se o PT não tivesse abdicado da revolução a tempo.

Registre-se, por fim, que um dos principais conselheiros e estimuladores de Aécio é César Maia (comandante de fato do DEM) que já foi subversivo, exilado, brizolista e, atualmente, procura desvencilhar-se da pecha de neoliberal. Tudo porque voltou a sonhar com o governo do Estado, espera herdar os votos de Gabeira (que prefere candidatar-se ao Senado), mas não quer ficar à direita de Cabral.

14-11-09

Com Aécio, PSDB e DEM tentam
salvar-se do naufrágio de Serra

O dia em que Aécio foi dormir Erasmo Carlos e acordou Júlio César.

Esta matéria pode ser considerada uma continuação da de ontem. O problema, querido leitor, é que nos habituamos a não suportar a leitura de mais que vinte linhas de cada vez. Então, que assim seja.

O jovem e insuficientemente conhecido governador Aécio Neves está assuntado. Ao rebelar-se contra a “ditadura” do PSDB paulista e sua incompreensível estratégia de protelação do lançamento da candidatura Serra, Aécio queria apenas deixa de ser o eterno coadjuvante. Queria apenas dizer que, como bom mineiro, não gosta de ir na garupa. Ou só desejou, como Erasmo Carlos, gritar na beira da estrada: Eu existo!

Entretanto, após o grito, ele verificou apreensivo, que um bando de gente corria em sua direção. Pensou em fugir supondo que seria linchado por uma turba de serristas indignados com sua ousadia. Mas, não: eram tão somente antigos serritas, em debandada, que vinham para ele como quem corre para os braços do Salvador. O jovem Aécio cruzara o Rubicão meio que sem o saber. Agora, queira ou não, terá que ser general.

Político, já de sua natureza, não gosta de ficar muito tempo na oposição. E menos ainda quando todos estão vendo que seu discurso oposicionista está completamente furado ou obsoleto, para fazermos uma concessão aos acadêmicos. Tucanos e demos sabem que, mesmo com Aécio, a possibilidade de derrotar Dilma ou Ciro é bem remota. Entretanto, pelo menos ficam livres do tal discurso obsoleto.

Mas que obsolescência é esta? É a que advêm dos seguintes três fatos simples: a- a Crise Norte-Americana demonstrou que os paradigmas neoliberais eram uma tremenda furada e que estados razoavelmente musculosos são imprescindíveis para consertar a esquizofrenia cíclica do Mercado; b- os brasileiro médio ( e Lula o “analfabeto” viu isto antes que todos) é no fundo um nacionalista, orgulha-se de suas estatais e lastima suas recentes privatizações, e c- assim como Getúlio, como Jango, como Perón e, se quiserem como Chávez e como Obama, Lula é populista sim, o que faz com que as elites torçam o nariz, mas não impede que ele vença eleições com os pés nas costas.

E foi assim que Aécio foi dormir Erasmo Carlos e acordou Júlio César. Aliás, para os que gostam de analogias e uma pitada de erudição, informamos que Aécio foi o general romano que derrotou Átila.

Veja, logo aí em baixo, a matéria da qual esta é continuação.

13-11-09

Se só tem tu…

A mídia, Globo à frente, começa a namorar Aécio. Poucos ainda acreditam na viabilidade da candidatura Serra.

Se quiserem, podem dizer que é a vitória da matreirice mineira contra a arrogância e auto-suficiência paulista. E, em parte, é mesmo. Mas insisto em dizer que o que faltou a Serra foi perceber a tempo que seu discurso, muito colado ao de FHC – que virou marco histórico do pensamento neoliberal brasileiro -, é um perfeito desastre eleitoral, nestes tempos bicudos (para os cara pálidas), quando estamos ainda na vigência da grande Crise Norte-Americana. Crise esta que , na verdade, é a falência do modelo que privilegiava o Mercado em detrimento do Estado.

Seja com for, o governador Aécio Neves percebeu isto antes, pulou na frente antes e tirou Serra da pista na primeira curva. O golpe de misericórdia pode estar sendo dado agora por atores coadjuvantes: setores do próprio PSDB, Brasil afora, cansados de servir de manobra para projetos estratégicos emanados de São Paulo; a parte majoritária do DEM, que vai de César Maia ao governador José Roberto Arruda, de Brasília e, finalmente, a grande mídia que, a começar pelo Globo, já está paquerando Aécio. Sentindo o cheiro do milho, os empresários vem atrás.

E se matei a cobra, vejam o pau: em sua coluna de ontem, Merval Pereira, escriba-mor da família Marinho (até a semana passada ele ainda defendia Serra) comenta a pesquisa Vox Populi que mostra a queda de Serra combinada com a ascensão de Aécio e reproduz frase do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, para quem “a candidatura do governador mineiro “é mais ampla”, na comparação com a do paulista, evidentemente. Merval conclui afirmando que estas palavras do chefe tucano “ podem indicar novos ventos”.

Em sua edição de hoje o noticiário político do Globo é farto em elogios a Aécio e culmina, dando destaque, na coluna de Ilmar Franco, à tese defendida por Aécio , de que o PSDB deve aproximar-se dos movimentos sociais (MST incluso) como forma de quebrar o monopólio do governo desta área. “O PSDB não pode – diz o candidato – alimentar uma relação de ódio com estes setores”.

Veja, também,matéria logo aí abaixo.

12-11-09

O apagão do discurso tucano

Por que Serra começa a despencar nas pesquisas. A cúpula do PSDB está consciente de que se cair mais 5 pontos, o governador não lança sua candidatura. E está provado que Ciro retira muito mais votos de Serra do que de Dilma.

É ponto pacífico, para os dirigentes do PSDB, para o governador Aécio Neves e para a ala do DEM comandada por César Maia, que José Serra não se lançará candidato à presidência se chegar a janeiro com menos de 35 por centos na média das pesquisas. Só Fernando Henrique Cardoso, inconformado, argumenta que não faz sentido jogar a toalha quando se é líder nestas mesmas pesquisas. Ninguém consegue convencer o ex-presidente de que 35 por cento ou um pouco mais é o limite máximo previsto para qualquer candidatura oposicionista (não apenas a de Serra) diante de uma eleição que, por malícia do presidente Lula, já se tornou plebiscitária. O que estará em julgamento é o modelo lulista (não confundir com petista), com aroma getulista contra o modelo tucano, leia-se neoliberal, com desagradável cheiro lacerdista.

Compreende-se o inconformismo de FHC: inteligente, ele suspeita que seu governo ou seu estilo de governar, ou ainda sua ideologia (a dos tempos recentes em que ele esqueceu o que escreveu nos tempos remotos) sejam julgados não só no escrutínio das urnas, mas no da História, o que é desconfortável, insuportável mesmo, para quem aproxima-se dos oitenta anos muito diferente do que era aos quarenta, exceto no quesito vaidade.

Há meses venho insistindo neste blog que a grande crise norte-americana deserdou tucanos, tanto políticos como intelectuais, da medula de seu discurso: a idéia do Estado mínimo e de todo o poder ao Mercado. Tudo isto desmoronou junto com os bancos do “Primeiro Mundo” e a General Motors encampada por Obama. Só FHC e o Jabor não vêm isto.

E por falar em Jabor, vale lembrar que neste naufrágio neoliberal de tucanos e aliados, restam os escolhos da nossa galharda grande mídia acostumada a dar pito a todos os que não rezassem pela cartilha do Consenso de Washington ( todo a liberdade para os capitais financeiros) o que, aliás, está na raiz da grande crise norte-americana. E os escolhos? O problema é que de tanto inculcar, na parte incauta (alienada) da classe média brasileira, a noção de que qualquer desvio nacionalista ou estatizante coloca em risco suas compras e a Civilização Ocidental, ela, (a grande mídia) acabou pensando como sua vítima e não consegue articular-se para dar respaldo a uma candidatura que não seja cem por cento neoliberal. Tornou-se, assim, um obstáculo para políticos aliados, mas que desejam modernizar seus discursos.

Segundo o Vox Populi divulgado segunda-feira, Serra caiu quatro pontos (em relação à última pesquisa), para 36 por cento e Dilma, em ascensão, aparece com 19 por cento (mais 4 pontos). Ciro Gomes, cuja candidatura ainda não está definida, aparece em terceiro, com 13 por cento. O importante, porém, é registrar que quando se substitui Serra por Aécio Neves, este aparece com 18 por cento e Ciro pula para 20 por cento, o que comprova a tese que este blog defende, também há meses, de que Ciro retira muito mais votos de Serra do que de Dilma. Por isso, Lula tem boa vontade em relação a candidatura do ex-governador cearense.

Leia, também, matéria logo aí em baixo.

10-11-09

E agora José?

Aécio Neves anuncia que não será o vice de Serra. Já a queda do paulista (- 4 % no Vox Popoli, para 36%), apenas confirma tendência. Dilma sobe 4 pontos, para 19%. A rejeição da candidata, maior do que a dos concorrentes, tem explicação singela: quem não gosta de Lula ( 30 % do eleitorado) não vota nela de jeito nenhum.

É dura a vida do político. Ele não pode ser afoito, tem que comer o mingau pelas beiradas, na manha. Mas também não pode ser frouxo e não pode amarelar quando o dever ou a boa oportunidade o chamam. A primeira parte da receita, o governador José Serra vinha cumprindo bem. A segunda nem tanto: não são poucos os tucanos que lamentam a claudicação de seu candidato preferencial à presidência que não sabe se tenta conquistar o Planalto ou se garante uma reeleição fácil ao governo de São Paulo. Sem falar na irritação da facção dos Democratas, liderada por César Maia, que se prepara para abandonar o barco, desmanchando tradicional parceria com o PSDB.

Para sermos justos, é preciso atribuir o mau momento de Serra mais à fatalidade do que à covardia. Fatalidade que o pega sem discurso adequado no momento em que o presidente mais popular da História, impõem uma eleição plebiscitária que, como no passado, confronta o populismo de aroma getulista com o moralismo fariseu de sabor lacerdista. O próprio FHC percebeu isso, mas, com total inabilidade aprofunda este viés ideológico da questão. Sua última mancada foi comparar Lula a Perón, outro campeão de votos, assim como Getúlio.

Tudo isso, no momento em que pesquisas idôneas e uma profusão de teses acadêmicas dão conta de que a grande maioria do povo brasileiro é nacionalista, tem orgulho de suas estatais, lastima as privatizações de passado recente e prefere a mão visível do Estado à mão invisível do Mercado como forma de administrar a economia e evitar crises brutais. Tão brutais como a atual que assola os Estados Unidos, a Europa e o Japão, onde teve vigência, durante três longas décadas, o fundamentalismo liberal que chegou a merecer o sugestivo apodo de A Vingança do Capital. São estes raciocínios elementares que explicam o fato de José Serra estar há um ano patinando na média de 37 por cento da preferência popular e fazem supor e que este é seu teto máximo, eleitoralmente falando.

O governador Aécio Neves percebeu isto a tempo e, se não saiu à francesa, pulou fora à mineira - como, aliás, este blog antecipou há 15 dias -, enterrando definitivamente o sonho do tucanato paulista de tê-lo como vice na chapa de Serra. Entretanto, Aécio fez mais: deixou claro que o atual discurso do PSDB (leia-se de Serra) é um passaporte carimbado para derrota eleitoral. E, com elegância, lastimou que o partido não tenha examinado seriamente a alternativa de sua candidatura que, segundo ele, por não estar contamina pelo excesso neoliberal, seria imune à “armadilha” plebiscitária armada por Lula.

A este respeito, a mídia controlada por Serra, fingiu só ter visto a parte em que Aécio critica Lula, com muita parcimônia, diga-se, e ignorou solenemente a essência do episódio: Aécio largou a alça do caixão.

4-11-09

Com atraso, Noblat confirma: Serra pode não ser candidato.

Quando quer, Ricardo Noblat ainda consegue ser jornalista e transmitir a verdade a seus leitores. Em seu blog de hoje, embora repetindo, com outra arrumação de palavras, tudo o que dissemos aqui neste blog, ontem, o porta-voz global do neoliberalismo cumpre o dever elementar de informar que entre reeleger-se com suposta facilidade para o governo de São Paulo e correr o risco de ser derrotado na campanha presidencial ( por Dilma ou por Ciro), Serra fica com a primeira opção.

O experiente jornalista só não disse, mas nós dizemos por ele que a- agindo assim, Serra escancaradamente coloca seu interesse pessoal acima, já não direi dos interesses do país, mas pelo menos do seu partido que está a deriva em função de sua hesitação ou, se quiserem, covardia; b- Serra não teme tanto a máquina do governo na eleição (ele também conta com portentosa máquina (Governo de São Paulo somado à grande mídia, aos grandes bancos e ao agronegócio): o que ele teme realmente é o embate ideológico reavivado pela Crise Americana – que restabelece a importância do papel do Estado para consertar a esquizofrenia do Mercado -, sabendo que seu discurso neoliberal, herdado de FHC, está em franca obsolescência.

Nobala não explicou, também, por que razão Aécio, o candidato natural para substituir Serra, aceitaria ser derrotado em seu lugar.

Compare os textos de Noblat http://twurl.nl/ocaeif , de hoje, com o de nosso blog, de ontem http://bit.ly/1SuYMG . Leia também matéria da coluna Última Hora.

2-11-09

O pesadelo chinês

Este artigo foi escrito em abril, mas continua válido para explicar por que os chineses querem livrar-se de seus dólares em queda livre. E há também o Impasse Ecológico em que eles se meteram. Para melhor compreensão leia também “O dólar furado”, na coluna Última Hora.

No artigo “O dólar furado” de 6-4, eu afirmava que os chineses estão empenhados em convencer seus principais parceiros comerciais a criarem uma nova moeda (cujo peso corresponderia à média dos valores das principais moedas conversíveis), com o objetivo de substituir o dólar na sua função de principal instrumento das trocas internacionais de mercadorias. Uma nova moeda de aceitação internacional, portanto. Isso porque os chineses têm fortes razões para suspeitar que o dólar, cedo ou tarde, perderá a qualidade de “ moeda padrão “, como se tivesse valor invariável. Tudo, em virtude da monumental crise americana, o que faz com que suas dívidas externa e interna atinjam patamares altamente preocupantes, mesmo em se tratando do maior sistema econômico do planeta. Enfim, como notou recentemente o presidente Lula, todos continuam correndo para as letras do Tesouro americano, como se esta fosse a aplicação mais segura do universo. Será? Se não houvesse nenhuma dúvida sobre isto, os chineses não estariam preocupados. Mas eles estão.

Em todo o caso, os americanos acusaram o golpe chinês e contra-atacaram. No último dia 23, o Washington Post publicou um anúncio de página inteira, onde o U.S. Business and Industry Council ( espécie de Confederação das Indústrias), exige que Obama denuncie a China como manipuladora de taxas de câmbio.

O problema é que os norte-americanos já devem aos chineses em torno de US$ 1,trilhão e a dívida cresce ao ritmo vertiginoso de 50 bilhões de dólares por trimestre. Que ela terá que ser paga, não há dúvida. Mas é importante lembrar que os chineses mantêm sua moeda artificialmente desvalorizada e, com isto, conseguem inundar o mundo com suas mercadorias. Assim, eles vão acumulando saldos fantásticos em sua balança comercial e ficam abarrotados de moedas estrangeiras, principalmente dólares que, por sua vez, são aplicados em letras do Tesouro americano. E Washington vai respirando. Enfim, tudo vai bem enquanto tudo vai bem. Mas esta máxima dos arautos do livre mercado transforma-se em uma bobagem como outra qualquer, quando o próprio mercado inverte os sinais e em mais um de seus sucessivos efeitos manada, torna-se fortemente vendedor. É o momento, como o presente, em que as notas verdes, tão desejadas até a véspera, transforma-se em batatas quentes nas mãos dos chineses e outros credores. Todos gostariam de se desfazer dos incômodos dólares, mas falam baixam e andam pisando em ovos, para evitar que a tempestade vire dilúvio. Em todo o caso, é preciso esclarecer que no Brasil o enfraquecimento do dólar é menos sentido, porque, por razões locais e muito particulares – o fluxo e refluxo de aplicações especulativas -, a moeda americana valoriza-se diante do real, sempre que a Bolsa cai.
Quanto aos chineses, é preciso dizer ainda, que a barateza de suas mercadorias deve-se também à bagatelização de sua mão-de-obra. Na verdade, o país de Mao é hoje o maior quadrilátero de extração de mais-valia do planeta.

Mais-valia, esta palavra esquecida na poeira do tempo, mas que continua significando a forma pela qual extrai-se do trabalhador um excedente de trabalho que não lhe é restituído em forma de salário ou outro benefício qualquer. O excedente é, por assim dizer, plasmando na mercadoria produzida e que não pertence ao trabalhador , seu produtor ,mas ao capital que assim – e só assim – acumula. Já para os trabalhadores chineses não há alternativa para seus ínfimos salários, posto que a outra saída seria permanecer no campo, onde a remuneração mal ultrapassa o nível da subsistência elementar. Em outro contexto valeria a pena levantar e estudar melhor a questão do Impasse Ecológico, em cuja direção a China caminha com determinação oriental. Este impasse se instalaria, quando os setecentos milhões de chineses que ainda vivem no campo fossem transferidos para as cidades, como aconteceu com toda sociedade industrialmente avançada, e começassem a sonhar com um carro (por que não dois?) na garagem.

18-9-09

Como conhecer um analfabeto político

Este texto deve ser lido de forma combinada com o que vem imediatamente abaixo dele.

Iniciamos hoje a série Como Conhecer um Analfabeto Político que compõe o perfil desta figura muitas vezes simpática e com a qual convivemos diariamente no lar, no trabalho e no bar. Envie sua colaboração.

1- O analfabeto político não se cansa de dar “uma cervejinha” pro guarda, depois se indigna com a corrupção policial.

2- Na fila, ele amaldiçoa o caixa lerdo, mas em nenhum instante supõe que os banqueiros colocam à sua disposição um número insuficiente de caixas.

3- Se grisalho, ele com certeza foi defensor da ditadura, mas permite que apenas o Bolsonaro confesse isto por ele.

4- É contra o aumento do salário dos trabalhadores, porque eleva a inflação e o Custo Brasil, mas também é contra a Bolsa Família, porque é populismo, paternalismo ou é dar a vara ao invés de ensinar a pescar . Quer que o povo se exploda.

5- É contra as cotas, mas descobre-se negro quando seu filho vai prestar vestibular.

6- Barbeia-se diariamente ao espelho supondo estar barbeando um Kennedy e morre de ódio, quando, num lampejo de lucidez, vê apenas um Lula.

7- Não está preparado psicologicamente para suportar o sucesso, um novo patamar na sua vida e na do País. Tem um pacto secreto com o fracasso ou simplesmente teme uma situação nova. Por isso, o Brasil protagonista da cena mundial o assusta e o irrita. Faz com que ele torça contra.

8- Manda aumentar o muro de seu condomínio e em nenhum momento estabelece uma relação de causa e efeito entre a violência urbana, o inchaço da cidade e a ausência secular de uma política consistente de reforma agrária, de fixação do homem à terra, como os franceses fazem desde Napoleão.

9- Adora caçar políticos, sem perceber que estes, em matéria de gatunagem, são fichinhas perto do banqueiros.

10- Só se lembra da saúde pública quando é traído pelos planos particulares.

18-9-09

Por que os analfabetos políticos
pensam que Lula é analfabeto

A figura do analfabeto político foi criada por Bertold Brecht para exprimir o burguês letrado, por vezes erudito, que absolutamente não consegue compreender a realidade que o cerca. Não confunda com o alienado que, eventualmente, pode ser analfabeto de fato. Estamos lidando com uma figura que exprime muito bem, por vezes em várias línguas, a total insipidez de seus raciocínios.

Vejamos dois casos específicos: Ricardo Noblat e Diogo Mainardi, dois festejados profissionais da mídia que pensam exatamente como pensam seus patrões, proprietários de vetustos veículos de imprensa. Ambos, com suas tiradas, levam a burguesia brasileira ao delírio. Não cuidemos de suas personalidades, para poupar o leitor mais apressado. Avancemos diretamente para seus pensamentos sínteses garimpados por nossa equipe após exaustiva pesquisa. De Noblat recolhemos esta pérola com a qual ele retrata, com traços de artista e observado atento, a atual realidade brasileira que provoca tanto espanto aqui e tanta admiração lá fora: O presidente da República é um “trapalhão”. Mainardi foi mais específico ao dizer que “o Brasil tem este efeito: nunca consegue inspirar algo que preste”.|

Nelson Rodrigues criou a frase lapidar ao dizer que “brasileiro tem complexo de vira-lata”. Pensamento que reflete do ponto de vista sociológico e amplo ( coletivo), algo que os analistas, definem (no âmbito individual) como o pacto secreto com o fracasso. O equívoco de mestre Nelson, no entanto, foi o de supor que estava se referindo ao conjunto do povo brasileiro (cuja profissão é a esperança) quando na realidade exprimia um sentimento específico (negativista) das assim chamadas classes dominantes. Classes estas às quais ele pertencia e que jamais suportaram ter que ver ao espelho , no ato diário de barbear-se, não um europeu refinado de olhos azuis, mas “um mulato tacanho”, como elas definem pejorativamente o povo, sem perceber, porque são analfabetas políticas, que estão se auto-definindo. Noblat e Mainardi gostariam de ver ao espelho todas as manhãs o Ted Kennedy. Mas ficam possessos por que vêem o Lula.

30-10-09

País ultrapassa marco um histórico
A Direita/Jabor chora de esguicho

Com a adesão da Venezuela, MERCOSUL e UNASUL tornam-se irreversíveis.

Como é comum na História, os contemporâneos muitas vezes não percebem que em determinado dia viveram uma situação histórica. No entanto viveram. Machado narra que no dia 15 de novembro de 1889, o conselheiro Aires, como de hábito, passeou pela Rua do Ouvidor até o Largo de São Francisco. Dalí, ele percebeu que a uns duzentos metros, lá pelos lados do Campo de Santana, um turba agitava-se. Não deu importância e, como de hábito, votou para casa , no Cosme Velho, onde almoçou tranquilamente. Depois, como de hábito dormiu. Só acordou, duas horas depois quando o mordomo, agitado, veio dizer que a República tinha sido proclamada.

Ontem nasceu a União das Nações Sulamericanas, UNASUL (conseqüência natural e inevitável da consolidação, viabilização material, do MERCOSUL. Isto foi possível com a adesão da Venezuela (praticamente garantida ontem pelo Senado brasileiro) ao mercado comum até agora composto apenas por Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Com o ingresso do país de Chávez, constrói-se o pilar central de sustentação do bloco econômico que já nasce ostentando títulos importantes: campeão absoluto na produção de combustíveis fósseis e renováveis, bem como na produção de proteínas tanto vegetais como animais. As duas principais moedas de troca deste Século

A partir de agora a adesão dos demais países do Continente, 12 ao todo, torna-se uma conseqüência natural como ocorre com os afluentes menores que, por declive, acorrem para o leito principal. Quando este ciclo se completar teremos uma formidável potência (reconhecida por toda a mídia mundial à exceção da brasileira), com 17 milhões de quilômetros quadrados e mais de 400 milhões de habitantes. É um porte suficiente para confrontar, sim, com os outros principais pólos de poder mundial: EUA, China e União Européia. Foi pensando disso que há um mês, Sarkozy e Lula assinaram acordo estratégico de cooperação mútua França/Brasil, Nossos jornais, como sempre, não viram, neste episódio, nada além da “polêmica” compra dos caças franceses. No entanto, perceber isto, não requer nenhuma acuidade especial ou visão histórica estratégica, basta não ser tão alienado ou distraído quanto o conselheiro Aires.

Na seqüência de matérias logo aí em baixo, você terá estes temas melhor destrinchados. Veja também a coluna Pátria Grande. Antes, porém, lembremos que neste momento a Direta urra de raiva por não suportar a evidência de que finalmente o Brasil deu certo. Então, ontem, Jabor, esta instigante simbiose de Nelson Rodrigues com Carlos Lacerda disse literalmente, na Globo, que diante da derrota representada pela adesão da Venezuela, “só nos resta sentar na calçada e chorar de esguicho”. Que não seja por falta de lenço.

20-10-09

Uma visão nacionalista para a América do Sul e para a Amazônia

Veja quem é e o que pensa o novo ministro de Assuntos Estratégicos que toma posse hoje.

Há uma semana anunciamos neste blog, cremos que em primeira mão, a nomeação do novo ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto. Repetimos a matéria, logo aí abaixo, para que o leitor tome conhecimento dos novos rumos, nacionalistas, desta importante pasta.

A estratégia do País em mãos nacionalistas

Conheça a doutrina do futuro ministro de Assuntos Estratégicos

O futuro ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (ele foi convidado há três dias pelo presidente Lula), pertence a uma antiga linhagem de profissionais do Itamaraty considerada nacionalista ou antiamericana para os desafetos. Como secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores é o principal formulador teórico da política externa implantada desde o primeiro mandato de Lula e que substitui a política de FHC comandada pela turma do “alinhamento automático” ou pró-americana idealizada pelo ex-chanceler Celso Lafer. O comando da nova política, ficou, evidentemente, a cargo de Celso Amorim hoje consagrado internacionalmente e admirado até pela mídia norte-americana. Quanto ao cargo de ministro de Assuntos Estratégicos, ele está vago há quase 90 dias, desde a renúncia de Mangabeira Unger, aquele do sotaque engraçado, que deixou o assento para voltar a lecionar em Harvard, não sem antes ter um desentendimento amazônico com Marina Silva.

Na verdade, esta vertente nacionalista de nossa política externa só feio à luz em 2005 quando Lula, durante reunião em Buenos Aires com o então presidente Néstor Kirschner, realizou importante inflexão nas relações com os EUA e declarou inesperada e unilateralmente que “retiramos da nossa agenda essa questão da ALCA”. Essa questão da ALCA era nada menos que um projeto longamente acalentado por Washington que pretendia implantar um formidável mercado comum que, sob sua tutela, iria do Alasca à Patagônia. Entretanto, desde a declaração de Buenos Aires, a prioridade absoluta do Itamaraty passou a ser o fortalecimento do MERCOSUL, como passo necessário para a constituição efetiva da união sul-americana, a UNASUL.

De resto, o desdém e a forma negativa e grosseira com que a mídia brasileira trata questões relacionadas com a integração da America do Sul decorre do despeito de seus patrões externos inconformados com a frustração da ALCA. Sem ela, os EUA limitam-se a garimpar poucos e avulsos acordos bilaterais de livre comércio, como os que engatinham no Peru e na Colômbia. E não é por acaso que esta mesma mídia ataca ferozmente aos aliados do Brasil e poupa covardemente o colombiano Uribe que marcha para seu terceiro mandato e o peruano Alan Garcia que permite uma desvairada devastação da parte amazônica de seu país. Devastação esta promovida por madeireiras norte-americanas.

Há 30 dias publicamos neste blog trechos de um documento do Itamaraty até então inédito e assinado pelo embaixador Pinheiro Guimarães. Vamos publicá-los novamente (veja logo aí abaixo) em consideração aos novos leitores que a cada dia afluem ao Twitter e ao blog. Estes textos revelam de forma sintética o pensamento central do futuro ministro de Assuntos Estratégicos.

Eis o documento:

Para o embaixador Pinheiro Guimarães, “o MERCOSUL (a Argentina e o Brasil em particular) enfrentam três desafios de curto prazo no processo de articulação de um papel autônomo no sistema mundial, multipolar, em gestação: A – Resistir a uma absorção na economia e no bloco político norte-americano, que está avançando rapidamente, de maneira disfarçada, por meio de negociações da ALCA e dos TLCs (tratados de livre comércio) e da dolarização gradual. B – enfrentar uma possível intervenção militar externa na Colômbia e eventualmente em toda a região amazônica. C – Recuperar o controle sobre as políticas, doméstica e externa, no momento sob controle do FMI (e da Organização Mundial do Comércio)”.

Segundo o embaixador, a construção “paciente, persistente e gradual da união política da América do Sul e uma recusa firme e serena de políticas que submetam a região aos interesses estratégicos dos Estados Unidos tem que ser objetivo da nossa política externa e o MERCOSUL é um instrumento essencial para atingir esse objetivo”. E Pinheiro Guimarães ressalta que “MERCOSUL significa Brasil e Argentina, da mesma forma que União Européia Alemanha e França e Nafta (Mercado Comum Norte-Americano) significa Estados Unidos e Canadá”, para acrescentar “que sem uma cooperação próxima entre Brasil e Argentina, a ação coordenada no MERCOSUL seria uma total impossibilidade”.

Uma visão nacionalista para a América do Sul e para a Amazônia

Veja quem é e o que pensa o novo ministro de Assuntos Estratégicos que toma posse hoje.

Há dez dias anunciamos neste blog, cremos que em primeira mão, a nomeação do novo ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto. Repetimos a matéria, logo aí abaixo, para que o leitor tome conhecimento dos novos rumos, nacionalistas, desta importante pasta.

10-10-09

A estratégia do País em mãos nacionalistas

Conheça a doutrina do futuro ministro de Assuntos Estratégicos

O futuro ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (ele foi convidado há três dias pelo presidente Lula), pertence a uma antiga linhagem de profissionais do Itamaraty considerada nacionalista ou antiamericana para os desafetos. Como secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores é o principal formulador teórico da política externa implantada desde o primeiro mandato de Lula e que substitui a política de FHC comandada pela turma do “alinhamento automático” ou pró-americana idealizada pelo ex-chanceler Celso Lafer. O comando da nova política, ficou, evidentemente, a cargo de Celso Amorim hoje consagrado internacionalmente e admirado até pela mídia norte-americana. Quanto ao cargo de ministro de Assuntos Estratégicos, ele está vago há quase 90 dias, desde a renúncia de Mangabeira Unger, aquele do sotaque engraçado, que deixou o assento para voltar a lecionar em Harvard, não sem antes ter um desentendimento amazônico com Marina Silva.

Na verdade, esta vertente nacionalista de nossa política externa só feio à luz em 2005 quando Lula, durante reunião em Buenos Aires com o então presidente Néstor Kirschner, realizou importante inflexão nas relações com os EUA e declarou inesperada e unilateralmente que “retiramos da nossa agenda essa questão da ALCA”. Essa questão da ALCA era nada menos que um projeto longamente acalentado por Washington que pretendia implantar um formidável mercado comum que, sob sua tutela, iria do Alasca à Patagônia. Entretanto, desde a declaração de Buenos Aires, a prioridade absoluta do Itamaraty passou a ser o fortalecimento do MERCOSUL, como passo necessário para a constituição efetiva da união sul-americana, a UNASUL.

De resto, o desdém e a forma negativa e grosseira com que a mídia brasileira trata questões relacionadas com a integração da America do Sul decorre do despeito de seus patrões externos inconformados com a frustração da ALCA. Sem ela, os EUA limitam-se a garimpar poucos e avulsos acordos bilaterais de livre comércio, como os que engatinham no Peru e na Colômbia. E não é por acaso que esta mesma mídia ataca ferozmente aos aliados do Brasil e poupa covardemente o colombiano Uribe que marcha para seu terceiro mandato e o peruano Alan Garcia que permite uma desvairada devastação da parte amazônica de seu país. Devastação esta promovida por madeireiras norte-americanas.

Há 30 dias publicamos neste blog trechos de um documento do Itamaraty até então inédito e assinado pelo embaixador Pinheiro Guimarães. Vamos publicá-los novamente (veja logo aí abaixo) em consideração aos novos leitores que a cada dia afluem ao Twitter e ao blog. Estes textos revelam de forma sintética o pensamento central do futuro ministro de Assuntos Estratégicos.

Eis o documento:

Para o embaixador Pinheiro Guimarães, “o MERCOSUL (a Argentina e o Brasil em particular) enfrentam três desafios de curto prazo no processo de articulação de um papel autônomo no sistema mundial, multipolar, em gestação: A – Resistir a uma absorção na economia e no bloco político norte-americano, que está avançando rapidamente, de maneira disfarçada, por meio de negociações da ALCA e dos TLCs (tratados de livre comércio) e da dolarização gradual. B – enfrentar uma possível intervenção militar externa na Colômbia e eventualmente em toda a região amazônica. C – Recuperar o controle sobre as políticas, doméstica e externa, no momento sob controle do FMI (e da Organização Mundial do Comércio)”.

Segundo o embaixador, a construção “paciente, persistente e gradual da união política da América do Sul e uma recusa firme e serena de políticas que submetam a região aos interesses estratégicos dos Estados Unidos tem que ser objetivo da nossa política externa e o MERCOSUL é um instrumento essencial para atingir esse objetivo”. E Pinheiro Guimarães ressalta que “MERCOSUL significa Brasil e Argentina, da mesma forma que União Européia Alemanha e França e Nafta (Mercado Comum Norte-Americano) significa Estados Unidos e Canadá”, para acrescentar “que sem uma cooperação próxima entre Brasil e Argentina, a ação coordenada no MERCOSUL seria uma total impossibilidade”.

10-9-09

Sarney e Chávez

Como conhecer um analfabeto político

Iniciamos hoje a série Como Conhecer um Analfabeto Político que compõe o perfil desta figura muitas vezes simpática e com a qual convivemos diariamente no lar, no trabalho e no bar. Envie sua colaboração.

1- O analfabeto político não se cansa de dar “uma cervejinha” pro guarda, depois se indigna com a corrupção policial.

2- Na fila, ele amaldiçoa o caixa lerdo, mas em nenhum instante supõe que os banqueiros colocam à sua disposição um número insuficiente de caixas.

3- Se grisalho, ele com certeza foi defensor da ditadura, mas permite que apenas o Bolsonaro confesse isto por ele.

4- É contra o aumento do salário dos trabalhadores, porque eleva a inflação e o Custo Brasil, mas também é contra a Bolsa Família, porque é populismo, paternalismo ou é dar a vara ao invés de ensinar a pescar . Quer que o povo se exploda.

5- É contra as cotas, mas descobre-se negro quando seu filho vai prestar vestibular.

6- Barbeia-se diariamente ao espelho supondo estar barbeando um Kennedy e morre de ódio, quando, num lampejo de lucidez, vê apenas um Lula.

7- Não está preparado psicologicamente para suportar o sucesso, um novo patamar na sua vida e na do País. Tem um pacto secreto com o fracasso ou simplesmente teme uma situação nova. Por isso, o Brasil protagonista da cena mundial o assusta e o irrita. Faz com que ele torça contra.

8- Manda aumentar o muro de seu condomínio e em nenhum momento estabelece uma relação de causa e efeito entre a violência urbana, o inchaço da cidade e a ausência secular de uma política consistente de reforma agrária, de fixação do homem à terra, como os franceses fazem desde Napoleão.

9- Adora caçar políticos, sem perceber que estes, em matéria de gatunagem, são fichinhas perto do banqueiros.

10- Só se lembra da saúde pública quando é traído pelos planos particulares.

8-10-09

Real valorizado e queda livre do dólar furado

Endividados até o pescoço, os EUA convivem com déficits fatais.

Parece um cenário de sonhos: o Brasil dá adeus à crise e poderá crescer, ano que vem, a níveis chineses de 7%, a BOVESPA bombando e servindo de referência para as suas congêneres do Primeiro Mundo. Por fim, capitais tanto especulativos com produtivos “fugindo” para esta parte abaixo do Equador em busca de um porto a salvo das ventanias que varrem a Europa e os EUA. Meus amigos lulistas dirão que tudo isto é mérito do presidente-torneiro que, a seu modo, vai alçando o País a alturas nunca antes imaginadas. Tudo isto é verdade, mas apenas pela metade. O dólar despenca não só por nossos méritos, mas principalmente pelos defeitos americanos, tanto que despenca no mundo todo.

Ao mesmo tempo, temos que aturar os especialistas burgueses que erram com especial contumácia , mas não perdem a pose e insistem em seus palpites, sempre superficiais. Seus dilemas, agora, consistem em saber se o atual e fantástico fluxo de dólares para o Brasil (o que provoca a valorização do real) vai criar as bases de um desenvolvimento sustentado ou se estamos apenas inflando uma perigosa bolha especulativa. Todos acertarão e errarão um pouco, porque estes dois ingredientes estão atuando no fenômeno .

Para irmos ao fundo da verdade teríamos que dizer e sustentar que estamos vivendo o que chamo de crepúsculo do modo de produção capitalista. Mas este tema não cabe neste espaço nem neste momento e, de resto, ele é tratado em vários artigos, que podem ser encontrados na coluna Para Entender a Crise. Então, fiquemos com a parte mais superficial, sendo certo que nem ela chega a ser tocada pelos “especialistas”, a de que estamos assistindo à deterioração do modelo norte-americano de desenvolvimento, paradigma do neoliberalismo e templo do consumismo desvairado articulado com a destruição ciclópica da Natureza. A verdade simples é que endividados até o pescoço, os EUA convivem com três doenças cuja combinação é fatal: déficit na balança comercial, déficit orçamentário e endividamento vertiginoso do tesouro nacional que já alcançou os 12 trilhões de dólares, oito vezes o tamanho do PIB brasileiro. Com poucas palavras, digamos que eles não estão fazendo o dever de casa e ainda não entenderam o que tanto ensinaram ao resto do mundo: em economia não há almoço grátis.

Para quem quiser aprofundar um pouco mais estas questões há um artigo logo aí abaixo, O dólar furado que escrevi em abril, a propósito da reunião dos G-20 em Londres, quando pela primeira vez foi ventilada a idéia de se substituir o dólar como moeda de conversão universal por outra mais confiável. O artigo, me parece, continua atual.

O Dólar Furado

Quem leu minha coluna do último dia 2 de abril, há de lembrar que a conclui dizendo que Obama foi discretamente instado por seus colegas do G-20 , durante a reunião de Londres, a primeiro fazer a lição de casa e consertar a economia norte-americana para, só depois, tentar liderar a arrumação da economia mundial. Este fato, aliás, foi solenemente ignorado pela nossa grande mídia.
Entretanto, os grandes jornais brasileiros não puderam deixar de noticiar , ainda que às escondidas nas páginas internas, que , no dia seguinte à reunião, o presidente Lula proporia ao presidente chinês, Hu Jintao, a adoção de um mecanismo que permitisse a utilização das moedas de seus países no seu comercio bilateral. A proposta traz, implícita, a ideia de destronar o dólar como moeda irrestritamente aceita no comercio internacional. O mais surpreendente, porém, foi a pronta adesão de Jintao ao projeto, tanto que ele e Lula agendaram para as próximas semanas uma reunião entre seus respectivos ministros da fazenda, para tratar do assunto, em Pequim. Recorde-se que desde o ano passado Brasil e Argentina já haviam oficializado este mecanismo bilateral.
Em circunstâncias normais, a proposta de Lula aos chineses não seria levada muito a sério e receberia de seu interlocutor um sorriso oriental com o seguinte significado: será que você está com esta bola toda? Mas o chinês tem fortes razões para agarrar-se a propostas desse tipo. A primeira delas é a de que guarda em seus cofres uma quantidade exagerada de títulos tóxicos norte-americanos. Algo que se aproxima do trilhão de dólares. A segunda razão é ainda mais angustiante: as reservas chinesas em moeda americana já bateram na casa dos 2 trilhões de dólares e cresce à razão de 50 bilhões por trimestre, já que os Estados Unidos são , de longe, os maiores compradores de suas mercadorias. Por tudo isso, ainda em Londres, o presidemte do Banco Central chinês, Zhou Xiaochang, diria que seu país contribuiria para o fortalecimento do FMI (anabolizado na reunião do G-20, com uma injeção de um trilhão de dólares para fazer frente à crise mundial), com a condição de que as obrigações do Fundo fossem denominadas em uma nova moeda internacional. Esta nova moeda seria baseada nos Direitos Especiais de Saque do fundo, tradicionalmente garantidos por títulos do Tesouro americano, agora considerados insuficientes. Na verdade, os norte-americanos vinham bancando o Fundo, desde 1944, quando de sua criação em Bretton Wood e, por esta razão, sempre mandaram e desmandaram nele. O acordo de Bretton Wood pode ser descrito como uma reunião semelhante a esta do G-20 agora realizada em Londres. Com ela instalou-se uma nova ordem econômica mundial que garantiu, no Ocidente e sob a hegemonia americana, três décadas de forte crescimento econômico , dando início aos “anos dourados” do pós-guerra , sendo que, tanto naquela época, como se espera agora, a superação da crise inicial foi obtida graças a uma pesada intervenção estatal, inspirada em Lord Keynes, aquele brilhante economista inglês que ensinou aos burgueses de todo o mundo como consertar com a mão visível do estado, os estragos provocados pela mão invisível do mercado. Mas voltemos ao drama chinês.

“Quem amarra, amarrado está”, dizem os mestres de capoeira e a teoria cabe como uma luva nas relações entre credores e devedores. Há três semanas o presidente chinês já havia proposto a criação de uma nova moeda internacional, em substituição ao dólar. Este tema, com certeza, foi discretamente tratado nos bastidores da reunião do G-20. Tratar do assunto em público, mais do que uma gafe, seria uma catástrofe. Seja como for, Hu Jintao está tentando levar sua ideia adiante, já que as batatas estão cada vez mais quentes em suas mãos. Tudo porque os incautos chineses, abandonando milenar sabedoria, deixaram-se encantar pelo principal símbolo do poderio ocidental, um pedaço de papel tingido de verde.

Quanto a transformação do real em moeda conversível, isto soaria, num primeiro momento, como uma típica” malandragem carioca”, o famoso 171, imortalizado pela antiga lenda da venda de bondes a caipiras paulistas e mineiros. Mas o mundo está, digamos, de cabeça para baixo… Além disso, é preciso reconhecer que a moeda brasileira vem mantendo uma suficiente estabilidade, desde sua criação há quatorze anos pela dupla FHC-Malan. Também não há como ignorar as estatísticas que descrevem apenas oscilações suportáveis da moeda desde 1998, quando foi descongelada. Desde então , ela só uma vez bateu nas três unidades por dólar e raramente veio abaixo de 1,5 unidade. Com a inflação brasileira reconhecidamente sob controle, com confortáveis reservas em moedas estrangeiras e com uma balança comercial que ainda não compromete, parece ser esta a hora de os brasileiros começarem a levar a sério a sua própria moeda.
Mas a proposta de Lula a seu colega chinês não deixa de ser mais uma de suas espertezas. Afinal, ninguém pode dizer com segurança qual será o ritmo e a intensidade das oscilações da nossa moeda nos próximos meses. Enquanto isso, os especialistas são unânimes em afirmar que, cedo ou tarde , a China terá que permitir a valorização de sua moeda, mantida artificialmente abaixo de seu verdadeiro peso, para garantir o estupendo desempenho das exportações chinesas. Quem amarra, amarrado está.

1-10-09

Ciro semeia na terra de Serra

Há dias comentei neste blog que o bom desempenho de Ciro nas pesquisas ( empate com Dilma), praticamente soterrava as aspirações presidenciais de Serra. Aí sobreveio a crise de Honduras e o assunto foi deixado lado. Vamos retomá-lo agora, em tópicos que é uma forma de exercitarmos a capacidade de síntese:

1- Os últimos investimentos, em São Paulo, de Ciro, o Eclético, e de seu eclético PSB denunciam sua estratégia. Estamos falando da atração de Paulo Skaf (FIESP) e de Gabriel Chalita que sai diretamente do PSDB para o partido de Arraes. Um será candidato ao governo do Estado outro ao Senado. O partido fica contaminado e numa posição contraditória, mas a contradição e da vida e ainda mais da política, a vida vista por uma lupa. E a estratégia? A estratégia é comer na horta do Serra.

2- Vai daí que, como dissemos há dias, Ciro, pelo menos neste primeiro momento, retira muito mais votos de Serra do que de Dilma. Mais lá na frente é possível que ele subtraia mais votos de Dilma, principalmente no Nordeste. Mas o fundamental ele já terá feito: inviabilizou Serra, cujo limite é o de 35% do eleitorado, o que corresponde ao teto dos votos francamente oposicionistas.

3- Neste quadro evidentemente hipotético poderá ocorrer, então, que o eleitorado lulista, muito mais amplo que o eleitorado petista, tenha que escolher entre Serra e Dilma. Um luxo.

4- Tanto Serra como Dilma e não esqueçamos de Marina, vão aprestar-se ao eleitorado como continuadores de Lula, sem os defeitos deste.

5- No caso específico de Ciro, com seu ecletismo funcional, ele recolhe contribuições de afluentes à esquerda e à direita. É evidente que, se eleito, ele não cruzará o Rubicão com destino ao socialismo. Mas isto o presidente Lula Vagas da Silva também não fez.

21-9-09

Os analfabetos políticos atacam de novo

Não conheço este advogado Toffoli. Então, prefiro imaginar que ele seja tão bom ou tão mau jurista, tão honesto ou tão desonesto quanto, digamos, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo. Mas é preciso registrar que ele foi escolhido pela grande mídia (esta fantástica usina de analfabetismo político), como a bola da vez. Cansados de direcionar a parte alienada da classe média para a caça ao Sarney o que , afinal, rendeu tão poucos dividendos políticos, os vetustos jornalões nacionais apontam agora para Toffoli. O modo como ele reparte os cabelos passou a ser relevante. A intenção evidente é ganhar mais alguns pontinhos no IBOP para a candidatura Serra. Existem mil e uma maneiras de se ganhar ou perder uma eleição. A máfia das sete famílias que monopoliza a informação formal, preferiu esta. Vai perder.

E vai perder, apesar do brilhantismo de alguns de seus profissionais que, vítimas do próprio veneno, tornam-se eles também analfabetos políticos. É o caso de Ricardo Noblat e Diogo Mainardi, dentre muitos outros. Seus olhos não são mais olhos de ver. São olhos de distorcer. E quando se sentem impotentes, raivosos, insultam até o presidente.

Sobre o analfabeto político vou dizer ainda que uma das suas características é a absoluta incapacidade de ver o conjunto das coisas: ele contempla uma única árvore, sem perceber que esta perdido na floresta. A outra característica é a falta de senso de proporção. Ele embaralha mi, com bi e com tri. Não vê, por exemplo, que os Sarneys da vida – uma penca deles -, por mais ladrões que sejam (e são), jamais roubarão tanto quanto um único banqueiro.

Logo aí em baixo, o querido leitor encontrará outra matéria sobre o analfabeto político. A que deu origem à série.

17-9-09

Por que os analfabetos políticos
pensam que Lula é analfabeto

A figura do analfabeto político foi criada por Bertold Brecht para exprimir o burguês letrado, por vezes erudito, que absolutamente não consegue compreender a realidade que o cerca. Não confunda com o alienado que, eventualmente, pode ser analfabeto de fato. Estamos lidando com uma figura que exprime muito bem, por vezes em várias línguas, a total insipidez de seus raciocínios.

Vejamos dois casos específicos: Ricardo Noblat e Diogo Mainardi, dois festejados profissionais da mídia que pensam exatamente como pensam seus patrões, proprietários de vetustos veículos de imprensa. Ambos, com suas tiradas, levam a burguesia brasileira ao delírio. Não cuidemos de suas personalidades, para poupar o leitor mais apressado. Avancemos diretamente para seus pensamentos sínteses garimpados por nossa equipe após exaustiva pesquisa. De Noblat recolhemos esta pérola com a qual ele retrata, com traços de artista e observado atento, a atual realidade brasileira que provoca tanto espanto aqui e tanta admiração lá fora: O presidente da República é um “trapalhão”. Mainardi foi mais específico ao dizer que “o Brasil tem este efeito: nunca consegue inspirar algo que preste”.|

Nelson Rodrigues criou a frase lapidar ao dizer que “brasileiro tem complexo de vira-lata”. Pensamento que reflete do ponto de vista sociológico e amplo ( coletivo), algo que os analistas, definem (no âmbito individual) como o pacto secreto com o fracasso. O equívoco de mestre Nelson, no entanto, foi o de supor que estava se referindo ao conjunto do povo brasileiro (cuja profissão é a esperança) quando na realidade exprimia um sentimento específico (negativista) das assim chamadas classes dominantes. Classes estas às quais ele pertencia e que jamais suportaram ter que ver ao espelho , no ato diário de barbear-se, não um europeu refinado de olhos azuis, mas “um mulato tacanho”, como elas definem pejorativamente o povo, sem perceber, porque são analfabetas políticas, que estão se auto-definindo. Noblat e Mainardi gostariam de ver ao espelho todas as manhãs o Ted Kennedy. Mas ficam possessos por que vêem o Lula.

10-9-09

Pré-sal arruína aliança a

entre Lula e Sérgio Cabral

Lula retira pedido de urgência, mas fica magoado.

Uma das alianças políticas mais bem costuradas e frutíferas da política brasileira está sendo rompida por causa do Pré-sal. Mais precisamente por causa da redistribuição dos royalties do petróleo que a partir dos novos marcos regulatórios propostos por Brasília, contemplarão também os demais estados e não apenas os estados produtores, embora estes mantenham uma situação privilegiada. Os primeiros sintomas da crise ocorreram segunda-feira quando alguns assessores diretos do presidente começaram a dizer, em tom jocoso, que “o Cabral quer transformar o Rio num emirado árabe”. A resposta de Cabral foi aparentemente desproporcional. Passou a articular, abertamente, uma rebelião da bancada do PMDB na Câmara contra o pedido de urgência. Entre seus assessores, o governador diz que os novos marcos regulatórios são nacionalismo barato.

Ontem à tarde (como este blog informou ontem mesmo) após várias trocas de telefonemas entre os dois gabinetes, Lula parece ter decidido, então, retirar o pedido de urgência para a tramitação do projeto de criação do marco regulatório do pré-sal, convencido de que o PMDB estava dividido sobre a questão. Mas exigiu do presidente da Câmara, Michel Temer, que o assunto seja resolvido ainda este ano, a partir de novembro. Ao mesmo tempo a direção nacional do PT decidiu iniciar imediatamente a campanha de mobilização popular pela aprovação do projeto, nos moldes da campanha do “Petróleo é Nosso” dos tempos de Getúlio. Na verdade ao fazer o pedido de urgência, Lula havia corrido um risco calculado. Sabia que de uma forma ou de outra a campanha do pré-sal ganharia as ruas.

Quem fica em posição delicada é o governador Sérgio Cabral a quem caberá o ônus pelos contratempos sofridos pelo governo federal. Como primeiro resultado, haverá o fortalecimento da candidatura de Lindberg Farias, prefeito petista de Nova Iguaçu ao governo do estado. Dificilmente o PT fluminense concordará em retirar esta candidatura, um exigência de Cabral.

O passo em falso do governador do Rio parece ter sido dado terça-feira, quando, aconselhado por seu secretário da Fazenda, Joaquim Levy resolveu posicionar-se contra o próprio conteúdo do projeto federal. Ou seja, Cabral é a favor do atual modelo de exploração do petróleo que, entre outras coisas, não prevê a obrigatoriedade da presença da Petrobras nas jazidas do pré-sal. Foi a gota d’água.

7-9-09

Como o Pré-sal

soterrou Serra

Se os quarenta anos de análise política me autorizam a dizer alguma coisa, direi que são pequenas as chances de José Serra chegar como protagonista ao final desta novela eleitoral. Foi soterrado pela camada do pré-sal. Ele, sua mídia irada e obsoleta e seus institutos de pesquisa subornados falsificaram tanto os fatos que perderam, eles próprios, o contato com a realidade. Perderam, sobretudo, a sensibilidade para perceber que nestes tempos de crise braba, caíram por terra, um a um, os principais paradigmas neoliberais que pareciam indicar o fim das ideologias (uma bobagem cantada aos quatro ventos) e a noção de que estado bom é estado pequeno.

Quando percebeu que a discussão sobre o pré-sal assinalava uma inflexão importante da verdadeira opinião pública (não a publicada pela máfia das 7 famílias) em direção ao velho e bom nacionalismo brasileiro e o orgulho ingênuo mas consistente pelas realizações nacionais, Serra tentou uma jogada audaz ( mais ridícula que audaz) e apresentou-se como favorável ao pré-sal, estatista e esquerdista. Haja cara-de-pau. Mas já era tarde. Como anunciei há poucos dias e comentei ainda ontem nas matérias que o leitor poderá ler logo aí em baixo, o eixo eleitoral gira, agora, em torno de Dilma e Marina com uma incógnita chamada Ciro Gomes. Se for assim, o mote da campanha girará em torno de quem dará melhor continuidade ao lulismo (não disse petismo). Marina, hábil, assinada em todos seus pronunciamentos seu respeito, quase amor, pelo presidente e pelo seu ex-partido. A única discrepância seria a questão ecológica. E sua estratégia é clara: mostrar-se como um Lula de saias e sem vícios. Dilma terá como única mas não pequena tarefa a de ir tocando o PAC e mostrar que tem luz própria. Ciro, o Eclético, fará um pouco de tudo isto, sem tirar o olho do eleitorado conservador de Serra. Quanto ao lulismo, ele representa 80 por cento do mercado eleitoral e ninguém vai querer largar este osso.

6-9-09

Ciro Gomes entre

Dilma e Marina

Ciro Gomes garante que “mesmo constrangido” pelos apelos de Lula (que o quer candidato ao governo de SP), será candidato à presidência. Neste caso ele poderá evitar a polarização entre Dilma e Marina. Como este blog informou há três dias, as próximas pesquisas já apontariam um empate técnico entre Serra e Dilma o que deverá ocorrer ainda este mês. A partir daí, até pelo efeito do voto útil, haverá a tendência do crescimento das duas candidatas e o esvaziamento de Serra. Consciente disso, o tucano mudou radicalmente sua estratégia, declarou-se a favor do pré-sal e tenta vender-se ( ver coluna de Merval Pereira no Globo do dia 2), como “candidato de esquerda”. É ridículo, mas é verdade. Tudo isto, como comentei neste blog também há três dias, porque o lançamento da Pré-sal reintroduziu a questão ideológica na campanha eleitoral A coisa ficou tão feia para os tucanos que até o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, declarou-se estatista!

4-9-09

Oposição aturdida

Tudo o que Lula quer quer é que se crie, no Congresso, um impasse em torno da Petro-sal. Com isso ele evita que aflorem temas menos simpáticos ao governo. Entretanto, a oposição está tão atordoada que, sem perceber, vai fazendo o jogo do presidente. Isto vem acontecendo, aliás, desde a instalação da CPI da Petrobras, em maio. Tanto esta CPI como a aprovação da Petro-sal mexem com o inconsciente coletivo do povo brasileiro e seu viés nacionalista. Insensíveis a isto, a mídia e o tucanos vão ajudado o governo quando pensam que o atrapalham. Tudo, enfim, se resume no fato de que a mídia alienada e alienante, supõe que é opinião publica a opinião por ela publicada.

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